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CONHECIMENTO

Alexandre Koyré — Místicos, espirituais e alquimistas do século XVI alemão

Weigel e o conhecimento

  • Como se pode ver, nessa doutrina há poucos elementos que não sejam facilmente reconhecíveis como procedentes da tradição mística, mas V. Weigel adaptou essa tradição aos novos dados e questões que a Reforma e a teologia da ortodoxia luterana colocavam à consciência de um discípulo de Tauler e da “Teologia germânica”.
  • Para compreender melhor a teologia de Weigel, deve-se estudar primeiro sua doutrina metafísica e sua doutrina do conhecimento.
    • São muito curiosas e mostram, com a ajuda de um exemplo surpreendente, o grave perigo que encerra a interpretação de uma doutrina filosófica com o apoio de seus sucessores supostos ou reais.
  • Tem-se o costume de considerar Weigel como um precursor de Kant e de Fichte.
    • Cf. Gruetzmacher, artigo “V. Weigel”, PRE3, XXI, páginas 42 e seguintes.
    • V. Weigel, Γνῶθι σεαυτόν I, 12, página 29: “Todas as coisas externas ou objetos visíveis nos mostram, despertam, provam, conduzem… não podem agir no entendimento ou no juízo… pois… o juízo está no que julga e não no que é julgado; o conhecimento no que conhece e não no que é conhecido. Isto é, todo conhecimento vem e flui do conhecer, e do olho que vê e conhece, e de modo algum do objeto, que é visto e conhecido”.
    • V. Weigel, Vom Orth der Welt, Hall in Sachsen, 1613, capítulo X.
    • Cita-se segundo a edição de 1705, página 42, I, e.
    • O mundo não está em nenhum lugar, explica Weigel, pois, fora do mundo, não há “lugar”: “Pois fora do mundo não há lugar corporal. Ora, este grande mundo, porque é uma criatura, é finito, isto é, limitado e compreensível, pois nenhuma coisa corporal pode ser infinita… assim, é certo também que não está em nenhum lugar, mas porque ele mesmo é um lugar e conceito de todos os lugares corporais e coisas corporais e, portanto, sozinho…”.
  • Weigel acrescenta que o sujeito cognoscente é ativo no ato de conhecimento, e o conhecimento se faz nele, é ele quem o determina.
  • Comparando esses passagens e a doutrina que nelas se encerra (doutrina segundo a qual o sujeito cognoscente produz por si mesmo o conhecimento e o conhecido), Weigel pôde parecer como mantenedor da famosa doutrina de Kant segundo a qual é o sujeito quem constrói e quem faz o objeto.
    • Por outro lado, se não causa estranheza que Weigel de modo algum parece negar o papel e a necessidade de um objeto (Gegenwurff) — uma inconsequência, segundo Gruetzmacher —, não se aproxima essa doutrina muito mais da de Kant?
    • E não se torna o Gegenwurff a contrapartida exata da coisa em si, elemento essencial e contraditório do sistema kantiano?
  • Para que o conhecimento seja possível, são precisas três coisas: primeiro, o objeto conhecido; segundo, o sujeito cognoscente; terceiro, um meio apropriado que permite a comunicação.
    • Segundo Weigel, é evidente que o objeto não forma o conhecimento; com efeito, se não há sujeito, ou se o sujeito não possui o sentido necessário para perceber o objeto, ou se o meio favorável falta, nenhum conhecimento é possível.
    • Um objeto idêntico pode ser percebido por distintos sujeitos de maneiras diferentes e parecer-lhes grande ou pequeno, etc.
    • As mesmas observações se impõem para a percepção do quente e do frio, e de toda a gama de qualidades sensíveis.
    • Dependem do sujeito e têm lugar no sujeito, o que fica confirmado pelo fato de que, mesmo ausente o objeto, podemos imaginá-lo.
  • A subjetividade das percepções sensíveis parece, portanto, adquirida.
    • Isso é para Weigel muito importante, servindo-se para convencer seus leitores do exemplo clássico dos óculos verdes e vermelhos.
  • No conhecimento racional, um dos elementos determinantes, necessários para que o conhecimento sensível tenha lugar, desaparece.
    • O meio (medium) deixa de desempenhar um papel.
    • A razão vai diretamente a seu objeto.
    • Não resta, portanto, mais do que examinar o papel respectivo dos dois termos: o sujeito e o objeto, e, uma vez mais, ver-se-á quão grande é o papel do sujeito.
    • É este último quem raciocina, quem compreende, quem julga.
    • Mas o juízo está no que julga (judicium est in judicante), não no que é julgado (non in judicato), e ninguém negará que o juízo não é subjetivo.
    • O que parece bom ou mau a um lhe parece o contrário a outro, etc.
    • Além disso, ninguém negará que o juízo ou o pensamento é uma atividade; é preciso, com efeito, que a razão dê seus passos, compare, analise, preste atenção, conte, calcule.
    • É preciso também que a razão contenha já em si os elementos necessários que o raciocínio e a compreensão pressupõem.
    • Quando se nos fala de algo, não são os sons das palavras que nos comunicam as noções das coisas.
    • Para compreendê-los, é preciso saber de antemão o que as palavras significam.
    • Quando se nos explica algo que ainda não conhecemos, somos nós mesmos que, com os elementos que possuímos, construímos um sentido, um juízo, um pensamento.
    • Somos, portanto, nós quem conferimos um sentido determinado às palavras: por isso, várias pessoas que leem um mesmo texto o compreendem de maneira diferente.
    • É o sentido que elas introduzem na leitura que é diferente.
    • Se fosse o objeto o único ativo no ato do conhecimento racional, todo o mundo estaria sempre de acordo e não haveria tantas polêmicas sobre a interpretação das Escrituras, tantas discussões e heresias como agora.
  • Além disso, o ato de conhecer não é uma ação apenas no conhecimento racional; o é também na percepção sensível.
    • Com efeito, para ver um objeto, é preciso que se olhe; para reconhecê-lo, é preciso que se saiba já o que é.
    • E da mesma forma que há distintas interpretações dos textos, também há erros e interpretações diferentes na percepção.
    • Pode-se dizer, portanto, de uma maneira geral, conhecimento natural sempre ativo (naturalis cognitio semper activa).
  • Por que Weigel desenvolve todos esses lugares-comuns? O que trata de demonstrar?
    • A esses modos de conhecimento natural, ele quer opor um modo de conhecimento superior, o do conhecimento intelectual (Verstandeserkenntnis) que é, falando propriamente, sobrenatural e que pretende um valor absoluto.
    • Nele, o sujeito já não é atuante (würkende), mas sim paciente (leidende), e o é porque, não dependendo mais do que do objeto (Gegenwurff), não sendo, portanto, subjetivo, mas objetivo, esse conhecimento passivo nos dará a verdade absoluta, uma mesma e única verdade para todos aqueles capazes de adquiri-lo.
    • Por isso, o conhecimento intelectual, que é o conhecimento pelo espírito, não chega jamais a discussões e controvérsias.
    • E isso é assim porque esse conhecimento é sobrenatural, é uma iluminação, pelo que jamais haverá desacordo entre aqueles que não se limitam a explicar os textos e a raciocinar sobre a letra da Escritura, mas penetram o espírito.
    • Com efeito, para chegar a isso, Weigel tinha necessidade de demonstrar o caráter subjetivo e ativo do conhecimento natural.
    • Por outra parte, os exemplos e raciocínios de que se serve se encontram em parte já esboçados por Sebastião Franck.
  • Weigel insiste sempre na necessidade de admitir o caráter subjetivo — em seguida se dirá em que sentido — do ato de conhecimento.
    • As qualidades sensíveis não chegam à alma desde fora, nem o pensamento lhe chega desde fora; ela o encontra em si mesma, em si mesma encontra também as verdades que conhecia e as que aprende.
    • V. Weigel é um inatista convicto e para dão-lo por bom cita Platão: “Como dizem os platônicos, aprender é recordar”.
    • Weigel estabelece uma gradação: primeiro, a percepção sensível; segundo, o pensamento racional; terceiro, o conhecimento intelectual.
    • Cada grau é ao mesmo tempo superior ao precedente e mais interior do que ele.
    • Mas os modos superiores do conhecimento o são na realidade precisamente porque são mais interiores, porque são mais adequados à alma, porque estão mais perto da alma.
    • E também porque cada grau superior engloba o inferior, o abarca e pode servir-se dele e usá-lo.
    • Por isso mesmo pode também prescindir dele.
    • A razão poderia prescindir do sentido, da mesma forma que a inteligência (Verstand) poderia prescindir do sentido e da razão, mas não o inverso.
    • Com efeito, quem pode o mais pode o menos, mas não o inverso.
    • Por isso é impossível que todos os modos de conhecimento exterior levem e ensinem algo à alma em um terreno que só é acessível a um poder superior.
    • É, portanto, completamente absurdo esperar obter a compreensão da Escritura de um estudo da letra, que está em relação com o espírito o que o corpo está com a alma.
    • É igualmente falso por isso mesmo que se obtenha ex auditu a fé.
    • Com efeito, a verdadeira fé é um fato do espírito e um conhecimento espiritual; não pode, portanto, vir de fora, nem pode provir mais do que do espírito mesmo, ab intra, e só iluminado ab intra o homem regenerado pode captar e compreender o verdadeiro sentido da Escritura.
    • Porque o espírito que ilumina, e com respeito ao qual sua alma se mantém paciente (leidende), é ao mesmo tempo o mesmo.
    • E essa luz que o esclarece é inata na alma; está mais perto da alma do que a alma mesma, e essa luz é Deus.
  • Não se reconhecem as ideias de Santo Agostinho? Há necessidade realmente de citar o mestre Eckhart para ver nele a mesma distinção entre o conhecimento passivo e o conhecimento ativo: leidende e würkende, distinção que, com nomes distintos, é, por outro lado, tradicional na mística?
    • Trata-se de um agostinismo paracelsista.
    • Com efeito, o inatismo do pastor de Zschoppau se acha profundamente penetrado da concepção paracelsista da correspondência entre o microcosmo e o macrocosmo.
    • Está na doutrina do conhecimento pelo semelhante, ou, se se quiser, pelo mesmo.
    • Conhecer segundo essa concepção quer dizer ser (de certo modo) o objeto conhecido.
    • Conhecer algo quer dizer identificar-se interiormente com essa coisa, tornar-se essa coisa, possuí-la em si.
    • Com efeito, não se conhece na realidade mais do que a si mesmo.
    • Não se pode conhecer algo que não se é.
    • Tudo o que pode ser conhecido deve estar em nós já, e é ele mesmo, o homem, quem do seu próprio fundo extrai seu conhecimento.
  • V. Weigel, Studium universale, K. sg: “Quero te mostrar um livro, no qual estão compreendidos todos os livros do mundo inteiro, quantos já foram feitos e quantos ainda serão escritos… Não gosto de nomeá-lo e no entanto devo nomeá-lo, ele é e se chama o homem. Gnothi seauton. Conhece-te a ti mesmo, então conhecerás a Deus e por Deus todas as outras coisas”.
  • V. Weigel, Studium universale, H. sigs.: “Se alguém quer conhecer a si mesmo, deve aprender e conhecer que foi feito e criado. Ele é, pois, feito de Cristo e de Adão, isto é, de limo da terra e do sopro da vida, do terreno e do celestial, do temporal e do eterno. De terra e água é seu corpo, como uma casa, e de fogo e ar ou firmamento é sua alma, como um habitante, e do próprio Deus é seu espírito, como um habitante do habitante. Ora, tens justamente aquilo de que és feito. Está totalmente em ti e totalmente fora de ti. O terreno é Adão, o Microcosmo: O celestial é aquele que é o início, o meio e o fim de todas as coisas: que é um início da criatura de Deus… Ele é a Vida e a Luz em ti e em todos os homens”.
  • São três as “escolas” do homem e delas a terceira é a mais alta e perfeita, porque nela o sujeito e o objeto, o discípulo e o mestre se unem.
    • V. Weigel, Studium universale, página Fiiig: “O verdadeiro estudo e aprender é, a saber, a união essencial do que conhece e do que é conhecido (Cognoscentis et Cogniti). A terceira escola superior é a melhor, onde o discípulo deve ser essencialmente unido com o aprender, sim, ele mesmo se torna justamente aquilo que aprende ou lê em um livro”.
    • Porque esse conhecimento da terceira ordem é ao mesmo tempo perfeitamente interior, “essencial”, espontâneo e passivo.
    • Isso explica que, quando se sonha, segundo Weigel, Deus é o fundamento da alma, que está aí presente, que é inato à alma, e que, portanto, é ele mesmo quem se reconhece na alma humana, da mesma forma que a alma humana se reconhece em Deus.
    • Weigel diz que as crianças têm a fé, mas que ao crescer a perdem.
    • Vê-se claramente que não se trata de fé intelectualmente determinada, mas da fé — inhabitatio e participatio.
    • Deus é a natureza do homem, porque a natureza do homem é sobrenatural, e Deus é a natureza interior da natureza, porque a natureza não está aí mais do que para expressar o sobrenatural.
  • É curioso ver como os velhos temas — o do conhecimento pelo mesmo, do papel representativo do homem, do mestre interior, o tema do conhecimento pela fé, o tema do inatismo, etc. — se ordenam em torno das ideias mestras da doutrina: a do papel absolutamente central do homem, chave da abóbada do universo, que é a um só tempo conteúdo e continente porque é a expressão orgânica do mundo e de Deus.
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