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SALVADOR

Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.

Capítulo II — Salvador Cristão e Revelador Gnóstico

  • A afirmação de que certas doutrinas gnósticas desconheceriam inteiramente a figura do Salvador carece de comprovação suficiente, e os textos de Nag Hammadi atestam a presença dessa ideia em quase toda a literatura gnóstica, com exceção de poucos escritos provavelmente alheios ao gnosticismo.
    • Os Nicolaítas, os Arcontitas e os Antitatas são grupos gnósticos cujas razões apresentadas para negar-lhes um Salvador se revelam inadequadas.
    • Nag Hammadi — sítio arqueológico no Egito onde foram encontrados, em 1945, manuscritos gnósticos coptas de grande importância.
  • O Salvador gnóstico é antes de tudo um Revelador, sendo a ideia de um chamado a noção mais central do gnosticismo, por meio da qual o Salvador desperta, ensina, transmite conhecimento e assim salva.
    • Foerster — estudioso que identificou o chamado como ideia nuclear do gnosticismo.
  • A diferença entre as concepções cristã e gnóstica do Salvador não é necessariamente irreconciliável, colocando-se em questão se a concepção gnóstica seria incapaz de derivar do cristianismo.
  • A ideia corrente de que no cristianismo o Salvador redime a humanidade por seu sacrifício — que aplacaria a ira de Deus — e não por seu ensinamento, não corresponde necessariamente à forma mais primitiva do cristianismo, podendo-se sustentar que, para os cristãos do Novo Testamento, o Salvador salvou pelo que ensinou, sendo o Evangelho de João o exemplo mais evidente disso.
  • O Cristo joanino, tal como o Salvador gnóstico, veio ao mundo para ensinar a verdade, e o julgamento consiste na discriminação entre os que acolhem essa luz e os que permanecem na cegueira.
    • Evangelho de João 12:46 — “Eu vim como luz ao mundo, para que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas.”
    • Evangelho de João 18:37 — “Eu vim ao mundo para dar testemunho da verdade.”
    • Evangelho de João 9:39 — “Para um juízo — krima, discriminação — vim a este mundo, para que os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos.”
    • Os que veem são os judeus ortodoxos, que possuíam conhecimento superior ao dos pagãos, mas cuja incredulidade diante de Jesus os torna cegos.
  • A ideia de redenção pelo sacrifício não está ausente do Quarto Evangelho, mas o sacrifício aparece como condição necessária para que algo seja revelado, sendo a cruz o principal meio de revelação.
    • João Batista, em João 1:29 — “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.”
    • Cristo, em João 6:51 — “O pão que eu darei pela vida do mundo é a minha carne.”
    • Cristo, em João 6:54 — “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna.”
    • Cristo, em João 10:15 — “Dou a minha vida pelas ovelhas.”
    • Primeira Epístola de João 1:7 — “O sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.”
    • João 14:30-31 — “O príncipe deste mundo está chegando. Ele não tem poder sobre mim; mas faço como o Pai me ordenou, para que o mundo saiba que amo o Pai.”
    • João 8:28 — “Quando tiverdes levantado o Filho do homem — na cruz — então sabereis que eu sou.”
    • A cruz salva pelo modo como é contemplada, assim como a serpente de bronze no deserto salvava os que a olhavam — João 3:14-15.
    • O Espírito que abre o entendimento não vem senão após a glorificação de Cristo, isto é, sua crucificação — João 7:39.
  • O sacrifício de Cristo constituiu a condição necessária para que a verdade fosse tornada conhecida, sendo a ideia de verdade a ideia primordial do cristianismo primitivo, na qual Cristo é a própria verdade e Deus é essencialmente luz.
    • João 17:3 — “Esta é a vida eterna: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, que enviaste.”
    • João 8:32 — “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.”
    • Primeira Epístola de João 1:5 — “Esta é a mensagem que dele recebemos e vos anunciamos: Deus é luz.”
    • Cristo é a luz que veio ao mundo — João 1:9; 3,19; 8,12; 9,5; 12,35-36; 12,46.
  • Para Paulo, fundador primário da teologia cristã, a cruz não salva diretamente pela aplacação da ira divina, pois a ira contra o mundo permanece, e somente aqueles que têm fé escapam — fé esta que opera uma transformação interior pelo contemplar da imagem da cruz, reveladora da vaidade do poder mundano.
    • Paulo — apóstolo considerado o fundador primário da teologia cristã.
    • A ideia de que Deus desejaria esse sacrifício para aplacar sua própria ira é apresentada como ininteligível e absurda.
    • A cruz carrega uma imagem que revela a vaidade do poder do mundo e salva os que aceitam a contemplação dessa imagem.
  • A salvação paulina opera mediante a crença na morte de Cristo, pela qual o crente de certa forma morre com Cristo e se separa do mundo, escapando assim da destruição, sendo esse mecanismo simples e coerente, sem caráter misterioso.
    • Teólogos que recorrem aos Mistérios pagãos e às religiões orientais para explicar essa ideia paulina são considerados desnecessários, pois a ideia se justifica por si mesma como verdade.
    • Aderir a alguém condenado e morto pelo mundo é desligar-se do mundo e, em certo sentido, morrer para ele.
  • A ideia de Paulo é que, para o crente em Cristo, o mundo perde seu poder e seu domínio, ainda que se reconheça a derrota e a morte ignominiosa de Cristo nesse mesmo mundo — o que constitui uma verdade evidente, sem nenhum mistério.
  • A ressurreição de Cristo também instrui, demonstrando que o julgamento do mundo foi anulado por Deus, e a lição de toda a sequência — vida pura, morte, ressurreição — é que a morte tal como o mundo a conhece não é a morte absoluta, e que a verdade segundo as aparências não é a verdade.
    • Segunda Carta aos Coríntios 5,15 — Paulo afirma que Cristo morreu e foi ressuscitado por nós.
    • A ressurreição não pode ser reduzida à aplacação da ira divina — se a morte já bastasse para isso, a ressurreição seria supérflua.
  • Para Paulo, a redenção não é produzida diretamente pelo sacrifício de Cristo, havendo um intermediário — o conhecimento ou, o que vem a ser o mesmo, a crença, a fé.
  • A fé em Paulo e em João é distinta da fé nos Evangelhos Sinóticos, sendo nos primeiros a aceitação de uma doutrina, de uma imagem — a do justo crucificado — e por isso identificável ao conhecimento, enquanto nos Sinóticos a fé é simplesmente a coragem de agir e confiar na bondade de Deus.
    • Nos Evangelhos Sinóticos — Mateus, Marcos e Lucas — a fé é a atitude de quem ousa agir, pedir ou esperar, confiando na bondade de Deus.
    • Em Paulo e em João, a fé é adesão à verdade, por meio da qual a humanidade se coloca entre si e o mundo, escapando à ameaça que pesa sobre o mundo e sendo em certo sentido transferida a uma esfera superior, livre das condições do tempo e da morte.
  • A interpretação da redenção como gnose e vida eterna correspondia, segundo Eugène de Faye, à crença dos cristãos comuns do segundo século, e a distinção proposta por Colpe entre Salvador e Mensageiro — para sustentar contra Rudolph a existência de sistemas gnósticos sem Salvador — torna-se contestável quando se aceita essa concepção de salvação.
    • Eugène de Faye — estudioso que identificou essa interpretação da redenção na cristandade do segundo século.
    • Heracleon — gnóstico discutido por De Faye, para quem a Redenção consiste em gnose, conhecimento superior e vida eterna — a dupla graça trazida por Cristo: iluminação da alma e vida imperecível.
    • Segundo De Faye, os cristãos do segundo século criam que Jesus Cristo traz aos homens duas coisas: o conhecimento do Pai e a imortalidade.
    • Colpe — estudioso que propôs a distinção entre Salvador e Mensageiro para argumentar, contra Rudolph, a existência de sistemas gnósticos sem Salvador.
    • Rudolph — estudioso que sustentou a presença de um Salvador em todos os sistemas gnósticos.
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