estudos:underhill:misticismo:caminho:recolhimento-quietude:recolhimento
You were redirected here from Einar Thomassen.

RECOLHIMENTO

Evelyn Underhill, MISTICISMO — O CAMINHO MÍSTICO

  • O início do processo de introversão — o primeiro ato deliberado pelo qual o eu se volta para o caminho interior — não é mera cedência a um instinto ou indulgência de um gosto natural pela devaneio, mas empreendimento voluntário e intencional que implica ruptura com o óbvio e afeta toda a consciência normal, sendo evocado pelo amor do místico, dirigido pela razão e somente realizável pelo exercício rigoroso da vontade.
    • Santa Teresa de Ávila — mística cristã do século XVI; citada para a afirmação de que esses trabalhos preparatórios da vida contemplativa são os mais árduos e exigem mais coragem do que todos os demais estágios
    • O estado ainda jovem e fraco das faculdades transcendentais, combinado com os sentidos não inteiramente mortificados, exige determinação inflexível para concentrar a atenção nas mensagens sussurradas do interior sem ser distraído pelas vozes externas
  • No diálogo de Boehme entre o Discípulo e o Mestre, o estado psicológico inicial de toda introversão é descrito como simplificação primária da consciência — fixar steadfastly o olho da alma num único ponto e voltar para dentro todas as potências conativas — pressionando pela fé em direção ao centro, em silêncio e paciência diante do Senhor.
    • Jakob Boehme — místico e teósofo alemão do século XVII; seus Diálogos fornecem a descrição citada do “Fundamento Supersensível da Vida”, no qual o eu cessa de toda atividade própria, recolhe todos os seus pensamentos e aguarda em silêncio
    • “Fundamento Supersensível da Vida” (true Supersensual Ground of Life) — designação böhmeana para o estado interior no qual a luz interior irrompe como a manhã e o Sol espiritual nasce para o ser em recolhimento
  • O Recolhimento — termo tradicional da mística cristã frequentemente mal compreendido como “recordação” — designa precisamente essa concentração voluntária, esse primeiro colher ou reunir da atenção do eu em sua “célula mais oculta”, estado no qual o eu se situa entre os dois planos de seu ser, ainda com o Olho do Tempo desperto, buscando um dispositivo que o leve a transpor o limiar do mundo interior.
    • “Interior palace where the King of Kings is guest” — imagem citada para o espaço interior a ser alcançado; o eu sabe que quer entrar, mas necessita de um dispositivo para deslocar o limiar e permitir que a intuição subliminal do Absoluto emerja
    • A distinção entre Recolhimento e os graus superiores ou “infusos” da oração reside no fato de que no Recolhimento todas as faculdades estão ativas e a condição é produzida voluntariamente, ao passo que nos graus superiores há elevação involuntária e extática da alma
  • O dispositivo habitual para induzir o estado de Recolhimento é a prática da meditação — consideração deliberada e prolongada de um único aspecto da Realidade escolhido entre as crenças religiosas do eu —, que, ao ocupar todo o campo mental, supera o fluxo de sugestões menores que o mundo exterior derrama incessantemente sobre a mente e conduz gradualmente ao estado de devaneio sagrado e recolhimento interior.
    • Os místicos hindus meditam sobre uma palavra sagrada; os contemplativos cristãos fixam ante a mente um nome ou atributo de Deus, um fragmento das Escrituras ou um episódio da vida de Cristo
    • Ricardo de São Vítor — místico medieval da Escola de São Vítor; citado para a afirmação de que a meditação é a atividade própria de quem atingiu o primeiro grau do amor ardente, por meio da qual Deus entra na mente e a mente entra em si mesma, recebendo em sua célula mais íntima a “primeira visita do Amado”
    • No estado meditativo, o objeto da meditação começa a ganhar nova significação — deixa de ser quadro e torna-se janela pela qual o místico vislumbra o universo espiritual e percebe de algum modo a presença veritável de Deus
  • Nos estados meditativos e de recolhimento, o eu sente claramente o contorno de sua própria personalidade e sua separação da realidade divina; opera ainda de modo natural, “por meio das faculdades”, sem fusão consciente com uma Vida maior, sem repouso na atmosfera divina característica do Quieto, sem elevação involuntária da alma à apreensão direta da verdade própria da contemplação.
    • Quieto (Quiet) — estado contemplativo superior ao Recolhimento, caracterizado pelo repouso na atmosfera divina sem atividade deliberada das faculdades
    • O Recolhimento é condição psíquica definida com resultados psíquicos lógicos: originalmente induzido pela meditação, desenvolve no eu, pelo controle rigoroso da vontade sobre o entendimento, a capacidade de cortar sua conexão com o mundo exterior e retirar-se para o mundo interior do espírito
  • Santa Teresa descreve o Recolhimento como uma forma de ginástica espiritual, menos valiosa em si mesma do que pelo treino que proporciona e pelas potências que desenvolve: os sentidos, pela prática repetida, aprendem a reunir-se como abelhas que retornam à colmeia, respondendo cada vez mais prontamente ao primeiro chamado da vontade, até que Deus os disponha a um estado de descanso perfeito e contemplação.
    • Santa Teresa distingue explicitamente o Recolhimento de um ato sobrenatural: trata-se de simples retirada das potências para o fundo da alma, acessível com a assistência ordinária de Deus necessária a todos os atos humanos, sem implicar ainda o silêncio das faculdades próprio dos graus superiores
    • O processo é gradual e habitual: abstrair a mente das coisas exteriores, retirar-se interiormente mesmo no trabalho, cultivar a memória de um Deus que habita interiormente, habituar-se pouco a pouco ao colóquio suave e silencioso com Ele — até que Ele faça sentir sua presença na alma
Search
estudos/underhill/misticismo/caminho/recolhimento-quietude/recolhimento.txt · Last modified: by 127.0.0.1