25 de junho de 1943
MALLASZ, Gitta. Dialogues avec l’ange: les quatre messagers. Nouv. éd ed. Paris: Aubier, 1989.
(Diante do meu comportamento apático e superficial, Hanna sente uma tensão crescer dentro dela, seguida de uma impaciência e uma raiva de uma natureza desconhecida.
Enquanto me olha, ela tem — de olhos abertos — a seguinte visão: uma força arranca o papel das minhas mãos, o rasga e joga os pedaços na minha frente em sinal de desaprovação diante desse trabalho que ficou bem abaixo das minhas capacidades. Hanna gostaria de dizer algo, mas para de repente. Ela sente que não é mais ela quem vai falar, mas ainda assim me avisa: «Cuidado! Não sou mais eu quem fala», e então eu a ouço pronunciar estas palavras :)
– Vamos fazer com que você perca o hábito de fazer perguntas inúteis!
Cuidado! Em breve, você terá que prestar contas!
(Ouço claramente a voz de Hanna e, ao mesmo tempo, sei com certeza que, naquele momento, ela é apenas um instrumento. Tenho a sensação de conhecer quem me dirige essas palavras severas. Por isso, mal fico surpresa. Sinto que algo muito natural está se cumprindo.
Ao mesmo tempo, tenho uma visão justa e impiedosa de mim mesma. Num lampejo, me é mostrado o que eu deveria ter escrito sobre meu estado interior: sou tomada pelo medo e pela vergonha. Hanna sente então, naquele que se expressa através de sua voz, que a indignação e a raiva provocadas pelo meu trabalho superficial e estagnado se dissipam diante da minha sincera vergonha.)
– Agora está bom.
O arrependimento é, ao mesmo tempo, o perdão.
(Silêncio.)
Você precisa mudar radicalmente.
Seja independente!
Você é demais e de menos.
G. Não entendo.
– Pouca independência, muita matéria.
(Agora vejo o quanto sou preguiçosa para pensar por mim mesma.)
– Em solo duro não se semeia a semente.
Você será lavrada por uma busca incansável.
O que era bom até agora será ruim.
O que era ruim será bom.
(Um longo silêncio precede esta pergunta que me toca profundamente:)
– Você me conhece?
(Sei que o conheço, sei que ele é meu mestre interior e essa certeza é inabalável; mas não tenho nenhuma lembrança. Sinto que névoas densas me cobrem. Tento, em vão, atravessá-las.)
– Você me conhece?
(Essa pergunta me penetra ainda mais. Estou à beira da lembrança e me debato para recordar, mas sou incapaz. Hanna sente, nesse instante, que aquele que me fala me observa durante todos esses esforços com ternura.)
– Tu és pagã, mas está tudo bem.
Tu serás batizada com a Água da Vida.
Tu receberás um novo nome.
Esse nome existe, mas não posso revelá-lo.
Prepare-se para isso!
(Mal consigo compreender o significado do que me foi anunciado. Estou mergulhada em uma espécie de espanto, em que o sentido do que acabei de ouvir se torna, pouco a pouco, mais claro.)
– Você pode me fazer perguntas.
(Eu seria incapaz disso! A compreensão gradual do que aconteceu me preenche completamente.)
– Aquela que fala está cansada, dê-lhe força!
Nós nos encontraremos novamente.
(À noite, Hanna e eu anotamos imediatamente as palavras ouvidas. É fácil, pois cada palavra ficou gravada em nossa memória. Hanna descreve sua própria experiência assim:
«Durante toda a conversa, minha consciência estava como que ampliada. Por um lado, eu via a sala, você e o que se passava em você com uma precisão surpreendente.
Por outro lado, eu estava consciente da presença viva daquele que falava contigo e precisava buscar as palavras certas para traduzir o que ele queria expressar através de mim.
Ao mesmo tempo, eu sentia suas emoções, que eram de uma qualidade e intensidade totalmente diferentes das nossas, embora eu só possa nomeá-las agora com nossas palavras habituais: raiva, amor, ternura…
No entanto, era bem eu quem também estava ali. Eu assistia às palavras que se formavam em mim com surpresa e admiração.”
Então, faço a Hanna a pergunta que mais me interessa:
“Essa promessa de um novo encontro, para quando é? O que você sentiu?”
(Ela responde que talvez seja daqui a sete dias.
Naquela mesma noite, contamos a Joseph e a Lili o que aconteceu.
Joseph — que era materialista — decide ficar de fora disso.
Lili, por outro lado, deseja assistir em silêncio à próxima conversa e se encarrega até mesmo de tomar notas.)
