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Gnosticismo

QUISPEL, Gilles; OORT, Johannes van. Gnostica, judaica, catholica: collected essays of Gilles Quispel. Leiden: Brill, 2008.

  • Definição e Contexto Pré-Cristão da Gnose
    • A origem indo-europeia da palavra grega Gnosis, relacionada ao inglês to know e ao sânscrito jnana, indicando uma corrente da Antiguidade que enfatizava a consciência dos mistérios divinos.
    • A obtenção deste conhecimento por experiência direta de revelação ou por iniciação em tradições esotéricas secretas.
    • O uso do termo como palavra-chave nos rolos dos Essênios encontrados em Qumran.
    • A declaração atribuída a Jesus no Evangelho de João (17:3) definindo a vida eterna como o conhecer [e não apenas crer] a Deus e a Jesus Cristo.
    • A distinção feita pelo Platonismo Médio entre raciocínio discursivo e intuição, ensinando a afinidade da alma com a divindade.
    • A reflexão desta atmosfera nos escritos de Hermes Trismegistus, como o Poimandres, originados na sabedoria egípcia e misticismo judaico, sem influências cristãs.
    • O ditado presente em uma coleção armênia atribuída a Hermes: Aquele que conhece a si mesmo, conhece o Todo.
    • A ilustração deste conceito no Poimandres através da história do Anthropos (Homem) divino que se apaixona pela natureza inferior.
    • A adoção da imagética sexual explícita da mitologia egípcia na literatura hermética, como na oração que se refere ao útero grávido pelo falo do Pai.
  • Gnosticismo: Definição Acadêmica e Fontes
    • A distinção entre gnosis e Gnosticismo estabelecida pelos estudiosos após o congresso de Messina em 1966, sendo o último um termo moderno para uma religião específica.
    • A definição do Gnosticismo por mitos que afirmam que o Deus Desconhecido não é o criador (demiurgo, YHVH), que o mundo é um erro consequente de uma cisão na divindade e que o homem espiritual é alheio ao mundo natural.
    • A identificação da inconsciência, e não do pecado ou culpa, como a causa do mal.
    • A ampliação das fontes primárias para além dos heresiologistas (Irineu, Hipólito, Epifânio) com a descoberta do Codex Askewianus, Codex Brucianus e os textos de Nag Hammadi.
    • A presença de textos não gnósticos na biblioteca de Nag Hammadi, como o Evangelho de Tomé (encratita), O Trovão, Mente Perfeita (judaico) e escritos herméticos ou católicos antigos.
  • Origens e o Modelo do Homem Divino (Anthropos)
    • O abandono da hipótese da origem iraniana em favor de fundamentos judaico-helenísticos centrados em Alexandria.
    • A visão do profeta Ezequiel da Glória do Senhor (kavod) como uma figura que é simultaneamente Luz e Homem.
    • A alusão a esta figura pelo dramaturgo judeu Ezequiel, o Trágico, descrevendo Moisés visualizando um trono no Sinai ocupado por um Homem nobre.
    • A referência mais antiga ao Adam Qadmon na tradição palestina de Aqiva ben Yosef sobre os dois tronos no céu.
    • A identificação feita por Filo de Alexandria entre o Logos e a ideia platônica de homem, chamando-o de Homem de Deus.
    • O sistema de Saturninus de Antioquia descrevendo a criação do mundo por sete anjos que tentam deter a imagem brilhante do Anthropos e a animação do corpo humano pela centelha enviada pelo Adão celestial.
    • A referência de Mani ao Homem Primordial que combate as trevas e deixa sua alma na matéria, necessitando do processo cósmico para restaurar a androginia original.
  • O Modelo de Sophia e o Demiurgo
    • A descrição da Sabedoria (Sophia) na Sabedoria de Salomão como um espírito santo que penetra o Todo e como esposa do Senhor.
    • A sobrevivência da Sabedoria como Hokhmah em Alexandria, fundamentando o modelo gnóstico de Sophia como primeiro pensamento de Deus.
    • O ensinamento de Simão, o Samaritano, sobre a descida da Sabedoria, a geração dos anjos criadores, seu aprisionamento e reencarnações sucessivas até ser encontrada em um bordel em Tiro.
    • A polêmica rabínica contra os hereges que ensinavam dois deuses e a atribuição, por dissidentes judeus (Magharians), dos antropomorfismos bíblicos a um anjo representante (Jaoel, Metatron).
    • A identificação gnóstica judaica do demiurgo com este anjo do Senhor, denominado Saklas (tolo) no Apócrifo de João, explicando a criação e a lei sem imputá-las ao Deus supremo.
  • O Deus Interior e o Gnosticismo Judaico
    • A identificação do sopro de vida de Gênesis 2:7 com o espírito de Deus, ampliada pelos judeus alexandrinos sob influência estoica e platônica.
    • A tradução de neshamah (sopro) por pneuma (espírito) na Septuaginta e na versão Latina Antiga, permitindo a especulação gnóstica sobre o Espírito adormecido no homem.
    • A combinação dos modelos de Anthropos e Sophia no Apócrifo de João, descrevendo a emanação do mundo espiritual e a criação do corpo de Adão como imitação da imagem do Primeiro Homem.
    • A prática dos Mandeus (gnósticos do Iraque/Irã) de ritos para integrar a alma ao Adão Secreto, o corpo divino de Deus, derivado da visão de Ezequiel.
    • A circulação de especulações sobre o corpo místico de Deus (Shi'ur Qoma) na Palestina, influenciando a concepção paulina da Igreja como corpo de Cristo.
    • A transposição de temas gnósticos para a terminologia islâmica na Gnose Ismaelita, incluindo o princípio criativo feminino (Kuni) e o Adão divino.
  • Gnose Cristã: Marcion, Basilides e Valentinus
    • A origem judaica do cristianismo egípcio e a ascendência judaica dos grandes gnósticos alexandrinos.
    • A doutrina de Marcion distinguindo o Deus Desconhecido do demiurgo criador, baseada em uma interpretação radical de Paulo, negando porém o parentesco do homem com a divindade.
    • A cosmogonia de Basilides iniciando com um Deus não-existente que cria o germe do Todo, e a apresentação de Jesus como protótipo da iluminação espiritual.
    • A teologia de Valentinus fundamentada em uma experiência visionária e na polaridade (syzygia) como princípio da realidade.
    • A valorização do sexo e do casamento pelos valentinianos pneumáticos como mistério e sacramento, contrastando com a proibição para as classes inferiores (psíquicos e hílicos).
  • O Códice Jung e a Teologia Valentiniana
    • A aquisição do Códice Jung em 1952 contendo escritos como o Evangelho da Verdade e o Tratado Tripartido.
    • A visão otimista do Tratado Tripartido, onde o mal é uma decisão livre e a providência educa a humanidade através da matéria e da moral até a consciência completa.
    • A criação de uma terminologia teológica latina (consubstancial, trindade, pessoa) pelos valentinianos de Cartago, posteriormente adotada pela Igreja Católica.
  • Mani e a Universalização do Gnosticismo
    • A fundação por Mani de uma igreja cristã alternativa que perdurou por mil anos.
    • A influência do ambiente judaico-cristão (Elkesaites) na juventude de Mani e sua rejeição dos sacramentos e da origem divina do mal.
    • A centralidade da experiência gnóstica do encontro com o Gêmeo ou Eu transcendental, ilustrada pela declaração de Mani de que reconheceu o Gêmeo como o seu próprio Eu do qual fora separado.
    • A doutrina maniqueísta de que o mundo foi criado pelo Espírito Vivo (manifestação de Deus), mas que a alma humana é luz aprisionada pela escuridão, necessitando de libertação.
  • Sobrevivência Medieval e Ressurgimento Moderno
    • A persistência do Gnosticismo na Idade Média através dos Paulicianos, Bogomilos e Cátaros, mantendo o dualismo e a rejeição ao demiurgo do Antigo Testamento.
    • O surgimento espontâneo da Gnose moderna com Jakob Boehme e sua influência em William Blake e no Idealismo Alemão (Schelling, Hegel).
    • O início do estudo acadêmico com Gottfried Arnold em 1699, influenciando a elaboração do sistema gnóstico pessoal de Goethe em Fausto.
    • A redução do entendimento da Gnose no século XIX e início do XX a helenização aguda (Harnack) ou fósseis orientais (Bousset).
    • A redescoberta do significado da Gnose através do Existencialismo, da Psicologia Profunda e dos textos de Nag Hammadi, confirmando sua natureza como filosofia perene e suas raízes judaicas.
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