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PECADO ORIGINAL
VOUGA, Daniel. Baudelaire et Joseph de Maistre. Paris: J. Corti, 1957. Texto Original
- A fórmula “todo homem, enquanto homem, está sujeito a todos os infortúnios da humanidade” não resolve a dificuldade, mas a agrava — pois por que, numa ordem de coisas querida pela Providência, o homem deve sofrer “enquanto homem”?
- Essa é também a questão colocada pelo Poema sobre o desastre de Lisboa de Voltaire: “Por que sofremos sob um senhor equitativo?”
- Maistre denuncia “esse estranho sofisma da impiedade e da ignorância” que quer fazer crer que o mal entra nos desígnios da “sábia” providência, ou seja, que o mal é necessário.
- Maistre tampouco adota o otimismo do qual Lamartine se fará herdeiro, mostrando o sábio conduzido ao ponto do infinito de onde o olhar divino “vê os começos, os meios e o fim, e completando os tempos que ainda não são, vê a harmonia desabrochar da desordem aparente… E o sábio compreendeu que o mal não existia e na obra de Deus só se vê de baixo” — La Chute d'un Ange, VIII visão.
- Maistre tampouco pode admitir o maniqueísmo com que Lamartine faz o sábio hesitar: “Se sou filho de Deus, por que o mal está em mim? Se o homem devia cair, quem previu sua queda? Se devia ser vencido, quem permitiu a luta? Há, ó dor!, dois eixos nos céus? Duas almas em meu seio, em Jeová dois deuses?”
- O problema se coloca sempre em função da liberdade e da responsabilidade dos homens e de Deus — e o sistema voltairiano é mais pernicioso porque nega implicitamente a liberdade, mas deposita confiança na natureza humana e na “providência.”
- Voltaire argumenta: “o homem não nasce mau; torna-se mau, como fica doente… se há um bilhão de homens na terra, isso dá aproximadamente quinhentos milhões de mulheres que cosem, fiam, nutrem seus filhos… não vejo que grande mal essas pobres inocentes fazem na terra” — Dictionnaire philosophique, art. Méchant.
- Tais argumentos podiam permitir a Voltaire escamotear o problema do mal, mas deviam também excitar a verve indignada de Joseph de Maistre.
- Entre as confusões que Maistre reprocha aos filósofos está a de nunca se fazer a diferença entre o mal passivo — a doença, a miséria, a dor — e o mal ativo, que o homem comete e que se deve chamar pelo seu nome: o pecado.
- Reconhecida essa distinção, Maistre se junta à grande tradição cristã e repete após são Tomás: “Deus é o autor do mal que pune, não do mal que mancha” — 1º Encontro.
- Não se dispõe de uma grade que, aplicada a qualquer ser ou evento, permitisse decifrar as intenções da Providência — mas ao menos se conhece a causa dessa ignorância: “O homem estando num estado de degradação tão visível quanto deplorável, não sei o suficiente para decidir qual ser e qual fenômeno são devidos unicamente a esse estado” — 4º Encontro.
- O motivo da degradação deve ser buscado no pecado original, que o homem pôde cometer porque Deus o quis livre — abusando de sua liberdade, introduziu o pecado, o “mal moral”, atraindo sobre si, como castigo, o “mal físico.”
- Maistre formula: “Deus é o autor do mal que pune, isto é, do mal físico ou da dor, como um soberano é o autor dos suplícios infligidos sob suas leis. Em sentido recuado e indireto, é bem ele que enforca ou esquarteja… mas no sentido direto e imediato, é o ladrão, é o falsário, é o assassino etc., que são os verdadeiros autores desse mal que os pune; são eles que constroem as prisões, que erguem as forcas e os cadafalsos. Em tudo isso, o soberano age, como a Juno de Homero, de bom grado mas muito contra a vontade. O mesmo ocorre com Deus” — 1º Encontro.
- O Conde acrescenta: “O mal físico só pôde entrar no universo pela falta das criaturas livres; só pode nele estar como remédio ou expiação, e por conseguinte não pode ter Deus como autor direto.”
- Fazer do homem o causador do mal que teria introduzido na criação ao abusar da liberdade recebida não é uma ideia muito original — é a mesma sustentada por Rousseau na Profissão de fé do vigário savoiardo.
- O vigário declara: “O princípio de toda ação está na vontade de um ser livre. Não é a palavra liberdade que não significa nada, é a de necessidade” — Émile, IV.
- Rousseau acrescenta: “Homem, não busques mais o autor do mal; esse autor és tu mesmo. Não existe outro mal além daquele que fazes ou que sofres, e ambos vêm de ti” — Émile, IV.
- A analogia entre Rousseau e Maistre não pode ser levada muito longe: para Rousseau, não é a espécie humana que seria irremediavelmente degradada em castigo do pecado original, mas simplesmente “o homem do homem” que se deixa corromper — “Tirai nossos funestos progressos, tirai nossos erros e nossos vícios, tirai a obra do homem, e tudo está bem.”
- Rousseau também sustenta que o mal que o homem comete “recai sobre ele sem nada mudar no sistema do mundo”, e que “o abuso da liberdade que ela lhe deixa não pode perturbar a ordem geral.”
- Maistre afirma que “não há nada tão atestado, nada tão universalmente crido sob uma forma ou outra, nada enfim tão intrinsecamente plausível quanto a teoria do pecado original” — 2º Encontro.
- Invoca a pensamento pagão — Hipócrates, Timeu de Locros, Pitágoras, Aristóteles, Cícero, Ovídio e sobretudo Platão — com a intenção não tanto de provar a verdade de um dogma quanto de constatar uma evidência: o homem está decaído.
- O Conde traça um quadro muito pascaliano da condição humana: “Todos os seres estão tranquilos no lugar que ocupam. Todos os seres estão degradados, mas o ignoram; o homem sozinho tem o sentimento disso, e esse sentimento é ao mesmo tempo a prova de sua grandeza e de sua miséria… Não sabe o que quer; quer o que não quer, não quer o que quer; quereria querer. Vê em si algo que não é ele e que é mais forte do que ele…” — 2º Encontro.
- O Conde formula: “Não experimentareis nenhuma dificuldade, espero, em conceber que uma inteligência originalmente degradada seja e permaneça incapaz — a menos de uma regeneração substancial — dessa contemplação inefável que nossos velhos mestres chamaram muito acertadamente visão beatífica… assim como concebereis que um olho material, substancialmente viciado, pode ser incapaz, nesse estado, de suportar a luz do sol. Ora, essa incapacidade de gozar do SOL é, se não me engano, a única consequência do pecado original que sejamos obrigados a considerar natural e independente de toda transgressão atual” — 2º Encontro.
- A Graça não aparece em nenhum lugar no sistema de Joseph de Maistre, que ignora em suma a missão de Cristo e a redenção pela cruz — e esse SOL que ele escreve em maiúsculas não é nada mais do que as Ideias cuja “visão bem-aventurada” é evocada por Platão no Fedro: “mistérios que celebrávamos na integridade de nossa verdadeira natureza e isentos de todos os males que nos aguardavam no curso ulterior do tempo.”
- Pecadores ou não, maus ou não, a Realidade nos escapa — e com ela a Justiça, a Beleza e, em uma palavra, o Absoluto.
- A transmissão do pecado original não oferece nenhuma dificuldade a Maistre, que afirma simplesmente que “todo ser que tem a faculdade de se reproduzir só pode produzir um ser semelhante a ele” — e portanto “se um ser está degradado, sua posteridade não se assemelhará mais ao estado primitivo desse ser, mas ao estado em que foi rebaixado por uma causa qualquer” — 2º Encontro.
- “O pecado original, que explica tudo e sem o qual nada se explica, repete-se infelizmente a cada instante da duração, embora de maneira secundária”, agravando a miséria humana e aviltando cada vez mais as raças e os povos segundo a gravidade de suas faltas.
- O 2º Encontro desenvolve a ideia de que a humanidade decaída se afasta cada vez mais de um estado primitivo bem-aventurado — ideia paradoxal que toma o exato contrapé do mito do Progresso.
- A imagem do bom selvagem é uma lenda — piadosa ou mentirosa, devida ora à “imensa caridade do sacerdócio católico que, ao nos falar desses homens, colocou seus desejos no lugar das realidades”, ora à “filosofia do nosso século, que se serviu dos selvagens para escorar suas vãs e culpadas declamações contra a ordem social.”
- Maistre afirma: “On ne saurait fixer um instante os olhos sobre o selvagem sem ler o anátema escrito, não digo somente em sua alma, mas até na forma exterior de seu corpo” — e conclui: “Queremos tremer sobre nós mesmos de maneira muito salutar? Pensemos que com nossa inteligência, nossa moral, nossas ciências e nossas artes, estamos precisamente para o homem primitivo como o selvagem está para nós.”
- As tradições da “sábia Antiguidade” são unânimes: os primeiros homens “foram seres maravilhosos, e seres de ordem superior se dignavam favorecê-los com as mais preciosas comunicações” — ciência de intuição por oposição às nossas ciências de conclusões, transmitida por iniciação e perpetuada na Ásia mais longamente do que em outro lugar.
- Gérard de Nerval, tão curioso do caínismo, poderia quase subscrever a frase: “Os castigos são sempre proporcionados aos crimes, e os crimes sempre proporcionados aos conhecimentos do culpado, de modo que o dilúvio supõe crimes inauditos, e esses crimes supõem conhecimentos infinitamente superiores aos que conhecemos.”
- O mal não era necessário, mas o homem o introduziu pelo pecado original e o reintroduz constantemente cometendo “pecados originais secundários” — o homem é culpado, e mais precisamente ainda, o estado de homem é culpado, a vida é culpada.
- Essa culpabilidade permanente e em suma independente de nossos próprios atos é designada por Maistre pelo nome de reidade — e é essa reidade que torna o castigo necessário e justifica o axioma: “Todo homem, enquanto homem, está sujeito a todos os infortúnios da humanidade.”
- Os célebres passos sobre o carrasco e a guerra valeram a Maistre muita hostilidade e muita incompreensão — e todo um romantismo sentimental se indignouseu contra a suposta “apologia” do carrasco e da guerra, mas Maistre jamais se fez apologista de um ou de outro.
- Trata-se simplesmente de mostrar que o castigo tem algo de sobrenatural, ou ao menos de incompreensível à razão humana, e que esse sobrenatural prova a intervenção de Deus.
- Maistre formula: “Que ser inexplicável é esse que preferiu a todos os ofícios agradáveis, lucrativos, honestos e até honrosos que se apresentam em abundância à força ou à destreza humana, o de atormentar e matar seus semelhantes?… Para que exista na família humana, é preciso um decreto particular, um FIAT do poder criador. Ele é criado como um mundo… Há portanto no círculo temporal uma lei divina e visível para a punição do crime” — 1º Encontro.
- A mesma demonstração vale para a guerra — paradoxalmente, o soldado é coberto de glória quando o carrasco é universalmente odiado, embora nenhum povo e nenhum governo ignore que a guerra é uma loucura.
- O Senador declara: “A terra inteira, continuamente embebida de sangue, não é senão um altar imenso onde tudo o que vive deve ser imolado sem fim, sem medida, sem trégua, até a consumação das coisas, até a morte da morte… O anjo exterminador gira como o sol em torno desse infeliz globo, e não deixa respirar uma nação senão para ferir outras… Não espereis que façam nenhum esforço para escapar a seu julgamento ou para abreviá-lo. Vê-se esses grandes culpados, esclarecidos por sua consciência, que pedem o suplício e o aceitam para nele encontrar a expiação” — 7º Encontro.
- A conclusão se repete incansavelmente: “A guerra é divina em si mesma pois é uma lei do mundo… A guerra é divina por suas consequências de ordem sobrenatural… A guerra é divina pela glória misteriosa que a envolve… A guerra é divina pela maneira como se declara… A guerra é divina em seus resultados que escapam absolutamente às especulações da razão humana.”
- A guerra é divina no sentido de que é Deus quem a suscita — não o Eterno dos exércitos, o Deus vingador e “ciumento”, mas aquele que Voltaire chamava de “remunerador”; ela permanece porém inteiramente humana enquanto mal físico necessariamente provocado pelo mal moral cometido pelos homens, pela reidade que chama a expiação.
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