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EPÍSTOLAS TEOSÓFICAS
Jacob Boehme — Epístolas Teosóficas
Apresentação de Bernard Gorceix
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A publicação, em 1980, de uma tradução francesa da correspondência de Jacob Böhme (1575-1624), alemão da Lusácia preocupado como muitos de seus contemporâneos — João da Cruz, Francisco de Sales, Isaac Luria e em breve Pascal — em penetrar os mecanismos da natureza e da divindade, não se destina unicamente a auxiliar o conhecimento de um período longínquo da história europeia.
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A leitura das epístolas teosóficas do Teutônico — assim Böhme assinava suas últimas cartas — recobre duas preocupações atuais: uma geral, relativa aos chamados estudos espirituais, e outra mais particular, concernente à renovação do interesse pelo fenômeno barroco.
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Quanto ao primeiro ponto, cabe introduzir nuances — pois o ressurgimento dos estudos espirituais durante as três décadas do segundo pós-guerra não é mais um fenômeno recente, sendo antes uma tenaz contestação contra os avatares da tecnologia e o peso ideológico das sociedades modernas.
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A grande corrente que arrastou uma intelligentsia confusa longe dos catecismos da infância data dos anos 1960 e está atualmente, e felizmente, muito menos tumultuosa.
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Decepção diante da impenetrabilidade igualmente áspera das espiritualidades distantes e recuperação hábil por parte de políticos e homens de dinheiro — é difícil engordar seus terrores sagrados na insegurança afegã ou na miséria de Calcutá — explicam que a moda, nessa matéria, reencontre pouco a pouco a Europa e os antigos parapeitos.
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Doravante é a psicanálise que se ocupa do Evangelho, e a Bíblia, mais do que os Vedas, que augura o futuro — e os mesmos que, há vinte anos, condescendiam, mais ou menos bem informados, às caças às bruxas, afirmam-se agora cristãos e comparam sem pudor a teologia mística aos debates sobre o partido ou a nação.
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Nessa aflitiva confusão e nessa desordem mal orquestrada, o papel aqui pretendido quer ser modesto — pois a didática não tem mais lugar, tendo sido particularmente nefasta em matéria de espiritualidade.
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Um único freio permanece, que se quer continuar a preservar e a prolongar: o constituído pela tradução e pela prática dos grandes textos espirituais.
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O louvor de que fala o versículo 35 da sura 24 do Alcorão é aceso “com o azeite de uma árvore bênta, a oliveira”, e brilha “num vidro que é como uma estrela” — e essa lâmpada não é, como o livro insiste, “nem do Oriente nem do Ocidente”.
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Ao descobrir as epístolas teosóficas de Jacob Böhme, como a visão esmeralda de Najm Kobrâ ou a descrição do corpo de arrebatamento no Dhamarkâja, fica-se impressionado — e para retornar a Julien Green falando de sua leitura da Imitação em dezembro de 1944 — “da intensa realidade do mundo espiritual”.
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Najm Kobrâ e Julien Green são mencionados como referências de experiência espiritual intensa e comparável.
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As “realidades contraditórias”, como as chama o autor do Visionnaire, têm uma presença tão ameaçadora e uma autoridade tão grande, senão maior, quanto a terra, a guerra e a miséria — mas a hipótese absurda não cessará de preocupar.
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A segunda preocupação é mais limitada no tempo — pois no grande recenseamento das artes do mundo, facilitado pelo progresso das técnicas, um período da história europeia se beneficiou particularmente das modificações de acento e do alargamento das perspectivas.
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Há muito tempo os historiadores da arte — citando aqui apenas Jacques Bousquet num belo livro sobre a pintura maneirista publicado em 1964, ou André Chastel em sua apresentação da crise da Renascença editada em 1968 — descreveram a lenta e orgânica passagem da Renascença ao barroco, eliminando os julgamentos tradicionalmente negativos sobre a retórica vazia ou o ornamento em ressalto.
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A reabilitação da arte do século XVII transpôs pouco a pouco a porta dos cenáculos — e o grande público não mais rejeita o século de Rubens.
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Ante o espetáculo das arquiteturas do Bernini e da Roma de Sisto V, das abadias da Alemanha do Sul e da Áustria, as obras de grande difusão e os meios audiovisuais souberam substituir os vocábulos de pompa, sobrecarga e excentricidade pelos de cinética, contradição dialética, espaço imaginário e paixão pela vida.
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O termo “barroco” não designa mais um extravagância do espírito ou uma loucura do cinzel, mas um dos mais notáveis esforços que o artista tentou para restabelecer uma última vez o encontro prestes a romper-se entre a era de Deus e a era do homem.
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A correção não se limita ao domínio das artes plásticas — ela toca igualmente a literatura e a espiritualidade.
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As ciências humanas conhecem doravante a profunda coerência das expressões artísticas numa época determinada.
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Shakespeare e o Bernini, Gryphius e Rembrandt, Angelus Silesius e o arquiteto da biblioteca do mosteiro de Admont obedecem todos a essa espécie de mimetismo de que falava Marcel Brion.
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Essa congruência surpreende particularmente na leitura das epístolas teosóficas de Jacob Böhme — pois a espiritualidade mística, mais do que qualquer outra, trai e traduz no século XVII os mecanismos e as engrenagens de uma época que tem sede tanto de vida quanto de absoluto, e cujos movimentos impulsivos e angustiados tentam se regularizar e se equilibrar numa veemente e ascensional aspiração.
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São as mesmas inquietações e a mesma busca de quietude que animam o Filipe II do Greco, a chama da vela nas Madalenas e a Adoração dos pastores do Holandês.
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Certamente o modo de expressão aqui escolhido — a língua — dilui e fraciona o contato imediato do espectador com o quadro; essa língua, ademais, como sempre no século de Bossuet, é difícil, distante, carregada de conotações tradicionais e culturais que envelheceram.
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As espirais das escadarias barrocas, os turbilhões das draperias e o vacilamento das tochas serão sempre em cores mais acessíveis do que em palavras, o êxtase dos rostos esculpidos mais do que o descrito pelas teologias ascéticas — mas é necessário conhecer o pano de fundo intelectual, reflexivo e discursivo que anima os cenários e justifica os gestos; e a espiritualidade böhmeana merece que nela se demore.
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A breve introdução compõe-se de três momentos — descrevendo-se primeiro a bagagem mínima, mas já considerável, que o leitor da correspondência deve levar consigo quanto à vida, à época, ao meio e aos ecos do século; em seguida delineiam-se as linhas de forças novas que conferem à espiritualidade böhmeana, tal como se exprime nas cartas, uma profunda originalidade; e apresentam-se enfim as dificuldades inerentes à tradução de um texto extremamente complexo, extremamente denso — um dos mais belos textos espirituais europeus.
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