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Hilário de Poitiers
Saint Hilaire, évêque et docteur. Études augustiniennes, 1968
- Há momentos distintos na carreira de Hilário, sendo que em seu período como bispo em Poitiers, por volta de 350 a 367, exerceu um papel social como protetor da cidade e defensor dos pobres contra injustiças, função comum aos bispos da época, que frequentemente pertenciam às classes dirigentes para tratar com as autoridades.
- É certo que Hilário contribuiu para o estabelecimento do monaquismo no Poitou, ao acolher e instalar São Martinho em Ligugé, cooperando com a hierarquia, o que caracterizou a Igreja do século IV, e também atuou como doutor de sua igreja, função essencial do bispo descrita por ele mesmo como a de fortalecer os fiéis com um ensino autêntico e adaptado.
- Dos ensinamentos de Hilário aos fiéis, conservaram-se seus comentários exegéticos da Escritura, que não são homilias, mas obras literárias, embora reflitam seu ensino, como o Comentário sobre Mateus, escrito no início de seu episcopado, e o Tratado sobre os Salmos, após seu retorno a Poitiers, que contém traços de origem oral e alusões à liturgia e aos ritos batismais.
- O Tratado dos mistérios, obra recuperada no século XIX, é considerado um dos mais importantes da antiguidade cristã e a obra-prima de Hilário, sendo uma exposição sobre o caráter figurativo do Antigo Testamento, onde figuras como Adão e Moisés são apresentadas como prefigurações de Cristo, em refutação ao alegorismo que desconsidera o sentido literal.
- A interpretação de Hilário, embora conheça a exegese alegórica de Origênio e valorize o sentido literal hebraico, fundamenta-se principalmente na tradição eclesial comum, seguindo escritores ocidentais anteriores, e vê nos eventos, instituições e personagens do Antigo Testamento as figuras das realidades do Novo Testamento, como descreve claramente no início do Tratado dos mistérios.
- Para Hilário, a Escritura tem por objeto descrever as ações divinas de criar, salvar, santificar e julgar, presentes em toda a história santa, mas como esboços no Antigo Testamento, cumprimentos em Cristo e realizações na Igreja, um princípio teológico válido que torna a exegese um elemento constitutivo da tradição e da pregação episcopal.
- No Comentário sobre Mateus, Hilário estende essa concepção figurativa ao Novo Testamento, vendo nas parábolas evangélicas, como a das virgens sábias e loucas, a prefiguração dos eventos do fim dos tempos, seguindo a tradição eclesial e diferindo de Origênio, que oferecia múltiplas interpretações.
- Hilário não é apenas testemunha, mas também teórico dessa exegese eclesial, opondo-se no final do Tratado dos mistérios à exegese puramente alegórica e à puramente literal, defendendo que a verdadeira exegese supõe a realidade dos fatos e neles vê um conteúdo espiritual, com uma sabedoria profunda na antiguidade cristã.
- Em 356, inicia-se um novo período na vida de Hilário, quando seu ministério se estende aos problemas da Igreja universal e aos conflitos políticos e doutrinários que a dividem, especialmente a controvérsia ariana e semi-ariana sobre a divindade de Cristo, que ganha um aspecto político com o imperador Constança impondo o semi-arianismo.
- Convocado ao sínodo de Béziers, Hilário é impedido de falar e, de volta a Poitiers, escreve sua primeira obra de controvérsia, protestando contra a heresia e contra a intervenção do imperador na fé, tornando-se o defensor da liberdade do episcopado, o que resulta em seu exílio na Frígia em 356.
- No exílio, Hilário escreve Sobre a Trindade, expondo a fé recebida da tradição e manifestando um gênio especulativo que incorpora a aquisição do Concílio de Nicéia, a geração eterna do Verbo, e o que havia de válido na teologia pré-nicena, a ação do Verbo na criação e na história, resultando em uma teologia de plenitude singular.
- Na Frígia, Hilário também entra em contato com o episcopado oriental e escreve o De Synodis, demonstrando qualidades de historiador ao reunir documentos sobre os sínodos, e faz a distinção entre os adversários que rejeitam a fé nicena, com quem não há compromisso, e outros, como Basílio de Ancira, cuja fé é pura, embora a formulem de modo diferente.
- Hilário mostra-se intransigente na substância da fé, preferindo o exílio à traição, e polêmico contra os hereges e o imperador, mas ao mesmo tempo é acomodatício nas diversidades legítimas de linguagem, distinguindo com penetração doutrinária a verdade da heresia.
- Em 359, no Concílio de Selêucia, Hilário, convidado e acolhido por Basílio de Ancira, testemunha a fé dos bispos gauleses, e as decisões do concílio seguiram a ortodoxia, mas em Constantinopla os delegados foram novamente pressionados, levando Hilário a escrever novo tratado contra Ursácio e Valêncio e a pedir uma audiência a Constança, que lhe é negada.
- Em janeiro de 360, um sínodo proclama o homeísmo, e Hilário retorna à Gália, publicando um panfleto violento contra Constança e, com sua resistência, reúne os bispos gauleses que haviam cedido sob pressão, mas cuja fé não fora alterada.
- Hilário é também o doutor próprio da Igreja das Gálias, tendo sido o chefe e o apoio dos bispos gauleses em um momento dramático, pois, embora sua fé fosse reta, eles se deixavam enganar pela astúcia e intimidação dos bispos semi-arianos, como ocorreu no Concílio de Rimini, onde foram ludibriados por Valêncio.
- Hilário discerniu o jogo dos bispos homeanos desde o Concílio de Béziers e dedicou-se a esclarecer e sustentar seus irmãos no episcopado, enviando-lhes o De Synodis e elogiando sua fé invencível, mas principalmente os apoiou com sua coragem ao continuar a luta sozinho contra os poderosos, dando-lhes confiança e tendo a última palavra.
- O retorno de Hilário à Gália em 360 coincidiu com a proclamação de Juliano como imperador, que, sendo pagão, pouco se importava com as querelas teológicas, permitindo que Hilário reunisse sínodos, como o de Paris, onde os bispos gauleses retrataram sua adesão à fórmula de Rimini e romperam com os bispos hereges.
- A Igreja das Gálias contraiu uma grande dívida com Hilário, pois, em tempos de perturbação e pressão política, ele soube ser o doutor e o chefe que manteve íntegro o depósito da fé, ajudando seus irmãos a guardá-la e consolidando-a na terra das Gálias, razão pela qual a Igreja da França o venera como um de seus principais fundadores.
- Hilário é doutor próprio da Igreja das Gálias também pelos traços particulares de seu pensamento teológico, que representam uma expressão própria da fé, não sendo alexandrina, africana ou síria, caracterizada por um realismo bíblico, sem influências filosóficas significativas, centrado na noção bíblica de glória, a qual é comum ao Pai e ao Filho e comunicada à humanidade, com pouco interesse pelos aspectos subjetivos da fé ou pela mística afetiva.
- O título de “bispo e doutor”, já dado por Cassiano, encarna a função essencial do bispo como doutor, que Hilário exerceu em sua diocese, na Gália e na Igreja universal, mantendo, ilustrando e comunicando a fé recebida da tradição apostólica em tempos conturbados, graças à graça de seu episcopado e também às virtudes de sua raça, da qual a cidade de Poitiers tem o direito de se glorificar.
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