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SILÊNCIO
René Guénon – Silêncio e Solidão
- Entre os índios da América do Norte, em todas as tribos sem exceção, existe, além dos ritos coletivos de diversas naturezas, a prática de uma adoração solitária e silenciosa considerada a mais profunda e de ordem mais elevada.
- Paul Coze — autor de L'Oiseau Tonnerre, obra da qual são extraídas as informações e citações utilizadas; notável por sua simpatia com os índios e sua tradição, embora fortemente influenciado por concepções “metapsiquistas”, o que gera em suas interpretações certa confusão entre o psíquico e o espiritual
- Os ritos coletivos possuem sempre algum grau de exterioridade relativa; distinguem-se entre ritos exotéricos, nos quais todos participam indistintamente, e ritos iniciáticos
- A adoração solitária não exclui nem se opõe aos ritos coletivos, mas superpõe-se a eles como sendo de outra ordem; para ser verdadeiramente eficaz, pressupõe a iniciação como condição necessária — entendida em seu sentido próprio, não no sentido em que os etnólogos abusivamente empregam o termo para designar ritos de agregação à tribo
- A adoração solitária não constitui uma “prece” no sentido habitual, pois não contém nenhuma petição de qualquer natureza; seria mais justo chamá-la de “encantação” ou “invocação” em sentido comparável ao do dhikr na tradição islâmica, tratando-se essencialmente de uma invocação silenciosa e completamente interior.
- Dhikr — prática de invocação ou rememoração na tradição islâmica; certas turuq, em particular a dos Naqshbandiyah, praticam igualmente um dhikr silencioso
- As preces formuladas em cantos rituais dirigem-se às diversas manifestações divinas, repartidas habitualmente segundo uma divisão quaternária conforme um simbolismo cosmológico aplicável aos pontos de vista macrocósmico e microcósmico — distinto do objeto da adoração solitária aqui tratada
- Ch. Eastman — Sioux de origem que, apesar de educação “branca”, conservou consciência de sua tradição; descreve a adoração do Grande Mistério como silenciosa, solitária e sem complicação interior, sem sacerdotes intermediários entre o homem e o Princípio supremo
- O silêncio não é mero ausência de palavras, mas condição pela qual se estabelece comunicação direta com o Princípio supremo — designado como o “Grande Mistério” —, sendo o próprio silêncio “o Grande Mistério”, pois enquanto estado de não-manifestação é participação ou conformidade com a natureza do não-manifestado.
- Grande Mistério — designação do Princípio supremo na tradição dos índios norte-americanos; o verdadeiro “mistério” é o inexprimível, que só pode ser representado pelo silêncio
- O silêncio referido ao Princípio é o Verbo não proferido; “o silêncio sagrado é a voz do Grande Espírito” enquanto identificado com o Princípio mesmo
- Parâ — modalidade principial do som na tradição hindu, designada como não-manifestada; corresponde à “voz” que responde à chamada do ser em adoração; chamada e resposta são igualmente silenciosas, sendo ambas aspiração e iluminação puramente interiores
- Para que a adoração produza resultados plenamente válidos, o silêncio deve ser “o perfeito equilíbrio das três partes do ser” — espírito, alma e corpo —, pois o ser todo inteiro, em todos os seus elementos constitutivos, deve participar da adoração; esse equilíbrio é, na manifestação, imagem ou reflexo da indistinção principial do não-manifestado.
- A indistinção principial do não-manifestado nada tem em comum com a pura potencialidade indiferenciada da matéria prima — sentido inferior que a mesma palavra pode designar em outro contexto
- A necessidade do equilíbrio é compreensível porque o equilíbrio representa, na manifestação, a indistinção do não-manifestado, tal como o silêncio a representa; não há motivo para surpresa ante a assimilação que assim se estabelece entre silêncio e equilíbrio
- A solitude associa-se ao silêncio de modo normal e necessário: quem realiza em si o silêncio perfeito isola-se forçosamente dos outros seres mesmo em sua presença; o sânscrito mauna designa precisamente esse estado em que silêncio e solidão estão implicados conjuntamente.
- Mauna — termo sânscrito que aplica-se com exatidão a esse estado de silêncio-solidão interior; referência ao contexto do Vedanta
- A multiplicidade, sendo inerente à manifestação e acentuando-se quanto mais se desce a graus inferiores dela, afasta necessariamente do não-manifestado; o ser que quer comunicar-se com o Princípio deve antes de tudo fazer a unidade em si mesmo pela harmonização e equilíbrio de todos os seus elementos, e isolar-se de toda multiplicidade exterior
- Kaivalya — termo sânscrito que exprime simultaneamente perfeição e totalidade; em seu pleno significado, designa o estado absoluto e incondicionado do ser que chegou à Liberação final — limite superior ao qual o isolamento aponta
- O método da adoração solitária, por se opor a toda dispersão das potências do ser, exclui o desenvolvimento separado e desordenado dos elementos psíquicos cultivados por si mesmos — desenvolvimento sempre contrário à harmonia e ao equilíbrio do conjunto —, e os índios consideram legítimo abordar o domínio psíquico somente “pelo alto”, obtendo resultados dessa ordem apenas de modo acessório e “por acréscimo”.
- Orenda — termo da língua dos Iroqueses empregado nas obras europeias para designar uniformemente o conjunto das modalidades da força psíquica e vital; equivalente aproximado do prâna da tradição hindu e do k'i da tradição extremo-oriental
- Essa orientação — dominar a matéria e tender ao divino antes de abordar o domínio psíquico — é o único meio de evitar os perigos desse domínio, e está o mais distante possível da vulgar “magia” que observadores profanos e superficiais atribuíram aos índios por não possuírem a menor noção do que pode ser a verdadeira espiritualidade
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