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Adumbratio Kabbalae Cristianae

DA PREEXISTÊNCIA DAS ALMAS

  • O kabbalista propõe a análise da hipótese da pré-existência das almas antes da entrada no corpo para verificar se há algum esclarecimento sobre o assunto, visto que a teoria não é aceita pelos doutores cristãos.
  • O filósofo cristão aceita o problema e apresenta argumentos baseados na sã razão para confirmar a hipótese da pré-existência das almas.
    • A primeira premissa indica que a hipótese mais conforme à sã razão se aproxima mais da verdade.
    • A hipótese da pré-existência cumpre essa condição, a menos que existam duas opiniões contrárias muito fortes.
    • A primeira opinião contrária afirma que as almas são propagadas por tradução.
    • A segunda opinião contrária defende que as almas são criadas de forma espontânea em cada ocasião.
    • A teoria da tradução apresenta uma contradição manifesta, pois a alma é uma essência indivisível e indiscerpível quando unida ao espírito.
    • A teoria da criação espontânea é considerada indigna da Majestade divina por constituir Deus como autor eficiente de todos os crimes e impurezas, como fornicações, adultérios, incestos e sodomias, ao juntar almas novas a atos puros ou impuros.
    • Essa opinião também é vista como uma injúria à própria alma, sugerindo que ela nasceria corrompida em vez de ter sido criada em pureza e colocada em um invólucro impuro devido à sua própria depravação pessoal, o que levaria à condenação extrema da infidelidade.
    • Diante do absurdo das duas opiniões contrárias, a pré-existência das almas é apresentada como a alternativa mais provável.
    • Uma primeira objeção argumenta que não se pode encontrar traço dessa doutrina nos mistérios da fé.
    • A resposta indica que a origem das almas pertence mais aos dogmas filosóficos do que aos mistérios da fé, existindo entre a teologia e a filosofia a mesma analogia que há entre a Lei escrita e a Lei oral para os hebreus, devendo a discussão teórica ocorrer na Ciência Pneumática.
    • A teologia é definida como o conjunto de fórmulas práticas destinadas ao povo para a exposição do mistério da fé visando à salvação.
    • A razão é apontada por filósofos antigos e modernos como a norma absoluta da filosofia.
    • O intelecto é descrito como cercado de vicissitudes desde a queda do homem.
    • A libertação do intelecto ocorre quando há conformidade ao Logos divino, conforme mencionado na Epístola aos Hebreus, capítulo quatro, versículo doze.
    • Uma segunda objeção define a alma como um espírito encarnado.
    • A resposta propõe que a alma é um espírito encarnado por natureza ou por acidente.
    • Se for encarnado por si mesma, a alma deixaria de existir fora da carne ou estaria em um estado mais imperfeito do que quando residia nela, visto ser esse o seu estado natural.
    • A primeira hipótese é considerada ateísta e a segunda é rejeitada pela filosofia, que declara o estado da alma privada de carne muito mais feliz.
    • A carne não desfruta do estado bem-aventurado da alma, de acordo com o registro de São Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo quinze, versículo cinquenta, e, se o estado encarnado for acidental, a opinião dos hebreus sobre a pré-existência se confirma.
    • Uma terceira objeção alega que nada é dividido, mas transportado de um lugar para outro ou multiplicado, assim como a chama que acende um lampião não é dividida ou fragmentada.
    • A resposta afirma que a multiplicação por tradução exige a comunicação de uma parte da substância, a excitação da matéria para gerar uma nova substância ou a criação a partir do nada.
    • A criação do nada é inadmissível e a excitação da matéria tornaria a alma material, restando examinar apenas a comunicação de parte da substância.
    • A coisa que comunica parte de sua substância deve reter ou perder a parte comunicada.
    • O pai e a mãe que comunicam partes de suas almas aos filhos perderiam essas partes em vez de guardá-las.
    • A perda de uma parte da alma implicaria que ela é suscetível de divisão e fragmentação.
    • Assim como os ramos do salgueiro podem ser arrancados e transplantados, operação associada ao termo tradux, a chama do lampião transmite física e realmente partículas igneas e fuliginosas separadas da primeira chama para o novo pavio.
    • A chama aproximada de um novo pavio se transforma em outra chama, conforme demonstrado pela experiência.
    • Se a chama original for composta de cores diversas pela queima de verde ou enxofre, os primeiros raios reproduzirão a cor azurada transmitida e depois retornarão à cor específica da matéria sebácea do novo lampião.
    • A incorporação de raios solares em certos licores aumenta o peso destes, fenômeno também observado na geração do enxofre dentro da química.
    • Nenhuma partícula do lampião que transmite a luz é destruída porque a matéria inflamada encontra imediatamente outra matéria de sequência, assim como a fonte de uma fontana sempre fornece novas águas mesmo que as anteriores tenham sido separadas dela.
    • Exemplos tirados de coisas materiais não possuem valor para a natureza da alma, que é espírito, a menos que se queira ensinar que a alma é material.
    • Mesmo que a chama não projete partículas e não seja dividida, ocorre a introdução de movimento e vibração no pavio acendido.
    • A extração da chama a partir da potência da matéria a caracteriza como material.
    • Comparações desse tipo não são estendidas para a alma para não haver separação da verdadeira natureza do espírito.
    • A opinião que considera a alma da criança uma composição de partículas das almas dos pais é descartada como absurda, exceto no que diz respeito à alma do Messias, descrita como emprestada de Maria.
  • O segundo argumento sustenta que, se a matéria individual de cada homem existe desde a criação do mundo e passou por miríades de alterações antes de se tornar um corpo humano, é muito provável que a alma de cada indivíduo também tenha sempre existido.
    • A primeira proposição sobre a existência da matéria é aceita por todos os filósofos, validando a consequência.
    • A nobreza de uma substância comporta uma maior duração de existência.
    • A alma é considerada mais nobre do que o corpo.
    • Uma objeção afirma que a matéria primeira existiu desde o começo do mundo, mas não a matéria segunda.
    • A ficção da matéria primeira é rejeitada, e a menção a mônadas físicas aglomeradas em corpos não confere peso à objeção.
    • Outra objeção afirma que a semente de todas as almas existia desde a criação do mundo.
    • A semente das almas teria de ser espiritual ou material.
    • A semente não pode ser espiritual porque o espírito não se reproduz por via prolífica, conforme São Mateus, capítulo vinte e dois, versículo trinta, a menos que a figura represente o próprio Deus.
    • A semente não pode ser material porque o espírito não pode nascer da matéria.
    • A semente não pode pertencer aos dois gêneros ao mesmo tempo, pois o que se nega das partes se nega do todo.
    • Conclui-se que nunca houve uma semente das almas.
    • A exceção seria designar Adam como uma espécie de viveiro onde todas as almas pré-existiam antes de serem mudadas de lugar.
    • Uma objeção menciona que Levi estava nos lombos de Abraão, de onde foi dízimado, conforme São Paul na Epístola aos Hebreus, capítulo sete, versículo nove.
    • A resposta determina que aquele que é escolhido deve ser um ser ou um não-ser.
    • O não-ser é impossível porque não há afeição no que não existe.
    • A afirmação de que se trata de um ser é verdadeira.
    • Um ser pode existir em ato ou em potência, assim como a rosa existe em potência durante o inverno.
    • A rosa pode ser dízimada em potência porque as qualidades de um ser permanecem as mesmas independente de sua natureza.
    • Os hebreus confirmam essa hipótese ao estabelecerem que na estirpe originária dos Pais estão escondidas almas que existirão em ato posteriormente, denominadas nizuzoth, que significam fagulhas ou raios, conforme tratado em Revolutionibus.
    • A outra suposição será discutida adiante.
    • Uma objeção aponta que a substância do homem é mais nobre que a das outras criaturas, mas Deus criou os outros seres animados e inanimados nos seis dias antes do homem, o que indicaria que a substância é mais nobre que a essência e a duração.
    • A resposta afirma que a nobreza do ser determina a nobreza de sua duração, sendo esta parte integrante de sua constituição geral.
    • Desse argumento decorre a necessidade de distinguir se a duração está no tempo ou na eternidade.
    • O exemplo dos seis dias contém uma petição de princípio por negar a teoria da pré-existência sem provar que a alma humana não foi criada antes das outras criaturas para depois descer ao plano inferior e revestir um corpo, o que interessa à história e não à filosofia.
  • O terceiro argumento afirma que aquele que por sua sapiência sempre fez o mais excelente sem dúvida fez o melhor no caso das almas, sendo melhor o que ocorre mais cedo quando se trata de um bem.
    • A premissa se aplica a Deus, validando a conclusão.
    • Uma primeira objeção argumenta que Deus fixou as horas e os tempos segundo sua Sapiência e sua livre vontade.
    • A resposta indica que a medida do arbítrio divino é sempre a sua própria bondade, não havendo exemplo em contrário.
    • A segunda objeção indaga se a alma não deveria vir da eternidade, já que o eterno é melhor.
    • A resposta aceita a possibilidade se for compatível ser produzido e não ter começo.
    • Se os hebreus entendem o termo eternidade nesse sentido restrito, a hipótese permanece salva, sendo essa a medida mencionada na Epístola aos Romanos, capítulo doze, versículo três, e em São Mateus, capítulo vinte e cinco, versículo quinze, que presidiu a proporção das coisas produzidas.
  • O quarto argumento estabelece que quem é bom no sentido mais absoluto é também sempre bom, e essa qualidade se estende àquilo que é comunicado por esse ser e participa dele.
    • O primeiro termo se aplica a Deus.
    • O segundo termo também se aplica a Deus, indicando que as almas das criaturas comunicadas por Ele devem ter existido desde o princípio.
    • Uma primeira objeção afirma que a conclusão faria as almas existirem de toda a eternidade.
    • A resposta explica que a comunicação divina é restrita apenas pela natureza da criatura, assim como o esplendor do sol é limitado pela receptividade dos seres iluminados.
    • O mesmo princípio se aplica a todas as coisas que agem por sua própria natureza.
    • A segunda objeção alega que o argumento conclui do gênero para a espécie, significando que, se Deus é sempre comunicativo no mesmo grau, todas as almas deveriam ser comunicadas no mesmo grau.
    • Deus comunicou em certas circunstâncias mais do que a alma, visto que o Filho participa da eternidade do Pai por geração e o Espírito Santo por Spiração.
    • A resposta nega a objeção, afirmando que a comunicação se deve à natureza e à essência, e não à pessoa.
    • O argumento sobre o Filho e o Espírito Santo não prova nada em relação à comunicação com as criaturas.
    • A terceira objeção sugere que se poderia imaginar outras criaturas mais perfeitas criadas para manifestar uma bondade ainda maior de Deus.
    • A resposta esclarece que as coisas de origem e principiação divina sofrem restrições vindas do princípio, representado pelo Messias, ou delas mesmas.
    • A ficção proposta não se aplica ao caso, a menos que se admita a hipótese de as almas serem contemporâneas das outras criaturas.
  • O quinto argumento aponta que, se a bondade divina não for considerada superior à bondade humana, haveria a conclusão de que Deus nunca pôde produzir almas.
    • A premissa de que a bondade divina é superior é verdadeira.
    • A conexão se prova porque a bondade humana não negligencia oportunidades de fazer o bem quando nada a impede.
    • O mesmo se aplica com maior força a Deus, que é três vezes grande e não conhece impedimentos.
    • Uma primeira objeção nega a consequência por afirmar que a Bonté divina pode se manifestar em outros seres que não as almas ou a matéria.
    • A resposta questiona em que outra coisa a bondade se manifestaria se a potência em Deus, que é um ato infinitamente simples, nunca pode decair.
    • A segunda objeção assevera que a razão é nula porque Deus faz sempre o bem ao homem que criou, mas não do mesmo modo, assim como um homem bom varia suas ações benfazejas, agindo Deus por sua livre vontade cujas causas santas estão escondidas.
    • A resposta situa a força do argumento na natureza do Bem considerado do menor ao maior, o que pressupõe um objeto receptor.
    • Não se pode conceder uma liberdade indeterminada a quem tenta restringir esse objeto, devendo o arbítrio ser correspondente à esfera de ação.
  • O sexto argumento indica que, quando a soberania de alguém nunca cessa de ser inteira, os submetidos nunca serão privados dessa soberania.
    • A soberania de Deus é descrita como universal, imutável e absoluta.
    • A soberania nunca faltará às almas ou às outras criaturas.
    • Uma objeção aceita que a dominação de Deus é imutável e perfeita em si, mas aponta que as criaturas não são imutáveis, sendo absurdo crer que todos os seres passados, presentes e futuros tenham coexistido de todo o tempo.
    • A resposta nega o absurdo se a existência simultânea for considerada em razão da substância, embora os acidentes variem, conforme o Eclesiastes, capítulo um, versículo dez, que afirma não haver nada de novo sob o sol.
  • O sétimo argumento expõe que, se Deus não deu a duração de existência a criaturas nobres como as almas enquanto a deu à matéria, foi por falta de vontade ou de capacidade.
    • Ambas as opções repugnam à Justiça e à Omnipotência divina, concluindo-se que Ele deu essa duração.
    • Uma objeção cita São Paulo na Epístola aos Romanos, capítulo onze, versículo trinta e cinco, afirmando que Deus não deve nada a ninguém, questionando onde haveria injúria em conceder mais ou menos tempo de existência.
    • A resposta esclarece que o texto citado trata do uso da rigidez para com os seres caídos.
    • O argumento anterior tratava da benignidade para com os seres que mantiveram o estado primitivo, a qual se direciona pelo Bem mais absoluto.
  • O oitavo argumento defende que a opinião que resolve facilmente as dificuldades das questões humanas deve ser considerada a mais verdadeira e exata.
    • A opinião da pré-existence cumpre essa condição.
    • A afirmação se baseia no princípio de que as almas existiram em outro estado no qual ofenderam o Criador em diversos graus.
    • Para satisfazer a justiça infinia, as almas tiveram de sofrer calamidades ou penas correspondentes ao grau de sua prevaricação e apostasia.
    • Essa chave explica por que muitos homens demonstram aversão à religião e à virtude desde a infância, e por que outros são estúpidos e inclinados aos vícios.
    • O princípio explica também por que nações inteiras permaneceram sepultadas na barbárie por séculos.
    • O estado das coisas obscureceria as vias da Providência se a hipótese da pré-existência não espalhasse luz sobre ele.
    • Uma primeira objeção aponta que a opinião dos epicuristas, que nega a Providência, também resolve as dificuldades sobre os destinos desiguais de justos e ímpios.
    • A resposta rejeita a comparação por afirmar que a pré-existência não deprecia a dignidade divina, sendo injurioso compará-la ao ateísmo.
    • O antecedente da objeção também é declarado falso.
    • A segunda objeção cita São Paulo na Epístola aos Romanos, capítulo onze, versículo trinta e três, indicando que as causas que regem os corpos não foram reveladas por Deus.
    • A resposta lembra que Asafe entrou no santuário de Deus, conforme o Salmo setenta e três, versículo dezessete.
    • Deus possui meios para revelar o conhecimento aos seus servos, embora poucos sejam convidados.
    • A terceira objeção apõe o Pecado original como a fonte de todos os maux de onde emanam os pecados atuais e os suplícios.
    • A resposta argumenta que a fonte ou semente representa uma causa real, próxima e individual, e não imaginária ou em potência.
    • Segue-se que o pecado foi cometido por cada um e não por um único homem, o que confirma a hipótese da pré-existência.
    • Uma contra-argumentação menciona a corrupção da natureza.
    • A resposta pondera que a corrupção deveria ser chamada de pena e não de pecado, pois é igual e uniforme, não explicando a desigualdade de sorte.
    • A quarta objeção cita São Lucas, capítulo treze, versículos três e quatro, para afirmar que Deus permitiu que alguns sofressem a sorte que outros mereceram para dar provas de longanimidade.
    • A resposta explica que o trecho aludido trata da profecia sobre a subversão da cidade pelos romanos, não tendo autoridade no caso.
    • Deus não permite que se meça a sua longanimidade, possuindo razões próprias quando julga ou perdoa.
    • Uma quinta objeção propõe que o pecado original pode ser mais intenso em uns e mais fraco em outros, como em filhos de pais prevaricadores, conforme passagens de Ezequiel, capítulo dezesseis, versículo dois, capítulo dezenove, versículo dois, São Mateus, capítulo três, versículo sete, e São Lucas, capítulo três, versículo sete.
    • A resposta afirma que o ato singular da queda de Adam não poderia ter múltiplos graus em um mesmo tempo.
    • A diversidade de graus do pecado original indica que eles não provêm de um único sujeito.
    • Isso confirma a afirmação de que um grande número de almas estava contido em Adam em diversos graus.
    • As passagens sobre maus filhos nascidos de maus pais são atribuídas à imitação e não à geração no que tange ao pecado original, que deveria ser chamado de pena original.
    • Se a depravação moral fosse hereditária, ela teria de ser perpétua.
    • Sendo perpétua, não haveria exemplos de filhos probos gerados por pais maus.
    • A inclinação latente transmitida com os espíritos seminais dos pais não pode ser definida como o pecado original.
    • Essa transmissão também não justifica as variedades de sorte na vida.
  • O nono argumento estabelece que a opinião que não contradiz nenhuma das faculdades humanas é indubitavelmente verdadeira.
    • A pré-existência cumpre essa condição.
    • Uma primeira objeção argumenta que as faculdades e as opiniões não são índices de controvérsia, mas sim os princípios da natureza e da Santa Escritura.
    • A resposta defende que os sentidos, a razão e o intelecto agem como juízes segundo a Norme.
    • A teoria da tradução contradiz a razão porque a alma, não sendo material, não pode adotar um modo de propagação material.
    • A tradução espiritual só seria compreensível dentro da hipótese kabbalista da pluralidade de almas latentes em um único sujeito, o que não destrói a pré-existência.
    • A opinião da pré-existência não contradiz os sentidos, a razão ou o intelecto.
    • A hipótese também não contradiz os princípios da Natureza ou da Escritura.
    • A segunda objeção afirma que a opinião, por ter sido deixada indecisa pela revelação, contradiz as Escrituras e o intelecto iluminado por falta de fundamento nos Livros santos.
    • A resposta reitera o caráter puramente filosófico da opinião e aponta a ausência de passagens bíblicas que declarem explicitamente que as almas não pré-existiram.
    • A controvérsia não gera contradição, principalmente porque os hebreus, de quem a filosofia foi extraída, concordam com a pré-existência.
    • A terceira objeção afirma que a opinião contradiz o intelecto por não persuadir a razão sobre a sentença da alma pré-existir ao corpo.
    • A finalidade natural da criação da alma seria constituir o homem completo através da união com o corpo, gerando uma petição de princípio se a hipótese for admitida.
    • A resposta argumenta que, se a alma não puder ser homem sem a união com um corpo carnal, a consequência seria que os indivíduos não seriam homens na eternidade.
    • A tese baseada na filosofia antiga de gregos e bárbaros não peca pelo princípio.
    • Os modernos são apontados como aqueles que falham por seguirem apenas sensações materiais em vez da antiguidade e das expressões da Escritura.
  • O décimo argumento postula que a opinião que explica a natureza do pecado original sem dificuldades deve ser preferida.
    • A hipótese da pré-existência possui essa propriedade.
    • A escolha dessa teoria dispensa o recurso ao pecado ou à pena de Adam, descritos como um labirinto de dificuldades, independente de quem tenha sido o autor do pecado primordial.
    • Evita-se a necessidade de escrutar como o pecado entrou nos seres ou como a justiça divina encerrou espíritos imaculados em corpos imundos sem que tivessem participado da falta de Adam.
    • Uma primeira objeção adverte que não é permitido criar meios fictícios para resolver dificuldades, devendo-se recorrer à Escritura nos mistérios da fé.
    • A resposta determina que as opiniões filosóficas não estão assujeitadas à regra da Escritura, a menos que a contradigam expressamente, uso seguido pela maioria dos teólogos.
    • A segunda objeção afirma que a atribuição do pecado a outro que não Adam e Eva carece de fundamento na Escritura.
    • A resposta indica que passagens citadas posteriormente demonstrarão o contrário.
    • A terceira objeção afirma que há ainda menos fundamento na natureza.
    • A resposta cita Ezequiel, capítulo dezoito, versículo dezenove, determinando que o Filho não deve carregar a iniquidade do Pai e que a alma que pecou deve morrer.
    • A quarta objeção cita os Atos dos Apóstolos, capítulo dezessete, versículo vinte e seis, para afirmar que Adam e Eva são a fonte de todo o gênero humano.
    • A resposta distingue entre o estado de habitação na terra e o estado da substância tomada por si mesma, mencionados nos versículos seguintes, sendo o primeiro o objeto da fala de São Paulo.
    • Quanto ao trecho da Epístola aos Romanos, capítulo cinco, versículo doce, sobre ter pecado neles, a resposta afirma que o texto indica que todos passam pela morte porque todos pecaram, conforme o texto siríaco.
    • O resultado é que todos sofrem a mesma sorte pela mesma causa.
    • A quinta objeção questiona se a justiça de Deus é testada ao se afirmar que a pena é infligida porque os homens pecaram realmente desde o começo de sua seminação e não por terem pecado de modo semelhante a Adam.
    • A resposta define que pecar no começo da seminação significa pecar em potência, associando-se ao erro por tradução mencionado por São Jerônimo e seus seguidores.
    • Quem não erra por si mesmo não peca, a menos que se aplique aos espíritos o que pertence à matéria, como dizer que o fruto é venenoso porque a árvore é venenosa, o que se aproximaria do ateísmo.
  • O décimo primeiro argumento assevera que a opinião que resolve as dificuldades decorrentes das diversas inclinações dos espíritos humanos deve ser preferida.
    • A pré-existência apresenta essa qualidade.
    • A premissa se prova pela constatação de que as complexões internas são tão variadas quanto as constituições externas.
    • As constituições do espírito são tão diversas quanto as do corpo.
    • Assim como ocorrem idiossincrasias corporais, produzem-se idiossincrasias dos espíritos e das almas que geram suas propensões.
    • Essas propensões agem como marcas distintas das almas desde a entrada no mundo.
    • Observa-se que certos homens adotam uma opinião quase à primeira vista e permanecem firmes nela.
    • Outros homens de igual erudição e penetração hesitam diante da mesma opinião, mesmo quando proposta com perfeita evidência.
    • O fato de os entendimentos nascerem com simpatias e antipatias por determinados dogmas apóia a suposição de que as almas pré-existiram e desceram favoráveis a certos princípios.
    • O fenômeno é observado também na inclinação infalível de algumas pessoas para trabalhos ou operações particulares.
    • A causa dessas tendências singulares é atribuída ao fato de as almas terem realizado ações análogas no lugar onde subsistiam antes de descerem para a terra.
    • A longa prática gerou um hábito e um prazer extremo nessas funções.
    • É provável que as almas tenham guardado lembranças e vestígios desse estado que as fazem preferir essas atividades no tempo presente.
    • Uma primeira objeção argumenta que as inclinações não podem vir do estado primitivo, a menos que o céu seja concebido como um lugar onde se exerce a filosofia, a sapataria, a tecelagem ou o serviço militar.
    • A resposta lembra aos hebreus que a teoria deles não situa o lugar de pré-existência no céu, onde as almas estariam apenas na origem, mas na terra, onde desceram imediatamente antes das revoluções das almas.
    • A segunda objeção propõe que Deus imprimiu em cada homem as inclinações especiais no instante da criação.
    • A resposta adverte que recorrer imediatamente à causa primeira sem intermediários resultaria em atribuir a Deus todas as inclinações más, como a guerra, a fraude e o ateísmo.
  • O décimo segundo argumento afirma que a opinião que procede de um princípio eternamente verdadeiro é verdadeira.
    • A premissa menor se prova porque tudo o que é capaz de uma existência posterior indefinida é suscetível de ter tido uma existência anterior indefinida.
    • A natureza de tal coisa não contém incompatibilidade com uma existência anterior dentro de sua constituição.
    • A alma cumpre essa condição de semelhança.
    • Uma objeção aponta que a questão não é saber de qual duração a alma é capaz, mas sim qual ela possuiu verdadeiramente.
    • A resposta explica que, no gênero das propriedades de um ser, a capacidade indica que o ato é, foi ou será.
    • A capacidade da alma de ocupar um lugar imutável e definitivo garante que ela o ocupará.
    • A capacidade de Satan de conhecer a noção de justiça indica que ele foi justo outrora.
  • Apresenta-se uma série de argumentos baseados na autoridade da Santa Escritura para provar a pré-existência de todas as almas ou da alma do Messias.
    • O primeiro trecho é do Deuteronômio, capítulo vinte e nove, versículos quatorze e quinze, referente à aliança feita com os presentes e com os que não estavam ali.
    • O argumento baseado no trecho indica que a aliança exige a realidade de duas partes, não podendo os israelitas não nascidos ser não-existentes.
    • As almas dos que ainda não haviam nascido precisavam pré-existir, visto que a hipótese da tradução material foi demonstrada absurda.
    • O segundo trecho é de Isaías, capítulo cinquenta e sete, versículo dezesseis, sobre a saída do espírito da face de Deus e a criação das almas.
    • Se Deus atesta para a posteridade que criou as almas de modo que existam antes do nascimento dos homens, a pré-existência fica esclarecida.
    • O terceiro trecho é de Jeremias, capítulo um, versículo cinco, indicando o conhecimento e a santificação antes da formação no útero.
    • A interpretação determina que quem é conhecido por Deus para receber ciência e santificação deve existir.
    • O fato de Jeremias existir antes da formação uterina estende-se aos outros espíritos por terem todos a mesma duração de existência.
    • O quarto trecho é do Eclesiastes de Salomão, capítulo quatro, versículo vinte e três, que julga mais feliz aquele que ainda não nasceu e não viu os maux do mundo.
    • A posse de felicidade pressupõe a existência, e, como a felicidade é atribuída aos não nascidos, a pré-existência se confirma.
    • O quinto trecho é de Job, capítulo trinta e sete, versículo vinte e um, que aborda de forma afirmativa ou interrogativa o saber sobre o nascimento e o número de dias.
    • Ambos os sentidos estabelecem a presença da alma de Job desde o começo das coisas.
    • O sexto trecho é do livro da Sabedoria, capítulo oito, versículos dezenove e vinte, onde o relato aponta a vinda de uma boa alma para um corpo imaculado.
    • Quem já existe bom antes de vir ao corpo começou como alma e não como corpo.
    • O sétimo trecho é de São João, capítulo nove, versículo dois, onde os discípulos indagam se o homem nasceu cego por pecado próprio ou dos pais.
    • A resposta de Jesus nega o pecado de ambos, indicando que opiniões não refutadas por Cristo em ocasiões semelhantes não contêm erro ou perigo.
    • A pré-existência se enquadra nessa categoria de opiniões não reprovadas.
    • O oitavo argumento baseia-se na noção de que os indivíduos descritos na Escritura como perdus devem ter existido antes sob o poder de quem os perdeu.
    • A Escritura afirma que todos os homens estão perdidos, o que pressupõe um tempo em que estavam no poder supremo de Deus.
    • A premissa menor é apoiada pelo Salmo cento e dezenove, versículo vinte e seis, Jeremias, capítulo cinquenta, versículo seis, Ezequiel, capítulo trinta e quatro, versículo dezesseis, São Lucas, capítulo quinze, versículos seis, nove e vinte e quatro, capítulo dezenove, versículo dez, e São Mateus, capítulo quinze, versículo vinte e quatro, e capítulo dezoito, versículo onze.
    • O nono argumento propõe que a menção a ovelhas errantes e dispersas pressupõe a reunião prévia em um rebanho.
    • A aplicação da figura aos homens na Primeira Epístola de São Pedro, capítulo dois, versículo vinte e cinco, e em São João, capítulo onze, versículo cinquenta e dois, confirma que foram reunidos e pré-existiram.
    • O décimo argumento aponta que viajantes e estrangeiros saíram de outra terra e possuem pátria em outro lugar.
    • Os homens são descritos como cumpridores de um panteão ou peregrinação na terra, conforme o Salmo trinta e nove, versículo dezesseis, a Primeira Epístola de São Pedro, capítulo dois, versículo onze, a Epístola aos Hebreus, capítulo onze, versículo treze, e o Salmo cento e dezessete, versículo dezenove.
    • O décimo primeiro argumento estabelece que, se Deus criou tudo ao mesmo tempo conforme o Eclesiástico, capítulo dezoito, versículo um, as almas também foram criadas juntas, sendo Deus chamado de Pai dos Esprits na Epístola aos Hebreus, capítulo doze, versículo nove.
    • O décimo segundo argumento indica que a declaração de morte pelo pecado na Epístola aos Efésios, capítulo dois, versículos um e cinco, pressupõe uma vida anterior que não ocorreu no corpo atual, mas em estado anterior.
  • Formula-se o argumento de que, se a alma de Cristo pré-existiu, todas as almas também pré-existiram, conforme ensinamento da Escritura.
    • Uma objeção alega que isso atribuiria a todas as almas as aparições aos patriarcas, a conversa com Moisés e a libertação dos israelitas.
    • A resposta distingue entre o que é atribuído a Cristo por essência e por função, aplicando-se o argumento à essência.
    • A exceção do pecado, Cristo está em todos da mesma maneira, e a mesma medida de duração se aplica a todas as almas.
    • A premissa menor se prova pelas aparições no Antigo Testamento, citadas por São Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo dez, versículo quatro, e em São João, capítulo um, versículo onze.
    • Uma objeção afirma que os textos mencionam o próprio Deus e o Tetragrammaton, e não a alma do Messias, indicando que a pedra que os seguia era o Christ, mas que tentaram a Deus.
    • A resposta explica que isso mostra o Christ concebido sob uma única natureza antes da união singular ocorrer no tempo.
    • Sob a hipótese da pré-existência de sua alma, o Tetragrammaton pode significar a totalidade de seu ser, como em Jeremias, capítulo vinte e três, versículo seis.
    • A posse da glória junto ao Pai antes que o mundo existisse, em São João, capítulo dezessete, versículo cinco, não se aplica à Divindade, que é imutável, significando a pré-existência das almas.
    • Uma objeção defende que se trata da glória da Divindade dada à natureza humana.
    • A resposta replica que o texto usa o termo que eu tinha e não que eu tenho, pois a glória divina não diminui como a criatural.
    • A saída do Pai e a vinda ao mundo registradas em São João, capítulo dezesseis, versículo vinte e oito, servem como terceira prova.
    • A afirmação de que ninguém subiu ao céu senão o que desceu, em São João, capítulo três, versículo treze, constitui a quarta prova.
    • O testemunho de São João Batista sobre o Christ vir do alto, em São João, capítulo três, versículo trinta e um, é a quinta prova.
    • A declaração do Christ sobre ser o pão descido do céu, em São João, capítulo seis, versículos trinta e dois, trinta e três, trinta e oito, cinquenta e oito e cinquenta e oitenta, funciona como sexta, sétima e oitava provas.
    • A menção ao segundo homem como o Senhor vindo do céu, na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo quinze, versículo quarenta e sete, é a nona prova.
    • O trecho de São Paulo na Epístola aos Filipenses, capítulo dois, versículo cinco, sobre tomar a forma de servo após possuir a forma de Deus, serve como décima prova.
    • Os textos não se aplicam à natureza divina do Christ, que não muda de lugar devido à onipresença, aplicando-se necessariamente à sua alma pré-existente, o que garante a pré-existência das demais almas.
    • Uma objeção sugere que as provas de três a dez se referem à manifestação do mistério divino do Filho de Deus, conforme a Primeira Epístola a Timóteo, capítulo três, versículo dezesseis.
    • A resposta prefere a interpretação literal que não prejudica a Deus ou ao Christ em vez de alegorias.
    • Evitar sentidos fictícios impede o afastamento de infiéis da conversão.
    • O texto citado trata da alma do Messias unida à Divindade, o que é reforçado no texto siríaco.
    • A décima primeira prova cita a Epístola aos Hebreus, capítulo um, versículo seis, sobre a introdução do Primogênito no mundo, significando a doação da natureza humana.
    • Uma objeção considera que o Primogênito pode representar o Christ com as duas natures subsistindo simultaneamente.
    • A resposta foca no termo introduzido de novo, implicando que ele já existia antes de entrar no mundo segundo a natureza humana.
    • A décima segunda prova aponta que o termo aparecer na Primeira Epístola de São João, capítulo três, versículos cinco e oito, indica existência prévia e não um começo.
    • Uma objeção sugere que foi Deus quem apareceu, com base na Epístola a Timóteo.
    • A resposta recusa o desvio do sentido da Escritura por ser incompreensível para os infiéis que Deus, sendo invisível, tenha aparecido de acordo com os profetas.
  • Apresentam-se argumentos baseados na autoridade humana de caráter sagrado.
    • O primeiro testemunho vem dos apóstros antes da iluminação pelo Espírito Santo, que mantinham a opinião sem repreensão do Mestre.
    • O fato ocorre na interrogação sobre o cego em São João, capítulo nove, versículo dois, e na menção de que o povo o considerava São João Batista, Elias ou Jeremias em São Mateus, capítulo dezesseis, versículo quatorze.
    • A asserção exigia o fundamento da pré-existência e teria sido corrigida pelo bom Maître se contivesse erro.
    • Outro momento ocorre quando respondem sobre a volta ao Pai afirmando que Ele falava abertamente e sem parábolas, em São João, capítulo dezesseis, versículo vinte e nove.
    • O segundo testemunho é de São Clemente de Alexandria, que menciona a opinião nas suas obras sem a rejeitar.
    • Nos Stromates, Livro um, afirma-se que os bárbaros honravam seus legisladores chamando-os de deuses.
    • Eles acreditavam com Platão que as almas virtuosas desceram do séjour superceleste para o tartare e se revestiram de corpos para participar dos maux e ensinar a filosofia e as leis.
    • No Livro três, contra os marcionistas, citam-se passagens de Platão, incluindo uma do Phédon sobre a vida ser como uma prisão.
    • Citam-se também Heráclito, Pitágoras e Sócrates no mesmo sentido.
    • A afirmação de que o estado desperto está mais perto da morte do que o estado adormecido harmoniza-se com Philolaüs o Pitagórico.
    • Teólogos antigos e profetas atestam que a alma se junta ao corpo na terra por punição ou suplício, permanecendo sepultada nele.
    • No mesmo livro, apesar da oposição a Julius Cassianus, faz-se uso de suas palavras sobre a alma possuir natureza divina e elevada, tendo descido à geração pela concupiscência.
    • Na Didática, afirma-se explicitamente que o Christ chamou de volta ao céu os que estavam dispersos na terra.
    • O terceiro testemunho é de Orígenes, cuja confissão da opinião é descrita como demasiado aberta para necessitar de citações detalhadas.
    • O quarto testemunho é de Synésius, bispo de Cirenaica, que na Epístola cento e cinco rejeita a ideia de a alma ser posterior ao corpo.
    • No Hino três, a alma é comparada a uma rosée celeste espalhada na terra que pede o retorno à fonte.
    • O quinto testemunho é de Arnóbio, na obra Adversus gentes, Livro um, indagando se não se deve a Deus o envio a essa prisão corpórea.
    • O sexto testemunho vem de Prudêncio no hino para o funeral dos defuntos, versando sobre a via lúcida do Paraíso aberta aos fiéis.
    • O verso pede ao supremo Condutor que receba a alma serva na Pátria da qual andava exilada.
    • O sétimo testemunho aponta que Santo Agostinho inclina-se para a opinião no Livro um do Livre Arbitre, definindo a vida anterior da alma como um grande segredo.
    • No Livro três, aborda-se que ideias contrárias à verdade sobre as criaturas não trazem perigo, desde que não tomadas como verdades constantes.
    • Na discussão da quádrupla questão sobre a alma propagada por geração, criada, colocada em receptáculo pré-existente ou vinda por movimento próprio, o autor responde que a questão não foi totalmente esclarecida nos livros dos cristãos conhecidos por ele.
    • O oitavo e o nono testemunhos são de São Basílio e São Gregório de Nazianze, que não foram adversários da opinião, conforme extratos de Orígenes reunidos na Origenis Philocalia que afirmam a pré-existência das almas.
    • Mencionam-se também Jean de Jérusalem, Philastrius e Boécio como autoridades omitidas para abreviação do estudo.
  • Apresenta-se uma série de argumentos extraídos da autoridade dos filósofos antigos e recentes.
    • O testemunho dos antigos é percebido em qualquer direção que se olhe.
    • No Egito, como fonte de ciências ocultas, aponta-se o testemunho de Hermes Trismegisto nos fragmentos restantes.
    • Na Índia, citam-se os gimnosofistas e brâmanes, e na Pérsia e Caldeia, os magos, cujos oráculos foram comentados por Plethon e Psellus.
    • Adiciona-se a Kabbale dos judeus atribuída a Moisés.
    • Manassé Ben Israel, na obra De creatione, cita a Gemara Chagiga sobre o céu empyreu ser o séjour da vida onde ficam as almas que devem vir ao mundo.
    • No Bereshit Rabba, os doutores judeus interpretam o Salmo cento e trinta e nove, versículo quatro, sobre a formação antes e depois, como aplicável à criação dos homens no primeiro e no sexto dia.
    • Destaca-se Philon o Judeu, em cuja obra a opinião é frequente.
    • Citam-se Zoroastro, Pitágoras, Epicarmo, Empédocles, Cebes o Tebano, Eurípides, Platão e Euclides.
    • Adicionam-se Virgílio, Cícero, Plotino, Jâmblico, Proclo, Porfírio e Psellus.
    • Entre os recentes, nomeiam-se Marsílio Ficino e Jean Fernel, que adotou a autoridade de Hipócrates e Galeno no tratado das causas ocultas, Livro um, capítulo quatro.
    • Citam-se Jerônimo Cardano, na obra Da imortalidade das almas, e Pomponazzi, embora este não favoreça a imortalidade.
    • Por fim, menciona-se Aristóteles, que no tratado De Anima, Livro um, capítulo três, critica os que tratam a matéria negligentemente a ponto de admitir a entrada da alma em qualquer corpo, segundo a hipótese de Pitágoras.
    • Os críticos sustentam que a forma da alma seria semelhante à do corpo dos animais, esquecendo que o artesão precisa conhecer os instrumentos específicos de sua arte, assim como a alma deve conhecer a constituição do corpo que rege.
    • Aristóteles não combate a hipótese da metempsicose em si, mas rejeita a entrada da alma humana em corpo de animal, aprovando tacitamente o restante da opinião.
    • No livro Da geração dos animais, Livro três, capítulo onze, afirma-se que plantas e seres vivos se formam da terra e da umidade por haver espírito na água e calor animal no universo.
    • No Livro dois, capítulo três, ao tratar da pré-existência das almas sensitivas e razoáveis, conclui-se que apenas a alma razoável entra no corpo vindo de fora por ser divina, seguindo a opinião de Platão.
  • Apresentam-se argumentos da parte contrária que tentam refutar a pré-existência.
    • O primeiro argumento propõe que, se a alma se une ao corpo como castigo, a união não seria normal nem representaria uma perfeição da natureza, agindo como um mal.
    • A primeira resposta por instância lembra que o homem foi submetido ao castigo de comer o pão com o suor do rosto e a mulher a parir com dor, sem que isso seja antinatural para a terra ou para os homens.
    • É normal que o corpo grosseiro sem a glória da inocência seja destinado ao castigo.
    • A segunda resposta aponta a falácia de tomar o relativo pelo absoluto.
    • A união da alma com o corpo não ocorre de forma essencial, mas relativa, envolvendo também vantagens destinadas a devolver a alma ao estado primitivo.
    • O segundo argumento afirma que o natural vale mais do que o que está fora da natureza, sendo a separação da alma algo fora da natureza e a união algo natural e superior.
    • A resposta exige a distinção entre a natureza considerada após a introdução da matéria e a considerada segundo a essência da coisa.
    • A união é natural no estado moderno de corrupção, mas não na Essência, pois a alma pode ser concebida sem união.
    • O terceiro argumento alega que, se Deus criasse as almas separadas no princípio, não teria criado tudo segundo a perfeição de cada espécie, pois a perfeição da alma ocorreria na união com o corpo.
    • A resposta distingue a alma no estado perfeito e após a queda, aceitando a asserção apenas para o segundo caso.
    • O uso de muletas por um coxo não significa que as muletas contribuam para o aperfeiçoamento da espécie humana.
    • O quarto argumento propõe que, se as almas existem antes do corpo, deveriam estar na via, na pátria ou em nenhum dos dois, locais que não lhes poderiam ser atribuídos.
    • A resposta indica que as almas estavam primeiro na pátria onde nasceram, depois em estado neutro ao caírem no pecado, e retornam à via ao serem introduzidas no corpo, tornando a premissa menor falsa.
    • O quinto argumento baseia-se na premissa de que as almas não poderiam esquecer totalmente o estado primitivo se tivessem pré-existido, sendo manifesto o esquecimento atual.
    • A resposta aponta que as causas que apagam a memória nesta vida são numerosas e poderosas, não provindo apenas da vida presente.
    • A primeira causa de esquecimento é a falta de ocasião para lembrar, como indivíduos que não lembram de sonhos ao acordar, mas recordam deles mais tarde diante de um estímulo.
    • A segunda causa é o desabituamento da alma em aplicar-se a certas coisas, como a caligrafia escolar não reconhecida na idade adulta se não fosse pelo nome assinado.
    • A terceira causa envolve grandes mutações na constituição do corpo por acidentes, morte violenta ou sono.
    • Essas predisposições ao esquecimento tornam-se mais violentas enquanto a alma permanece na prisão terrestre.
    • A diferença entre o que a alma via fora do corpo e o que vê dentro dele é maior do que a diferença entre o estado de sono e o de vigília.
    • Os cuidados da vida presente introduzem o esquecimento das coisas do além.
    • Após a queda, as almas são reduzidas ao estado de cascas e mergulhadas em silêncio por séculos.
    • Se o estado de silêncio não estivesse ligado à descida, haveria vestígios de lembrança, como ocorreu com o Christ conforme São João, capítulo dezesseis, versículo cinco.
    • A descida no corpo é uma mutação maior e mais apta a apagar a memória do que doenças que causam amnésia nesta vida.
    • Uma objeção adverte que, se a mudança de lugar causasse esquecimento total, haveria o risco de esquecimento após a saída do corpo, o que seria absurdo por se esperar a permanência da memória e da consciência.
    • A resposta diferencia as situações por haver um estado de silêncio e torpor entre o estado primeiro e o moderno que adormece as faculdades.
    • Nada semelhante ocorre entre o estado moderno e o futuro, garantindo a não aniquilação da memória.
    • O sexto argumento alega que, se Deus criou as almas com aptidão vital para ocupar três veículos, sendo o último o receptáculo após a queda, Deus as teria criado com a necessidade de pecar.
    • A aptidão que determina a passagem pela terra proviria da própria essência, sendo necessária.
    • A resposta distingue a aptidão vital em si de sua dedução em ato.
    • A existência da aptidão não torna a dedução em ato necessária, pois é falso que toda potência se deduza em ato.
    • A potência dos anfíbios de viver em vários elementos não se deduz necessariamente em ato se animais como gansos e patos forem alimentados sempre em terra.
    • A alma possui a potência de viver em vários veículos ou fora deles, assim como o cocheiro vive fora da carruagem.
    • O sétimo argumento indica que a capacidade de habitar múltiplos veículos faria a alma entrar em outro após o veículo terrestre, não o retomando para a ressurreição da carne.
    • A resposta distingue o estado atual da carne e a ampliação do que já foi carne outrora.
    • A ressurreição deve ser entendida segundo a segunda acepção, pois a transformação ocorrerá na matéria do veículo conveniente à alma naquele momento, conforme São Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo quinze, versículo cinquenta e dois.
    • A imutabilidade da matéria constitui uma mudança de acidentes com identidade de substância, permanecendo intacta a substância que foi carne mesmo se atenuada em ar ou éter.
    • O oitavo argumento afirma que, se a alma ocupou a região do ar originalmente, um local semelhante lhe seria devolvido após a morte, o que seria incômodo aos justos por ser o séjour dos demônios e de tempestades.
    • A resposta aponta a existência de várias espécies de ar, sendo a mais elevada a grande órbita da terra.
    • O ambiente terrestre não é atribuído às almas piedosas por haver locais de maior quietude disponíveis.
    • O nono argumento propõe que a pré-existência permitiria ao homem morrer várias vezes se a aptidão vital para o corpo terrestre não estivesse expirada, exigindo o retorno até o despertar da aptidão para o corpo aéreo.
    • A necessidade de experimentar a morte mais de uma vez contrariaria a Epístola aos Hebreus, capítulo nove, versículo vinte e sete, Job, capítulo dezesseis, versículos vinte e dois e vinte e três, e o Segundo Livro de Reis, capítulo doze, versículo vinte e três.
    • A resposta ao primeiro trecho exige a distinção entre o termo homem em sentido amplo para designar a alma e em sentido estrito para designar a união com o corpo terrestre, além da distinção entre Julgamento universal e particular.
    • Ao deixar o corpo, a alma é levada ao Julgamento particular para se decidir se merece retornar ao estado primeiro, não seguindo o julgamento universal imediatamente à morte de cada homem.
    • O trecho de Job aplica-se a um caso particular sobre o fim da aptidão de Job para com o veículo terrestre, mostrando que o homem santo não deve temer o retorno, não se aplicando o particular ao universal.
    • O terceiro argumento sobre o filho de Davi envolve a falácia de concluir do relativo para o absoluto, sendo um caso específico em que a alma da criança não retornou para formar outro filho durante a vida de Davi.
    • O décimo argumento aponta que a hipótese tornaria a glória celeste da vida futura inconstante e passível de perda, baseando-se na queda inicial das almas.
    • A resposta opõe as promessas das Escrituras sobre a coroa incorruptível na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo nove, versículo vinte e cinco, e na Primeira Epístola de São Pedro, capítulo cinco, versículo quatro.
    • São Paulo afirma a ressurreição na incorruptibilidade na Primeira Epístola aos Coríntios, capítulo quinze, versículos quarenta e dois, cinquenta e dois e cinquenta e três, para que a morte seja absorvida na eternidade junto com o pecado, conforme Oséias, capítulo treze, versículo quatorze.
    • O décimo primeiro argumento sugere que múltiplas almas poderiam entrar em um corpo ao mesmo tempo se a faculdade plástica não as permitisse discernir se o corpo já está ocupado.
    • A resposta distingue a ingressão formativa da não formativa.
    • A ingressão formativa ocorre quando o centro vital da alma se fixa no ponto determinado pelo espírito do universo, permitindo que apenas uma realize a ingressão formativa se mil almas entrarem juntas, sendo as outras obrigadas a abandonar o local.
    • O décimo segundo argumento alega que a hipótese implicaria que outros planetas são habitados por homens por serem maiores e mais próximos do lugar bem-aventurado de onde as almas foram expulsas.
    • A resposta nega a consequência por falta de matéria seminal adequadamente preparada nesses locais.
    • Deus colocou Adam na terra como primeiro preparador dessa matéria, razão pela qual não haveria homens em outros locais.
  • Apresentam-se os argumentos de oposição baseados nas escrituras sagradas.
    • O primeiro cita o Gênesis, capítulo um, versículo vinte e oito, sobre a ordem de crescer e multiplicar, que se aplicaria à alma e ao corpo como pertencentes à espécie das coisas animadas.
    • A resposta aceita o argumento, mas nega a consequência de que as almas não pré-existam.
    • A propagação humana segundo a alma ocorre sem que a alma seja extraída da substância dos pais.
    • O gerador prepara a matéria conveniente para a introdução da alma, agindo como causa sine qua non, assim como quem prepara a matéria para o fogo multiplica os fogos vindos de outra parte.
    • Corpos magnéticos multiplicam-se pelo atrito contra o ferro embora a matéria sutil venha de outro lugar, negando-se a premissa menor para o homem.
    • O texto sagrado não adicionou a expressão segundo a sua espécie para o homem, constando apenas o crescimento e o aumento de número, expressões indiferentes à causa eficiente principal.
    • O segundo argumento evoca o Gênesis, capítulo cinco, versículo três, afirmando que, se Adam gerou um filho à sua semelhança, a geração deve ter incluído a alma.
    • A resposta nega a afirmação, explicando que a semelhança pode ser entendida como externa e aplicável ao corpo corruptível, enquanto a alma descende de outra origem.
    • O terceiro argumento usa o Gênesis, capítulo quarenta e seis, versículo vinte e cinco, propondo que tudo o que saiu do fêmur do parente não pré-existiu, aplicando-se às almas dos filhos.
    • A primeira resposta indica que o termo alma pode se aplicar ao espírito vital propagado com a semente, conforme o Salmo dezesseis, versículo dez.
    • A segunda resposta propõe o uso de uma metonímia da forma pela coisa formada.
    • A terceira resposta aponta que o sentido estrito faria a alma ser propagada apenas pelo pai, com exclusão da mãe.
    • A quarta resposta menciona a aplicação da hipótese da pluralidade de almas em uma única estirpe.
    • O quarto argumento baseia-se em Job, capítulo quatorze, versículo quatro, sobre a impossibilidade de tornar puro o que nasceu de algo impuro, indicando que da alma imunda do pai provém a do filho.
    • A resposta esclarece que a partícula de nem sempre significa a causa eficiente principal, representando frequentemente a causa instrumental, pois o pai imundo comunica com a semente as formas do invólucro terrestre que receberá a alma.
    • O quinto argumento cita o Salmo cinquenta e um, versículo sete, sobre a concepção na iniquidade e no pecado.
    • A resposta indica que o texto trata do pecado dos pais no ato da geração e não da criança.
    • Se for entendido como pecado da criança, significa que a alma que já existia na iniquidade devido à queda anterior foi recebida no seio materno.
    • O sexto argumento evoca o texto sobre o que é nascido da carne ser carne.
    • A resposta afirma que o nascimento não implica dependência essencial do gerador, mas sim a fixação da alma à carne.
    • A aptidão vital anterior à natividade aumenta em decorrência do nascimento de pais carnais, assim como a água impura torna-se mais impura ao passar por canais imundos.
    • O sétimo argumento baseia-se na Epístola aos Romanos, capítulo cinco, versículo doce, sobre o pecado ter entrado no mundo por um só homem, concluindo que o pecado não existia antes de Adam.
    • A resposta explica que Adam representa o gênero humano na história de Moisés, significando o texto que a morte atinge a todos porque cada homem pecou individualmente.
    • O oitavo argumento cita a Epístola aos Romanos, capítulo nove, versículo onze, alegando que as crianças não cometeram bem ou mal antes de nascer, concluindo que as almas não pecaram antes da vida terrestre.
    • A resposta aponta que os não nascidos podem ser os anteriores à união ou os já unidos ao corpo, tratando o texto dos últimos por nomear crianças.
    • O texto indica a determinação do tempo em que não cometeram bem ou mal através do versículo treze sobre o mais velho servir o mais jovem, referente ao período uterino.
    • Eles não cometeram mal de forma atual naquele momento, embora a queda tenha ocorrido antes da união, limitando-se o argumento ao estado de união.
    • O décimo primeiro argumento baseia-se na Segunda Epístola aos Coríntios, capítulo cinco, versículo dez, afirmando que a prestação de contas exclusiva pelos atos cometidos no corpo comprovaria que nenhum pecado foi cometido fora dele.
    • A resposta nega a conclusão por não haver partícula exclusiva no texto que restrinja o julgamento aos pecados do corpo, focando-se nos pecados atuais e provavelmente no pecado original.
    • Mesmo se não houver prestação de contas, isso não prova a inexistência do pecado por ter sido obliterado pelo esquecimento ou por já ter tido a pena paga através da entrada na prisão terrestre.
    • O décimo argumento cita a Epístola aos Hebreus, capítulo sete, versículo cinco, indicando que os dízimados nos lombos do pai tiravam a alma do pai.
    • A primeira resposta remete ao parágrafo três do capítulo.
    • A segunda resposta associa a potência de nascer diretamente com a natividade, agindo o pai apenas como causa instrumental que prepara a matéria para a introdução da alma.
    • O décimo primeiro argumento usa o Eclesiastes, capítulo doze, versículo sete, sobre o espírito retornar a Deus que o deu, equiparando o retorno do espírito ao da poeira tirada da terra no momento da geração, visão compartilhada pelos defensores da criação espontânea.
    • A resposta pondera que a matéria do corpo não é criada no momento da geração, embora seja tirada da terra originalmente.
    • O espírito é dado por Deus e se manifesta no tempo da geração, não significando que sua existência comece naquele momento preciso.
    • O décimo segundo argumento cita Zacarias, capítulo doze, versículo um, sobre o Senhor ter formado o espírito do homem no seu centro, indicando que o espírito não pré-existiu se foi moldado a partir do próprio espírito do homem.
    • A resposta define que o termo espírito deve ser entendido como espírito vital, como no Gênesis, capítulo seis, versículo dezessete, e capítulo sete, versículo quinze.
    • A expressão no seu centro refere-se às forças cerebrais, conforme o Salmo trinta e três, versículo quinze, não possuindo consequência para a alma.
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