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FAIVRE

FAIVRE, Antoine. Philosophie de la nature: physique sacrée et théosophie, XVIIIe-XIXe siècle. Paris: A. Michel, 1996.

Gênesis da Naturphilosophie

  • Paracelso exerceu papel determinante na gênese tanto da Naturphilosophie quanto da teosophia ocidental moderna, propondo uma concepção de Natureza como epifania conectada diretamente à onipotência divina, em contraste com a descida gradual do princípio divino à matéria tal como formulada pela tradição neoplatônica.
    • A tradição neoplatônica concebe o primeiro princípio divino como algo que se rebaixa até a matéria por uma série de graus intermediários
    • Paracelso compartilha com o neoplatonismo uma concepção qualitativa do tempo, segundo a qual cada coisa individual possui seu próprio ritmo
    • Paracelso distingue dois ordens de realidade supra-sensíveis, denominadas lumières — lumières no original francês, aqui traduzidas como luzes
    • A primeira luz é a luz da Graça, de ordem espiritual, mundo divino ao qual o homem se conecta por meio de seu espírito imortal
    • A segunda luz, denominada philosophia sagax — expressão latina para sabedoria sagaz ou filosofia perspicaz —, é chamada luz da Natureza e se apresenta como potência autônoma de revelação, distinta da via intelectiva dos escolásticos
    • Entre as duas luzes, Paracelso situa um terceiro termo, a astronomia ou astrologia
    • Os reinos mineral, vegetal e animal, bem como a biologia e a psicologia humanas, pertencem ao domínio da luz da Natureza e constituem uma vasta rede de relações analógicas
    • Há correspondências entre planetas, metais e partes do corpo humano
    • A química, conforme Paracelso a compreende, expressa uma concepção alquímica do mundo e serve de instrumento de conhecimento do universo inteiro e do homem
    • Tudo, inclusive os astros, teria sido criado quimicamente e continua a evoluir de forma química
    • Uma alquimia se encontra assim ligada organicamente à astronomia, à astrologia e a todas as ciências
  • O paracelsismo começa a se difundir na Alemanha e na Europa apenas no final do século XVI e início do século XVII, por meio de sucessores e discípulos imediatos que desenvolvem uma filosofia de caráter sempre dinâmico, estendido até o próprio Deus, culminando em uma física sagrada distante da aridez de muitas cosmologias medievais.
    • Entre os sucessores e discípulos imediatos figuram Gerhard Dorn, Adam von Bodenstein, Michael Toxites, Alexander von Suchten e Oswald Croll
    • Para esses pensadores, Deus não é de modo algum um Deus ocioso — Deus otiosus, expressão latina para divindade inativa ou afastada do mundo
    • A maneira como concebem a unidade orgânica do mundo e multiplicam as hipóstases resulta sempre em uma física sagrada
    • Exceções à aridez cosmológica medieval são representadas por figuras como são Boaventura e santa Hildegarda de Bingen
    • O resultado desse movimento é a irrupção, no Ocidente, de uma cosmossofia de tipo fisiologista
  • O pensamento paracelsiano conhece uma tripla posteridade além de seus discípulos diretos, desdobrando-se em uma alquimia e astrologia marcadas por sua influência, em uma filosofia química de difícil separação da ciência positiva ao longo dos séculos XVII e XVIII, e em uma teosophia que atravessa a pansofia do século XVII e marca profundamente certos Naturphilosophen dos períodos pré-romântico e romântico.
    • A primeira posteridade se manifesta sob a forma de uma alquimia e de uma astrologia fortemente marcadas pelo paracelsismo
    • A segunda posteridade assume a forma de uma filosofia química mais ou menos tingida de alquimia, da qual a ciência positiva tentará se desvencilhar com dificuldade ao longo dos séculos XVII e XVIII
    • A terceira posteridade se apresenta como uma teosophia que aparece e se desenvolve como corrente específica, passando pela pansofia do século XVII
    • Embora a Naturphilosophie seja geralmente tributária de Paracelso, ao menos indiretamente, ela pode não manter senão poucos vínculos com a teosophia
  • A luz da Natureza paracelsiana incide sobretudo sobre as causas secundárias e as leis da Natureza, ao passo que correntes de pensamento como a Cabala cristã e o hermetismo neo-alexandrino, surgidas desde o final do século XV, favoreceram uma mística especulativa mais globalizante sobre as relações entre o homem, o universo e Deus, dando origem no século XVII, com Jacob Boehme, a uma corrente gnóstica específica chamada teosophia.
    • A Cabala cristã e o hermetismo neo-alexandrino aparecem desde o final do século XV
    • Valentin Weigel, Heinrich Khunrath, Aegidius Gutman e Johann Arndt são os principais anunciadores da teosophia
    • Jacob Boehme, no primeiro terço do século XVII, confere à teosophia suas características principais, quase definitivas
    • A teosophia se apresenta como um amálgama entre a tradição mística medieval alemã e uma cosmossofia de tipo paracelsiano, constituindo uma hermenêutica visionária aplicada aos textos bíblicos
    • Entre os teósofos há pouca unidade doutrinária, mas três traços comuns os unem
    • O primeiro traço é uma especulação iluminada sobre o triângulo Deus-homem-Natureza, cujos três termos mantêm relações complexas segundo processos ou cenários dramáticos
    • O segundo traço é a primazia do elemento mítico — a imaginação ativa do teósofo se exerce preferencialmente sobre os elementos mais míticos da Revelação, como a Sophia, os anjos, o andrógino primitivo e as quedas sucessivas — configurando uma espécie de teologia da imagem
    • O terceiro traço é o acesso direto aos mundos superiores por meio de uma faculdade que o homem — sobretudo o teósofo — possuiria de penetrar diretamente o mundo divino ou o das entidades superiores, denominado mundus imaginalis por Henry Corbin — expressão latina para mundo imaginal ou esfera das imagens
    • Esse acesso permite explorar todos os níveis de realidade, assegurar uma compenetração do divino e do humano e dar ao espírito a possibilidade de se fixar em um corpo de luz
    • A teosophia não é propriamente uma mística no sentido estrito do termo, pois não pretende abolir as imagens — para Boehme e seus sucessores a imagem é, ao contrário, realização e cumprimento
  • A corrente teosófica surgida em solo luterano é reformadora no sentido de uma transformação interior do homem, sem qualquer intenção de criar nova Igreja, seita ou agrupamento organizado, aproximando-se do movimento rosacruciante que nasce no mesmo momento em que Boehme redige seus primeiros livros, e ao qual se associa a pansofia como vontade de saber universal fundado nas assinaturas ou hieróglifos do mundo natural.
    • O movimento rosacruciante nasce no momento exato em que Boehme redige seus primeiros livros
    • Esse contexto exprime um desejo de unificar o pensamento e de reagir contra um imaginário de tipo mecanicista que tendia a se tornar normativo
    • A pansofia — pensamento de tipo rosacruciante e mais ou menos paracelsiano — se apresenta como vontade de saber universal, no qual todas as coisas são ordenadas a Deus e classificadas segundo relações de analogia
    • A pansofia parte do deciframento das assinaturas ou hieróglifos identificáveis em todo o mundo natural para conhecer as coisas divinas
    • A teosophia propriamente dita partiria antes do divino para compreender o universo
    • Na prática, teosophia e pansofia são complementares ou pouco distintas uma da outra
  • Entre os principais representantes da corrente teosófica ao longo dos séculos XVII e XVIII, destacam-se figuras de várias nações europeias, culminando em dois grandes representantes alemães do segundo período áureo da teosophia — Friedrich Christoph Oetinger e Franz von Baader —, além do sueco Emanuel Swedenborg, cuja influência espiritual e cultural a partir do final do Século das Luzes foi considerável.
    • No século XVII figuram Jacob Boehme, Johann Georg Gichtel e Quirinus Kuhlmann na Alemanha; Johann Baptist Van Helmont na Holanda; Robert Fludd, John Pordage e Jane Leade na Inglaterra; Pierre Poiret e Antoinette Bourignon na França
    • Na primeira metade do século XVIII destacam-se William Law e Dionysius Andreas Frener entre os ingleses, e o suíço Saint-Georges de Marsais, situados na órbita boehmeniana
    • Na Alemanha do mesmo período, Georg von Welling, A. J. Kirchweger, Samuel Richter e Hermann Fictuld são teósofos mais marcados pelo pensamento alquímico e sobretudo paracelsiano
    • A época de Boehme inaugura o primeiro período áureo da teosophia
    • O segundo e último período áureo da teosophia ocorre no final do século XVIII e na época romântica
    • Na França desse segundo período destacam-se Louis-Claude de Saint-Martin — inspirado por Boehme e por Martinès de Pasqually — e Jean-Philippe Dutoit-Membrini
    • Na Alemanha do segundo período figuram Friedrich Rudolf Salzmann, Michael Hahn, às vezes Karl von Eckartshausen e Johann Heinrich Jung-Stilling, mas sobretudo Friedrich Christoph Oetinger e Franz von Baader, que contam com numerosos discípulos e epígonos
    • Emanuel Swedenborg, o sueco, precede esses autores e ocupa posição relativamente marginal em relação ao conjunto, mas exerce influência espiritual e cultural considerável a partir do final do Século das Luzes
  • Ao nome de Oetinger associam-se seus discípulos e pensadores de sua órbita — Johann Ludwig Fricker, Prokop Divisch e Friedrich Rösler, chamados os teólogos da eletricidade —, que recorrem permanentemente à Natureza e à Bíblia como fontes de inspiração que se iluminam e se verificam reciprocamente, enquanto o mesmerismo de Franz Anton Mesmer populariza o gosto da época pelo magnetismo, e a Naturphilosophie romântica nasce da confluência dessas correntes com ao menos três outros fatores.
    • Fricker, Divisch e Rösler são chamados teólogos da eletricidade e a eles uma parte do livro é dedicada
    • Esses autores interpretam as imagens reveladas — os seis dias da Criação, o jardim do Éden, a visão de Ezequiel — de forma concreta, na perspectiva de um realismo espiritual que preserva as interpretações em múltiplos níveis
    • Franz Anton Mesmer populariza o gosto da época pelo magnetismo, conferindo-lhe uma base que parece verdadeiramente científica sem eliminar o mistério
    • O entusiasmo é grande por tudo que diz respeito ao magnetismo, ao galvanismo e à eletricidade — em 1789 ocorrem as experiências de Galvani; em 1800, a pilha de Volta
    • A Naturphilosophie romântica nasce na confluência da teosophia oetingeriana e do pragmatismo de Mesmer — médico pouco metafísico —, mas não resulta unicamente desses dois correntes
    • Ao menos três outros fatores entram também em linha de conta
  • O naturalismo francês constitui o primeiro fator adicional na formação da Naturphilosophie, com Buffon e com o Sonho de d'Alembert de Diderot introduzindo uma nova física que, ao se popularizar, penetra a cultura e reintroduz temas como a Alma do Mundo, devolvendo à Alemanha um Leibniz previamente revisto pelo naturalismo francês que transfere a mônada para a própria natureza fenomenal.
    • Buffon e Denis Diderot — com o Sonho de d'Alembert, de 1769 — introduzem uma nova física que se apresenta mais sob a forma de exercício literário do que como cálculo científico
    • Ao se popularizar, essa nova física penetra a cultura
    • Em Buffon manifesta-se o gosto pela síntese — considerado um dos dois traços característicos do pensamento romântico, sendo o outro o sentimento doloroso dos limites da condição humana
    • O tema da Alma do Mundo ressurge, tema que o século XVII não havia esquecido
    • Buffon e mesmo d'Holbach trouxeram de volta à Alemanha o que havia vindo dela, ou seja, Leibniz
    • Trata-se, porém, de um Leibniz previamente revisto e corrigido pelo naturalismo francês, que transfere a mônada — substância inteligível acessível ao entendimento — para a própria natureza fenomenal
  • A filosofia de Kant e de Fichte constitui o segundo e mais determinante fator, pois os primeiros românticos encontram em Kant uma concepção do mundo como produto da imaginação, enquanto Fichte identifica a coisa em si com a representação que dela fazemos, afirmando que é o sujeito quem cria o real, ao mesmo tempo em que a noção de polaridade penetra os mais diversos domínios de reflexão.
    • Friedrich Schlegel, Novalis e outros creem encontrar em Kant uma concepção do mundo como produto da imaginação — resultado da atividade sintética e espontânea do Espírito
    • Nos Anfangsgründe der Naturwissenschaft — Primeiros Princípios Metafísicos da Ciência da Natureza, de 1786 —, Kant apresenta como constitutivas de toda a Natureza as duas forças da física newtoniana: a atrativa e a repulsiva
    • Ao mesmo tempo, a noção de polaridade escapa das tradições do hermetismo e se introduz nos mais diversos domínios de reflexão, notadamente na medicina
    • O médico escocês John Brown testemunha esse processo com os Elementa Medicinae — Elementos de Medicina, de 1780
    • Fichte estabelece como idênticas a coisa em si e a representação que dela fazemos; não há existência absoluta fora do sujeito, pois é ele quem cria o real
    • Schelling afirma que Fichte restituiu a confiança fundamental no objeto, confiança natural ao ser humano mas abalada por Descartes e depois por Kant
  • O terceiro fator é de ordem religiosa, consistindo na reinterpretação de Spinoza na época romântica não mais como materialismo disfarçado mas como afirmação da divindade da Natureza, levando a Naturphilosophie — sob influência de Herder e dos primeiros românticos alemães — a substituir a noção de organismo cósmico pela de força dinâmica, num momento em que a religião se encontra em crise.
    • Ao longo do século XVIII Spinoza era considerado ateu; na época romântica retorna como pensador ébrio de Deus
    • A fórmula Deus sive natura — expressão latina para Deus ou seja a Natureza — passa a ser lida não como profissão de fé disfarçada de materialismo, mas como afirmação de que a Natureza é algo de divino
    • A Naturphilosophie evita o panteísmo, concebendo Deus não como idêntico às coisas, mas como foco de energia do qual procede o conjunto do mundo finito como desenvolvimento de forças orgânicas
    • Sob influência mais ou menos direta de Herder, os primeiros românticos alemães tendem a substituir a noção de organismo cósmico — encontrada em Hamann, Jacobi e Hemsterhuis — pela de força dinâmica
    • O conceito espinosano de substância é apagado em favor de algo mais energético
    • No momento em que surge a Naturphilosophie, a religião está em crise; Chateaubriand, em seu Ensaio sobre as Revoluções de 1797, pergunta qual religião sucederá ao cristianismo
  • Em grande parte graças a esses fatores, surge nas últimas décadas do século XVIII uma maneira muito nova de abordar o estudo da Natureza, inaugurada simultaneamente pela Weltseele de Schelling e pelo ensaio de Franz von Baader sobre o quadrado pitagórico na Natureza, ambos de 1798, com uma escola que se prolonga até a morte de Carl Gustav Carus em 1869 e reúne numerosos representantes no mundo germânico e além dele.
    • Em 1798 aparecem quase simultaneamente a Weltseele — Alma do Mundo — de F. J. W. Schelling e o ensaio de Franz von Baader intitulado Ueber das pythagoräische Quadrat in der Natur — Sobre o Quadrado Pitagórico na Natureza
    • C. A. von Eschenmayer, com Baader e mais do que Schelling, contribui para unir os dados de uma herança de tipo esotérico ao espírito novo da filosofia kantiana
    • A escola se prolonga aproximadamente até a morte de Carl Gustav Carus em 1869
    • Os principais representantes no mundo germânico incluem Karl Friedrich Burdach, Wilhelm Butte, Joseph Ennemoser, Gustav Fechner, Joseph Görres, Justinus Kerner, Giovanni Malfatti, Johann Friedrich von Meyer, Adam Müller, Novalis, Jean-Christian Oersted, Lorenz Oken, Johann Nepomuk Ringseis, Johann Wilhelm Ritter, Gotthilf Heinrich von Schubert, Henrik Steffens, Gottfried Reinhold Treviranus, Ignaz Troxler, Johann Jakob Wagner e Karl Joseph Windischmann
    • Dois grandes filósofos ingleses marcados pela escola merecem menção: William Paley com a Teologia Natural de 1802 e Sir Humphrey Davy com Consolações na Viagem de 1830
  • A Naturphilosophie repousa sobre um conjunto de princípios mais ou menos explícitos que as reflexões contemporâneas sobre a ciência reencontram por vezes de forma inesperada e estimulante.
  • O primeiro princípio da Naturphilosophie é que a Natureza possui uma história de caráter mítico, fundamento ontológico dos pensadores mais marcados pela teosophia, segundo o qual o mundo não é feito de coisas eternas e imutáveis, mas se encontra, como o Espírito, engajado num devir de processos altamente dramáticos, cujo mito privilegiado é o do Salvador salvo — a história de uma Luz cativa que uma outra Luz livre vem despertar.
    • Esse postulado serve de motor poético às pesquisas e especulações dos pensadores mais marcados pela teosophia
    • O mito privilegiado é o do Salvador salvo — história de uma Luz cativa, capturada, que uma outra Luz que permaneceu livre vem de alguma forma despertar
    • Daí o uso frequente das noções de luz e de pesanteur — peso ou gravidade —, esta compreendida como um produto no qual energias primitivas foram engolidas mas podem ainda reaparecer e ser ressuscitadas
    • Jacob Boehme afirmava que a Natureza é um fogo cujas brasas cabe a nós reacender e que, reaceso, por sua vez nos salvaria
    • Ritter sugere que essa reaparição da Luz no mundo fundamenta metafisicamente uma ecologia possível — o homem sendo o parteiro e o Salvador da Natureza, que, devolvida à sua Luz perdida, seria capaz de transformar a humanidade e de ajudá-la a realizar sua transmutação corporal e espiritual
  • O segundo princípio é a identidade do Espírito e da Natureza, formulada por Schelling como fundamento ontológico de uma visão mítica da história da Natureza, segundo a qual o Espírito se faz Natureza e a Natureza se espiritualiza, estabelecendo que o autoconhecimento e o conhecimento do mundo são inseparáveis e se constituem como paixão, viagem iniciática e imersão no devir.
    • A expressão identidade do Espírito e da Natureza é de Schelling, que por Espírito entende o Espírito universal — e mesmo divino — em suas relações com a Natureza e com o homem, bem como o Espírito do homem
    • Essa identidade é fundamentada ontologicamente por uma visão mítica da história da Natureza
    • Oersted, o célebre físico, escreve em 1807: O acordo da Natureza e do Espírito, quanto mais avançamos, mais perfeito o encontrais, e estas duas Naturezas são os germes de uma raiz comum
    • Compreendido de forma dinâmica, esse acordo é dramaturgia animada e apaixonada
    • O autoconhecimento e o conhecimento do mundo andam juntos — ambos são paixão, viagem iniciática, imersão no devir
    • Esses pensadores buscam modelos genéticos que ponham a descoberto as relações homem-Natureza, dominadas pela unidade da Natureza e do Espírito — unidade perdida mas a ser reencontrada
  • O terceiro princípio é que a Natureza inteira é um tecido vivo de correspondências a decifrar, texto cujo sentido reside fora dela mesma num Espírito que se exprime por seu intermédio, de modo que a ciência experimental é apenas o ponto de partida obrigatório para uma apreensão intelectiva e totalizante de processos invisíveis, abrindo-se a um eclodir das disciplinas que dissolve o compartimentamento da ciência em setores estanques e o imaginário mecanicista.
    • A Natureza é um texto pleno de implicações simbólicas — seu sentido reside em um Espírito que se exprime através dela, designado como natura naturans — expressão latina para a Natureza que produz ou natureza naturante
    • As coisas se apresentam sempre como símbolos inscritos em cadeias e tramas, segundo estratos qualitativos, seja nos três reinos, na luz ou no tempo
    • Estruturas vivas são detectadas nos cristais, nas constelações, na circulação do sangue, nos fenômenos de combustão, nos períodos da vida humana
    • Esses pensadores são químicos, físicos, geólogos, engenheiros de minas, médicos — conhecida é a importância do médico na ciência romântica — e às vezes exercem várias dessas atividades simultaneamente
    • Trata-se de um imaginário de polimorfia e polissemia — e também de um politeísmo de fato
    • Schelling escreve: Monoteísmo da razão e do coração, politeísmo da imaginação e da arte — eis o que precisamos
    • Procede-se sempre a uma leitura segunda dos fragmentos do real, que, após serem cientificamente analisados, passam por deciframentos simbólicos
    • Conceitos emprestados à química são transpostos para a astronomia ou para os sentimentos humanos; noções da botânica são aplicadas à descrição de processos inorgânicos, ou vice-versa
    • Friedrich Schlegel afirma que o espírito combinatório é verdadeiramente profético
    • Esses transferências homológicas abrem perspectivas surpreendentes e se apresentam frequentemente sob a forma de aproximações rápidas e sugestivas — daí a forma literária do aforismo, especialmente apreciada pelo Romantismo alemão
  • A busca de correspondências na Naturphilosophie não deve ser compreendida como desejo de encontrar a Ordem em toda parte, pois o desordem também tem lugar nessa perspectiva, sendo antes o signo da Unidade que a organiza — uma unidade antiga mas perturbada, que inclui tanto correspondências vivas quanto uma atitude lúdica e estética, bem como a integração do elemento teosófico da queda original do homem e da Natureza.
    • O mundo que nos rodeia, e nós mesmos, testemunhamos uma ordem antiga mas perturbada — como o mostram também a arte e a literatura românticas, que apresentam de bom grado paisagens naturais sobre as quais um cataclismo parece ter se abatido
    • Há lugar não apenas para correspondências vivas, mas também para uma atitude lúdica e estética
    • Integra-se o elemento teosófico da queda original — a do homem e a da Natureza
  • Os princípios da Naturforschung romântica — sobretudo o terceiro — comportam perigos na medida em que associações são por vezes apresentadas como fatos e a realidade é romantizada e transformada em metáfora, mas a Naturphilosophie pode, desde que sem renegar os métodos e conquistas da ciência experimental, convidar a superpor a eles uma atitude de vigília, tal como Heinrich von Kleist, Novalis e Schelling formularam em enunciados lapidarmente distintos.
    • O perigo consiste em que associações são por vezes apresentadas como fatos, produzindo uma físiossofia que romantiza a realidade para transformá-la em metáfora
    • Não se poderia, sem grande prudência, inspirar-se hoje na Naturphilosophie
    • Desde que não se trate de renegar os métodos e as conquistas da ciência experimental, a Naturphilosophie poderia convidar a superpor a eles uma atitude de vigília
    • Heinrich von Kleist enuncia: Há dois tipos de pessoas. As que compreendem a metáfora, e as que compreendem a fórmula. As que compreendem as duas são poucas demais para formar uma classe
    • Os pensadores da Naturphilosophie buscam a fórmula deixando-se conduzir pela metáfora, confiantes num resultado onde intuição poética e indução científica convergiriam
    • Trata-se para eles de fazer do objeto o espelho da consciência, e da consciência o espelho do objeto
    • Novalis propõe espiritualizar o concreto dando carne e corpo ao espiritual
    • Essa posição está longe do idealismo no sentido absoluto do termo, bem como do naturalismo absoluto
    • Schelling escreve: O templo que se eleva até o trono da divindade repousa contudo suavemente sobre a Natureza — e repousa suavemente sobre ela porque, para Schelling, faz parte dela
  • Por volta de 1850, após sessenta anos desse movimento, a Natureza começa a aparecer cada vez mais como algo outro e estranho, deixando uma herança profunda que se detecta diretamente na Antroposofia de Rudolf Steiner e mais indiretamente na psicanálise — cujas origens se encontram em G. H. Schubert e C. G. Carus —, sendo Carl Gustav Jung talvez o último grande representante da Naturphilosophie romântica.
    • Os representantes dessa escola terão sido provavelmente os últimos de uma época em que o homem — ao menos o cientista — se sentiu em casa sobre a terra
    • A herança é detectável diretamente, por exemplo, na Antroposofia de Rudolf Steiner e em outros movimentos de caráter mais ou menos esotérico
    • Mais indiretamente, a herança se manifesta na psicanálise — cujas origens devem ser buscadas em G. H. Schubert e C. G. Carus
    • Carl Gustav Jung é talvez o último grande representante da Naturphilosophie romântica — ele que revelou a estrutura do inconsciente
    • É no inconsciente de Jung — não no de Schopenhauer, monolítico e furioso, nem no de Freud, igualmente monolítico no fim das contas — que se encontra uma chave para compreender
    • Jung diz dos alquimistas que o que viam no athanor — forno alquímico — era uma constelação de seu próprio inconsciente; isso poderia ser dito também da Natureza segundo os filósofos românticos
    • Mesmo quando não fizeram descobertas registradas pela história das ciências — com a exceção brilhante de Ritter e Oersted —, esses pensadores expressaram verdades de outra ordem: a do Imaginário, ou — para afastar qualquer suspeita de reducionismo — a do Absoluto
  • Permanece insuficientemente explorada a fecundidade potencial das estruturas imaginárias de vocação universal propostas por certos visionários, e a hipótese de uma conaturalidade entre o espírito humano e o universo — segundo a qual o espírito humano seria por vezes capaz de interiorizar e refratar sob forma de imagens e símbolos as próprias estruturas que mantêm o universo em sua coesão íntima — poderia revelar-se instrutiva e exploratoriamente fecunda.
    • A conaturalidade significa que o espírito humano e a Natureza se encontram associados em uma relação de analogia ou de homologia
    • Graças a essa relação, o espírito humano se mostraria por vezes capaz de interiorizar e refratar sob forma de imagens e símbolos as estruturas que, segundo o verso 383 do Primeiro Fausto de Goethe, mantêm o universo em sua coesão íntima — Was die Welt im Innersten zusammenhält, em tradução: o que mantém o mundo em sua coesão mais íntima
    • Raymond Abellio, impressionado pela estreita analogia revelada pela comparação entre os sessenta e quatro hexagramas do I Ching e os códons do código genético, atraiu a atenção para a possibilidade de tal conaturalidade
  • As verdades da Naturforschung romântica são hoje capazes de inspirar no sentido de uma racionalidade aberta, que sem renegar nada do aporte do método experimental clássico se mostra igualmente receptiva a outras dimensões, fecundando a pesquisa ao favorecer o advento de uma transdisciplinaridade bem compreendida e hoje indispensável, e nos desviando de calcar nossa representação do mundo unicamente sobre os princípios metodológicos da ciência positiva.
    • Trata-se de uma racionalidade suscetível de fecundar a pesquisa ao favorecer o advento de uma transdisciplinaridade bem compreendida e hoje indispensável
    • Essa racionalidade nos afasta de modelar nossa representação do mundo unicamente sobre os princípios metodológicos da ciência positiva
    • Os métodos da ciência positiva não deveriam jamais ser outra coisa senão servidores do conhecimento — ancillae philosophiae, expressão latina para servas da filosofia —, ou seja, meios em vista de uma abordagem funcional do real
  • A primeira metade do volume é dedicada a Franz von Baader, cuja intensa curiosidade pelas produções intelectuais de seu tempo e cuja posição crítica fundada em um pensamento de tipo resolutamente teosófico fazem dele um observador privilegiado, enquanto a segunda metade reúne estudos sobre Oetinger e seus teólogos da Luz, Werner, Ritter e Meyer, com seis dos dez estudos tendo como tema principal a Luz.
    • Os dois primeiros artigos sobre Baader tratam dos pontos de contato e das divergências entre teosophia e Naturphilosophie, e entre a Naturphilosophie puramente especulativa — à maneira de Hegel — e a Naturforschung romântica
    • Os dois artigos seguintes tratam cada um de um tema privilegiado do pensamento baaederiano: o Relâmpago ou a Luz, e a Sabedoria divina ou Sophia
    • A segunda metade do volume contém estudos apresentados em ordem cronológica dos autores tratados
    • Friedrich Christoph Oetinger e seus teólogos da Luz e da eletricidade são objeto de um artigo de conjunto, seguido de uma seleção de textos ilustrativos
    • Uma nota sobre o mineralogista Abraham Gottlob Werner é ocasião para evocar a Universidade de Freiberg — lugar de reunião de vários líderes do movimento romântico, incluindo Novalis e Baader
    • O estudo dedicado a Johann Wilhelm Ritter retoma a questão da Luz, cara a Baader e aos amigos de Oetinger
    • O último artigo é consagrado às intuições químicas e cosmosóficas de Johann Friedrich von Meyer — o teósofo de Frankfurt —, que na franco-maçonaria foi Cavaleiro Benfeitor da Cidade Santa
    • Seis dos dez estudos têm como tema principal a Luz, tema que se prestava e ainda se presta a uma escala imaginária tocada por virtuoses do símbolo
    • Se a Luz continua a inspirar visionários capazes de compor sobre ela variações sempre novas, a física e o mítico prolongarão seu fecundo abraço
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