gnosis:quispel:macario:siriaco
Cristianismo siríaco
QUISPEL, GILLES. MAKARIUS, DAS THOMASEVANGELIUM UND DAS LIED VON DER PERLE. LEIDEN: BRILL, 1967.
A SINGULARIDADE DO CRISTIANISMO SÍRIO
- O cristianismo sírio possuía desde suas origens uma configuração distinta do cristianismo romano e do grego: Roma buscava o cumprimento da lei na Igreja e no Estado, chegando a um papado que reivindicava o domínio universal, com pouco interesse pela especulação teológica e muito apreço pela ordem; o cristão helenístico meditava sobre o Logos como síntese de ser e tempo, formulando dogmas em termos ontológicos de natureza e pessoa; já o cristão sírio vivia uma via, um caminho em direção ao fim — o axnaja, peregrino e viandante que renunciou à propriedade e ao matrimônio.
- O cristianismo do Oriente semítico era de origem judeo-cristã, derivando da tradição segundo a qual o judeu-cristão Addai veio de Jerusalém a Edessa para pregar a boa-nova, e embora isso possa ser lendário, aceita-se hoje que foram judeo-cristãos que introduziram o cristianismo em Edessa, talvez já no primeiro século, gerando um cristianismo semítico que se expandiu como nestorianismo até a China e a Índia, mantendo o siríaco como língua litúrgica e tendo sua sede na Mesopotâmia, e nele perdurou a inquietação escatológica do espírito judeu.
- Além da herança judeo-cristã, uma segunda componente do cristianismo sírio foi introduzida quando Taciano, o “Assírio”, retornou para sua terra natal no Oriente por volta de 170 d.C. como encratita — ou seja, pertencente à corrente que se abstinha do casamento, do vinho e da carne e que no Ocidente fora expulsa da Igreja como seita herética —, sendo tão bem acolhido pelos sírios que estes adotaram seu Diatessáron, uma harmonia evangélica provavelmente escrita em siríaco, como Escritura sagrada nas liturgias, sem que nenhum escritor sírio o chamasse de herege, exceto quando copiavam fontes gregas.
- A presença de encratitas no Oriente semítico antes de Taciano é evidenciada pelo próprio Evangelho de Tomé, escrito por volta de 140 em Edessa, que ensina que somente os não casados podem ser bem-aventurados (Lógio 75), e pelos Atos de Tomé, surgidos ali por volta de 225 d.C., que proclamavam a separação ou a renúncia ao matrimônio como o ensinamento cristão mais importante.
- Os encratitas chegaram a Edessa vindos do Ocidente, onde encontraram cristãos judeus que trouxeram da Palestina sua própria tradição evangélica independente, o que explica que o Evangelho de Tomé, sendo um escrito encratita, contenha parcialmente uma tradição judeo-cristã, e também esclarece por que o Diatessáron de Taciano não é apenas uma harmonia dos quatro evangelhos canônicos, mas inclui variantes extracanônicas de origem judeo-cristã — pois tanto “Tomé” quanto Taciano partilhavam uma fonte judeo-cristã comum, provavelmente o Evangelho dos Hebreus, conhecido desde o início no Oriente semítico.
- O catolicismo chegou tarde a Edessa, permanecendo incerta a questão sobre se Palute foi o primeiro bispo de Edessa ordenado em Antioquia por volta do ano 200, e ignorando-se como se processou a transição do encratismo para a eclesialidade, embora seja certo que no século IV os encratitas ainda pertenciam à Igreja Católica.
- Macário e o Liber Graduum são, no século IV, herdeiros dos encratitas sírios do século II — o Liber Graduum conhece os Atos de Tomé, e ambas as obras conhecem o Evangelho de Tomé, crendo ainda que somente o não casado pode ser salvo, o que demonstra a existência de uma tradição encratita ininterrupta no Oriente desde o início do segundo até o fim do quarto século.
- Tanto Macário quanto o autor do Liber Graduum pertenciam à Igreja Católica — este o declara abertamente ao dizer que “da Igreja Católica procede todo o conhecimento da verdade” (Liber Graduum 27, 5), enquanto Macário, mais crítico, menciona sacerdotes que perseguem os pneumáticos, critica gestos exteriores na oração e polemiza contra monges eclesiásticos sem vida interior, evidenciando que sua orientação, o messalianismo, era uma corrente dentro da Igreja, e nada indica que tenha sido excomungado ou que ele mesmo tenha saído.
- Havia também na Síria uma corrente não encratita, representada pela Didascália, por Afraat e por Efrém Sírio, que provam a existência de uma Igreja Católica síria pouco interessada no dogma grego mas zelosa de sua ortodoxia, combatendo marcionitas, maniqueus e bardesanitas, ao passo que nenhum escrito sírio dos primeiros quatro séculos combateu os encratitas, que eram considerados bons cristãos ortodoxos.
- Isso significa que durante dois séculos, no âmbito do cristianismo sírio, um grupo pertenceu à Igreja Católica que, por critérios ocidentais, seria herético, mas gerou uma espiritualidade que influenciou profundamente tanto a Igreja grega quanto a ocidental — romana e protestante.
gnosis/quispel/macario/siriaco.txt · Last modified: by 127.0.0.1
