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HOMEM

FAIVRE, A. Eckartshausen et la théosophie chrétienne. Paris: C. Klincksieck, 1969.

  • A análise da antropologia em Eckartshausen exige ir além dos relatos cosmogônicos, questionando o que se tornou o homem e sua descendência após a queda de Adão do lugar privilegiado que ocupava.
    • Justificativa e explicação da cosmogênese apenas por meio de sua condução a uma cosmologia e a uma escatologia.
    • Permanência do homem como a criatura mais nobre de Deus, possuindo em si um germe capaz de desenvolvimentos infinitos.
    • Manutenção do bem existente no homem ao vir ao mundo por meio da razão e pela religião.
    • Combate humano atual mais perigoso que o de Adão, devido à menor quantidade de forças para lutar contra os sentidos e ao maior número de perigos e distrações.
    • Estado de decadência e desorganização do homem atual, onde o que deveria governar está escravizado e o que deveria ser subordinado reina, sendo necessário o curvamento do homem exterior à vontade do homem interior.
    • Permanência da liberdade, mas com o Mal pesando mais que o Bem nas decisões atuais, ao contrário do cenário anterior à queda.
    • Definição da existência humana como algo emprestado e a construção de altares para o erro e a falsidade desde Adão.
    • Presença de uma grandeza digna do Criador em todo o ser humano, embora erros e preconceitos envenenem a inteligência, desejos e paixões corrompam o coração, e crimes e vícios afetem a essência.
    • Caracterização da situação atual como o reino da Besta, ou seja, do múltiplo, com a trilogia do número para os erros, da medida para as paixões e do peso para os vícios, desfigurando a ideia pura saída da boca de Deus.
    • Descrição da vida como uma pequena ilha doentia separando a humanidade da terra firme e da verdadeira natureza, com objetos atraentes semelhantes à poeira do verão e habitantes como folhas do outono.
    • Avaliação da vida como apreciável enquanto meio, pois se ela for tudo ela não é nada, mas se for contada por nada ela se torna tudo.
    • Possibilidade de modificar o homem, que perdeu o conhecimento do bem que o unia a Deus e à natureza, restando-lhe fazer frutificar seus conhecimentos durante o tempo de provação na Terra.
    • Atuação da divindade na salvação humana e o despertar de uma piedade proporcional à semelhança com o ser que sofre diante da dor alheia.
    • Estabelecimento da estada na Terra com o objetivo de atingir o mais alto grau de felicidade na eternidade, e não no tempo, por meio de desejos quase infinitos.
    • Recomendação de contentamento com pequenos prazeres enquanto se aguardam alegrias superiores às expectativas, mantendo a alma calma e sem arrebatamentos no clamor dos prazeres terrestres.
  • O coração humano necessita do espetáculo do alto, comparável ao sol primaveril que faz brotar flores e folhas, para recordar ao homem caído a sua origem e responder ao chamado da natureza que clama pelo retorno.
    • Proposta de permanência junto à fonte para evitar o consumo de pequenos riachos afastados.
    • Busca pelo reencontro da verdadeira proporção nas relações entre razão, vontade e ação pessoal, fazendo da moral a lei — em vez dos sentidos — e da perfeição o objetivo — em vez do prazer.
    • Impulso voltado à libertação das correntes do mundo sensível, com o espírito sendo capaz de ler pensamentos alheios e prever o futuro, conforme sequelas de certas doenças e descobertas do sonambulismo magnético.
    • Definição do homem como o elo mais elevado da cadeia dos seres terrestres e o último lugar na cadeia dos Espíritos.
    • Comparação do destino humano à trajetória do sol, do nascente ao poente, sendo uma imagem válida apenas para o indivíduo pela ausência de uma evolução biológica além do homem atual em Eckartshausen.
    • Consideração do estado do homem atual como o último para esta Terra e o primeiro para uma nova existência, com a rejeição da possibilidade de reencarnação para o homem—espírito.
    • Definição do homem—espírito como aquele guiado pela inteligência por intermédio da vontade, representando o mundo espiritual em miniatura.
    • Atribuição à inteligência e à vontade da capacidade de sentir a aproximação da divindade, gerando a iluminação, que é a faculdade da alma de receber a luz do mundo dos Espíritos e contemplar a relação entre todas as coisas.
    • Percepção inicial do infinito em sua unidade apenas por meio de uma multidão de marcas e imagens que, gradualmente, abrem os olhos para a verdade e relembram a sublime destinação humana.
    • Caracterização do mundo dos sentidos como um benefício do Ser que é puro amor, permitindo ao homem reencontrar o ponto do qual se desviou.
    • Atribuição a Deus das verdades disponíveis e das grandes invenções, com o lamento de que a humanidade frequentemente ignore a mão estendida para elevá-la ao sol, preferindo as sombras da lanterna mágica, ideia ilustrada no frontispício de Noites Místicas.
    • Anúncio pelo recém—nascido, por meio de choros e gemidos, de que a vida é repleta de tormentos físicos e morais, tendo o homem permanecido por quatro mil anos nas trevas.
    • Remissão dos pecados e concessão do pão do céu na atualidade, uma função não confiada sequer aos anjos.
    • Descrição da alma humana como um raio do amor divino e do homem como uma gota de orvalho tirada desse oceano de fogo ou bondade, pendurada em um galho e iluminada pelo sol da manhã, necessitando que o calor a absorva para reuni-la à fonte original.
    • Consideração do ser humano como algo durável em constante modificação, mais sensível ao presente e ao visível do que ao futuro e ao invisível, vivendo como um botão à espera de se tornar flor.
    • Avaliação como um grande bem o desconhecimento dos Espíritos que permaneceram mais nobres para evitar o autodesprezo humano, devendo o ser humano guiar-se pela fé e não pela visão do seu estado futuro.
    • Menção à existência de agentes de Deus, os profetas, encarregados de reconduzir a humanidade às verdades do espírito quando ocorre o distanciamento do interior.
    • Dificuldade de expor a pura substância de luz devido à desarmonia entre inteligência e vontade, decorrente da desorganização do coração e do cérebro desde a queda, tornando-os sujeitos à paixão e à tolice.
    • Insuficiência das forças humanas para a ascensão demonstrada pela divindade por meio de sinais, com energias superiores próximas e disponíveis para fazer brotar a centelha que ainda brilha no homem.
    • Diferenciação entre a situação dos anjos decaídos, com toda a energia alterada, e a situação humana, na qual apenas a vontade foi afetada, dependendo do próprio homem receber e espalhar essas forças benéficas, retornando à fonte desde a estada terrestre.
    • Ignorância geral do homem sobre a perfeição alcançável com a graça divina, sendo necessária a convicção de sua nobreza, da dignidade de sua origem e da grandeza de sua destinação, com capacidade para qualquer ação nobre ou virtude sublime.
    • Possibilidade de tudo pela presença de Deus, o verdadeiro, o imutável e a Unidade, no homem.
    • Presença dos sete Espíritos—fontes no homem na escuridão, mas não extintos, com o Verbo habitando os lábios e o coração, possibilitando o nascimento das três Pessoas divinas no interior humano.
    • Definição do coração como um órgão receptor e símbolo da energia central de mundos superiores, representando o primeiro portador de luz das inteligências no mundo angélico.
    • Busca por Deus no próprio homem, local de suas maiores obras, transformando o coração em sua morada e concedendo o poder de gerar filhos de Deus.
    • Purificação e união da alma ao mundo dos Espíritos graças ao interior, que é a visão da alma e o olho do espírito, algo incompreensível para o homem natural.
    • Destinação do coração para se tornar o Templo do ser mais puro, local do reino dos céus.
    • Visão de Deus pela alma por meio de uma inclinação do coração à qual Deus responde com Sua presença, e não pela fadiga do espírito ou por mortificações cruéis.
    • Composição do homem por três naturezas: física, espiritual e divina, com a morte e o pecado reinando apenas no mundo físico e desaparecendo antes do fim deste mundo.
  • A triplicidade da vida humana, ensinada pela experiência e pelo Evangelho, constitui no fundo uma vida única que se diferencia apenas em relação às suas diversas faculdades, alimentos e objetos.
    • Reflexo dessa vida tripla, com as mesmas leis e graus, em todo o gênero humano, concebido como o grande Homem Original do qual cada indivíduo é membro e reflexo.
    • Definição da vida espiritual, ou pneumática, como um privilégio do cristão.
    • Presença, no sangue de todos os homens, de um glúten mais próximo da animalidade do que do espírito, constituindo uma matéria de pecado cujos efeitos variam conforme as excitações sensíveis.
    • Relação entre os estados desse fermento de pecado e os vícios humanos: a expansão gera presunção e orgulho; a contração gera avareza, amor-próprio e egoísmo; a repulsão gera fúria e ira; o movimento circular gera leviandade e luxúria; a excentricidade gera gula e embriaguez; a concentricidade gera inveja; e a essencialidade gera preguiça.
    • Caracterização desse quadro como o estado de doença da humanidade, um fermento transmitido hereditariamente que bloqueia a ação simultânea do espírito sobre a matéria.
    • Possibilidade de dominar esse glúten, embora sem o poder de aniquilá-lo, funcionando como o estopim que acende as paixões animais e distorce o julgamento saudável ao fazer escolher o Mal pelo Bem.
    • Identificação dessa substância espessa e inflexível como a causa da ignorância, por pesar sobre as fibras delicadas do cérebro e impedir a atividade da razão necessária para penetrar os objetos do entendimento.
    • Atribuição do falso e do mal a essa matéria de pecado, enquanto o bem e o verdadeiro são atributos do princípio espiritual.
    • Proposta de busca pelo remédio não na natureza, mas no princípio universal de Luz, na corporeidade divina que irriga tudo, ou seja, na Sabedoria Divina e no Verbo vindo ao mundo.
    • Definição do sangue de Cristo como uma essência tintorial destilada na natureza para devolver aos homens a capacidade de imortalidade.
    • Ênfase na necessidade de submissão a essas influências benéficas, com a insuficiência e os perigos da razão humana isolada.
    • Caracterização da luz atual como emprestada dos sentidos, conduzindo apenas à ciência e jamais à sabedoria, o que faz a razão assemelhar-se a um macaco que imita a natureza exterior.
    • Defesa de que a razão deveria seguir as leis eternas e imutáveis de Deus, pois uma inteligência sem a cultura do coração atua como um torrent indomável que inunda e devasta tudo.
    • Concepção da criação como a realização das ideias divinas, as quais constituem o pensamento humano.
    • Explicação de que o mundo da inteligência é dominado pelo da razão pura, permitindo a aproximação de mundos superiores, com o reparo de Kirchberger sobre a falta de distinção clara em Eckartshausen entre inteligência e razão pura.
    • Consideração do erro dos sábios em buscarem a luz em si mesmos como uma grave consequência do pecado original, comparando a situação atual a uma caverna escura onde mil velas acesas jamais igualarão a luz do sol.
    • Sustentação de que as verdades são eternas e não inventadas, mas apenas desenvolvidas, exigindo que a exaltação do espírito acompanhe o refinamento dos sentidos, de modo semelhante a um vidro aquecido gradualmente que recebe água quente sem quebrar.
    • Comparação do espírito à flor na montanha que recebe apenas o orvalho puro e os primeiros raios de sol, devendo o homem admitir que Deus, sensível ao coração, não pode ser compreendido, mas sim amado.
    • Menção à perspectiva de Bayle de que a razão é um princípio de destruição e não de edificação, embora esse espírito capcioso conclua pelo ceticismo total, método adotado por aqueles que buscam no raciocínio apenas razões para duvidar.
    • Primado da fé sobre a razão assim como a graça sobre a natureza e a caridade sobre o amor-próprio, sustentando-se mutuamente, sendo a primeira tarefa da razão conhecer seus próprios limites.
    • Ironia sobre a visão da escolástica como baluarte da fé, comparando-a à tentativa de proteger uma rocha com palha, dada a solidez infinitamente superior da fé.
    • Rejeição do imperativo moral de ser virtuoso pelas próprias forças como uma falsa filosofia, pois a força provém da ajuda de Deus, assim como ocorreu com os discípulos de Jesus após receberem o Espírito Santo.
    • Capacidade da razão de dar a conhecer l'existence de Deus, mas com esse conhecimento sendo insuficiente para mover a vontade sem o acréscimo de uma percepção mais interior, como o sentimento moral do Bem, a contemplação ou a Révélação.
    • Preservação da liberdade humana pela falta de adesão universal à Révélação, faculdade não perdida com a queda.
    • Descrição do mundo efêmero dos sentidos como coberto por uma camada de obscuridade que atua como provação.
    • Alerta contra a sede excessiva de precisão e a satisfação de paixões desordenadas, sem que isso impeça o desenvolvimento do princípio do conhecimento e a capacidade de reunir verdades.
    • Definição da verdadeira ciência como aquela que capta os raios puros da luz original para refleti-los sobre os semelhantes, exigindo o foco no coração humano e não na alma do Universo defendida pela Ilustração.
    • Classificação do homem como o sol e o objeto mais importante do mundo, participando de duas ordens de conhecimento que o tornam semelhante a uma árvore cujo espírito é a raiz, as faculdades são o tronco e os ramos, as palavras são as folhas, a vontade é la flor e a virtude é o fruto.
    • Explicação de que o desenvolvimento harmonioso requer saber que o homem recebe as ideias a priori pela contemplação de um único princípio, percebendo-se os fenômenos pelos sentidos e a consciência dos princípios pela faculdade de contemplação.
    • Definição da insensatez como um desregramento da inteligência e da alienação como um desregramento dos sentidos e sentimentos.
    • Atribuição dessa polaridade ao fato de os sentidos receberem elementos compostos, enquanto a inteligência recebe os princípios e a Unidade.
    • Pensamento exclusivo de ideias divinas, pois tudo o que existe é expressão da Ideia divina, produto da emanação da razão que se dissolve por remanação no princípio.
    • Orientação para o homem não buscar a sabedoria na própria razão, mas deixar-se guiar pelo princípio divino, exemplificado pelos apóstolos que, sendo simples pescadores, realizavam milagres pelo espírito de Deus.
    • Advertência de que aqueles que buscam demonstrar tudo ignoram a existência de verdades acessíveis apenas aos que estão no princípio, sendo os filósofos incapazes de penetrar as profundezas humanas.
    • Reconhecimento da ausência de ideias inatas, visto que tudo provém dos sentidos, cuja alteração modificaria a percepção do mundo, com a recomendação de modéstia aos filósofos.
    • Substituição da expressão kantiana razão pura por razão mais pura para qualificar a faculdade pensante antes da queda, a qual não desapareceu totalmente no homem atual.
    • Demarcação dos limites da razão comum com precaução por Eckartshausen, conforme indicado na obra Code de la razão humaine, que associa esse conceito à criação e ao conhecimento de Deus.
    • Defesa da união entre o compreender e o sentir, expressa nos versos: O coração sem o espírito só comete erros, O espírito sem o coração só causa infelicidades, O espírito com o coração produzem todas as nossas felicidades.
    • Suficiência do conhecimento prático validado pela experiência e utilidade na maior parte do tempo, sem necessidade de uma precisão extrema.
    • Crítica ao orgulho dos filósofos que determinam o conhecimento puro a partir dos sentidos sem observar a progressão das coisas, esquecendo o estado de degradação e a perda tanto na inteligência quanto na vontade.
    • Proposta de busca pela verdade por meio de três graus de conhecimento: no físico, no espiritual e no divino.
    • Descrição da incapacidade atual de contemplar a Luz e a verdade nua como a nuvem sobre o santuário, comparando a grosseria da matéria que envolve a parte espiritual à fragilidade intrínseca do vaso de argila.
    • Identificação da inflexibilidade das fibras e a imobilidade dos humores como correntes materiais que sufocam a voz da verdadeira razão devido ao barulho dos elementos da máquina corporal, assemelhando-se a nuvens que obscurecem o sol.
    • Refinamento apenas do homem-animal pelo ápice da cultura até o momento, com o anúncio do início de um período de maior necessidade de luz e razão.
    • Comparação da situação atual à de paralíticos dependentes das muletas da razão natureza — que exibe a aparência no lugar da verdade — e do sentimento natural — que faz escolher o mal pelo bem.
    • Representação da vontade como o boi atado ao jugo das paixões e da razão como a alma que acolhe preconceitos e tolices, necessitando receber luz do alto.
    • Simbolismo da centelha sagrada humana pelo fogo que devora o holocausto, a qual teria resplandecido no Templo da criação se o homem não tivesse se afastado do seu objetivo.
    • Menção, em correspondência a Jung-Stilling, a uma faculdade superior à razão com formas, meios e métodos próprios, cujos meios de conhecimento são formas originais ligadas às ideias primordiais da divindade.
    • Visão dos objetos do mundo espiritual pelo olho interno sob a luz da divindade por meio da progressão e da proporção.
  • A análise da razão humana introduz a compreensão de duas outras faculdades essenciais: a vontade e a imaginação.
    • Alteração da vontade humana, exigindo pensar e querer em Deus para atuar no relacionamento correto, renascendo na vontade divina para receber sua energia.
    • Definição da vontade como o primeiro direito e o elo entre os Espíritos e Deus, com a liberdade divina caracterizada por uma vontade que não pode ser mal empregada, ao passo que a das criaturas comporta o abuso.
    • Contraste entre o reino das forças superiores, onde a vontade se exerce sem intrigas, e a realidade dos grandes do mundo terreno.
    • Dependência da recepção da luz do alto em relação ao aperfeiçoamento da vontade, que permanece como uma centelha secreta capaz de assemelhar-se à luz solar.
    • Subordinação da inteligência à Fé, do coração à Esperança, e da vontade à Caridade, compondo-se a grande cadeia dos seres de membros com vontade pura.
    • Instrução da alma pela presença divina sobre as ações necessárias para agir em conformidade com Sua vontade, exigindo atividade espiritual pelo fato de o fogo que repousa sob a cinza ser um fogo morto.
    • Atribuição da felicidade mais às ações do que à ciência, definindo-se a vontade como o órgão da razão que conecta o espírito à alma e a alma ao coração.
    • Valorização da imaginação pela capacidade de extrair o simples do múltiplo, unindo e assimilando imagens quando segue a ordem das coisas, ou gerando erros e extravagâncias caso contrário.
    • Consideração da imaginação, do julgamento, de la inteligência, da memória e do pensamento como progressões de uma única força da alma necessária para a relação com o corpo, as quais retornam à fonte onde não há tempo nem imagens.
    • Recomendação de moralizar a imaginação, considerada a inimiga mais perigosa da razão quando desregulada, pois o coração não pode ser moral se a imaginação não o for.
    • Definição dessa faculdade como mais ativa do que passiva, sendo a fonte de todas as invenções e das impressões agradáveis ligadas às artes, com consequências às vezes mais duradouras que as sensações reais.
    • Advertência para a necessidade de pensar mais com a razão do que com a imaginação, com o ser humano sendo mais ativo do que pensante, cabendo à razão fechar os ouvidos às sereias enganosas.
    • Exigência de manutenção de uma imagem precisa da ordem universal para harmonizar as modificações internas e externas aos deveres de homem, cidadão, patriota, cristão e imortal.
    • Caracterização do excesso da imaginação como sinal de decadência quando esta supera a vontade e a razão, embora seu uso consciente permita realizar feitos extraordinários.
    • Visão e audição durante os sonhos sem necessidade de olhos e ouvidos, explicando-se o mistério do sonambulismo e do sono magnético através da vibração que a alma exerce sobre os nervos.
    • Relato da narrativa de um sonho sob a forma de poema por Eckartshausen, que por vezes encara a vida real como um mau sonho do qual desejaria despertar, um tema recorrente no romantismo alemão.
    • Vínculo entre fenômenos do inconsciente e fatos sobrenaturais ou manifestações suprasensíveis, com imagens registradas pelo espírito modificando ações sem a intervenção da reflexão consciente.
    • Ilustração do impacto de cores e imagens na reconciliação de indivíduos, como no caso do funcionário orientado a usar um traje verde e uma rosa para agradar o chefe, ou do casal reconciliado após a eliminação de um perfume com musgo, indesejado pelo marido.
    • Narrativa sobre a dama que readmitiu um antigo doméstico após Eckartshausen posicionar o retrato do falecido amante dela ao lado da caixa de pagamento, demonstrando a eficácia prática dessas teorias psicológicas.
  • As concepções antropologicamente relevantes de Eckartshausen sobre o homem atual — a humanidade após a queda — concentram-se nos problemas psicológicos e caracterológicos e na teoria da linguagem.
    • Remessa das questões morais para o estudo sobre o homem e a sociedade, por estarem ligadas apenas indiretamente à visão fundamental da antropologia.
    • Dependência da psicologia em relação à compreensão dos laços entre alma e corpo, constituindo os elementos ar e fogo um corpo etéreo denominado corpo da alma ou esquema de percepção.
    • Comparação do caminho da alma ao corpo à transição da luz ao crepúsculo, reforçando a premissa de que nenhum domínio está isolado.
    • Definição dos órgãos dos sentidos como filtros que conduzem partículas grossas à unidade do espírito e da alma, a qual possui faculdades excepcionais por ocupar a última posição na cadeia dos Espíritos.
    • Condicionamento da vida interior à constituição e às circunstâncias, exigindo que o tratamento do homem o considere um organismo conectado ao grande espírito da natureza.
    • Vínculo entre a saúde moral e a saúde física ou a ciência das sensações, que ensina a suportar a dor e a aproveitar a alegria, com o verdadeiro prazer devendo ligar-se à alma e não apenas aos sentidos.
    • Denominação de ciência das sibilas para a arte de prever ações humanas e adivinhar pensamentos secretos por métodos naturais.
    • Apresentação do quadro caracterológico relacionando temperamentos, elementos, cores, paixões e sangue:
      • Sanguíneo — Ar — Brilhante — Leviandade — Claro
      • Fleumático — Água — Branca — Indiferença — Blanquecino
      • Colérico — Fogo — De fogo — Ira — Escuro
      • Melancólico — Terra — De chumbo — Tristeza — Negro
    • Origem da esmola dada por um sanguíneo na quebra de seu equilíbrio pela visão do pobre, e não necessariamente na virtude, assim como uma doença pode anular o interesse por atividades antes vitais.
    • Associação entre o magnetismo e a capacidade de meios físicos para gerar ou suprimir distúrbios nervosos e doenças da alma.
    • Atribuição do temperamento de nascimento à constituição dos pais e ao estado de seus humores e sangue na procriação, com a recomendação de evitar a concepção sob o efeito da ira.
    • Menção a aberrações psicológicas, como o homem que dependia do toque no veludo para relacionar-se ou outro que desmaiava ao tocá-lo, além do indivíduo que buscou um autômato que simulava a agonia por prazer em ver a morte.
    • Busca pela explicação para tais desvios em experiências remotas vividas pela mãe na gravidez ou na sensibilidade dos corpúsculos do tato.
    • Proposta de estudo dos homens em função do clima, ar, alimentação e profissão para discernir a verdadeira felicidade, que consiste na aproximação da divindade e da destinação eterna.
    • Análise da imaginação conforme o temperamento: lenta no fleumático, rápida no colérico, clara no sanguíneo e duradoura no melancólico.
    • Classificação dos crimes segundo o tipo caracterológico: sanguíneos agem por precipitação; coléricos cometem crueldades e violência; fleumáticos praticam abusos por negligência; e melancólicos executam crimes premeditados.
    • Citação de Helvetius para explicar que falsos julgamentos derivam da ignorância ou das paixões, e de Baader para ilustrar o caráter destrutivo da paixão.
    • Definição do verdadeiro entusiasmo como o acolhimento da luz sob o raio da razão, distinguindo-o de interesses desordenados.
    • Exemplo de caráter patológico na história real de Marie, que assassinou familiares mantendo-se impassível no julgamento.
    • Alteração das feições faciais conforme os pensamentos, permitindo decifrar a verdade do coração através desses hieróglifos.
    • Origem das paixões em forças expansivas ou contrativas, sendo o amor romântico ou exaltado uma doença da alma prejudicial por romper o equilíbrio.
    • Contraste com o amor duradouro baseado no respeito e na amizade, que eleva o sentimento à exaltação da alma, com os exaltados religiosos, filosóficos ou sensuais partilhando da mesma enfermidade.
    • Definição da filosofia cristã como a união de sobriedade, conhecimento da natureza, sã moral e vontade nobre.
  • A experiência demonstra que a paixão conduz inevitavelmente à dor, ao passo que uma tensão harmoniosa e simultânea de todos os sentidos proporciona deleite, como ilustrado pelo leito celeste do Doutor Graham, reproduzido por Eckartshausen com um mecanismo de leve movimento.
    • Aceleração da morte pelo flogístico do sangue, sendo o rejuvenescimento associado à ausência de matéria inflamável mediante ar puro, alimentação correta, água, eletricidade negativa e um meio ocultado pela divindade.
    • Permissão ao homem para provar o suco das folhas da árvore da vida através de um ramo próximo, embora pouco conhecido.
    • Divergência entre as teorias da linguagem de Eckartshausen e Saint-Martin em relação a Boehme: para este, as línguas atuais mantêm um caráter representativo, enquanto para os dois primeiros elas designam as coisas de modo insuficiente.
    • Busca pela formulação de uma teoria sobre uma língua universal, afirmando-se a existência de uma linguagem de Deus e das coisas expressa através de suas energias.
    • Definição das palavras como invólucros de pensamentos e ideias encarnadas, sendo as obras as manifestações do Deus que é Verbo falante.
    • Presença desse Verbo criador no homem, deformado pela queda, sendo o sensível a expressão de forças suprasensíveis que operam conforme o tempo e a progressão.
    • Comparação do processo da fala, que se origina completo no espírito antes de se envolver em palavras, à forma externa da natureza que manifesta sua essência interior.
    • Definição de cada indivíduo como uma palavra divina e da linguagem humana como um tipo da linguagem da natureza, com a concepção de uma linguagem espiritual através do sopro e do contato direto com a alma.
    • Identificação da música como expressão da harmonia presente para a alma, subsistindo como harmonia das esferas mesmo quando o ouvido nada percebe.
    • Carakterização do mundo visível como figura do invisível, onde o exterior é a assinatura do interior que trabalha constantemente para se manifestar.
    • Substituição do termo língua por logos, com a distinção entre a linguagem silenciosa da alma que contempla a própria imagem e a linguagem sonora que comunica espíritos por emanação ou irradiação.
    • Comparação da recepção da luz divina pelo homem ao reflexo da luz solar pela lua, constituindo a refração desse raio as letras da escrita divina e os caracteres primitivos das coisas.
    • Associação desse mistério à Tábua de Esmeralda, com a consideração da natureza como uma escrita permanente que comunica a verdade a quem sabe lê-la.
    • Definição do universo como um conjunto de caracteres e de cada forma como a letra viva de um grande alfabeto que revela o amor, a verdade e a sabedoria de Deus, elevando a leitura dos símbolos às formas primordiais.
  • A língua humana manifesta forças espirituais e intelectuais cuja origem decorre de uma ordem superior, não se explicando por fatores históricos ou pela organização física.
    • Fundamentação da compreensão analógica na linguagem, permitindo reconhecer o Uno no múltiplo, o invisível no visível e a energia no efeito.
    • Viabilização da civilização pelas línguas, embora nenhuma seja perfeita por expressar apenas marcas e não as coisas em si, gerando ambiguidade nos termos filosóficos até que a unidade se realize no interior.
    • Vinculação entre a imperfeição linguística e a necessidade de uma língua e escrita primitivas únicas, cujo desaparecimento é sinalizado pela busca humana por aprender múltiplos idiomas.
    • Rejeição da invenção arbitrária das letras, com as primeiras simbolizando as progressões da inteligência, enquanto as palavras expressavam a vontade e os sentimentos.
    • Lamento pela perda da língua de luz devido ao obscurecimento do simples pelo múltiplo, embora ela ainda penetre a casca grossa das letras atuais através de formas luminosas.
    • Explicação de que a aproximação dessa luz pela prece, união e fé permite à razão ver objetos espirituais e refrações que formam ideias luminosas inexprimíveis pela linguagem comum.
    • Definição do idioma corrente como o tipo da língua primitiva na qual as formas geram construções de luz, transmitidas apenas de boca em boca.
    • Atribuição do empobrecimento espiritual das línguas ao acúmulo de palavras e ao enredamento do espírito na letra, distanciando o homem do Verbo intelectual e físico da divindade.
    • Evocação de Herder para sustentar que as letras são fontes de erros e que o homem em contemplação não consegue comunicar sua visão.
    • Origem da obscuridade das línguas atuais no obscurecimento do médium entre o mundo sensível e o intelectual, sendo as mais antigas da Ásia mais perfeitas e simples por possuírem poucas raízes, como o bengali com setecentas raízes.
    • Vinculação da origem da escrita luminosa à razão divina expressa pelas formas da Sabedoria, as quais constituem o modelo recebido por Moisés para organizar o alfabeto da língua de luz, denominada Sabedoria criada ou exemplar de toda a criação.
    • Comparação desse sistema a um espelho e a pontes que ajudam a atravessar os torrentes do mundo dos sentidos, preservados pela Tradição e vigentes na Antiga Aliança como a ciência secreta dos sacerdotes.
    • Realização de milagres pela união de espírito, alma e corpo que permite falar uma língua de energia capaz de penetrar no interior das coisas, poder possuído por Jesus para comandar aos elementos.
    • Identificação da expressão do Christ em nós como o momento em que o Verbo feito carne se torna Verbo no homem, operando como Tudo em Tudo.
    • Contraste com as línguas vulgares, com os espíritos se comunicando por meio da evidência de seus pensamentos, uma experiência restrita a poucos, cuja ampla difusão seria um flagelo inadequado à natureza grosseira da atividade terrena.
    • Desilusões trazidas a Eckartshausen pelo conhecimento direto do interior das pessoas sem o uso da linguagem.
    • Recomendação de estudo modesto das línguas atuais, com a escrita servindo à inteligência e a língua ao coração, expressando os vocábulos apenas nomes e não as coisas.
    • Desnecessidade da linguagem caso houvesse a ausência da organização corpórea grossa, pois esta constitui apenas a explicação das impressões.
    • Classificação da audição como o sentido mais enganoso e sujeito aos caprichos da imaginação, com a visão sendo menos propensa a desvios.
    • Acordo com Herder sobre a linguagem humanizar ao conter o fluxo de sensações, embora possibilite a mentira, ao contrário dos animais que expressam apenas o que sentem.
    • Proposta de classificação do canto das aves segundo os sentimentos expressos, considerando seu idioma de interesse por serem os animais mais comunicativos, o que explicaria a compreensão demonstrada por Apolônio de Tiana.
    • Fundamentação da teoria da linguagem na lei da analogia, onde palavras contêm letras, sílabas, progressões, números e linhas, atuando como invólucros das ideias tornadas sensíveis.
    • Análise do simbolismo das letras: I representa a Unidade e o espiritual, aliando-se apenas ao X, que simboliza a plenitude e a natureza; O representa a periferia e o mundo dos sentidos; U exprime a união entre o espiritual e o material através da lei da assimilação, originando a consoante Q; E é o quadrado do tempo; A vincula-se ao H e ao K como o tipo das duas energias da natureza.
    • Instrução contida na pronúncia: A é livre; E impõe limites à sua infinitude; I exige um recuo da garganta que depura o sopro interno; U mimetiza a união espiritual e material pelo lábios em formato de círculo.
    • Definição do traço ou caractere como anterior à letra e próximo do espiritual, funcionando as letras como hieróglifos primordiais das primeiras energias.
    • Atuação do homem sempre dentro das leis essenciais, de modo semelhante ao desenhista que opera com linhas retas e curvas, refletindo as ideias divinas na alma como imagens coordenadas pelo pensamento.
    • Caracterização da primeira língua original como justa por ser o tipo da natureza, onde as letras mostravam as energias, as sílabas indicavam as ações e a palavra apontava o todo, repetindo as três progressões das coisas criadas através de vogais imateriais e consoantes corporais.
    • Demonstração da lei geral da formação das letras por meio do estudo dos caracteres samaritanos, sírios, turcos, persas, fenícios, armênios, etruscos e chineses.
    • Presença comum das teorias sobre a origem da linguagem entre os teosofistas e no pensamento romântico, que eleva a poesia ao nível da religião e transforma a palavra em magia.
    • Alinhamento da afirmação de Saint-Martin sobre o direito dos poéticos caminhar ao lado do dos profetas com a visão de Novalis sobre ancestrais que acumulavam funções de adivinhos, sacerdotes, legisladores e médicos.
    • Impossibilidade concebida por Madame de Staël de que a transição do grito selvagem à perfeição da língua grega ocorresse por gradação simples.
    • Ausência de uma teoria original da linguagem em Eckartshausen, destacado por recolher uma tradição em sua pureza sob as marcas da analogia e das formas luminosas.
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