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MESTRE ECKHART

Misticismo Renano-Flamengo — Mestre Eckhart (1260-1327)

Unidade, em Eckhart, entre uma metafísica rigorosa e uma mística ardente. [M.-D. CHENU]

Sem dúvida, essa interpretação é amplamente aceita, como atesta a expressão amplamente utilizada de “misticismo especulativo”. Mas raramente se reconhece, para além de uma simples constatação, o seu poder radical; com demasiada frequência, vê-se nela a justaposição de uma filosofia acompanhada de uma mística. Na verdade, trata-se da inserção, no próprio cerne do problema intelectual, de uma exigência mística. É por isso que devemos nos opor a qualquer separação entre os sermões ou outras obras piedosas e os tratados doutrinários, incluindo as questões disputadas como mestre universitário. Muito pelo contrário, a consideração da produção “escolástica” nos faz perceber as fontes profundas dos textos exortativos. Trata-se, na história do pensamento cristão, de um caso eminente, até em seus excessos, da presença epistemológica do “mistério” nas dialéticas mais sutis: mistério da Divindade, mistério da existência da criatura em Deus.

As manifestações dessa unidade devem ser destacadas em todo o campo eckhartiano. Assim, sem prejuízo da percepção mística ou da exegese bíblica, a metafísica do Verbo se baseia em princípios propriamente racionais e filosóficos, como em uma espécie de secularização ontológica; mas essa racionalidade integral inscreve-se na coerência indissolúvel de uma visão ao mesmo tempo filosófica e cristã; o próprio recurso a Aristóteles e à sua teoria das formas é assumido e, por assim dizer, transubstanciado na teologia mais secreta do Verbo.

É sem dúvida na teologia da Criação que o pensamento de Eckhart se manifesta plenamente e tem as maiores consequências místicas. A partir da Física de Aristóteles e de sua teoria da instantaneidade da mudança substancial, ele liberta a noção de Criação de todo movimento no tempo; e assim se estabelece a relação do Criador com a criatura, no Ser de Deus, cuja Divindade é constituída tanto pela comunicabilidade quanto pela transcendência. Para avaliar a grandeza dessa teologia, podemos evocar a miserável metafísica do deísmo (filosofia do Iluminismo, “espiritualidade” do século XIX), que define a criação como a fabricação de criaturas no vazio pela exteriorização de uma ideia ou de um modelo. A Criação é “mistério”, na medida em que Deus cria as coisas em si mesmo, para mantê-las em si mesmo, para chamá-las de volta a si mesmo por meio de seu Verbo. E isso vale para a própria matéria, assim elevada à dignidade de uma coisa divina. A Criação é “mistério”, e essa mística da Criação é homogênea à metafísica do Ser.

Essa unidade da ontologia e da mística encontra uma aplicação eminente na alma humana, no ápice da emanação criadora, pela qual, para além de toda faculdade, ela é constituída em seu fundo por uma participação no ser divino, em uma “centelha”, um “não sei quê”, que a mantém em Deus e Deus nela, para além das diferenças que separam o ser criado do Ser criador. Aqui as expressões de Eckhart vacilam, em uma incoerência semântica, a tal ponto que provocaram — por uma grosseira incompreensão — a acusação de panteísmo. Esse é o preço da inefabilidade de Deus, em si mesmo e em sua presença diante de suas criaturas.

«Talvez não estejamos longe da verdade ao imaginar Eckhart como uma alma devorada pelo amor de Deus, agraciada com um intenso sentimento da presença divina e exigindo da dialética todas as justificativas que esta fosse capaz de lhe dar. » Assim conclui Étienne Gilson. É porque tal é a convicção de nossos autores que, para compreender Eckhart, eles, assumindo-a como sua, inseriram a curiosidade especulativa na vida profunda que o animava.

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