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Bom samaritano (não alexandrinos)
Antonio Orbe — Parábolas Evangélicas em São Irineu
Capítulo 4 — O Bom Samaritano (Lc 10,30—37)
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A parábola do bom samaritano é amplamente conhecida, tornando dispensável sua transcrição, embora a antiguidade remota tenha legado poucas notícias a seu respeito.
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A exposição da matéria se divide em três partes: fora dos alexandrinos, nos alexandrinos e em Ireneu.
A exposição do tema é dividida em três partes distintas para análise histórica.-
As divisões compreendem o período fora dos alexandrinos na primeira parte, nos alexandrinos na segunda parte e em Ireneo na terceira parte.
Parte Primeira — Fora dos alexandrinos
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A parábola do bom samaritano não é registrada nas informações deixadas pelos heresiólogos antigos.
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Um autor desconhecido apresenta dados após mencionar Marcion, Mani e Bardesanes.
Um autor anônimo relata, após fazer menção a Marcion, Mani e Bardesanes, uma versão peculiar sobre as ações do Salvador.-
Dizia Marcion que Nosso Senhor não nasceu de uma mulher, mas que arrebatou o posto do demiurgo e desceu e apareceu por primeira vez entre Jerusalém e Jericó, como um filho de homem em forma e aspecto e semelhança, mas sem o nosso corpo.
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As investigações sobre Lucas 10,25—37 são analisadas por Werner Monselewski na obra O bom samaritano.
Os heresiólogos indicam, contrariamente ao relato anônimo, que o Jesus marcionita teria descido diretamente do céu para Cafarnaum no décimo quinto ano de Tibério César.-
Ireneu ensina que Jesus veio do Pai que está acima do deus criador do mundo e entrou na Judeia nos tempos do governador Pôncio Pilatos.
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Adolf von Harnack reúne notícias adicionais sobre Marcion na literatura antiga.
A origem da informação do autor anônimo sobre a aparição de Jesus entre Jerusalém e Jericó permanece incerta.-
O fragmento estudado apresenta características mais doutrinais do que históricas.
O fragmento preservado, possuindo caráter mais doutrinal do que histórico, expressa por via simbólica uma exegese semelhante à que os valentinianos aplicavam ao texto de João 2,12.-
Heracleon interpreta a descida a Cafarnaum como o manifesto do começo de uma nova economia.
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Cafarnaum é significada como as partes últimas do mundo, a região material para onde ocorreu a descida.
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Pela impropriedade do lugar material, não se relata que Jesus tenha feito ou falado algo na cidade.
A descida do Salvador a Cafarnaum representava o início de uma nova economia espiritual.-
E. Corsini adverte que o evento evoca a doutrina de Marcion sobre o início de seu evangelho com a descida de Cristo à Galileia.
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Tertuliano é citado como testemunha da estrutura do evangelho marcionita.
Um simbolismo semelhante é apontado por Heracleon na cura do filho do régulo, ocorrida também na cidade de Cafarnaum.-
O filho do régulo é entendido como quem está situado na parte inferior da Mesotes, em direção ao mar e fronteiriço à matéria.
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O homem que vive nessa região inferior acha-se enfermo, em uma condição desconforme à natureza, na ignorância e em pecados.
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Orígenes transmite esses fragmentos em seus comentários joaninos.
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O Apócrifo de Tiago menciona o ensinamento sobre a cura da doença para que os homens se tornem reis.
O filho enfermo do régulo em Cafarnaum e o homem ferido da parábola no caminho de Jericó servem à mesma construção alegórica.-
O régulo solicitou a descida de Jesus a Cafarnaum antes da morte do filho.
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O milagre do régulo ocorreu quando Jesus vinha da Judeia para a Galileia.
O régulo solicitou o descenso de Jesus a Cafarnaum antes que seu filho morresse, alcançando o milagre na transição da Judeia para a Galileia.-
Heracleon interpreta a Judeia como a região superior ou celeste.
O bom samaritano realizou uma descida de Jerusalém a Jericó para oferecer remédio ao homem que foi malferido.-
O percurso de Jerusalém a Jericó repete o sentido simbólico de descida para o socorro.
Ambos os descensos coincidem no simbolismo da toponímia, permitindo que o autor anônimo sírio associasse Cafarnaum à comarca entre Jerusalém e Jericó.-
Cafarnaum é o local onde Marcion situava a inauguração da economia de Cristo.
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A região entre Jerusalém e Jericó provém de Lucas 10,30.
As duas referências geográficas da cidade marítima de Cafarnaum e da região entre Jerusalém e Jericó possuíam o mesmo significado simbólico em determinado período.-
Os locais significavam um topos caracterizado pelas chagas, pela ignorância e pelos pecados.
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A região era descrita como governada por arcontes estranhos ao Deus supremo e opostos à saúde humana.
A semelhança de símbolos não comprova que Marcion mantinha a parábola do bom samaritano em seu texto evangélico.-
O argumento baseado no recurso aos maniqueus medievais possui pouca relevância para solucionar a questão.
O recurso ao testemunho dos maniqueus medievais possui pouco peso para demonstrar a presença da parábola no evangelho marcionita.-
Bonacursus em Vida dos heréticos relata que os cátaros atribuíam a criação de Adão ao diabo e explicavam o homem que descia de Jerusalém a Jericó como o espírito de Adão.
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Moneta de Cremona detalha a exegese dos cátaros e valdenses, os quais viam o espírito de Adão descendo da Jerusalém celeste para o mundo, caindo nas mãos de espíritos malignos que o despojaram da luz do sol, da lua e das estrelas.
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Na visão cátara, as pragas representam os pecados, e o estado semimorto indica que a vida carnal era comparável à morte, mas ainda passível de restauração.
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O sacerdote e o levita, identificados como Melquisedeque e Aarão, falharam por descerem pelos mesmos pecados.
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O samaritano representa Cristo, que derramou o óleo da penitência e o vinho do Espírito Santo, salvando o homem por meio de seu corpo, que é a Igreja.
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Os dois denários dados ao hoteleiro significam o Evangelho e o Dom do Espírito Santo entregues aos prepósitos da Igreja.
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Paulo é visto como aquele que supererogou por pregar e viver do trabalho de suas mãos.
As notícias contidas nas Cadenas exegéticas possuem maior relevância para a investigação sobre o texto marcionita.-
As anotações antigas apontam direcionamentos polêmicos contra os heresiarcas.
As expressões sobre a resposta correta em Lucas 10,28 eram apontadas nas Cadenas como argumentos contra os discípulos de Valentim, Basílides e Marcion.-
Estas palavras respondeu bem vão contra os de Valentim e Basílides e contra os de Marcion, porque também eles têm em seu evangelho as expressões indicadas.
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Orígenes é referenciado como a fonte desses fragmentos coletados.
O versículo vinte e oito de Lucas constava no Evangelho de Marcion, mas a aceitação desse trecho não significava a incorporação da parábola que lhe era vinculada.-
Adolf von Harnack confirma a presença do versículo no texto marcionita.
A tentativa de utilizar outros fragmentos da obra de Orígenes para apoiar a tese da inclusão da parábola no marcionismo carece de fundamento.-
Os fragmentos numéricos de Rauer não oferecem suporte documental suficiente para essa hipótese.
Uma notícia de Cirilo de Alexandria indica que o simbolismo dos dois denários como representação dos dois Testamentos foi empregado em controvérsias contra Manes e Marcion.-
A argumentação patrística utilizava os elementos da parábola para defender a unidade divina.
O ensinamento de Cirilo de Alexandria define os dois denários como os dois Testamentos provenientes de um Deus único.-
Dois denários, isto é, dois Testamentos: o outorgado mediante a Lei de Moisés e os Profetas, e o dado por meio dos evangelios e as constituições apostólicas.
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Ambos os Testamentos levam uma só imagem do supremo e único Rei e imprimem o mesmo caráter nos corações mediante os sagrados oráculos, pois um só Espírito os proferiu.
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A crítica é direcionada a Manes e Marcion por repartirem os Testamentos entre deuses diferentes, esquecendo que Cristo consignou os denários juntos ao chefe da hospedaria.
A existência de um argumento antimarcionita baseado em Lucas 10,35 poderia sugerir de modo indireto que Marcion conhecia o texto.-
A lógica empregada por alguns Padres da Igreja é considerada relativa e não permite extrair conclusões absolutas.
A lógica interpretativa de alguns Padres não autoriza a afirmação categórica sobre a presença do texto no manuscrito de Marcion.-
Theodor Zahn argumenta que os trechos de Lucas 10,29—37 não possuem testemunho seguro no marcionismo.
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A hipótese de que os versículos estavam no Evangelho de Marcion é considerada por Zahn como não demonstrada.
A ausência de indícios consistentes impede a inclusão da parábola do bom samaritano no conteúdo do evangelho marcionita.-
O exame dos testemunhos antigos resulta negativo quanto a essa inserção.
O Evangelho segundo Filipe apresenta reflexões de origem valentiniana sobre os elementos da parábola.-
O amor espiritual é definido como vinho e bálsamo, usufruído por aqueles que são ungidos.
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Aqueles que não são ungidos permanecem em seu mau odor quando estão distantes dos consagrados.
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O samaritano não deu ao ferido outra coisa senão vinho e óleo, o que representa a unção.
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A unção cura as feridas porque o amor cobre uma multidão de pecados.
O autor do Evangelho segundo Filipe destaca a eficácia da caridade em cobrir os pecados e curar as chagas do homem.-
O bom odor do Pai é relacionado com as expressões do Evangelho da Verdade e de Inácio de Antioquia.
O samaritano funciona como símbolo do Salvador, enquanto o homem ferido representa a humanidade na perspectiva valentiniana.-
O vinho e o óleo evocam as práticas de unção dos enfermos dentro do ritualismo valentiniano narrado por Ireneu.
Os elementos do vinho e do óleo, quando tomados em um sentido mais amplo, passam a simbolizar o ágape e a gnose.-
A unção possibilita ao indivíduo a superação das feridas causadas pelas paixões e pecados.
O indivíduo curado e dotado do bom odor comunica essa condição aos homens psíquicos aos quais se aproxima como próximo.-
A comunicação ocorre na zona de influência do homem espiritual.
O texto valentiniano faz uma alusão sutil às figuras do sacerdote e do levita que abandonam o ferido em seu mau odor.-
As figuras evangélicas passam de largo pelo homem necessitado.
O samaritano interrompe sua marcha para ungir o ferido, concedendo-lhe a saúde e o aroma de Deus.-
A interrupção resulta na transformação da condição do enfermo.
O autor sugere de modo dissimulado que apenas o homem espiritual é capaz de atingir a saúde perfeita acompanhada do bom odor definitivo.-
Os demais homens participam dessa condição na medida em que vivem unidos ao homem espiritual.
Os homens psíquicos participam da perfeição contanto que permaneçam na zona de influência ou revestidos pelo homem espiritual.-
A união com o espiritual garante ao psíquico o acesso aos benefícios da cura.
O testemunho de Taciano faz menção à parábola, mas apresenta poucas possibilidades para a reconstituição exata do texto.-
O versículo trinta e seis interroga quem parece ter sido o próximo do ferido.
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O versículo trinta e sete registra a resposta sobre aquele que usou de misericórdia e a ordem de Jesus para agir de modo parecido.
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Theodor Zahn recolhe os dados sobre o Diatessaron de Taciano.
A obra Ad graecos apresenta trechos que relembram os componentes da narrativa evangélica.-
Taciano compara a atuação dos demônios à dos salteadores que usam da audácia para dominar os semelhantes.
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As almas solitárias são enganadas pelos demônios por meio de ignorâncias e fantasias após serem submersas na malícia.
Os capítulos posteriores da obra de Taciano reforçam a analogia entre os seres demoníacos e os ladrões.-
Os demônios não promovem a cura, mas escravizam os homens de forma artificiosa.
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Justino é citado por proclamar que os demônios se assemelham aos ladrões que capturam pessoas para devolvê-las mediante resgate em ouro.
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G. J. M. Bartelink e Werner Monselewski estudam a temática dos demônios como salteadores na literatura cristã primitiva.
Os fragmentos preservados de Taciano não demonstram uma inspiração direta ou dependência textual de Lucas 10,30.-
O uso do termo ladrões para designar os demônios constitui um elemento genérico.
O recurso ao conceito de ladrões para qualificar os demônios constitui uma metáfora genérica inspirada nos escritos de Justino.-
Justino em sua Apologia menciona que os demônios exigem sacrifícios e alude aos ladrões em solidão.
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A obra perdida de Justino é referenciada na Cronologia de Adolf von Harnack.
Cipriano de Cartago faz alusões veladas à parábola, aplicando-a de modo especial à situação dos lapsos que foram feridos pelo diabo.-
A clemência divina atua de forma análoga ao bom samaritano.
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As cartas de Cipriano tratam do recolhimento e cura daqueles que se afastaram da Igreja.
A clemência divina encaminha os feridos à Igreja para que recebam a cura, evitando o abandono sob o poder do delito.-
O samaritano é identificado como Cristo ou Deus.
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A hospedaria representa a Igreja, os salteadores figuram o demônio, e o vinho e o óleo significam a bondadade e a misericórdia divinas.
Os cristãos feridos durante as perseguições não devem ser considerados mortos, mas semimortos no caminho da recuperação.-
Não pensemos que estão mortos, mas antes que jazem semimortos aqueles que vemos feridos pela perseguição funesta, pois se estivessem totalmente mortos nunca se tornariam confessores e mártires.
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Há neles um princípio que pode prevalecer para a fé por meio da penitência.
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Hugo Koch e H. J. Vogt examinam as cartas ciprianas e suas implicações teológicas.
A assistência oferecida pela Igreja seria ineficaz se os lapsos e apóstatas estivessem totalmente destituídos de um princípio de vida.-
Cipriano contrapõe sua visão à postura de Novaciano antes do cisma.
A postura de Novaciano considerava os caídos como indivíduos mais mortos do que um cadáver, enquanto Cipriano os via como gravemente enfermos.-
O delito cometido havia deixado os indivíduos na condição de semimortos.
A condição de semimorto justifica a aplicação da medicina da bondade de Deus para avivar os indivíduos no seio da Igreja.-
A Igreja é a hospedaria onde o bom samaritano encomenda a cura dos enfermos.
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