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Espelho, anagogia
BERTHO, Marie. “Le miroir des âmes simples et anéanties” de Marguerite Porète: une vie blessée d’amour. Paris: Larousse “Sélection du Reader’s digest”, 1993.
Capítulo III — O espelho, instrumento da anagogia
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A graça percorre o Espelho e banha num oceano de alegria a Alma que nele se contempla, se perde e encontra Deus, acompanhando a descida de Deus no Espelho de sua própria ascensão, à medida que a graça de Deus se abaixa até ela e ela se eleva em direção a ele, galgando um a um os degraus da escada de Jacob e realizando a celeste iniciação dos sete estados de graça.
A liberdade da Alma, o reverso da graça
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A cortesia da Alma é o reverso da graça que constitui a cortesia de Deus, e nela reside a liberdade da Alma — de modo que a graça de Deus não aparece no Espelho como uma privação de liberdade para o homem, mas como a efusão espiritual que recompensa a mais alta expressão de sua liberdade e a afranquia para sempre.
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O Espelho enuncia: “Cortesia: Para que ele nos dispense, como o fazia, as larguezas que pode dar e mesmo o que jamais foi dado, o que jamais foi dito de boca nem pensado de coração, basta-nos querê-lo e saber nos dispor a isso.”
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A liberdade última da Alma reside no dom de tudo o que ela possui, o que equivale ao abandono de sua vontade pessoal, por meio do qual a Alma descobre a verdadeira cortesia de Deus — pois ao criá-la, Deus em sua grandíssima liberalidade ofereceu à Alma a vontade como gage de amor, elegendo sua criatura como sua dama na Criação.
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A alma vilã guarda sua vontade e, pelo exercício pessoal que dela faz, se afasta da união divina à qual estava originalmente prometida; a Alma cortesã, ao contrário, em sua mais pura e alta liberdade, devolve a vontade a Deus e torna-se como Ele lhe havia prometido sua dama.
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Marguerite mostra que Deus havia dotado a Alma de vontade “francamente, em sua bondade”: “E é por isso que ele a queria reaver, para seu proveito, de sua amiga, francamente, num total despojamento, sem nenhuma razão mas porque ele o quer e porque o merece.”
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Quando a Alma tiver sido livremente devolvida a ele, “ele será por si mesmo nessa bondade que conhecia antes que a Alma fosse sua dama e que ele lhe acordasse sua bondade — pelo que ele a fez sua dama. Foi Vontade Franca, que ele não pode reconduzir a si sem o prazer da Alma. Ora ele a tem agora, sem nenhuma razão, tal como a possuía antes que esta Alma fosse sua dama.”
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A doação mútua está no coração da experiência cristã do misticismo: em promessa de união, Deus graciosamente e livremente ofereceu a vontade à Alma; em retorno, ela a lhe restitui numa gratuidade e numa liberdade à imagem das do Criador — é a troca muda dos consentimentos na intimidade das núpcias místicas, o que André Vauchez chama de “a troca dos corações” ou ainda “a fusão amorosa das vontades.”
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O dom da Alma no Espelho é sem razão — sem porquê — à imagem daquele cantado pela pseudo-Hadewijch de Antuérpia: “O que se saboreia não é senão pressentimento ou desejo, / Até a hora em que o bem esperado se revela: e a multidão incontável de razões / que me fazem vos preferir a tudo, me escapam, Senhor, quando me volto na nudez para vós somente, / vos amando sem razão, vós mesmo por vós mesmo.”
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Deus faz justiça às Almas que, sem razão, lhe devolveram sua vontade — assim sua graça que abençoa as Almas simples e aniquiladas não é senão justiça de amor —, e o Espírito Santo recomenda a Razão que não recuse nada àquela que dá tudo.
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O Espelho: “E visto que esta Alma nos deu tudo o que tem e tudo o que é (e que ela não tem mais por maneira de vontade), convém que lhe demos o que temos, por retidão de amor. E assim, o que temos em nós e que detemos de natureza divina, esta Alma o detém de nós, nela, por retidão de amor.”
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O Espelho é apocalíptico no sentido do verbo grego apocaluptein — desvelar —: sob a ditada de Amor, a Alma descobre para seus ouvintes algumas páginas do Livro de vida sobre o qual no Julgamento final serão inscritos os nomes dos que serão salvos.
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A Alma enuncia no Espelho: “este livro é assim feito que, tão logo Amor o abra, a Alma sabe tudo e assim possui tudo e, pela abertura deste livro, toda a obra de perfeição se encontra cumprida nela. Esta abertura me fez ver tão claramente que ela me faz devolver o que lhe pertence e retomar o que é meu (…) Assim o Justo me devolveu, em toda justiça, o que me pertence e mostrou a nu que eu não sou. E eis por que ele quer, justamente, que eu não me possua. Esta lei está inscrita em pleno meio do Livro de vida.”
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O Livro de vida restaura o vínculo ontológico existente entre o Criador e sua criatura antes do pecado original; essa concepção da justiça de amor como graça testemunha em Marguerite a influência das correntes escatológicas que marcaram a última década do século XIII, notadamente pela difusão da Postilla super Apocalypsim do franciscano espiritual Pierre Olieu (ou Olivi).
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Às almas simples e aniquiladas, Deus rende justiça; às que estão desgarradas, Ele faz justiça enviando-lhes seus anjos, e Marguerite exorta as almas desgarradas a se preparar ao longo do Espelho, com um tom que toma emprestado seus acentos dos sermões escatológicos da época.
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O Espelho: que os anjos enviados por Amor se mantenham vigilantes — “afim de que, se Amor lhes pedir alguma coisa do que ela mesma lhes emprestou, eles não lhe recusem nada, qualquer que seja a consequência, a qualquer hora que seja, e qualquer que seja a Virtude que Amor envia como mensageira (…) E que todos aqueles a quem Amor envia suas mensagens, saibam bem que, se eles recusarem (…), jamais farão a paz com o soberano que lhes enviou a mensagem.”
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Amor se queixa de que a Alma, quando ele quis salvá-la, repeliu seus mensageiros: “Eu vos enviava os Tronos para vos reconduir e vos preparar, os Querubins para vos iluminar, e os Serafins para vos abrasar. Por todas as minhas mensagens eu vos pedia — e eu vos fazia saber — minha vontade e os estados aos quais eu vos convidava (…) eu vo-lo pedia pelo intermediário das sutis Virtudes que eu vos despachava, e pelo intermediário de meus Anjos de quem eu vos aguçava.”
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Bem-aventuradas as almas que, à hora do Julgamento, não encontrarão nelas mais nenhum não e refletirão, na doce unificação de seu sim ao Criador, sua plena luz.
A escada de Jacob
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A anagogia designa a elevação da alma em direção às coisas celestes, a passagem do baixo para o alto, do sensível para o suprassensível, do menos da Alma para o mais da Alma — e essa ascensão imprime ao Espelho sua forma, delineando uma perspectiva cujo ponto de fuga, invisível no além do céu, obriga o olhar do leitor a se elevar sempre mais alto.
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Na obra de Marguerite Porète, cada figura e cada estado da Alma encontram assim seu lugar no seio de uma estrutura piramidal na qual representam um grau da progressão anagógica da Alma.
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Essa pirâmide de reflexos que o Espelho constrói é uma combinação de hierarquias: hierarquia das almas, hierarquia dos sete estados de graça, hierarquia dos doze nomes, hierarquia dos anjos — sendo que os doze nomes da alma simples e aniquilada recordam os doze nomes divinos do pseudo-Denys o Areopagita.
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Existem entre as diferentes hierarquias do Espelho correspondências que tecem a arquitetura secreta, quase invisível da obra: a hierarquia das almas está em correspondência com a dos anjos e a hierarquia dos sete estados de graça com a dos doze nomes da Alma.
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O Espelho elabora uma ordem do mundo na qual as almas se dividem em dois ou três grupos segundo o critério adotado para sua classificação, distinguindo almas mercadoras ou vilãs — que negociam sua salvação — das almas nobres, que se entregam a Deus sem pedir nada em troca.
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As almas que permanecem vassalas de Razão são escravas das virtudes; as que passaram sob a senhoria de Amor vivem em afranquiadas.
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Marguerite divide as almas vilãs em dois grupos: as almas que pereceram e as almas desgarradas; as primeiras creem ter atingido uma vida de perfeição, enquanto as desgarradas sabem que existe um estado superior ao seu.
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Amor responde à Alma liberada que lhe pergunta por que os desgarrados são mais sábios que os que pereceram: “Porque eles julgam que existe um estado melhor que o seu, ainda que reconheçam nada saber desse estado superior em que creem. Mas essa crença lhes dá pouco conhecimento e satisfação em seu estado, e assim se têm por maus e por desgarrados.”
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A distinção entre os desgarrados e os que pereceram é uma diferença de consciência; a vida mais virtuosa pode nutrir o maior pecado perante Deus: a hipertrofia da vontade pessoal sob cobertura de perfeição.
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Na alma que pereceu, o desejo de Deus foi desviado em proveito de si mesma — esse desvio do desejo sobre a imagem de si é mortífero na medida em que engendra no homem um crescimento doentio do desejo que jamais o deixa em repouso, ao contrário do divino Desejo que encontra sua última satisfação na paz de Deus.
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Teresa d'Ávila, após Marguerite Porète, concebeu o perigo de tomar interesse nessa imagem mundana de si ao ponto de não querer perdê-la a nenhum preço: “Teresa voltará infatigavelmente a esse ponto. Ela nos alerta com a paciência do desejo sobre a maneira que temos de colocar nossa honra num 'objeto' ao qual nos prendemos mais do que a tudo, como se de tal dependesse nossa verdadeira identidade e que, sem ele, a morte seria preferível à vida. Essa honra — a do mundo — é desvio do desejo do Outro que é o desejo do homem.”
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Os que pereceram “vivem em perpétuo estado de desejo. Pois eles estimam e creem que não existe estado melhor que o estado de desejo no qual permanecem e querem permanecer; e assim perecem no caminho e pela própria suficiência que desejo e vontade lhes dão.”
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A divisão tripartite das almas no Espelho reflete a distinção que faz Guilherme de Saint-Thierry entre os monges principiantes, os progressantes e os perfeitos — sendo que os principiantes fazem pensar nas almas que pereceram no Espelho e os progressantes nas almas desgarradas.
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Guilherme de Saint-Thierry na Carta aos irmãos do Mont-Dieu: “Como uma estrela difere de outra estrela por seu brilho, assim a cela, pela vida que nela se leva: vida de principiante, de progressante ou de perfeito.”
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Os principiantes “estão no estado animal (…) nem conduzidos pela razão, nem arrastados pelo afeto, mas que no entanto (…) sabem aprovar o bem onde o encontram (…) como os cegos que seriam conduzidos pela mão.”
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Os progressantes são “aqueles a quem o julgamento da razão e o discernimento do saber natural dão o conhecimento e o desejo do bem, mas que ainda não têm o afeto” — são as almas desgarradas, ainda vassalas de Razão.
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Os perfeitos, como as almas simples e aniquiladas, precedem e aguardam os outros no repouso de Deus: “porque eles saboreiam o bem cujo sentimento os arrasta, chamam-nos sábios. Porque o Espírito Santo se revestiu deles como antigamente o fez de Gedeão, porque se tornaram seu vestimento, chamam-nos espirituais.”
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O mesmo princípio ordenador preside, no Espelho, à hierarquia das almas e à dos anjos, instaurando entre elas um rapport analógico que faz da hierarquia das almas uma projeção da hierarquia dos anjos no plano da matéria, com o Espelho emprestando sua classificação à angélologia do pseudo-Denys o Areopagita na Hierarquia celeste.
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A última hierarquia, constituída pelos Anjos, Arcanjos e Principados, tem um rapport imediato com o homem: “Ela tem seu campo de ação mais particularmente no domínio da vida interior dos indivíduos e da humanidade, em todos os eventos relativos à alma e ao destino. Ela não intervém guarda no nível das circunstâncias físicas de nossa existência terrestre. Para agir nesse domínio, são necessárias forças espirituais de outra ordem.”
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A segunda hierarquia é composta pelas Potências, as Virtudes — que no Espelho têm por missão dispor as almas à força da boa vontade — e as Dominações.
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A primeira hierarquia, com a qual as Almas simples e aniquiladas estão em rapport, é constituída pelos Tronos, os Querubins e os Serafins; o pseudo-Denys descreve os anjos da primeira hierarquia: “esses seres são puros, não porque estão livres de todo pecado e de toda maculação profana, mas porque ignoram toda imaginação material (…), porque conservam inebalávelmente, graças a seu indefectível amor de Deus, a ordem de seu movimento próprio, espontâneo e imutável (…), o poder indefectível e estável de se conformar a Deus.”
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No Espelho, Amor compara a Alma que se juntou aos Serafins — como eles, ela se encontra na vizinhança de Deus, de quem recebe a palavra sem intermediário — e instrui que essa Alma possui seis asas à maneira dos Serafins.
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As duas asas que cobrem o rosto de Jesus-Cristo designam o conhecimento que a Alma tem da bondade divina: quanto mais ela a conhece, “mais ela sabe perfeitamente que não sabe nada em relação a uma única centelha da bondade de Deus.”
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As duas asas que cobrem os pés do Cristo designam o conhecimento que a Alma tem da Paixão: quanto mais ela a conhece, “mais perfeitamente ela reconhece que nada sabe em relação ao que ele sofreu por nós.”
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Graças a suas duas últimas asas, a Alma se eleva e se ergue em Deus, permanecendo ao mesmo tempo sentada sob seu olhar, submetida à sua vontade divina.
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A forma de conhecimento mais acabada e mais imediata que existe — a dos Serafins e das almas de que são os instrutores angélicos — revela-se, paradoxalmente, inconhecimento; essa teologia porta, por visão da incognoscibilidade de Deus, a impreSsão da Teologia mística do pseudo-Denys, encontrando-se no Espelho a mesma progressão do modo místico do conhecimento de Deus.
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Esse caminhamento comporta três etapas: o abandono, ou aniquilamento; o inconhecimento; e a união a Deus.
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O pseudo-Denys esquissa, em três tempos, um encontro com o Transcendente antes de mencionar a ascensão do Sinai pelo homem de Deus: “ele distingue uma purificação, um ultrapassamento dos cumes com o abandono das luzes e das palavras, e enfim uma entrada na Treva onde se encontra Deus.”
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No Espelho, o pseudo-Denys na Teologia mística: “Nessa treva toda luminosa (…) nós desejamos ardentemente penetrar, assim como ver e conhecer pela não-visão e o inconhecimento o que está além de toda visão e conhecimento, precisamente por esse não-ver e esse não-conhecer.”
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Amor endereça o Espelho às almas liberadas que nele reconhecerão seu exercício, acrescentando que isso é impossível às almas que pereceram: “Elas não o podem fazer nem o farão. Não são, saibais, da linhagem de que falamos, não mais do que os anjos da primeira ordem não podem e nem podem ser Serafins.”
A anagogia da Alma, uma iniciação celeste
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A iniciação é a revelação secreta de um conhecimento ao término de práticas operando ritual ou simbolicamente a morte e o renascimento de quem a recebe, e a iniciação celeste da Alma supõe necessariamente que ela morra à lei do pecado para renascer à lei divina — devendo morrer três vezes, segundo Amor.
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Amor instrui Razão: “Vós nos pedistes, Razão, de quantas mortes convém morrer antes de chegar a essa vida [franca e aniquilada]. E eu vos respondo que, antes que a Alma possa nascer a essa vida, lhe é preciso morrer de três mortes inteiras.”
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A primeira morte é a morte ao pecado mortal; a segunda, a morte ao pecado original, ou morte à natureza; a terceira, a morte do êxtase, ou morte à vida segundo o espírito.
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Cada morte marca um progresso da obediência da Alma a Deus: a lei divina tendo sido perdida pela desobediência, só pode ser reencontrada pela obediência; a morte ao pecado mortal se cumpre na submissão aos mandamentos de Deus, de tal sorte “que não reste nela [na Alma] nem cor, nem sabor, nem odor de coisa que Deus defenda na Lei.”
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A morte ao pecado original se cumpre não mais pela obediência a Deus mas pela obediência em Deus — pelo respeito não da lei manifestada dos doze mandamentos mas da lei original, não manifestada, tal como existia no jardim do Éden; por essa morte, cada alma pode resgatar a falta de Adão e Eva.
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A primeira consequência de sua desobediência foi o conhecimento de sua nudez e seu esforço para escondê-la; Gênesis, III, 9-10: “o eterno Deus chamou o homem, e lhe disse: onde estás? Ele respondeu: ouvi tua voz no jardim, e tive medo, porque estou nu, e me escondi.”
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São Bernardo exorta a alma da mesma maneira: “pois que foste criado à imagem e semelhança de Deus (…) tornado semelhante às bestas ao perder tua semelhança, tua vida é ainda a de uma imagem. Se então, enquanto estavas na grandeza, não compreendeste que eras limo da terra, ao menos presta atenção agora que estás afundado no limo do abismo, de não ignorar que és a imagem de Deus e corar de tê-la recoberto com uma semelhança estranha. Lembra-te de tua nobreza e sê envergonhado de tal defecção. Não ignores tua bondade para ser mais confundido ainda por tua baixeza.”
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É pela segunda morte que a Alma pode descobrir a imagem divina que conservou, despojando-se da semelhança estranha de que o pecado a revestiu; para tanto, é preciso reconhecer que se é por natureza, como escreve Marguerite, “nada e menos que nada.”
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A Alma reconhece: “Sim, Senhor, sou certa de não ter em mim nada mais que minhas horríveis faltas, pelas quais vós suportastes a morte para me dar a vida.”
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Ao momento da segunda morte, Amor reconduz a Alma ao primeiro dia, antes da queda de Adão: “Aquele que adquire, sobre a terra, por divina obediência, a inocência que Adão perdeu, no paraíso terrestre, por desobediência (…) Os verdadeiros inocentes não têm nenhum direito: nunca se lhes faz nenhum tort. Eles estão todos nus e não têm nada a esconder. Todos se escondem por causa do pecado de Adão, exceto aqueles que estão aniquilados, pois eles não têm nada a esconder.”
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De mortes em renascimentos, a Alma cumpre no Espelho sua ascensão em direção a Deus através dos sete estados de graça, que recordam o sermão de são Bernardo sobre as sete necessidades que impelem a alma a buscar o Verbo, e as Sete Maneiras de amor de Beatriz de Nazareth.
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No primeiro estado de graça, a Alma faz tudo o que Deus lhe comanda — como escreve são Bernardo, deve aceitar os reproches de Cristo e conduzir contra si mesma um combate enérgico e vigilante; Beatriz de Nazareth descreve esse estado: “É um desejo ativo oriundo do amor; deve reinar longtemps no coração antes de afastar todos os obstáculos e deve obrar com força e engenhosidade (…) obter de Deus por seu zelo e sua fidelidade, de poder doravante sem ser detido pelas faltas passadas, servir o amor com uma consciência livre, um espírito purificado, uma inteligência clara.”
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No segundo estado de graça, a Alma não se contenta mais em fazer o que Deus comanda — ela deseja seguir também o que Deus aconselha, tornando-se a Amiga do Amado em se esforçando por fazer tudo o que Lhe agrada; são Bernardo havia predito: “Buscai o Verbo, que vos dará Ele mesmo a força de aceitar sua vontade. Ide refugiar-vos junto àquele que se fez vosso adversário e que vos tornará tais que ele não terá mais a ser: ele mudará suas ameaças em carícias, e o dom de sua graça será mais eficaz para vossa conversão que a violência de sua cólera.”
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No terceiro estado de graça, a Alma não se contenta mais com uma relação de amizade com Deus e deseja se engajar numa relação de amor, oferecendo em sacrifício sua vontade própria no martírio da segunda morte; Ricardo de Saint-Victor, autor dos Quatro Graus da violenta caridade, é evocado: “Escutai o gemido do prisioneiro que desespera de escapar: 'Não me é mais possível fugir, ninguém que se ocupe de mim' (Sl. CXLI, 5). Mas, vê-se amiúde, os que não podem salvar-se podem resgatar-se. Não podemos repelir a tentação pela força, nem esquivá-la pela prudência. É preciso que nos resgatemos pelas obras de misericórdia e a obediência e nos libertar do jugo da escravidão. Eis as verdadeiras riquezas pessoais das quais está escrito: 'o resgate do homem é sua riqueza' (Prov XIII, 9).”
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No quarto estado de graça, a Alma goza do afranquiamento que operou no grau anterior com a morte de Razão e de Vontade Desobediente — é um grau de embriaguez onde a Alma goza da abundância de delícias; Ricardo de Saint-Victor: “Amor único, predileção única, sede única, desejo único. / Para ela [a violenta caridade] ele suspira, a ela ele aspira, por ela ele arde, nela ele encontra seu repouso. / Nela somente ele retoma força, dela somente ele se farta.”
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Esse quarto estado comporta um perigo: a Alma pode desejar conservar esse grau de bem-estar em Deus para si mesma, interrompendo assim sua progressão anagógica; um mestre da escola Tch'an advertiu seu discípulo que se absorvia na doçura infinita da contemplação: “Não derives nesses limbos, não te abandones a essa embriaguez, não é assim que farás voar em estilhaços o teto da casa.”
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O quinto estado é o coração do Espelho ao qual ele deu seu título: é o espelho no qual a Alma viu por si mesma a inteira bondade divina e viu em retorno sua inteira malícia; nele a Alma é humilhada até o esgotamento total de suas forças, de modo que se encontra na impossibilidade de se levantar por si mesma — e é então que é arrebatada ao sexto estado.
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O quinto estado enuncia: “Eis por que a Alma se desfaz desse querer e o querer se desfaz dessa Alma e se entrega, se dá e se rende a Deus lá onde foi primeiramente tomado, sem reter nada que lhe seja próprio, para realizar a perfeita vontade divina, a qual não pode ser realizada na Alma sem esse dom.”
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No sexto estado, a terceira morte arrebata a Alma fora de si mesma, além de seus sentidos, de seu pensamento, de sua palavra; então somente a Alma cessa de se contemplar no espelho de Deus, pois ela se tornou o espelho no qual Ele pode novamente se ver: “esta Alma, assim pura e iluminada, não vê nem Deus nem ela mesma, mas Deus se vê por si mesmo nela, por ela, sem ela.”
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Beatriz de Nazareth descreve na sétima Maneira de amor a passagem do quinto ao sexto estado: “O amor a eleva e a abaixa; ele a atrai de repente para a atormentar em seguida; ele a faz morrer para fazê-la reviver; ele a fere e a cura, a torna louca e então sábia (…). Em espírito, ela se elevou acima do tempo, na eternidade, acima dos dons do amor que está fora do tempo, acima dos modos humanos de amar, acima de sua própria natureza em seu desejo de ultrapassá-la.”
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O sexto estado não dura — é uma cesura no quinto, uma brecha pela qual a visão torna-se iluminação; no coração do Espelho aparece a janela mística que, mal entreaberta, já se fechou sobre o estado de glória, sétimo e último estado de graça, que a Alma não pode aproximar em seu corpo mortal.
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