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Ungrund e Liberdade

Jacob Boehme, Mysterium Magnum. Tr. N. Berdiaeff. Paris: Aubier, 1945.

Estudos sobre Jacob Boehme (1) por Nicolas Berdiaeff

  • “Ungrund” e liberdade
    • A obra de Jacob Boehme é reconhecida como uma das maiores expressões da gnose cristã, entendida como um saber contemplativo baseado em mitos e símbolos.
    • Um poema de Angelus Silesius é citado para ilustrar a busca de Boehme no coração de Deus.
    • Boehme era um artesão sapateiro, de grande simplicidade de coração, e não um erudito escolástico.
    • Sua principal fonte espiritual era a Bíblia, mas ele também lia Paracelso, Franck, Weigel e Schwenkfeld.
    • Ele vivia na atmosfera mística e teosófica da Alemanha de seu tempo, sendo um visionário criador de mitos.
    • Embora luterano e perseguido pelo clero luterano, ele estava acima das confissões religiosas.
    • Seu saber não pode ser explicado apenas por influências externas, pois ele possuía intuições originais.
    • Em citação direta, Boehme afirma que seu mestre foi a Natureza inteira, e não métodos ou fórmulas humanas.
    • Ele acreditava que o conhecimento vinha pela intercessão do Espírito Santo, unindo a criatura animal e a divindade.
    • Sophia o ajudava a penetrar os mistérios divinos, vestindo-o com o manto da nobre Virgem.
    • Ao contrário da maioria dos místicos, Boehme fala de Deus, do mundo e do homem, e não de sua própria alma, o que caracteriza sua teosofia mística como gnóstica.
    • O mundo visível é uma imagem e um reflexo do mundo espiritual invisível, e o céu se abre dentro do homem.
    • O homem é um “espelho” que contém céu e inferno, sendo a condição para o conhecimento de Deus e do mundo.
    • O mundo visível é um símbolo do interior, onde todas as qualidades físicas representam as espirituais.
    • Em citação direta, Boehme afirma que o mundo exterior é um signo ou aparência do mundo interior e espiritual.
    • Conhecer Deus é vê-lo nascer na própria alma, o que exige purificação pelo Espírito de Deus.
    • Boehme é um realista simbólico, não um idealista, pois mantém o vínculo vivo com a existência real.
    • Sua gnose era experiencial, nascida dos tormentos sobre o destino do homem e do mundo.
    • Sua intuição fundamental sobre a existência era o fogo, aproximando-o de Heráclito, com um agudo sentimento do mal e da luta entre luz e trevas.
    • Ele percebe Deus tanto como Amor quanto como Cólera, vendo uma natureza tenebrosa na própria Divindade, que é um abismo irracional.
    • Sua visão dinâmica e moderna do mundo como luta e processo o distingue da concepção estática de Tomás de Aquino e Dante.
    • Boehme refletiu profundamente sobre a origem do mal e a teodiceia, buscando salvação no coração de Jesus.
    • Como citado por Koyré, Boehme partia dos tormentos do problema do mal, buscando primeiro a salvação e depois o conhecimento.
    • Ele descobriu que cada coisa só se revela por outra que lhe resiste: a luz pelas trevas, o bem pelo mal.
  • II
    • Boehme busca resolver a questão da transição de Deus para o mundo, do uno ao múltiplo, e do eterno ao temporal.
    • A teologia apofática é mencionada em relação a Eckhardt e Weigel para explicar que Deus, Absoluto e sem criatura, é impessoal e inativo.
    • Boehme via um princípio ternário em todo o universo como imagem da Trindade Divina, ensinando um processo teogônico e um movimento em Deus.
    • Sua concepção dinâmica de Deus se opõe à estática da ontologia grega (Parmênides, Platão, Aristóteles) que influenciou a teologia tradicional.
    • O Deus da Bíblia e do Apocalipse, que sofre a paixão da cruz, é um Deus móvel e cheio de vida interior dramática.
    • A importância de Boehme está em introduzir um princípio dinâmico na concepção de Deus, após o domínio da filosofia grega e escolástica.
    • Ele foi uma alma nova que, não se contentando em ser um pecador humilde, quis conhecer a origem e o significado do mal como um gnóstico.
    • Ele viu um princípio sombrio nas fontes primeiras da existência, mas não caiu no dualismo maniqueísta, pois o bem não pode ser concebido sem o mal.
    • Seu sentimento moral do mal, herança de Lutero, transforma-se em um sentimento metafísico voluntarista, distinto do intelectualismo grego e medieval.
    • A metafísica de Boehme é voluntarista, impregnada de uma vontade mágica, irracional e sonora, onde “toda vida é fogo”.
    • A doutrina da Ungrund (Indeterminado) é uma tentativa de responder à questão fundamental da aparência do mundo e do mal, estando entrelaçada com a da liberdade.
    • Berdiaeff inclina-se a interpretar a Ungrund como uma liberdade absolutamente original, anterior ao ser.
    • Ele critica a teologia racional tradicional (cataphatique) por transformar a relação entre Deus e o mundo em uma comédia, um jogo de Deus consigo mesmo.
    • Nessa “comédia”, Deus cria o homem com a liberdade, prevendo o mal e a danação, o que torna a liberdade fictícia e leva à doutrina da predestinação.
    • O problema de Ivan Karamazov é transposto para a eternidade com as dores de inúmeros seres vivos.
    • Boehme, ao contrário, concebe o mistério da criação do mundo não como uma comédia, mas como uma tragédia, falando de um processo teogônico na vida interior e eterna de Deus.
    • A criação do mundo faz parte da vida interior da Trindade divina, e o princípio do mal torna-se verdadeiramente grave e trágico.
  • III
    • A doutrina da Ungrund é desenvolvida principalmente em De Signatura Rerum e Mysterium Magnum para responder ao mistério da liberdade, à origem do mal e ao combate da luz com as trevas.
    • Em citação direta, Boehme define Deus fora da natureza como um Nada, um olho insondável da eternidade, que é uma vontade indeterminada e um desejo de manifestação.
    • A Ungrund é o Nada, o olho insondável da eternidade e, ao mesmo tempo, uma vontade sem fundo, sendo a “fome do Algo” e a “Liberdade”.
    • A liberdade é a contraparte da natureza, que emana dela, e o Nada não pode nem quer ser um Nada.
    • Em citação direta, Boehme descreve que a liberdade reside nas trevas e é a causa da luz, havendo dois princípios: um na liberdade e luz, outro na dor e sofrimento das trevas.
    • Boehme é o fundador de um voluntarismo metafísico, para quem a vontade (liberdade) é o princípio de todas as coisas, residindo nas profundezas da divindade e antes dela.
    • A Ungrund divina, o Nada, está além do Bem e do Mal, sendo a condição para Deus se engendrar a partir dela, uma ideia profunda da mística alemã que distingue a Divindade de Deus.
    • O Nada é mais profundo que o Algo, as trevas são mais profundas que a luz, e a liberdade é mais profunda que a natureza.
    • A liberdade não é a natureza, não foi criada, e Deus é descrito como uma vontade da Ungrund que se engendra na sabedoria eterna.
    • A liberdade tem suas raízes no Nada, possui em si mesma o juízo do Bem e do Mal, a cólera e o amor de Deus, as trevas e a luz.
    • O caos é a raiz da natureza, significando a liberdade, a vontade irracional, sendo a liberdade o próprio Deus no começo de todas as coisas.
    • Boehme foi o primeiro a fazer da liberdade o fundamento primeiro do Ser, mais profundo e primário que o próprio Deus.
    • O mistério primeiro do Ser é uma iluminação repentina da liberdade tenebrosa, uma solidificação do mundo a partir dela.
    • Em citação direta, Boehme afirma que o fogo frio das trevas se acende, e que tudo seria Nada e Indeterminado se não fosse o fogo.
    • O Nada tem a paixão do Algo, uma paixão que dá a si mesma o começo eterno, sendo a doutrina da liberdade uma doutrina metafísica da Ungrund do Ser.
    • O mal provém da má imaginação, e a queda da criatura não se decide no mundo humano, mas no mundo angélico, com a queda de Lúcifer.
    • Em citação direta, Boehme descreve a queda de Lúcifer como o abandono do repouso por uma vontade livre que se contemplou no espelho da natureza, animando-se em direção às propriedades do Centrum.
    • O pecado original e o mal são catástrofes cósmicas, resultado do conflito de propriedades opostas, com o mal tendo um sentido positivo como sombra do bem.
    • Deus mostra dois rostos (amor e cólera), e em citação direta, afirma-se que o Deus do mundo claro e do mundo tenebroso não são dois Deuses, mas um único Deus que é o Mal e o Bem.
    • O amor de Deus, em um ambiente tenebroso, transforma-se em cólera, e a vida é fogo que se manifesta de duas maneiras: no amor e na cólera.
    • A redenção é concebida cosmogonicamente como uma continuação da criação do mundo, com Cristo transformando a cólera em delícias divinas.
    • Schelling, em suas Pesquisas sobre a essência da liberdade humana, aproxima-se de Boehme, vendo o nascimento da luz a partir da obscuridade e desenvolvendo seu voluntarismo.
    • Schelling reconheceu que o panteísmo é incompatível com a liberdade, e que o mal tem seus fundamentos na liberdade potencial da Ungrund.
    • Em citação direta, Schelling afirma que o esforço fundamental da teosofia de Boehme é conceber a produção de todas as coisas a partir de Deus como um desenrolar real.
    • A doutrina da Ungrund isenta Deus da responsabilidade pelo mal e, ao mesmo tempo, introduz um princípio tenebroso na própria divindade.
    • O mal tem uma missão positiva, pois a luz divina só pode se manifestar pela contrapartida das trevas, sendo o Ser uma vitória sobre o Não-Ser.
    • As ideias de Boehme sobre a liberdade e a Ungrund permanecem antinômicas, movendo-se na lâmina de uma faca e sendo fonte da filosofia trágica da liberdade.
    • Berdiaeff saúda em Boehme o fundador da filosofia da liberdade, a verdadeira filosofia cristã, que se opõe ao otimismo racionalista de Tomás de Aquino.
    • Com Boehme, começa uma nova era no pensamento cristão, influenciando o dinamismo da filosofia alemã (Fichte, Hegel, Schopenhauer) e o romantismo.
    • O pensamento germânico, ao contrário do latino, concebe a razão confrontada com as trevas do irracional, devendo levar a luz a elas.
    • A doutrina da Ungrund explica a potência criadora do Novo, a dinâmica criadora, e Berdiaeff defende que é necessário desenvolver essa doutrina distinguindo o abismo divino da liberdade divina do abismo méontico e da liberdade méontica.
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