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gnosticismo:orbe:aopesi:bom-samaritano-alexandrinos

Bom samaritano (alexandrinos)

Antonio OrbeParábolas Evangélicas em São Irineu

Capítulo 4 — O Bom Samaritano (Lc 10,30—37)

Parte Segunda — Os alexandrinos

a) Clemente

  • O estudo da parábola atinge bases documentais firmes com os escritos de Clemente de Alexandria.
    • O mestre alexandrino analisa os mandamentos do amor em sua obra escrita.
  • O Salvador ensina a vinculação entre o amor a Deus e o amor ao próximo, transformando a concepção judaica de proximidade.
    • O segundo mandamento é semelhante ao de amar a Deus sobre todas as coisas.
    • Ao ser questionado sobre quem é o próximo, o Salvador não adota a definição dos judeus baseada em consanguinidade, cidadania, proselitismo ou submissão à mesma lei.
    • A narrativa introduz o homem que descia de Jerusalém a Jericó, ferido por ladrões e abandonado semimorto.
    • O sacerdote passou de largo e o levita o desprezou, mas o samaritano, embora segregado, compadeceu-se dele.
    • O samaritano veio preparado com azeite, ligaduras, montaria e dinheiro para o hospedeiro.
    • O próximo é aquele que mostrou misericórdia, ensinando que a caridade frutifica em beneficência.
    • A passagem provém do tratado Qual rico se salvará de Clemente de Alexandria.
  • O comentário de Clemente detalha a articulação entre os dois mandamentos do amor expressos no texto de Lucas.
    • O amor a Deus detém a primazia, e o amor ao próximo ocupa o segundo posto legítimo.
  • A caridade é indicada em ambos os preceitos, mantendo-se a primazia para o amor direcionado a Deus.
    • O samaritano é identificado expressamente como o próprio Salvador.
    • Os homens são descritos como levados quase à morte pelos príncipes tenebrosos deste mundo, carregando feridas, temores, concupiscências, iras, tristezas, enganhos e prazeres.
    • Jesus atua como único médico dessas chagas, cortando as paixões até a raiz do mal, diferentemente da Lei que atacava apenas os frutos externos.
    • O vinho derramado representa o sangue da videira davídica sobre as almas, e o azeite significa a misericórdia vinda das entranhas do Pai.
    • As ligaduras insolúveis da saúde são a caridade, a fé e a esperança.
    • Os anjos, principados e potestades receberam ordens para servir aos homens com grande retribuição, sendo libertados da vaidade do mundo.
  • Os mandamentos do amor a Deus e ao próximo encontram-se intimamente unidos na estrutura da teologia cristã.
    • A primazia da afeição pertence ao Criador.
  • A parábola redefine o conceito de próximo por caminhos diferentes daqueles que eram partilhados no ambiente israelita.
    • A visão tradicional limitava os vínculos de proximidade.
  • O entendimento israelita definia o próximo por critérios de consanguinidade na semente de Abraão ou por pertença às tribos de Jacó.
    • O proselitismo e a circuncisão funcionavam como balizas de reconhecimento.
  • A obediência à mesma Lei de Moisés determinava os parâmetros externos da proximidade social e religiosa.
    • Os títulos de proximidade baseavam-se em elementos nacionais, sanguíneos e legais.
  • O ensinamento de Cristo alterou as concepção externas através da narrativa do bom samaritano.
    • A proximidade passa a depender de uma atitude interna e ativa.
  • O próximo é definido como aquele que ama com caridade benéfica e demonstra misericórdia para com o outro por amor.
    • A definição abrange um elemento interno, que é o amor, e um elemento externo, constituído pela beneficência.
  • O elemento interno do amor assume o papel de característica fundamental na determinação da proximidade.
    • Uma mesma ação externa pode responder a interesses puramente terrenos ou sanguíneos.
  • A ação externa só estabelece a verdadeira relação de proximidade se provier de um amor isento de interesses sensíveis ou terrenos.
    • O amor de tribo difere do amor inspirado por Deus.
  • Qualquer homem é considerado próximo em decorrência de sua própria humanidade, independentemente de haver uma relação de inimizade.
    • Jerônimo em seus comentários afirma que todo o gênero humano deve ser recebido como irmão e próximo por sermos gerados de um mesmo pai, ultrapassando os limites da consanguinidade.
  • A doutrina sobre a universalidade do próximo é o ensinamento evocado por Clemente na leitura da parábola.
    • O alexandrino assinala os papéis simbólicos de cada componente da narrativa.
  • O samaritano representa o Salvador, enquanto o homem ferido simboliza a humanidade sob o ataque das potências do mundo.
    • As enfermidades humanas que envolvem temores e paixões encontram remédio exclusivo na ação de Jesus.
  • Os ladrões descritos no texto evangélico correspondem aos príncipes tenebrosos deste mundo na exegese clementina.
    • Os salteadores agiram sobre o homem deixando-o coberto de chagas e semimorto.
  • Clemente utiliza o termo picado ou atravessado para descrever a condição do homem ferido pelos ladrões.
    • O uso de um verbo semelhante ao do texto de João 19,37 levanta indagações sobre a existência de um sentido oculto.
  • O paralelismo com a ferida de Cristo na cruz sugere que Adão e todo o gênero humano foram atravessados de forma análoga.
    • A chaga que será título de glória na segunda vinda representa a antítese da ferida reconhecida por Cristo no primeiro advento.
    • Tertuliano e as notas dos Excertos de Teódoto mencionam o reconhecimento das feridas de Cristo pelos que o transpassaram.
  • O hoteleiro possui um simbolismo múltiplo que atua de forma correlativa à figura dos ladrões.
    • O personagem representa as potências celestes encarregadas do cuidado humano.
  • O hospedeiro representa os anjos, principados e potestades aos quais o Salvador confia o cuidado da humanidade.
    • O Verbo encarrega as potências de servir ao homem.
  • O mestre alexandrino apresenta dados sobre o tratamento oferecido pelo médico Jesus em comparação com o regime da Lei.
    • A Lei mosaica possuía uma atuação limitada às manifestações superficiais.
  • A Lei de Moisés cortava apenas os frutos visíveis das paixões malignas, enquanto o Salvador ataca a raiz do mal.
    • O Verbo de Dios encarnado penetra até a base do pecado para arrancá-lo definitivamente.
    • Clemente se inspira em concepções que guardam afinidade com Hebreus 4,12 e com a obra de Filão de Alexandria.
    • Ireneu também utiliza a metáfora da machado colocada à raiz das árvores conforme o testemunho de João Batista.
  • O médico Jesus derrama vinho e óleo sobre as feridas humanas como expressão de sua ação salvífica.
    • Os dois elementos trazem significações teológicas distintas.
  • O vinho simboliza o sangue originário da videira davídica, apontando para o sacrifício do Calvário com eficácia sobre as almas.
    • A efusão do sangue atua na remissão do pecado e na purificação das paixões da alma.
  • O azeite atua como o símbolo da misericórdia paterna, evidenciando o jogo linguístico comum entre óleo e misericórdia.
    • O texto de Clemente apresenta variantes na transmissão manuscrita sobre a certeza desse termo.
  • A unção régia de David com o óleo santo serve de base para associar o elemento à misericórdia.
    • O Stromata recolhe a citação bíblica sobre a unção de David.
  • O crisma facilitava a transição conceitual entre o óleo e a misericórdia na literatura antiga.
  • A menção às entranhas remete ao texto de Lucas 1,78, onde as entranhas de misericórdia de Deus são apontadas como a origem da economia evangélica.
    • O testamento dos patriarcas e as análises de Jean Daniélou confirmam essa associação simbólica.
  • O Salvador ofereceu em abundância o óleo da misericórdia recebido do Pai e derramou o vinho de seu sangue para a cura dos pecados.
    • Clemente desdobra a expressão evangélica sobre a infusão de azeite e vinho.
  • O óleo atesta a condição e o caráter divino de Jesus em sua atuação junto à humanidade.
    • Sendo Filho de Deus cheio de misericórdia, Jesus perdoa os delitos e arranca as paixões da alma de modo superior à Lei.
    • Orígenes interpreta o vinho como a palavra que ensina e o óleo como a palavra de compaixão.
    • Autores posteriores como Gregório de Elvira, Pseudo-Atanásio, Ambrósio e Agostinho modificam ou ampliam o simbolismo dos elementos.
  • O médico eficaz, por ser homem e Deus, remove os pecados do coração, diferenciando-se da antiga legislação.
    • A dupla natureza garante a eficácia do tratamento espiritual.
  • As ligaduras aplicadas pelo bom samaritano também possuem uma interpretação simbólica no texto clementino.
    • O samaritano atou as feridas do homem conforme o relato evangélico.
  • Clemente interpreta as ligaduras como as virtudes teologais definitivas aplicadas pelo Senhor para a cura.
    • O Salvador deu a conhecer as vendas insolúveis da saúde: caridade, fé e esperança.
  • O Senhor vinculou o homem às virtudes da fé, esperança e caridade para mantê-lo protegido contra as forças do mal.
    • O ordenamento dessas virtudes e o uso dos genitivos curativos indicam uma intenção preservadora.
  • O alexandrino identificou na tríade das virtudes ligaduras que exercem funções curativas e preservativas da integridade humana.
    • O contexto imediato não permite determinar com exclusividade os matizes dessas funções.
  • O Stromateus introduz dados sobre o papel do hospedeiro sem desenvolver uma alegoria direta e fechada.
    • Os anjos e as potestades assumem a função de servir aos seres humanos.
  • Os anjos, principados e potestades receberam o encargo de servir aos homens na dispensação terrena.
    • A função de serviço na dispensação humana é comparada à atividade do procurador na parábola dos trabalhadores da vinha.
  • O samaritano confia o enfermo ao hospedeiro, assim como o Salvador encarrega as potências angélicas de ministrar aos homens.
    • A Igreja serve à atividade do Senhor na terra.
  • A Igreja e os ministros prolongam a atividade de cura e ensino realizada originalmente pelo Salvador.
    • O Deus misericordioso reveste o homem para a salvação dos próprios homens, utilizando primeiro os profetas e agora a Igreja.
    • O semelhante deve servir ao semelhante em vista de uma salvação comum.
    • As notas de Lilla e Rüther examinam as demandas éticas e o conceito de apatheia em Clemente.
  • Os apóstolos e instrutores continuam a tarefa de curar as doenças da alma e ensinar a verdade divina.
    • A transição entre as funções dos profetas, apóstolos e anjos ocorre sem dificuldades no pensamento clementino.
    • O Senhor opera por meio de arcanjos e anjos que são chamados espíritos de Cristo.
  • O Salvador reservou uma grande retribuição para os anjos em razão do serviço prestado à humanidade.
    • A expressão sobre a grande retribuição indica a promessa de um salário importante pelo cumprimento do encargo.
  • O prêmio prometido aos anjos consiste em sua própria libertação da vaidade do mundo por ocasião da revelação da glória humana.
    • As potências serão libertadas da servidão decorrente da vaidade cósmica.
  • Tanto o ser humano quanto o anjo alcançarão a libertação da vaidade do mundo através da intervenção do Salvador.
    • A libertação da criatura angélica encontra-se subordinada ao sucesso da salvação humana.
  • Os anjos atuam como ministros auxiliares da economia salvífica sem reter o poder exclusivo de efetuar a salvação.
    • A cura e a salvação final constituem obras exclusivas do Verbo encarnado.
    • O serviço complementar confia aos anjos a tarefa de prevenir novas recaídas no homem já redimido.
  • O homem recebe a recompensa da vida eterna representada pelo denário único na parábola dos operários.
    • A retribuição do anjo baseia-se nos serviços prestados em benefício da humanidade.
  • Clemente presume que os anjos encontram-se sujeitos à vaidade do cosmos por não terem mantido perfeitamente o serviço ao homem.
    • O destino final do anjo envolve a liberação da servidão em relação ao mundo corruptível.
  • O anjo ficará exonerado do serviço direcionado aos homens após a introdução da humanidade na vida eterna.
    • A criatura angélica perderá toda vinculação com os elementos do cosmos sensível.
  • As indicações da primeira carta de Pedro servem de referencial para caracterizar a condição futura das potências angélicas.
    • Os Excertos de Teódoto e as Adumbrações discutem o aperfeiçoamento desejado pelos anjos.

b) O presbítero preorigeniano

  • Orígenes figura entre os comentadores clássicos da parábola, apresentando a matéria em sua homilia trinta e quatro sobre Lucas.
    • O mestre detalha as circunstâncias do diálogo entre o doutor da Lei e o Senhor.
  • O Salvador proferiu a parábola em resposta à tentativa do doutor da Lei de justificar a si mesmo e limitar o conceito de próximo.
    • Querendo o doutor da Lei justificar a si mesmo e mostrar que ninguém era seu próximo, disse quem é meu próximo, e o Senhor introduziu a parábola do homem que descia de Jerusalém a Jericó.
    • O texto ensina que o descendente não foi próximo de ninguém, exceto daquele que quis guardar os preceitos e se preparar para ser próximo de todo homem que necessita de auxílio.
    • O sacerdote e o levita falharam na proximidade, mas aquele que fez a misericórdia tornou-se o verdadeiro próximo, recebendo a ordem de ir e agir de igual modo.
  • A abordagem interpretativa de Orígenes destaca o espanto diante da postura do legista, que parecia não reconhecer nenhum indivíduo como próximo.
    • Duas explicações são possíveis para a atitude do doutor da Lei.
  • O legista considerava que ninguém agia como próximo em relação a ele, ou acreditava que a proximidade não existia de forma geral na sociedade.
    • O homem da lei julgava-se isento do preceito por não encontrar indivíduos que considerasse iguais a si.
  • A parábola demonstrou ao legista que a condição de próximo deve ser exercida para com todos, mesmo quando não há reciprocidade.
    • O samaritano exerceu a proximidade com um estranho, enquanto os ministros legais falharam com o consanguíneo.
  • Todo indivíduo que carece de assistência assume a condição de próximo em relação aos demais seres humanos.
    • A necessidade mútua estabelece o vínculo de proximidade.
  • Orígenes transcreve a interpretação de um antigo presbítero anônimo antes de apresentar suas próprias considerações exegéticas.
    • O comentário do ancião oferece uma leitura alegórica estruturada da narrativa.
  • O presbítero anônimo decodifica os componentes da parábola identificando o homem como Adão, Jerusalém como o paraíso e Jericó como o mundo.
    • Dizia um dos presbíteros, querendo interpretar a parábola: o homem que descia é Adão, Jerusalém é o paraíso, Jericó é o mundo, os ladrões são as forças contrárias, o sacerdote é a Lei, o levita são os Profetas, e o samaritano é Cristo.
    • As feridas representam a desobediência, a montaria significa o corpo do Senhor, e a hospedaria tipifica a Igreja que recebe a todos os que querem entrar.
    • Os dois denários significam o Pai e o Filho, e o hoteleiro é o chefe da Igreja a quem a dispensação foi confiada.
    • A promessa de retorno do samaritano figurava a segunda vinda do Salvador.
  • Orígenes manifesta aprovação fundamental em relação ao comentário alegórico transmitido pelo presbítero.
    • A exegese do presbítero guarda pontos de contato com as linhas do tratado Qual rico se salvará.
  • Os elementos comuns aparecem de forma explícita nas duas abordagens interpretativas da escola alexandrina.
    • Os ladrões correspondem aos príncipes tenebrosos ou às forças contrárias.
    • O samaritano representa o Salvador ou Cristo em ambas as leituras.
    • O hospedeiro significa as potências angélicas em Clemente e o chefe da Igreja no presbítero, mantendo a equivalência hierárquica.
  • Outros componentes interpretativos encontram-se implícitos e operam em perfeita harmonia entre os autores.
    • Jerusalém equivale ao paraíso e Jericó representa o mundo sensível situado abaixo daquela região.
    • O presbítero foca na ferida original da transgressão de Adão, ao passo que Clemente enfatiza as consequências dessa queda sobre a humanidade através das paixões.
    • O homem ferido encarna Adão ou os seus descendentes.
    • A hospedaria figura a Igreja onde os anjos exercem o serviço em benefício do homem, e o retorno sinaliza a segunda parusia.
  • Certos elementos são exclusivos de cada uma das abordagens, mas mantêm compatibilidade mútua e se complementam.
    • Clemente detalha o simbolismo do vinho como sangue, do óleo como misericórdia, das ligaduras como virtudes e a libertação angélica do mundo.
    • O presbítero traz como exclusividade a identificação do sacerdote com a Lei, do levita com os Profetas, do jumento com o corpo de Cristo e dos denários com o Pai e o Filho.
  • O exame comparativo não revela elementos incompatíveis entre a exegese do presbítero e a de Clemente de Alexandria.
    • A harmonia das propostas confere plausibilidade à tese de uma fonte ou identidade comum.
  • A harmonia interpretativa sugere a identidade entre o presbítero mencionado e a tradição de Clemente ou de Panteno como fonte comum.
    • Os canais de transmissão teológica em Alexandria explicam as semelhanças.
  • Os componentes exclusivos do presbítero revelam-se integrados ao edifício teológico comum e dispensam análises exaustivas.
    • O sacerdote que passou de largo representava a incapacidade da legislação mosaica.
  • O sacerdote não interrompeu a marcha porque a Lei mosaica, que ele simbolizava, era incapaz de efetuar a cura das feridas humanas.
    • O Salvador atua como médico exclusivo que corta as paixões pela raiz, enquanto a legislação antiga atingia apenas os efeitos externos.
  • O presbítero desenvolve sua linha teológica em conformidade com as epístolas de Paulo sobre a insuficiência da Lei.
    • A antiga legislação não possui a faculdade de justificar ou remover o pecado original de Adão.
  • Apenas Cristo detém o poder de remover os pecados do mundo mediante sua obediência e o sacrifício de seu sangue.
    • A ação de Cristo justifica a alma ferida e concede a restauração definitiva.
  • O levita personificava o coro dos profetas e compartilhava a mesma limitação em relação à cura da humanidade.
    • Nem a Lei nem os Profetas dispunham de meios para remitir o delito de Adão e suas sequelas.
  • A difusão dessa exegese foi ampla na literatura patrística posterior a partir das bases estabelecidas por Orígenes.
  • O jumento que transportava o samaritano simbolizava o corpo e a humanidade assumida pelo Senhor.
    • O Verbo viajava assentado na natureza humana dentro de um simbolismo frequente na época.
  • Hipólito de Roma utiliza uma imagem semelhante ao tratar da bênção de Jacó, apresentando o Verbo como cavaleiro e a natureza humana como cavalo.
    • O descenso do samaritano não ocorreu a partir de Jerusalém, mas sim do seio do Pai.
  • O Verbo desceu ao seio virginal de Maria e assumiu a carne humana como montaria para caminhar pelas estradas do exílio mundano.
    • O cavaleiro trazia consigo o vinho do próprio sangue destinado ao tratamento das feridas humanas.
  • O simbolismo da montaria abrange a união pessoal entre o Unigênito e sua humanidade como meio indispensável para o resgate do enfermo.
    • A comunhão de naturezas possibilita a aplicação do remédio eficaz.
  • O presbítero identifica os dois denários como o Pai e o Filho sem estender a explicação do símbolo.
    • As moedas foram entregues pelo Salvador ao anjo ou dirigente da hospedaria eclesial.
  • Os denários da parábola do samaritano destinam-se ao galardão do serviço angélico e diferem do denário da parábola dos operários.
    • A moeda dos operários representa especificamente a recompensa da vida eterna.
  • É necessário distinguir o salário da vida eterna pago ao homem pelo anjo da Igreja e o prêmio dos dois denários dado pelo Salvador ao próprio anjo.
    • O anjo recebe uma gratificação pelo serviço prestado em favor de Adão e de seus filhos.
  • A análise da parábola dos operários esclarece as razões pelas quais a moeda concedida aos seres humanos é única.
    • A concessão de duas moedas ao hoteleiro angélico exige uma justificativa teológica específica.
  • A criatura angélica não recebe a mesma forma de retribuição que é destinada ao ser humano a quem ela serve.
    • A vida eterna constitui uma moeda gratuita prometida de modo exclusivo à humanidade.
  • O denário da vida eterna não constitui uma promessa feita a qualquer dignidade angélica, seja ela chefe ou subalterna.
    • O presbítero aponta o verdadeiro sentido do simbolismo monetário para as potências.
  • Os dois denários representam o conhecimento singular a respeito do Pai e do Filho prometido aos anjos como prêmio por sua diaconia.
    • As potências são elevadas gratuitamente a um conhecimento superior que corresponde ao texto de Mateus 11,27.
  • Os anjos bons receberão por graça de Cristo um conhecimento do Pai e do Filho que excede os limites de sua própria natureza.
    • As potências participarão da gnose mútua que existe entre o Pai e o Filho.
  • A gnose angélica operará a libertação dessas potências em relação à servidão do mundo material sentida durante a economia humana.
    • As Adumbrações explicam que os anjos bons desejam alcançar o progresso dessa perfeição divina.

c) Orígenes

  • A exegese do presbítero apresenta-se sob forma esquemática e madura, servindo de base para o desenvolvimento das linhas de Orígenes.
    • O mestre alexandrino amplia os elementos da tradição local em conformidade com suas próprias opções teológicas.
  • O texto origeniano é considerado de exposição clara e fornece os fundamentos indispensáveis para a posterior análise das notícias de Ireneu.
    • O autor adverte que a narrativa do homem que desce não se aplica indistintamente a todos os indivíduos da história.
  • Orígenes argumenta que nem todo homem realiza a descida pejorativa de Jerusalém a Jericó por motivo de uma falta culpável.
    • Nem todo homem desceu de Jerusalém a Jericó, nem todos habitam o presente século por causa de um descenso culpável, embora aquele que foi enviado tenha vindo pelas ovelhas perdidas da casa de Israel.
    • O homem que desceu de Jerusalém a Jericó caiu nas mãos de ladrões porque ele próprio quis descer.
    • Os ladrões são identificados com aqueles que vieram antes do Salvador e são qualificados como ladrões e salteadores, agindo com extrema malícia ao despojar o homem e cobri-lo de chagas.
  • As chagas e feridas que cobrem o homem representam os vícios e os pecados contraídos na queda.
    • Os salteadores abandonam o homem semimorto após consumarem o despojamento e a agressão.
    • Gregório de Nissa, Ambrósio e Agostinho seguem a tradição interpretativa que define as chagas como os pecados e o despojamento como a perda da imortalidade.
  • O estado semimorto indica que a morte atinge apenas uma parcela da natureza humana, uma vez que a alma permanece imortal.
    • Agostinho e Ambrósio discutem o caráter semimorto sob a perspectiva da permanência da fé ou da capacidade de conhecer a Deus.
  • Ambrósio de Milão destaca que o samaritano não ignora o caído porque reconhece a presença de um elemento vital que permite a recuperação.
    • A permanência de um sopro de fé caracteriza a condição de semimorto em oposição à morte absoluta da alma.
  • A aplicação da teologia de Ambrósio exerceu influência nas discussões sobre as consequências do pecado de Adão na história da igreja.
    • As notas sobre a antropologia de Ireneu detalham esse impacto teológico.
  • O sacerdote e o levita que desceram pelo mesmo caminho realizaram ações benéficas para outros, mas falharam diante do necessitado.
    • A providência divina reservava o semimorto para aquele que era superior à Lei e aos Profetas.
  • O samaritano significa o guardião que vela de forma permanente pela proteção e cuidado de Israel.
    • O termo samaritano é traduzido como custos ou guardião na tradição onomástica e exegética.
  • O samaritano viajou motivado pela condição do semimorto e realizou o descenso com o objetivo específico de salvar o moribundo.
    • Jesus aceitou o epíteto de samaritano direcionado pelos judeus porque sabia que exercia a função de guardião da humanidade.
  • O Salvador aproximou-se do homem ensanguentado e moveu-se de compaixão para converter-se em seu verdadeiro próximo.
    • O médico ligou as chagas e infundiu uma mistura de óleo e vinho sem repetir a constatação de falência expressa nos antigos profetas.
  • O remédio composto por óleo misturado com vinho sugere um simbolismo de caráter sacramental ligado à unção.
    • A mistura de óleo e vinho diferencia-se das práticas heterodoxas que utilizavam a combinação de óleo e água nos rituais dos enfermos.
  • O samaritano transportava os medicamentos em sua viagem por providência divina, prevendo a assistência a múltiplos necessitados.
    • Os remédios atendiam às diversas causas de ferimentos sofridos pelos homens no mundo.
  • O azeite portado pelo samaritano atua com o objetivo de aliviar as inflamações provocadas pelas feridas e alegrar a face do curado.
    • O vinho desempenha a função de limpar as chagas através de uma ação que envolve certa adstringência e aspereza.
  • O ferido foi colocado sobre a montaria do samaritano, o que significa a assunção da carne humana pelo próprio corpo do Senhor.
    • O Salvador tomou sobre si as nossas dores e conduziu o semimorto para a hospedaria que representa a Igreja.
  • A Igreja assume a condição de hospedaria universal que acolhe a todos e recusa a denegação de auxílio a qualquer necessitado.
    • O Salvador permaneceu um dia inteiro na hospedaria cuidando pessoalmente do enfermo durante o período diurno e noturno.
  • O Salvador retirou duas moedas de prata de seu tesouro provado e honrou o hospedeiro que simboliza o anjo da Igreja.
    • O Verbo encarregou a potência angélica de conduzir o homem até a perfeita restauração da saúde.
  • Os dois denários significam a notícia do Pai e do Filho junto com a ciência do sacramento da mútua inabitação divina.
    • A gnose divina atua como a recompensa do anjo para que ele exerça o cuidado com maior diligência, sob a promessa de restituição dos gastos adicionais.
  • As reflexões de Orígenes fornecem as balizas teológicas que estruturaram a maior parte da produção interpretativa dos séculos posteriores.
    • O pensamento do mestre serve de ponto de comparação fixo para analisar a teologia de Ireneu.
  • O exame das formulações de Ireneu dispensa o aprofundamento em outros autores da antiguidade cristã diante do material oferecido pela escola de Alexandria.
    • Clemente, o presbítero e Orígenes bastam para caracterizar o cenário exegético.
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