mrf:eckhart:estudos:faggin:estrutura-teologico-metafisica

4. Estrutura teológico-metafísica da mística eckhartiana

GIUSEPPE FAGGIN. MEISTER ECKHART E LA MISTICA TEDESCA PREPROTESTANTE. MILANO: FRATELLI BOCCA, 1946

  • A reconstrução histórica do processo da mística medieval costuma buscar inspiração na doutrina neoplatônica e em Plotino, como se fosse possível seguir uma corrente mística ininterrupta e como se a originalidade cristã e a elaboração católica diminuíssem sob esse influxo.
    • Menção à tendência historiográfica de vincular diretamente a mística medieval ao filósofo de Licópole.
  • A filosofia plotiniana expressa de modo racional profundas exigências ético—religiosas e é pervadida por um indiscutível sentido místico.
  • A exposição breve das linhas fundamentais do sistema de Plotino serve para alertar sobre o real alcance de seu misticismo e para iluminar a originalidade posterior da doutrina de Eckhart.
    • Exame dos aspectos racional e humano que acompanham a entonação mística plotiniana.
  • A análise do sistema permite decidir se o panteísmo censurado nos místicos de inspiração neoplatônica deve ser atribuído a Plotino como sua verdadeira origem.
    • Remissão à obra Plotino, publicada pela editora Garzanti em 1945, para a reconstrução do pensamento do filósofo.
  • O Absoluto em Plotino é o Uno, o Bem e o Primeiro: constitui a fonte de toda a realidade e situa—se além de qualquer ser e de qualquer determinação lógica.
  • O pensamento opera em função de uma multiplicidade ideal a ser discriminada, o que o impede de definir ou pensar o Uno, visto que este supera o pensamento e o pensamento não constitui a única realidade.
  • Toda determinação racional delimita o Absoluto e permanece aquém dele, que não possui autoconsciência, nem pensamento, nem vontade, nem amor.
    • A autoconsciência implica a distinção de um outro.
    • O pensamento atua em função do Bem como seu fim absoluto.
    • O desejo consciente de um objeto define a vontade.
    • O amor provém de uma deficiência espiritual.
  • O Uno não se reduz a sujeito puro ou objeto puro, podendo ser concebido como Sujeito apenas enquanto criatividade absoluta que produz o objeto, e como Objeto se considerado o centro mais íntimo da subjetividade.
    • Rejeição à ideia de o objeto constituir uma alteridade lógica.
  • O Absoluto constitui liberdade absoluta, manifestada não como uma realidade livre, mas como um ato libertador.
  • A teologia negativa pressiona o pensamento até o limite extremo e rejeita compromissos com o analogismo proporcional, revelando a abstração e a inadequação de cada fórmula para significar a Vida infinita.
  • A inteligência reconhece acima de si a Transcendência ao compreender a limitação de qualquer conceito, o que exige do espírito uma potência intuitiva superior como supremo ato de vida.
  • A alma esclarece a própria tensão interna em direção ao Uno no tumulto da vida, através de alegrias e dores e na luta dialética com os limites e o tempo, que a tornam irrequieta diante do múltiplo exterior e interior.
  • O Absoluto manifesta—se como valor e ato vital na vivência da alma, possuindo significado somente se o pensamento discriminar a presença numinosa daquilo que não é o Uno.
    • O Absoluto reduz—se a um nome vazio se for transformado apenas em objeto do pensamento.
  • A vida espiritual depende do pensamento, embora não se resolva inteiramente nele no final das contas.
  • O Uno funciona como princípio de alteridade e de distinção por ser Potência geradora, não se confundindo com uma noite mística que aniquila as diferenças.
  • O universo se resolveria em uma identidade vazia sem as hipóstases geradas, e o múltiplo não subsistiria nem teria um fim supremo sem o Uno.
    • Identificação do Intelecto e da Alma como as hipóstases geradas.
  • O esforço de Plotino visa salvar o múltiplo e as distinções no seio do Uno, preservando a articulação do ser e do pensamento sem conduzir à posição eleática.
    • Constatação de que a própria fala sobre o Uno depende da existência do que é diferente do Uno.
  • Os vários planos da vida universal estabelecem a concretude do real e formam a paisagem metafísica na qual se move a alma individual com as possibilidades de seu destino.
  • O produto gerado pelo Uno é necessariamente inferior a ele, embora dele participe, o que faz do Intelecto um Universo noético infinito de ideias e inteligências em unidade eterna e idêntica.
    • O Intelecto apresenta—se inferior ao Uno como alteridade de ser—pensamento e multiplicidade ideal.
  • A Alma posiciona—se inferior ao Intelecto por ser princípio of movimento e de vida destinada a animar uma realidade corpórea.
    • A Alma qualifica—se como alma universal por participar do Intelecto e estar voltada a ele in contemplação, implicando uma riqueza de almas individuais capazes de ascender ao limite supremo da realidade.
  • A alma individual vivifica um corpo por meio das razões seminais, realizando a vida sensitiva no tempo e no espaço, de modo que o corpo está nela e as sensações são atos seus.
    • Possibilidade de a alma dar vida a uma série de existências corpóreas.
  • O mundo sensível constitui a expressão visível da Animação universal e um símbolo vivo do Inteligível e do Eterno.
  • A matéria atua como a matriz tenebrosa do mundo sensível que faz emergir e engole o fluxo das aparências fenomênicas.
    • Definição da matéria como não—ser absoluto, negatividade absoluta, extremo limite inferior do processo divino e lugar dos efeitos das operações da alma.
  • Uno, Intelecto e Alma não se reduzem a uma única realidade, sob pena de aniquilar o ser e a natureza do Uno gerador, nem devem ser colocados lado a lado sob o risco de destruir o Uno como unidade.
  • O Uno mostra—se onipresente no Intelecto, na Alma e no cosmo sensível, mas essa imanência não significa identidade.
  • Os diferentes planos hipostáticos permanecem separados e distintos no sistema de Plotino, sem que a distinção se concilie plenamente com a unidade.
  • A mediação daquilo que resta inexplicado metafisicamente ocorre na obra da alma, que percorre os graus do real pelo impulso do amor, retornando de fora ao seu princípio.
    • A alma reencontra a riqueza do Intelecto na clareza do pensamento e o próprio Uno no fundo do espírito.
  • A alma atua como intermediária entre o Intelecto e o mundo, carregando o tempo, a dramaticidade e o problema da própria história e destino.
    • A história existe apenas na alma, consistindo no destino dela.
  • A dispersão na exterioridade gera dor e morte para a alma, enquanto o recolhimento no íntimo e na livre unidade consigo mesma proporciona o esquecimento em um gozo sobre—humano.
  • O Eterno adquire valor por determinação da vontade da alma, a qual se adequa ao Eterno em vez de agir por arbítrio.
  • O relacionamento da alma com Deus requer a mediação do Intelecto, não sendo obra do sentimento ou da vontade, mas do ápice da mente, conforme a expressão dos místicos cristãos.
  • A alma constitui uma substância individual irredutível que habita no Intelecto e no Uno sem se identificar com eles, pois a imanência não acarreta identidade.
  • A alma individual nunca atinge os confins da alma universal, do Intelecto ou do Uno, cujas potências são infinitas.
    • Habitar nesses planos representa o reagrupamento a eles e o esquecimento da finitude, não o aniquilamento ontológico daquilo que promana do Uno.
  • A concepção plotiniana não pode ser classificada estritamente como panteísta, dado o cumprimento rigoroso da transcendência do Uno e da irredutibilidade das três hipóstases.
    • A onipresença do Uno funda as distinções em vez de destruí—las.
  • O decréscimo da perfeição no processo descendente acentua a alteridade dos planos espirituais de vida, forçando Plotino a elaborar mediações para explicar a continuidade vital da metafísica.
  • A continuidade no sistema plotiniano fundamenta a possibilidade e o alcance do elemento empírico que costuma habitar as doutrinas místicas.
    • Nota de que em Eckhart esse elemento aparecerá suspenso no vazio e injustificável.
  • A corporeidade representa o limite extremo do irradiação divina e o ponto de partida para o retorno espiritual, exercendo uma função iniciadora moral, cultural e estética em Plotino.
  • O corpóreo possui seu grau de ser, e a individualidade provém da ordem da forma explicada pelas razões seminais, constituindo uma originalidade irredutível e um destino concreto.
  • A questão do panteísmo é sugerida principalmente pela visão estática final do Uno.
  • Plotino aborda a experiência suprema de modo infrequente, não a tratando como um acontecimento ordinário ou natural.
  • A abordagem da união mística faz—se necessária para resolver o problema da salvação e para evitar que o Uno seja reduzido a uma negação lógica vazia.
  • A alma realiza em si mesma a unidade como ato supremo de liberdade, uma vez que o Uno não é o Ser nem objeto de pensamento capaz de aquietar um ato de conhecimento.
  • O pensamento concebe a intuição mística como unificação absoluta entre a alma e Deus para atender às exigências do espírito diante de uma experiência indefinível.
    • Sem a unificação, a alma estaria condenada a uma tensão vã aquém de seu fim, e Deus seria um objeto inatingível, símbolo do fracasso da inteligência, e não o Bem e a Vida imanente.
  • O uso de termos de sabor panteístico pelo pensamento parece inevitável ao declarar o valor da experiência suprema, apresentando à reflexão um problema inexistente no ato vivido.
  • A resolução do problema do panteísmo exige olhar para além das fórmulas místicas isoladas, examinando o complexo sistema racional que as sustenta e enquadra.
  • A alma em Plotino não é uma individualidade efêmera nem idêntica a Deus de forma natural e imediata.
    • O Intelecto impõe um dever teórico ao agir moral e intelectual que eleva o ser a planos espirituais superiores entre o Uno e a alma.
  • A alma não nasce divina, mas faz—se divina, sendo acolhida pela onipresença do Uno que abriga toda realidade substancial e fenomênica.
  • A alma reencontra o Uno em seu centro como sua própria unidade íntima, esquecendo a multiplicidade temporal e espacial sem aniquilar a individualidade espiritual originária.
  • O sistema plotiniano acolhe a exigência de alteridade entre a alma e Deus, conferindo um tom dramático à sorte da alma que vaga distante do Pai.
  • O retorno ao Bem recebe um relevo marcante no sistema, no qual as expressões de alegria divina são amplamente acentuadas por Plotino.
  • A oscilação aparente de Plotino entre o panteísmo e a transcendência decorre da própria natureza da vida espiritual, caracterizada pelo ritmo entre vida e forma, infinito e finito, experiências inefáveis e pensamentos árduos.
  • O pensamento manifesta—se por meio da audácia de fórmulas para renovar o espanto diante do Numinoso, ciente de que as expressões são nomes vazios perante o Inexprimível.
  • A doutrina plotiniana não exerceu uma influência direta sobre o mundo ocidental, apesar de ser a expressão mais adequada do gênio helênico frente às exigências religiosas da época.
  • A tradução das Enéadas realizada por Mário Vitorino teve uma fortuna limitada.
    • Menção aos estudos de P. Henry em Plotino e o Ocidente (1934), que defendeu a tradução de Mário Vitorino contra as objeções de Theiler e apontou traços dela na obra Contra Ário.
  • Agostinho destaca—se no mundo latino por demonstrar conhecimento direto do pensamento plotiniano, enquanto no mundo grego—bizantino os escritores eclesiásticos o citam ou traem seu influxo.
    • Menção a Basílio, Cirilo e Gregório de Nissa como exemplos de escritores influenciados no ambiente grego—bizantino.
    • Referência ao trabalho de P. Henry, Os estados do texto de Plotino (1938).
  • Os Escolásticos conhecem Plotino apenas mediatamente, por meio de testemunhos e citações de Agostinho ou de Macróbio.
    • Indicação das passagens de Macróbio em No sonho de Cipião e Saturnal.
  • Mestre Eckhart menciona Plotino a respeito das quatro espécies de virtudes nos atos do processo de Colônia, mas recorre a Tomás de Aquino, que por sua vez utilizou Macróbio.
    • Referência aos atos do processo de Colônia.
    • Remissão à classificação de virtudes que remete a Porfírio em Sentenças.
    • Indicação da Summa Theologiae de Tomás de Aquino e de No sonho de Cipião de Macróbio.
  • O pensamento de Plotino atua de forma potente e invisível na especulação cristã por meio de seus continuadores, especialmente Proclo.
  • A doutrina plotiniana é reapresentada em Proclo sem variações essenciais, insistindo—se na teologia negativa e na teoria do centro da alma.
  • A doutrina das hênades em Proclo esclarece a relação dialética entre o Uno e o múltiplo, fundando um pluralismo espiritualista.
    • Nota de que o pluralismo espiritualista encontrará expressão moderna em Berkeley e Leibniz.
  • A doutrina da circularidade do real por meio da permanência, da emanação e do retorno constitui a formulation metafísica mais precisa do sistema plotiniano.
    • Tradução dos termos conceituais: permanência, emanação e retorno.
    • Menção ao entusiasmo posterior de Hegel por essa concepção que reúne o que a teoria das hênades parecia desligar.
  • Proclo afasta—se do equilíbrio místico—racional de Plotino ao conceder importância às artes mágico—teúrgicas, cedendo às exigências sentimentais de sua época.
  • As teorias teúrgicas de Proclo encontraram aceitação tácita no mundo cristão, oferecendo motivos para fundamentar uma teoria dos sacramentos.
  • As obras de Proclo traduzidas para o latim espalharam as ideias neoplatônicas no Ocidente e resgataram indiretamente o pensamento de Plotino.
    • Guilherme de Moerbeke traduziu em 1268 os Elementos de Teologia, e posteriormente os tratados Dez dúvidas sobre a providência, Sobre a providência, o destino e o que está em nós e Sobre a subsistência dos males.
    • Menção ao estudo de M. Grabmann sobre as traduções de Proclo por Guilherme de Moerbeke na literatura latina medieval.
  • As intuições neoplatônicas conservaram—se e atuaram no ambiente escolástico principalmente por meio do Livro das Causas.
  • O Livro das Causas consiste em uma redação livre dos Elementos de Teologia de Proclo feita por um autor árabe e traduzida ao latim por Gerardo de Cremona no fim do século XII.
    • O título latino da tradução é Livro da exposição do bem puro, sendo a obra falsamente atribuída a Aristóteles.
  • O Livro das Causas recebeu atenção e comentários de Alberto Magno, Tomás de Aquino e Egídio Colonna, além de ser conhecido por Dante, que o citou em várias obras.
    • Dante citou a obra no Da Monarquia, no Convívio e nas Epístolas.
    • Referência aos estudos de R. Murari sobre a fortuna do Livro das Causas, de C. Sauter sobre Dante e o Livro das Causas, e de E. Krebs sobre soluções escolásticas para problemas de Dante.
    • Registro de que o Livro das Causas foi traduzido quatro vezes para o hebraico.
  • O pensamento neoplatônico penetrou no Ocidente também pela mediação árabe da Teologia de Aristóteles, outra obra falsamente atribuída ao Estagirita.
  • A versão árabe da Teologia de Aristóteles por Ibn Abdallah Naima de Emesa data de cerca do ano 800, e a reformulação de Abu Joseph Jacob Jon Jsaac Alkindi pertence ao período entre 833 e 842.
  • A opinião de P. Henry aponta que a Teologia seria uma seção dos cem livros de Notas, baseados nas lições de Plotino e tomados por Amélio, preservando a tradição oral do mestre.
    • Referência ao artigo de P. Henry sobre a reconstituição do ensino oral de Plotino, com menção à contraposição de A. Mansion.
  • O neoplatonismo inspirou as obras de Avicena, Al—Ghazali e Averróis por meio do Livro das Causas e da Teologia de Aristóteles, adentrando o Ocidente em síntese com a metafísica de Aristóteles.
  • A fusão entre aristotelismo e plotinismo tendeu a ser vista por escolásticos como uma união híbrida que precisava ser desfeita para o retorno às fontes puras do platonismo.
  • A filosofia judaica, principalmente com Avicebron e Moisés ben Maimon, renovou motivos neoplatônicos e forneceu materiais para as construções da Escolástica medieval.
  • O neoplatonismo alcançou o Ocidente cristão por meio das obras do Pseudo—Dionísio o Areopagita.
    • Menção aos tratados Dos nomes divinos, Da hierarquia celeste, Da hierarquia eclesiástica, Teologia mística e Epístolas, datados do século V.
  • As obras do Pseudo—Dionísio foram traduzidas para o latim por Hilduíno e depois por João Escoto Eriúgena em meados do século IX, introduzindo o neoplatonismo sob uma elaboração cristã.
    • A tradução de Eriúgena coincidiu cronologicamente com a reformulação da Teologia de Aristóteles por Alkindi.
  • João Escoto Eriúgena demonstrou no Da divisão da natureza até onde a doutrina neoplatônica poderia servir de estrutura metafísica para a revelação e a experiência cristãs.
  • A influência de Eriúgena perpetuou a intuição plotiniana da vida, mas acentuou o risco de o cristianismo desviar para uma especulação puramente racional.
  • O fascínio de Eriúgena atuou secretamente sobre os místicos posteriores, ortodoxos ou heréticos, e sobre o próprio Eckhart, gerando acusações de panteísmo e defesas inversas.
    • Menção à menção de Hugo de São Vítor em Exposição sobre a hierarquia celeste.
  • O mistério da exegese de Eriúgena assemelha—se ao encontrado em Plotino e ao que se verifica em Mestre Eckhart.
  • A sistematização teológico—filosófica de Agostinho contribuiu para enraizar na especulação cristã o complexo de ideias de entonação neoplatônica que permaneceu na filosofia escolástica.
    • A inspiração agostiniana baseia—se em motivos plotinianos fundamentais, mantendo—se firme apesar de qualquer aristotelismo.
  • A alma nova da experiência cristã vive e pulsa sob as construções filosóficas da greguicidade que parecem dominar os sistemas de Orígenes, Agostinho e Eriúgena.
  • A experiência cristã constitui prodígio e revelação, não obra do raciocínio humano, apresentando—se como superracionalidade que atinge uma Verdade reconhecida pelo homem interior.
    • A experiência estabelece uma ruptura heroica com o chamado mundo por ser pressentimento e posse de um além.
  • O historiador ilude—se ao tentar explicar como fenômeno sincretístico e intelectualista o que constitui uma revelação originária e irredutível do Espírito.
    • Menção à busca historiográfica por precursores do mensagem evangélica em civilizações e religiões pré—cristãs.
  • O Novo Testamento expressa uma verdade irredutível à filosofia helênica ou à tradição judaica, e os primeiros dogmas da Igreja estão distantes de compromissos filosóficos com a sabedoria dos gregos.
    • Indicação dos dogmas da Trindade e da Encarnação como exemplos de originalidade absoluta da consciência cristã.
  • A formulação dos dogmas utilizou termos do ambiente filosófico, mas as intuições sustentadas por eles não possuíam antecedentes na filosofia grega.
    • Exemplificação de termos como hipóstase, substância, essência e logos.
  • O dogma da Trindade define a personalidade de Deus em sua transcendência absoluta como um círculo espiritual autossuficiente.
    • O ser, a inteligência e o amor operam como a articulação viva interna da Unidade absoluta, não como momentos de um processo descendente ou emanação dispersiva.
  • A concepção trinitária recusa hierarquias de hipóstases destinadas a preencher o abismo entre Deus e o mundo, rejeitando transações com doutrinas helênicas do logos, intelecto, demiurgo ou alma do cosmo.
  • O dogma trinitário afirma a Transcendência divina ao conceber Deus como personalidade concluída em si mesma, o que impõe à especulação o problema da origem do mundo.
  • O dogma da Encarnação fixou uma concepção teológica inequivocável que parecia loucura para a reflexão dos gregos, embora tivesse vislumbres distantes na crença indiana dos avatares.
  • O dogma da Encarnação unia em Cristo, na unidade de sua pessoa, a natureza divina e a humana, contrapondo—se ao isolamento sugerido pelo dogma trinitário.
    • O círculo divino abriu—se para acolher o homem, fazendo o Eterno descer na história para redimi—la.
  • A humanidade ascendeu ao Divino e estabeleceu—se no Eterno por meio de Cristo.
  • A lacuna sofrida pelo mundo antigo foi sanada, permitindo ao homem encontrar luz e salvação no fundo da alma redenta, sem tender em vão a um Absoluto transcendente.
  • O espiritualismo neoplatônico conservou a concepção dualista entre o Divino e o Humano, a poise da proclamada onipresença do Uno.
  • O cosmo permaneceu como o sedimento extremo da geração divina no neoplatonismo, restrito a uma história temporal sem significado e sem graça.
  • Agostinho e o Pseudo—Dionísio demonstram as mudanças especulativas profundas que os dogmas da Trindade e da Encarnação impuseram à estrutura do pensamento helênico.
  • A aceitação dos dogmas cristãos exigia optar entre Platão ou Cristo, entre a sabedoria ou a fé.
  • O dogma da Trindade inspira diretamente a doutrina da alma em Agostinho, acentuando as relações íntimas entre Deus e o espírito humano e exaltando a personalidade.
  • O Pseudo—Dionísio confere um lugar central a Cristo na hierarquia dos seres, atribuindo—lhe uma completude e unidade ausentes no sistema plotiniano.
    • O neoplatonismo cristão inspirou—se no mensagem de Cristo, que oferecia motivos inesgotáveis mesmo para mentes ansiosas por especulações intelectuais.
  • Mestre Eckhart posiciona—se primordialmente como um filósofo cristão voltado para a revelação, cuja alma busca a salvação espiritual e a paz.
  • O posicionamento original de Eckhart, expresso nos Ensinamentos do Discernimento, consiste na dedicação plena à Vontade absoluta para realizar a verdadeira liberdade do espírito.
  • A consideração dos Ensinamentos é necessária para apreender o significado genuíno e a justificativa espiritual das investigações teológicas e metafísicas de Eckhart.
    • Crítica à perspectiva de P. Denifle, que reduzia Eckhart a apenas mais um escolástico tradicional.
  • A alma de Eckhart apela para o Novo Testamento, aprofundando as fórmulas evangélicas com rigor dialético e focando—se na relação com Deus.
  • O ponto de partida de Eckhart situa—se na palavra de Cristo e nos dogmas da Trindade e da Encarnação, adaptando a eles as doutrinas dos filósofos mediante esforços interpretativos.
  • Toda a metafísica eckhartiana nasce da necessidade de interpretar as palavras de Cristo ou as crenças cristãs essenciais, esgotando—se no círculo dessa exegese.
    • Ausência de preocupação em construir uma doutrina filosófica como preâmbulo da fé, diferentemente de Tomás de Aquino.
  • O círculo místico da exegese eckhartiana expandiu—se gradualmente, envolvendo novas investigações e tornando complexas as relações entre pensamento e fé.
    • Contraste com a vastidão das grandes Sumas da idade escolástica.
  • A revelation neotestamentária poderia conduzir a uma concepção imanentista por meio de uma interpretação audaz, embora imune ao misticismo panteísta clássico por falta de sistematização racional.
  • Tradução de passagens do Evangelho de João que fundamentam abordagens sobre a filiação divina e a vida eterna.
    • Passagem: deu—lhes o poder de se tornarem filhos de Deus (1, 12).
    • Passagem: o que nasceu do espírito é espírito (3, 6).
    • Passagem: esta é a vida eterna: que te conheçam a ti só (17, 3).
  • A afirmação sobre a vida eterna ganha contornos específicos quando aproximada de uma passagem do Evangelho de Mateus.
    • Passagem de Mateus: ninguém conhece o Pai senão o Filho (11, 27).
  • Tradução de trechos da Primeira Carta de João relativos à condição de filhos de Deus.
    • Passagem: vede que amor nos deu Deus, para que sejamos chamados filhos de Deus e o sejamos (3, 1).
    • Passagem: seremos semelhantes a ele, e o veremos como ele é (5, 2).
  • Tradução de formulações das epístolas do apóstolo Paulo aos Coríntios, Romanos e Gálatas sobre transformação, adoção e a totalidade em Deus.
    • Segunda aos Coríntios: contemplando com o rosto descoberto a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem de claridade em claridade (3, 18).
    • Romanos: recebestes o espírito de adoção de filhos de Deus (8, 15).
    • Romanos: se somos filhos, somos também herdeiros: herdeiros de Deus e co—herdeiros de Cristo (8, 17).
    • Romanos: predestinou—os para se tornarem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos (8, 29).
    • Romanos: dele, por ele e nele são todas as coisas (11, 36).
    • Gálatas: porque sois filhos, enviou Deus o espírito de seu Filho aos vossos corações (4, 6).
  • As fórmulas teológicas neotestamentárias recorrem com frequência nas obras eckhartianas, sendo reconhecidas pelo mestre como o núcleo do mensagem cristã.
  • A interpretação de Eckhart torna—se rigorosa ao assimilar a alma redenta ao Filho e considerar as palavras com as quais Cristo declara sua unidade com o Pai.
    • Tradução de João: ninguém jamais viu a Deus: o Filho único, que está no seio do Pai, ele mesmo o revelou (1, 18).
    • Tradução de João: eu e o Pai somos um (10, 30).
    • Tradução de João: eu estou no Pai e o Pai está em mim (14, 11).
    • Tradução de Mateus: ninguém conhece o Filho senão o Pai, e ninguém conhece o Pai senão o Filho (11, 27).
    • Nota de que esses passos foram recolhidos do Comentário sobre João de Eckhart, servindo de inspiração fundamental para seus demais escritos.
  • O sistema plotiniano estava mais distante da posição panteísta devido aos seus planos distintos de vida espiritual, hipóstases decrescentes e múltiplas mediações.
  • A doutrina cristã afirmou um contato mais direto entre a alma e Deus por meio da encarnação e da descida do Espírito, apesar de o dogma trinitário isolar Deus na transcendência.
  • Os intermediários metafísicos permaneceram especialmente no pensamento árabe, mas o pensamento cristão os rejeitou sob o influxo do renovado aristotelismo.
  • O cristianismo de Eckhart preserva o método e a presunção metafísica do neoplatonismo, embora abandone este último como um sistema determinado de doutrinas para manter fidelidade ao mensagem cristã.
    • Tomás de Aquino utilizou o aristotelismo para conter as presunções dedutivas da razão humana diante da fé, revendo as possibilidades do conhecimento.
  • A razão em Mestre Eckhart não se detém diante das fórmulas dogmáticas como perante o inacessível, mas apoia—se nelas para construir uma metafísica da revelação.
  • O neoplatonismo eckhartiano funciona apenas como um meio para edificar uma doutrina teológico—mística fundamentada em uma atitude espiritual original.
  • A estrutura do sistema de Eckhart prescinde de esquemas emanatísticos, de hipóstases, de teorias psicológicas do aristotelismo e do valor autônomo da natureza.
  • O sistema de Plotino comporta problemas cosmológicos e psicológicos e o gosto pela pesquisa racional, embora sua entonação dominante seja ético—religiosa.
  • A especulação de Mestre Eckhart concentra—se na relação vital entre Deus e a alma, organizando toda a investigação em função desse vínculo.
  • O centramento da investigação nos dogmas da Trindade e da Encarnação visa encontrar neles o esquema doutrinário que viabilize a justificativa confessional de seu pensamento.
  • O dogma da Trindade serve a Eckhart para destacar a posição do Verbo, no qual habitam os exemplares eternos das coisas, demonstrando a imanência e a origem divina da alma.
    • A utilidade do dogma não se foca tanto na afirmação da autossuficiência de Deus.
  • O dogma da Encarnação em Eckhart não visa contar a história of Deus ou promover um culto místico a Cristo, pois isso colocaria a alma aquém do Divino e traria Deus como mero Objeto.
  • Cristo é entendido como o Verbo que se encarna na eternidade do presente e em cada alma espiritual, e não em um tempo e lugar determinados.
  • O Verbo assumiu a natureza humana para manifestar sensivelmente o que se realiza unicamente no segredo do homem interior além do tempo.
  • As frases evangélicas são interpretadas por Eckhart de modo literal e rigoroso, rejeitando um sentido puramente analógico.
  • Os termos geração, filho, pai e espírito são repensados em relação à alma regenerada em Deus, visto que o Verbo estabelece o Eterno na natureza humana.
  • Eckhart reconduce o Cristo ao dogma trinitário para consagrar sua eternidade e unidade com o Pai, evitando uma valorização excessiva da Encarnação como mero fato histórico.
  • A história do Homem—Deus ganha significado espiritual por tornar—se símbolo de uma geração eterna, redimindo o que é transitório de sua inferioridade metafísica.
  • O sistema eckhartiano estrutura—se na polaridade entre Deus e a alma e em sua dialética extratemporal, buscando no dogma o fundamento teológico de sua doutrina ético—mística.
  • A encarnação do Filho significa que Deus não é Deus a não ser na alma, e a alma não é alma a não ser em Deus.
    • O Pai gera o Filho, o Filho é igual ao Pai por ser dele gerado, e o Espírito de amor consagra a relação íntima.
  • Tudo o que se interpõe entre Deus e a alma carece de valor e equivale ao nada.
  • O primado da relação na qual Deus se gera na alma exige que todo conhecimento, ser e ação sejam reconduzidos a Deus, sem espaço para realidades intermediárias.
  • O eleatismo teológico de Eckhart anula os compromissos entre a alma e realidades inferiores para que o círculo divino—humano se feche como o Deus Uno e Trino.
  • Deus constitui o único Ser, o único conhecível e o único amável, resultando que tudo o que não é Deus é nada.
  • A oposição entre Deus e a criatura é levada ao limite extremo, gerando uma concepção do Uno que recorda a teologia negativa neoplatônica e a mística de Shankara.
    • Menção à obra Mística Ocidental e Oriental (1929) de R. Otto.
  • Deus atua na alteridade com o gerado, de modo que Deus não é Deus senão enquanto gera o Filho, isto é, na relação com a alma.
  • A alteridade na unidade constitui a relação viva que possibilita a unificação como unidade real, diferindo tanto da identidade absoluta quanto da oposição.
    • A identidade absoluta resultaria em um Uno indiferenciado, no deserto vazio e na morte do pensamento e do amor.
    • A oposição geraria o desespero ou o niilismo, pois o oposto a Deus é o nada.
  • Transcendência e imanência integram—se no ato espiritual: a transcendência fundamenta a relação, garantindo que Deus não seja a alma e a alma não seja Deus.
    • Pela transcendência, a alma fora de Deus é criatura e não—ser, e Deus fora da alma é o Nada innominável, tornando o nascimento eterno a superação da condição de criatura.
  • A imanência atua como fim supremo que condiciona a instauração de Deus e de sua obra na alma por meio da geração eterna.
  • A dialética eckhartiana renova em sentido cristão a concepção circular do espírito presente em Plotino e Proclo, definindo o processo da alma como a própria vida da Divindade.
    • Menção a A. Dempf em seu volume Mestre Eckhart (1934), que tomou essa dialética como tese central.
    • A alma é gerada por Deus e a Deus retorna.
  • A consideração isolada de um dos termos da relação divino—humana leva a metafísicas opostas que acusam Eckhart de contradição entre transcendência absoluta e panteísmo.
  • A originalidade da intuição místico—metafísica conduz Eckhart a incongruências e incertezas de expressão em suas obras.
  • As obras latinas e alemãs de Eckhart tornam—se transparentes quando interpretadas pela dialética divino—humana que constitui a entonação original de sua personalidade cristã.
  • Eckhart recolhe elementos filosóficos, metafísicos e teológicos de diversas fontes, transformando—os na unidade original de seu pensamento para esclarecer sua experiência espiritual.
  • O mestre chega a desvirtuar doutrinas alheias, comportamento próprio de grandes gênios criadores que atuam como criadores e não como historiadores.
  • As obras de Eckhart, sobretudo as latinas, são repletas de citações e referências devido ao seu vasto conhecimento da literatura filosófico—teológica da época.
  • Os autores que aparecem com maior frequência nas obras de Eckhart são de entonação neoplatônica, escolhidos por afinidade eletiva por oferecerem a expressão racional menos inadequada de seu misticismo.
  • Eckhart conheceu as obras por meio das quais o plotinismo se difundira nas contaminações árabe e cristã no Ocidente.
  • As referências diretas ao Livro das Causas são frequentes em Eckhart, especialmente no que tange ao Uno e à sua superessencialidade.
    • O Livro das Causas figura como um dos escritos mais citados ao lado de Avicena, Agostinho e Tomás de Aquino.
    • Indicação de ocorrências no Comentário sobre João, Questões Parisienses, Sermões e Na Sabedoria.
    • Menção à edição crítica do Livro das Causas por Bardenhewer em 1882.
  • O Livro dos XXIV Filósofos é lembrado várias vezes por Eckhart para confirmar a teologia do Infinito e a dialética do Uno.
    • Referência à edição de Baeumker do livro pseudo—hermético.
    • Nota de que Eckhart talvez não o conhecesse diretamente, citando a primeira proposição sob o nome de Hermes Trismegisto através das Regras Teológicas de Alano das Ilhas, ou a proposição XIV como de um dos vinte e quatro filósofos.
    • Remissão ao estudo de D. Mahke (1937) sobre a genealogia da mística matemática.
  • O nome de Platão surge repetidas vezes nas obras latinas de Eckhart, evidenciando o uso de diálogos específicos por meio de interpretações medievais.
    • O Timeu é lembrado no comentário Sobre João conforme a interpretação de Calcídio.
    • O Fédon é citado no Sermão XXIV através do Livro sobre a imortalidade da alma de Agostinho.
  • A lista de autores platônicos e platonizantes que surgem no horizonte de Eckhart abrange autoridades da patrística e da escolástica.
    • Menção ao Pseudo—Dionísio, presumindo—se o conhecimento de suas obras na tradução de Eriúgena e interpretação de J. Sarraceno, sendo o tratado Dos nomes divinos o mais citado.
    • Menção a Agostinho, Orígenes, Boécio, João Damasceno, Hugo de São Vítor, São Boaventura, Avicena, Avicebron e Moisés ben Maimon.
    • Detalhes das obras citadas: o comentário Sobre João e uma homilia de Orígenes; tratados de Boécio como Da consolação da filosofia, Da Trindade, Sobre a Isagoge de Porfírio e Livro contra Eutiques e Nestório; o Da fé ortodoxa de João Damasceno na tradução de Burgundio Pisano; o Do penhor da alma de Hugo de São Vítor; a Metafísica, Da alma e Dos animais de Avicena; o Fonte da Vida de Avicebron; e o Guia dos Perplexos de Maimônides.
    • Referências a estudos de J. Koch e Reffke sobre Eckhart e a filosofia judaica medieval.
  • O texto registra ecos e reflexos indiretos de outros autores neoplatônicos e escolásticos na obra eckhartiana.
    • Menção a João Escoto Eriúgena, de quem Eckhart repete motivos metafísicos fundamentais por afinidade, embora as marcas apareçam mediadas por Tomás de Aquino.
    • Menção a Nemésio de Émesa com o Da natureza do homem, citado por Eckhart sob o nome de Gregório de Nissa na tradução de Burgundio Pisano, em concordância com Tomás de Aquino.
    • Menção a Macróbio com o comentário Sobre o Sonho de Cipião e a Domingos Gundisalvo com o Da unidade.
    • Menção a Alano das Ilhas com as Regras Teológicas e ao tratado anônimo Das inteligências, falsamente atribuído a Witelo, cujo influxo revela traços do Livro das Causas e de Avicena.
    • Referências historiográficas aos trabalhos de M. Schleder sobre Macróbio, Cl. Baeumker sobre o Das inteligências e a coletânea em homenagem aos 80 anos de F. Ehrle.
  • O pensamento de Aristóteles e de seus comentadores não é alheio a Eckhart, que recorre a eles com frequência.
    • Menção a Averróis como o Comentador e a escassos ecos de Alexandre de Afrodísia, com possível referência ao Livro sobre o intelecto e o intelectuado traduzido por Gerardo de Cremona.
  • Eckhart conhece detalhadamente o aristotelismo cristão de Tomás de Aquino, cujas doutrinas são citadas ou acolhidas tacitamente.
    • O acordo entre os dois dominicanos versa sobre detalhes do conhecimento ou ontológicos propiciados por elementos platônicos presentes na própria síntese tomista.
    • Remissão a passagens da Summa Theologiae, Comentário sobre as Sentenças, Summa contra Gentiles e Questões Disputadas sobre a potência, sobre o mal e sobre a verdade de Tomás de Aquino.
    • Citação de estudos sobre o platonismo medieval e elementos platônicos em Tomás de Aquino por Cl. Baeumker, V. Lipperheide e Ch. Huit.
  • A interpretação não deve partir do preconceito de que Eckhart seja um tomista fracassado, encarando suas divergências como desvios caprichosos.
    • Considerar as divergências como caprichos revelaria incompreensão do núcleo do pensamento eckhartiano e dogmatismo em relação ao tomismo.
  • A extração de passagens de tom tomista das obras de Eckhart para negar a originalidade de seu misticismo constitui um procedimento fácil.
    • Menção à tentativa de Karrer de limitar a originalidade de Eckhart a intemperanças especulativas atribuídas a falta de equilíbrio ou desejo de originalidade.
  • O pensamento de Tomás de Aquino serve de meio para Eckhart construir seu próprio pensamento, que se mantém distante tanto do tomismo quanto do neoplatonismo em diversos aspectos.
  • A separação entre Eckhart e Tomás de Aquino reside no método, que se apresenta descendente, intuitivo e dedutivo no primeiro, e ascendente e indutivo no segundo.
  • Tomás de Aquino qualifica—se mais como filósofo e sistemático do que Eckhart, se o filosofar for definido como o proceder cauteloso na formação de conceitos e na justificativa racional de cada pensamento.
    • Eckhart destaca—se como um pensador intuitivo e criador.
  • A coerência sistemática pertence a Tomás de Aquino, enquanto incongruências e contradições marcam o complexo de conceitos de Eckhart.
    • Os conceitos em Eckhart servem para significar uma intuição original profunda que nenhum sistema racionaliza perfeitamente.
  • Tomás de Aquino caracteriza—se como um filósofo que crê por ter aderido com a vontade a um mistério que não se confunde com as exigências da razão demonstrativa.
    • O Aquinate define—se como um crente por reflexão, não por instinto.
  • Eckhart define—se como um crente que deseja raciocinar para exprimir o milagre do Inexprimível, assemelhando—se aos gênios criadores da arte que buscam irradiar uma ideia profunda em múltiplos reflexos.
    • Analogia com o pintor que tenta expressar o tesouro da alma em novas imagens de beleza.
  • Eckhart possui por intuição e experiência íntima aquilo que Tomás de Aquino busca alcançar por investigações, demonstrações e analogias baseadas na realidade inferior.
    • A busca a Deus pressupõe que ele já foi encontrado no interior da alma, tornando dispensáveis as provas complexas que tentam lançar uma ponte através das coisas.
  • As demonstrações racionais tradicionais mantêm Deus afastado, situado além da alma.
  • Eckhart não atua como um escolástico no sentido tradicional do termo nem se posiciona primordialmente como um filósofo.
  • As obras de Eckhart são pensadas e estruturadas com logicidade de intenções, devendo ser submetidas ao crivo do pensamento raciocinante que rejeita a incoerência.
  • A estrutura teológico—metafísica das obras eckhartianas pertence à história do pensamento e à análise crítica, tendo sido reconstruída com base em fontes cristãs e metafísicas.
  • O significado profundo das obras de Eckhart insere—se na história do Espírito, planando em uma atmosfera ideal na qual se reconhecem os homens eleitos de todas as eras.
    • Os homens eleitos nasceram distantes no tempo, em civilizações e religiões diversas, mas são reconhecidos como intérpretes da humanidade imortal.
  • As classificações pertencem ao raciocínio humano que distingue e desmembra a vida do espírito, a qual consiste em unidade com o Absoluto.
  • A inspiração fundamental de Eckhart qualifica—se como cristã, ao passo que os meios de sua reconstrução especulativa revelam—se neoplatônicos.
  • Eckhart declarava a sinceridade de sua fé recorrendo aos dogmas da Trindade e da Encarnação como expressões de sua experiência religiosa.
  • O historiador possui a prerrogativa de buscar a manifestação de uma forma fundamental da atividade espiritual humana para além das fórmulas dogmáticas e teologias inconsistentes.
    • Os próprios místicos e Eckhart parecem ter tido o pressentimento de uma verdade universal oculta sob as profissões de fé.
  • Eckhart mostra—se um metafísico por ser um místico, dotado de uma personalidade moral—religiosa que supera o seu pensamento estruturado.
    • Referência à perspectiva de Karrer, que enxerga em Eckhart um educador e profeta cuja dimensão mística e escolástica convivem de forma escura.
  • A análise do sistema eckhartiano exige reportar cada palavra expressa à intuição original do Divino que constitui o fundo de sua alma.
    • O irracional ferve na base da consciência e da razão, aspirando à luz da percepção racional.
Search
mrf/eckhart/estudos/faggin/estrutura-teologico-metafisica.txt · Last modified: by 127.0.0.1