Palavra
BERTHO, Marie. “Le miroir des âmes simples et anéanties” de Marguerite Porète: une vie blessée d’amour. Paris: Larousse “Sélection du Reader’s digest”, 1993.
Testemunho ou ficção
A composição do Miroir forma um díptico: uma primeira parte de 122 capítulos que vai do Prólogo até o primeiro Explicit, onde as figuras da alegoria se entrelaçam num modo narrativo que empresta todos os seus procedimentos à ficção, e uma segunda parte de 17 capítulos onde as figuras alegóricas se apagam em favor de um relato depurado em primeira pessoa do singular sobre um caminho percorrido na interioridade da oração do coração.
-
A falta de composição e o aspecto repetitivo da obra são significativos em relação à mensagem entregue, pois a Razão não pode de modo algum encontrar seu alimento no Miroir, e essa impossibilidade vale também para a forma do texto, que desorienta toda tentativa racional de apreensão do sentido.
-
A morte da Razão inscreve-se na própria forma do texto, que obedece a um outro princípio organizador: o da espiral anagógica, cujo cada volta não é a repetição, mas o aprofundamento da anterior.
-
Desde o Prólogo, a metáfora exclui toda tentativa de narração autobiográfica em proveito de uma ficção alegórica, e o testemunho da Alma parece se fazer em dois tempos e usar duas palavras: num primeiro momento, a Alma, ainda sobrecarregada de si mesma, recorre à ficção alegórica para fazer Deus falar nela; num segundo momento, a palavra que esgotou todos os artifícios da ficção se descobre, se despe, se desnuda no abandono consentido de seu querer-dizer e acede por seu aniquilamento ao silêncio de Deus.
-
No curso da oração, a palavra se esgotou e o pensamento que a sustentava falhou, a Razão foi morta e a palavra no silêncio enfim remetida à Dama Amor, e o autor torna-se aqui, como a Alma que pintou, simples e aniquilada: o sentido lhe falta, ela não sabe o que responder.
-
As duas partes do Miroir recobrem cada uma uma função distinta na obra: a segunda parte autentica a primeira, sendo a prova autobiográfica trazida às enunciações da alegoria mística imaginada por Marguerite, mas reciprocamente a primeira parte sustenta a segunda, pois o emprego da ficção permite à experiência pessoal dar-se uma expressão universal e visar à exemplaridade.
O Miroir ou a vocação de uma palavra
Quando Marguerite empreendeu redigir o Miroir, ela buscou, por meio da ficção alegórica, despojar sua experiência de sua dimensão pessoal a fim de pôr em luz seu arquétipo, extraindo de sua existência um modelo ideal de vocação universal que ela pôs em cena numa narrativa exemplar.
-
A intervenção do Autor no Miroir recorda aos ouvintes que a Alma de que fala este livro não é Marguerite, mas a expressão ideal de seu ser, um eu exemplar, e é nessa única perspectiva que se é convidado a ouvir “Como esta Alma mostra que ela é o exemplo da salvação de toda criatura”.
-
Não é a beguina que se dá em exemplo da salvação, mas a Alma simples e aniquilada através de sua palavra, e Marguerite se apresenta unicamente como a depositária de uma palavra que a ultrapassa e que ela transcreve sob o ditar do Amor.
-
O que o Miroir escolhe pôr em luz é a soberania da bondade de Deus, sem a qual a criatura perdida pelo pecado não saberia ser salva nem mesmo existir, e é porque não existe alma pior que ela é, para o mundo, exemplo e garantia de salvação.
-
Ao apresentar a Alma simples e aniquilada como a prova do resgate do gênero humano pelo Filho, o Miroir se dá a ler como um fragmento da Revelação e remete em causa a primazia das Santas Escrituras, apresentando sua mensagem numa relação de equivalência com a Bíblia na medida em que é obra de Deus, pois “esta lição não é escrita de mão de homem, mas do Espírito Santo, que maravilhosamente a escreve e cuja Alma é o precioso pergaminho”.
Uma palavra livre: uma voz para o Livre Espírito
Tomaram-se muitas liberdades com os ditos da beguina para condenar a liberdade, e durante seu processo foi uma palavra truncada, desfigurada que se julgou: sobre os quinze artigos extraídos do Miroir, três ao menos, privados de seu contexto, apareceram heréticos.
-
O decreto Ad nostrum, pelo qual o concílio de Viena condenava em 1311-1312 a heresia do Livre Espírito, nunca estabeleceu claramente que a criança tivesse existido, mas encontrou-se para ela uma mãe adotiva: a beguina queimada em 1310 por ter escrito o Miroir das almas simples e aniquiladas.
-
Ao cortar as afirmações de seu contexto e transformá-las em proposições teológicas abstratas formuladas num vocabulário escolástico, dava-se a elas um caráter francamente herético, e cada erro identificado no Miroir podia ser suspeito de veicular o vício próprio a uma heresia particular: antinomismo, quietismo e a deificação do homem.
-
Para a Alma do Miroir, não se tratava de ser una com Deus por si mesma nem em si mesma, mas sem si mesma pela única virtude da graça divina, e ser afinco das Virtudes é sê-lo da dualidade inerente à existência de um querer próprio ao lado do querer divino.
-
O Miroir não remete em causa o exercício das Virtudes, mas lhe atribui em sua construção teológica um lugar e uma função particulares: as Virtudes são as mensageiras de Deus junto ao homem, as guardiãs do limiar entre a vida segundo o espírito e a vida aniquilada.
-
A apatheia (impassibilidade espiritual) é a expressão mais pura da alma afinada, que se tornou espelho de Deus refletindo o querer divino e é tão impassível quanto um espelho refletindo a luz do sol, não desejando mais nada para si mesma por si mesma.
Uma palavra perigosa
A liberdade de expressão, reflexo de uma liberdade espiritual encontrada na penumbra da experiência mística e assumida em plena luz através do Miroir, apareceu para a autoridade eclesiástica como subversiva, pois a Igreja se apresentava na época aos fiéis como a única detentora da Boa Nova e do monopólio da palavra sagrada e da inspiração divina.
-
A escrita de uma mulher leiga em nome da alegoria divina da Dama Amor foi em si uma remessa em causa do monopólio da palavra zelosamente guardado pela Igreja, e quando essa escrita marginal exprime tendências anti-hierárquicas, torna-se dissidente.
-
As tendências anti-hierárquicas do Miroir se exprimem na negação do clivagem clérigo/leigo em proveito da distinção entre Santa-Igreja-a-Pequena e Santa-Igreja-a-Grande, sendo esta última constituída pelas Almas simples e aniquiladas, que sustentam, ensinam e nutrem toda a Santa-Igreja.
-
A Alma simples e aniquilada nega para si mesma a necessidade de um intermediário em sua relação com Deus, pois “vive, sem intermediário, da vida da glória, e está no paraíso sem nele estar”, e sua palavra aparece no Miroir como o sacerdócio que a Alma simples e aniquilada recebeu do Espírito Santo: ministério irrecebível para a Igreja, vindo de uma mulher, leiga além disso, e que não reconhece à instituição eclesiástica a primazia espiritual.
-
Essa Alma permanece, contudo, sob a obediência da Igreja no que tange à administração dos sacramentos e notadamente do Santo Sacramento do altar, diante do qual ela testemunha uma real devoção, com uma verdadeira profissão de fé eucarística no Miroir que não pode revestir de sentido senão no quadro da Igreja.
