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NATUREZA (1)
Pierre Deghaye. La Naissance de Dieu ou la Doctrine de Jacob Boehme. Paris: A. Michel, 1985.
A NATUREZA NA “AURORA NASCENTE” (1)
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A obra inaugural de Boehme, anterior à noção de Sabedoria personificada, apresenta uma doutrina onde a transcendência absoluta, considerada fora da natureza, é evocada em termos negativos como uma imensidade sem vida e morada da Morte.
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O termo sabedoria aparece, mas não se refere à Sabedoria personificada que regerá a manifestação divina.
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A Sophia será o símbolo da presença divina, garantindo a transcendência e sendo Deus presente na natureza, mas anterior e infinitamente superior a ela.
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Fora da natureza, a Divindade considerada em sua eternidade perfeita seria apenas uma imensidade sem vida nem razão, o lugar da Morte.
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O Deus da teologia tradicional, em sua solidão infinita, torna-se um símbolo da Morte quando imaginado sem a natureza.
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Apesar de em seu primeiro livro Boehme só falar de Deus segundo a natureza, ele não é um panteísta, pois distingue entre a natureza (corpo) e a alma que lhe dá a vida, de modo que Deus nasce na natureza e por ela, mas não é a natureza.
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O corpo gera a alma, mas o corpo não é a alma.
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O termo “panteísmo” é um anacronismo quando aplicado a Boehme.
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O conceito de natureza é empregado em dois sentidos: o mais amplo (universo visível e mundo divino objetivo na criação angélica) e o estrito (sétimo grau do ciclo setenário, que é o corpo em oposição à alma).
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A natureza, no sentido mais amplo, compreende um plano superior e um inferior, separados mas ligados por uma relação de analogia que é a base de toda a gnose possível.
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A teosofia de Boehme fundamenta-se numa filosofia da natureza, partindo da contemplação do mundo visível e do homem.
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Há uma dupla analogia: entre o baixo e o alto (visível e invisível) e entre o cosmos e o homem.
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Nossa natureza é a substância do discurso sobre Deus, a letra da revelação que deve ser aprofundada para fazer jorrar o espírito.
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O corpo (a letra) é o envoltório sensível pelo qual o espírito se torna presente, e sem ele o espírito não se manifestaria, por isso a reflexão deve partir do texto da natureza visível.
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Olhar o céu e os astros é encontrar a imagem das coisas divinas, mas sem adorá-los.
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A letra da revelação está na natureza e na Bíblia, sendo o simbolismo o vestimenta sensível da revelação.
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O fogo mencionado na Bíblia como Deus é um fogo real, não uma simples metáfora.
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A hermenêutica de Boehme consiste em aprofundar a realidade sensível para encontrar o sentido oculto que só se manifesta através dela.
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Para acessar a altura, é preciso partir da baixo (nossa natureza visível), pois a criatura com corpo não pode apreender o que não tem corpo, e Deus se reveste de um corpo para se revelar.
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O princípio “o que está em baixo é como o que está em cima” é fundamental.
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A analogia entre o corpo angélico (lugar da manifestação divina) e o corpo terrestre se dá na forma humana.
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A substância do discurso místico é o tecido de símbolos oferecido pela natureza.
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A natureza é o corpo de Deus, e a gnose está compreendida nos limites desse corpo.
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O problema do discurso místico é ser comunicado, e Boehme, inspirado pelo Espírito Santo, vê-se obrigado a usar uma linguagem simbólica, pois todo conhecimento, inclusive a gnose mais perfeita, é simbólico.
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A inspiração divina não produz um saber pronto, mas auxilia a meditação sobre as maravilhas da criação.
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O conhecimento é recebido segundo as modalidades do próprio discurso simbólico.
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O Espírito fala ao inspirado a mesma linguagem que ele usará para escrever sua experiência.
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Os símbolos são a substância dessa linguagem, e é a natureza que os fornece.
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Todo símbolo é um corpo no qual o espírito se manifesta, e todo corpo representa um limite, pois jamais se apreende o Infinito senão na medida em que ele se manifesta em um corpo (a natureza).
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A natureza tem um começo, torna-se, é o tempo.
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O discurso humano, sucessivo e fragmentário, imita o ritmo da natureza e contém uma parte de impropriedade.
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Boehme acusa-se de discorrer sobre Deus como falaria o diabo, ao colocar as trevas antes da luz em sua descrição da vida divina.
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Para Boehme, não existe conhecimento que o Espírito Santo comunique sem um suporte sensível, que é a natureza, e Deus cria a natureza justamente para se fazer conhecer.
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A inspiração ajuda o eleito a instruir-se meditando nas maravilhas da criação.
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O olhar do homem de desejo busca ver o interior das coisas, considerando a criação como um lugar de uma manifestação que a transcende.
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A revelação é o irradiamento do espírito através do corpo do símbolo.
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O sol é o símbolo supremo no macrocosmo, representando o Deus da nossa natureza, embora não seja o Deus supremo, que se esconde sob a aparência de sua luz.
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O sol é o coração do corpo cósmico, e a teoria de Boehme é heliocêntrica no plano da teologia simbólica, ligada à tradição pitagórico-neoplatônica.
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O sol é distinto do corpo cósmico que ele ilumina, ilustrando uma transcendência relativa, mas luminosa.
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A luz do sol, símbolo da vida divina, é superior às estrelas que representam o corpo da natureza.
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Há uma aparente contradição: a luz do sol dá vida às estrelas, mas são as estrelas que dão à luz o sol, o que se esclarece pela analogia com a relação entre alma e corpo no composto humano.
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A alma faz viver o corpo, mas o corpo produz a alma; é por ele que a alma existe e nele que ela se gera.
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Da mesma forma, Deus comunica a vida à natureza angélica, mas nasce nela; a natureza é a mãe de Deus, e Maria é a primeira a cumprir essa finalidade.
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O corpo formado pelos planetas tem a sutileza da alma; é um fogo onde a luz se gera, sendo a alma do mundo (spiritus mundi).
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A alma do mundo (planetas + sol) não deve ser confundida com a alma eterna nem com a Sabedoria.
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O sol é superior ao spiritus mundi, estando mais próximo da realidade suprema que reside no centro de toda vida, de onde a vida divina irradia por graus, exteriorizando-se e alienando-se.
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O mesmo corpo (o céu) é corpo em relação ao sol e alma em relação à terra.
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As noções de espírito, alma e corpo são definidas pela alternância dos planos.
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O espírito pode ser superior à alma, mas a palavra também se aplica a um corpo sutil (um espírito sidereal).
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O sol, tratado como um dos sete espíritos siderais (o quarto), representa ora a transcendência do espírito, ora um espírito entre outros.
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Os sete espíritos siderais (planetas), origem do setenário, são espíritos criados com qualidades sensíveis que irradiam em nosso mundo, sendo princípios ativos e energias substanciais que preexistem às coisas criadas.
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O simbolismo da natureza baseia-se na astrologia, com qualidades sensíveis anexadas a cada planeta.
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As qualidades sensíveis tornam-se as sete formas substanciais de uma natureza ideal onde Deus se manifestará plenamente.
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Saturno é o espírito de contração, aspereza, frieza e dureza, sendo a causa de todos os corpos.
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Júpiter representa a doçura, uma qualidade benéfica ligada ao elemento Água.
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Em Aurora Nascente, Marte representa a amargura, o veneno e a cólera (a bile), sendo o relâmpago que jorra como faísca, enquanto o calor (quarto grau) é a ardor do fogo do qual a luz nascerá.
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A ordem das planetas e a associação das qualidades serão modificadas posteriormente.
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O relâmpago é a faísca que jorra da pedra, nascendo do atrito violento entre a aspereza e a amargura.
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O calor é o fogo sob seus dois aspectos contrários: devorador e benéfico (luz).
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O quinto espírito, Vênus, é o do amor.
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O sexto espírito, Mercúrio, é a inteligência unida à sensibilidade (percepção clara), o som, a música e a alegria.
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Mercúrio é o espírito que diferencia, que preside à formação dos corpos (espírito demiurgo), discernindo e distinguindo as qualidades para constituir um cosmo ordenado.
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Criar é diferenciar, formar, esculpir numa matéria pré-existente e indiferenciada.
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Cada coisa criada é um corpo onde toma forma uma qualidade sensível que é seu arquétipo.
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O discernimento de Mercúrio é a expressão da justiça de Deus que separa, enquanto o amor (Vênus) une.
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A ordem manifesta a justiça de Deus, e a cólera só aparece quando essa ordem é perturbada (como no caso de Lúcifer).
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O sétimo espírito é o corpo da natureza (em sentido estrito), sendo a mãe inferior que engendra seu pai (os seis espíritos que são a alma), e representa a corporalidade como visibilidade da alma.
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Sem o corpo, as almas não teriam existência real e a própria Divindade não seria, pois Deus precisa de um corpo para nascer e se manifestar.
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O corpo do nosso mundo é o análogo imperfeito do corpo do mundo angélico (forma humana).
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A finalidade da alma é fixar-se num corpo; uma alma sem lugar é a de um demônio.
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O pecado de Lúcifer foi exaltar seu corpo, preferindo-o ao Espírito de Deus que nele irradiava.
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No corpo, símbolo de acabamento, os seis espíritos formam um coro harmonioso, convertendo o tempo em espaço e manifestando a unidade do ser.
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