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Ato puro

MEDITAÇÕES SOBRE OS 22 ARCANOS MAIORES DO TARÔ

O ato puro é como o fogo ou o vento: aparece e desaparece e, tendo-se esgotado, dá lugar a outro ato.

“O vento sopra onde quer e ouves o seu ruído, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do espírito” Jo 3,8).

O ato puro, em si mesmo, é inatingível; somente a reflexão é que o torna perceptível, comparável e compreensível; em outros termos, é graças à reflexão que tomamos consciência dele. A reflexão sobre o ato puro produz a sua representação interior, que será retida pela memória, a memória será a fonte do comunicável por meio da palavra, e a palavra comunicável será fixada por meio da escrita, que produz “o livro”.

O segundo Arcano, “A PAPISA”, é o da reflexão sobre o ato puro do primeiro Arcano, até que ele se torne “Livro”. Ele nos ensina como o Fogo e o Vento se tornam Ciência e Livro. Em outros termos, como “a Sabedoria constrói a sua casa”.

Como acabamos de mostrar, só tomamos consciência do ato puro da inteligência por meio da reflexão sobre ele. Temos necessidade de “espelho” interior a fim de sermos conscientes do ato puro ou a fim de sabermos “ de onde ele vem e para onde vai”. O sopro do Espírito — ou ato puro da inteligência — é, certamente, acontecimento, mas, em si mesmo, ele não é suficiente para que tomemos consciência dele. A “con-sciência” é o resultado de dois princípios — do princípio ativo agindo e do princípio passivo refletindo. Para “sabermos” de onde o Sopro vem e para onde vai, é necessária a Água que o reflete. Por isso a conversa do Mestre com Nicodemos, à qual já nos referimos, enuncia a condição absoluta da experiência consciente do Sopro Divino — ou do Reino de Deus:

“Em verdade, em verdade, te digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus” Jo 3,5).

“Em verdade, em verdade” — o Mestre repete o termo “verdade” numa fórmula em mantra (isto é, mágica) da realidade da consciência. Com esses termos ele diz que a plena consciência da verdade resulta da verdade insuflada e da verdade refletida. A consciência reintegrada, que é o Reino de Deus, pressupõe duas renovações, de alcance comparável ao nascimento, nos dois elementos constitutivos da consciência — o Espírito ativo e a Água refletora. O Espírito deve tornar-se Sopro divino no lugar da atividade pessoal arbitrária, e a Água deve tornar-se espelho perfeito do Sopro divino, em vez de ser agitada pela perturbação da imaginação, das paixões e dos desejos pessoais. A consciência reintegrada deve nascer da Água e do Espírito, depois que a Água voltar a ser Virgem e que o Espírito voltar a ser o Sopro divino ou o Espírito Santo. A consciência reintegrada nascerá, portanto, no interior da alma humana de maneira análoga ao nascimento ou à encarnação histórica do Verbo:

Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine [“Encarnou-se, por obra do [Espírito Santo, de Maria Virgem”. ]

O re-nascimento da Água e do Espírito, que o Mestre ensinou a Nicodemos, é o restabelecimento do estado de consciência não decaída, no qual o Espírito foi o Sopro divino e no qual esse Sopro foi refletido pela Natureza Virginal. Eis a “Ioga” cristã. Sua meta não é a libertação radical (“Mukti”), isto é, o estado de consciência sem sopro e sem reflexão, mas o da reação completa e perfeita à ação divina — o batismo da Água e do Espírito. Essas duas espécies de batismo operam a reintegração dos dois elementos constitutivos da consciência como tal — o elemento ativo e o elemento passivo. Não existe consciência sem esses dois elementos, e a supressão dessa dualidade mediante um método prático qualquer inspirado no ideal da unidade (“Advaita” — não-dualidade) deve necessariamente levar à extinção não do ser, mas da consciência. Verificar-se-ia então não “novo nascimento” da consciência, e sim seu retorno ao estado pré-natal embrionário, cósmico.

Em compensação, eis o que diz Plotino sobre a dualidade subjacente a toda forma e a todo grau de consciência, isto é, sobre o princípio ativo e seu espelho:

Mas se o espelho está ausente ou não é como deve, a imagem não se produz, embora a ação exista: assim, quando a alma está calma, ela reflete as imagens do pensamento e do intelecto; mas quando ela é agitada pela perturbação produzida na harmonia do corpo, o pensamento e o intelecto pensam sem imagem, e o ato da inteligência se realiza sem se refletir“ (Plotino, I, livro IV, cap. X).

É a concepção platônica da consciência; sendo aprofundada, ela pode servir de introdução à conversa noturna do Mestre com Nicodemos cobre a reintegração da consciência ou cobre a meta da “ioga” cristã.

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