RIFFARD SPIRITUS
Pierre Riffard — ESPÍRITO
Etimologia: “spiritus, us, masculino. Sopro (de ar), vento; flatuosidade, exalação, emanação; odor; ar, atmosfera; sopro (de expiração), alento, respiração; … sopro vital, vida; gemido, suspiro; silvar (de uma serpente); espírito, sentimentos, coração…” (H. Goelzer, 1928). Em quase todas as línguas do mundo “espírito” vem de “sopro”; assim de ru'ah em hebreu, pneuma em grego, atman em sânscrito.
Mas o problema é: a que se opõe “espírito”: à “vida”, “matéria”, “alma”…? em que estrutura se inscreve esta palavra (nos Judeus tem-se nefesh-neshamah-ru'ah-lêb-basar, quer dizer vida-alma-espírito-coração-carne)? que palavra “espírito” traduz, ou que palavras (em chinês, houen=“alma-sopro”, po=“alma do sangue”, kouei=demônio, chen=potência)? admite-se vários espíritos? fala-se do homem, ou de seres sobrenaturais? distingue-se bem “espírito” e “alma”, “espírito” e “si mesmo”, gênio“…? o termo muda quando se muda a perspectiva?
No Ocidente, o espírito é em geral caracterizado por: ser, vida, pensar Plotino.
#Hermetismo
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Emanação de um corpo vivo considerado coo rico de vida ou mesmo de afetividade.
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Fluido, matéria sutil, gaz, produto de destilação na alquimia: “Todo vapor sublimado é um fluido (pneuma)”, Zozimo, citado por wp-fr:M. Berthelot
#Simbolismo
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Ser sobre natural, mais ou menos incorporal, seja bom, seja mau, descrito nas teologias, teosofias, mitos. Ex.: os Anjos, os demônios.
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“Do trono partem relâmpagos, vozes e trovões, e sete lampadas de fogo queimam diante dele, os sete Espíritos de Deus” (Apocalipse, IV, 5)
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Ser imaginário descrito nas mitologias, nos contos, nas alegorias, ser ao qual é reconhecida uma potência específica e maravilhosa: Ex.: os Elementais, as wp-pt:fadas, os wp-pt:gênios
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“Os espíritos são inteligências secundárias ou criadas” Éliphas_Lévi, Chaves maiores, 1895
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Fantasma, alma desencarnada (vide O Erro Espírita)
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Hermenêutica. O sentido profundo de uma palavra, de um texto, de um costume, de um gesto.
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“A letra mata, o espírito vivifica” (Paulo Apóstolo, II Coríntios, III, 6)
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Disposição interior ou força externa
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Ex.: espírito do mal, sabedoria, de inveja
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“Sobre ele repousa o espírito de YHWH, espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de força, espírito de ciência e de temor de YHWH” (Isaías, XI, 2)
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Princípio de pensamento em geral, pelo qual se entende tudo que é psíquico, mental, afetivo, lógico, em resumo, não físico, não corporal, não material
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Princípio da vida não corporal (função da alma) mas incorporal, “sopro vital”vindo do exterior ou vindo do interior. Cf. prana em sânscrito: “O sopro reveste os seres” (Atharva_Veda)) XI, 4); ru'ah em hebreu
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Princípio do pensamento puro, da intelecção e não somente da afetividade e da razão: sede das Idéias.
#Teologia
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O Espírito Divino, Deus enquanto Espírito, o Princípio como pensamento
#Theosophia
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O Espírito de Deus; pode-se identificá-lo à Alma cósmica ou ao Espírito cósmico, a um Arcanjo (o wp-en:Spenta_Mainyu, Espírito Santo da wp-en:Avesta
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“Deus inscreveu a fé nos corações e ele os fortificou por um Espírito emanando dele” (Corão, LVIII, 22)
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O Espírito Santo, a terceira pessoa da Trindade cristã (noção criada no século II).
#Espírito Auxiliar
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“Há lugar para bem se distinguir entre os espíritos familiares propriamente ditos e (…) os espíritos protetores” Mircea Eliade, o Xamanismo)
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O Espírito familiar (spiritus familiaris). Duplo, alter ego, distinto da pessoa mas simpaticamente ligado a ela (matando-se um o outro pode morrer).
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“É o espírito familiar do lugar. Ele julga, preside, inspira. (Baudelaire, o gato, Les fleurs du mal).
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Ex.: O cão de Heinrich_Cornelius_Agrippa, o demônio de wp-en:Cardan, a coruja dos antigos magos da Polinésia).
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O Espírito tutelar (spiritus tutelaris) — espírito protetor, anjo-da-guarda
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Entidade herdada ou adquirida presidindo o destino de um indivíduo ou de uma coletividade, de uma época ou de um lugar, isto de maneira benéfica. O espírito tutelar pode ser uma coisa, um animal, a alma de um acestral, o mestre de uma espécie animal… o homem pode se identificar a ele por participação, metamorfose: donde os homens-leopardos da África, a licantropia, as máscaras, certos totens, emblemas…
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Ex.: a fravashi doas wp-pt:Mazdeanos (fravashi-proteção), o anjo guardião e arquétipo do homem piedoso, entidade presidindo à geração wp-pt:gênio, atendendo a alma depois da morte: “Os bons , heróicos, santos, Espíritos tutelares dos piedosos, nós os veremos” (wp-pt:Avesta, yasht 13, v 49-50); os espíritos dos xamãs, dos Índios da América do Norte; o anjo guardião na tradição cristã: “Estes pequeninos, … seus anjos nos céus se mantém constantemente em presença de meu Pai que está nos céus” (Mateus, XVIII, 10).
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Nagualismo (vide Carlos Castaneda), a partir do azteca nahualli=disfarçado, mascarado, é o conjunto das crenças e práticas ligadas à noção de nahualli (nagual, para os etnólogos), espírito tutelar dos índios da América Central e dos Andes, que é seja um animal particular, concreto, vivo, seja o representante abstrato de uma espécie animal; este animal está simpaticamente ligado à pessoa, esta pode metamorfosear-se neste animal… mas sobretudo o animal em questão é dado, ele se impõe como guardião desde o nascimento, a partir de eventos fortuitos. O nagualismo distingue-se do complexo do gênio tutelar, próprio aos índios norte-americanos e que se assinala em que o espírito guardião deve ser buscado graças a uma visão e dá a seu protegido um objeto (fetiche ou saco-medicina). Nagualismo e Complexo do gênio tutelar, por sua vez, não se confundem com totemismo (animal solidário, animal ancestral), o animismo (animal possuidor de um alma ou espírito), o animalismo (culto de um animal), a metempsicose (animal que é reencarnação). A zoolatria é invenção pura e puro desprezo da parte dos historiadores)
