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Príncipe das Trevas

Henri-Charles Puech. Sur le manichéisme et autres essais. Paris: Flammarion, 1979.

SOBRE O PRÍNCIPE DAS TREVAS EM SEU REINO

  • O texto se inicia com um salmo maniqueísta de Turfã que invoca a libertação do abismo tenebroso consumidor, descrevendo um reino de sofrimento onde não há socorro, amigos, salvação ou qualquer tipo de saída.
    • O salmo pergunta: “Quem me libertará do abismo seco e queimado pelo vento escaldante, e de toda angústia infernal, e de todas as feridas?”
    • O salmo clama: “Que eu seja livre das criaturas que se devoram entre si, dos humanos, aves, peixes, feras e demônios, e do inferno sem saída.”
    • O fragmento citado é proveniente de Turfã (T II D 178), traduzido do parta ou “iraniano do norte” por É. Benveniste, e foi originalmente publicado na revista Yggdrasill em 1937.

A MULTIDÃO DEMONÍACA E A HIERARQUIA DO MAL

  • O maniqueísmo apresenta uma profusão inumerável de demônios ou entidades maléficas, que, no entanto, são distribuídas em classes e organizadas em uma hierarquia dominada por um arquidemônio chamado de “Rei” ou “Príncipe das Trevas”.
    • As fontes maniqueístas citam nomes como Archontes, Potências das Trevas, Dêvân ou Dêvs, Yakşas, Péris, Rakşas, Râzân, Măzandarân e Avortons para designar as entidades malignas.
    • A descrição mais completa e melhor do Príncipe das Trevas é fornecida pelos próprios maniqueístas nos capítulos XXVII e VI dos seus “Képhalaiïa”, descobertos em 1930 em Médinet Mâdi, no Egito.
    • Os “Képhalaiïa” são um conjunto de diálogos — reais ou supostos — de Mani com seus discípulos, traduzidos para o copta subakhmímico, cuja estranheza e lacunas exigem um comentário geral para dissipar as dificuldades do leitor.

AS CINCO FORMAS DO PRÍNCIPE DAS TREVAS (KÉPHALAION XXVII)

  • O Képhalaiôn XXVII, intitulado “Sobre as cinco formas do Príncipe das Trevas”, descreve detalhadamente as características e aspectos deste ser, alertando os discípulos para não se revestirem dessas formas malignas.
    • O Príncipe das Trevas possui uma cabeça com figura de leão, mãos e pés com figura de demônios e espíritos maus, ombros com figura de águia, ventre com figura de serpente e cauda com figura de peixe.
    • Os cinco aspectos do Príncipe são enumerados: sua negrura, sua puídice, sua fealdade, sua amargura (que é a sua própria alma) e seu ardor que queima como um pedaço de ferro fundido ao fogo.
    • Três características principais estão nele: um corpo de extrema dureza e solidez, a capacidade de ferir e matar por meio de magias do seu verbo, e o conhecimento das falas e da linguagem dos seus cinco mundos.
    • A Matéria, descrita como o Pensamento da Morte, formou o corpo do Príncipe a partir da natureza do País das Trevas, tornando-o mais duro que todo ferro, bronze, aço e chumbo.
    • Ao invocar ou responder, toda a sua linguagem insensata produz encantamentos e sortilégios, sendo que os sortilégios usados pelos homens no mundo são, na verdade, os mistérios do Rei das Trevas.
    • O Rei conhece os piscares de olhos que seus súditos trocam como sinais, mas estes não compreendem a linguagem daquele; contudo, o Rei ignora o espírito e o pensamento deles, conhecendo apenas o que está presente diante de seu olhar.
    • Quando o Rei quer se deslocar, ele estica todos os seus membros; quando lhe vem a ideia, ele os contrai e cai ao chão como um cacho de uvas ou uma grossa bola de ferro.
    • Sua voz é formidável e terrível, espalhando o pavor entre as suas Potências, assemelhando-se ao trovão nas nuvens quando fala e fazendo com que todos tremam, vacilem e caiam a seus pés quando vocifera.
    • O texto conclama os “bem-amados” a não revestirem as formas desse Príncipe, raiz de todos os males, e a se tornarem zelosos e perfeitos na presença do Espírito da Verdade para que possam herdar a Vida.

O REINO E AS PROVÍNCIAS DO MAL (KÉPHALAION VI)

  • O Képhalàion VI, intitulado “Sobre as cinco ‘pochetes’ que jorraram da Terra das Trevas desde o começo”, desenha o panorama do Reino do Mal e suas províncias, estabelecendo uma estrutura de cinco elementos, cinco príncipes, cinco espíritos, cinco corpos e cinco gostos.
    • A Terra das Trevas contém cinco “pochetes” (termo aproximado para designar reservas, grutas ou recantos) das quais saíram cinco Elementos; destes formaram-se cinco Árvores, e das Árvores surgiram cinco espécies de criaturas, machos e fêmeas, cada um dos cinco mundos tendo seus próprios reis, espíritos, corpos e gostos.
    • O Rei do mundo da Fumaça, que saiu da profundeza da Obscuridade, é o chefe de todo o Mal e perversidade, sendo o princípio da guerra, das batalhas, querelas, perigos, ruínas e combates, tendo sido ele que, no começo, suscitou os perigos e a guerra contra a Luz.
    • O Rei do mundo do Fogo tem figura de leão (o primeiro de todos os feras), corpo de bronze e o gosto azedo que está em toda forma; seu espírito domina os Superiores e os Chefes, estando presente nas falsas religiões que veneram o fogo e lhe oferecem sacrifício.
    • O Rei do mundo do Vento tem figura de águia, corpo de ferro e o gosto acre que está em toda forma; seu espírito é o da idolatria dos Espíritos do Erro que habitam todo templo, moradas de ídolos, lugares de culto, estátuas, imagens e santuários do Erro do mundo.
    • O Rei do mundo da Água tem figura de peixe, corpo de prata e o gosto da doçura ou fadez da água, que está em toda forma; seu espírito reina nas seitas do Erro que batizam com as águas e colocam no batismo de água a sua esperança e fé.
    • O Rei do mundo das Trevas é uma serpente ou dragão, tem corpo de chumbo e estanho e o gosto de amargura; seu espírito é o que fala nos videntes, adivinhos de todo tipo, possessos e em todos os outros espíritos que proferem oráculos, de qualquer sorte que sejam.
    • O texto exorta os “irmãos, membros, Crentes perfeitos e santos Eleitos” a se afastarem das cinco servidões dos cinco espíritos tenebrosos, a abandonarem o serviço dos seus cinco corpos e a não andarem segundo os seus caminhos para escapar das cadeias e do castigo eterno.

A COMPARAÇÃO COM O LIVRO MANDEU (GINZA)

  • Um texto do Ginza ou “Tesouro” dos mandeus, gnósticos batistas da Baixa-Babilônia, apresenta muitas semelhanças com os Képhalaiïa, sugerindo uma dependência do texto mandeu em relação às descrições maniqueístas do Príncipe das Trevas.
    • O Ginza de Direita (XII, 6) descreve a Terra das Trevas como tendo forma totalmente diferente da Terra da Luz, localizada abaixo e ao sul, sendo uma morada extensa e infinita com uma água negra e uma obscuridade opaca.
    • O Rei das Trevas foi formado e surgiu da água negra por sua própria natureza má, tornando-se grande, forte e poderoso, e evocou milhares e miríades de espécies horríveis de demônios, dêws, gênios, espíritos, liliths, falsos deuses, arcontes, vampiros, sátiros e satanás.
    • Este Rei das Trevas tem a cabeça de leão, o corpo de serpente, as asas de águia, os flancos de tartaruga e as mãos e pés de demônio, podendo andar, rastejar, deslizar, marchar, rugir, sibilar, piscar os olhos e emitir sons flautados.
    • O autor mandeu compilou e reproduziu literalmente certos traços, mas os integrou de maneira desajeitada e por vezes incompreensível, transferindo para a massa dos demônios características que nos textos maniqueístas pertenciam ao Rei, ou vice-versa.
    • A confusão do texto mandeu contrasta fortemente com a rigidez sistemática e escolástica do modelo maniqueísta, que é todo construído sobre distinções, simetrias, correspondências formais e divisões em seções sucessivas e mecanicamente ordenadas.

A COMPOSIÇÃO INTERNA DOS TEXTOS MANIQUEÍSTAS

  • O Képhalaiion VI parece ter sido alvo de uma interpolação, onde o redator inseriu a versão original do Képhalaión XXVII (ou um texto análogo) dentro da seção dedicada ao Rei da Fumaça, rompendo a ordenança e o equilíbrio original do capítulo.
    • O paralelismo entre os dois textos maniqueístas é evidente, mas o leitor fica com a impressão de confusão ou incoerência devido à inserção de um desenvolvimento tão extenso e pouco natural no contexto do Rei da Fumaça.
    • O desenvolvimento sobre o Príncipe das Trevas no Képhalaiion VI aparece como uma peça importada e mal encaixada, pois a extensão dada a ele parece desproporcional em relação às notícias sobre os outros reis.
    • A adição do retrato do Príncipe das Trevas rompeu a ordenança e o equilíbrio do sexto capítulo, cuja composição original era muito simples e mecânica, baseada em simetrias e antíteses formais entre os cinco mundos e os seus reis.

O PROBLEMA DA IDENTIDADE DO PRÍNCIPE DAS TREVAS

  • O Príncipe das Trevas é ao mesmo tempo o Rei do mundo da Fumaça (chefe dos bipedes) e o soberano universal de todos os cinco reinos da Obscuridade, sendo uma síntese monstruosa que reúne todas as potências infernais em sua pessoa.
    • O Príncipe das Trevas não é nem um quinto arconte distinto, nem simplesmente idêntico ao Rei da Fumaça; ele é, ao mesmo tempo, uma figura autônoma que transcende os elementos que rege e uma parte imanente a esses mesmos elementos, como a cabeça em relação ao corpo.
    • A ambiguidade é refletida na composição anômala do Képhalaiion VI, onde o compilador hesitou entre identificar ou distinguir as duas figuras, recorrendo a uma solução bastarda que trai o seu embaraço.
    • O Príncipe das Trevas pode ser entendido como o produto coletivo da Terra da Obscuridade, saído dos cinco elementos e dos cinco reinos, sendo uma síntese de todas as potências do mundo infernal que ele engloba sob um mesmo poder.
    • Assim como Deus (o Pai da Grandeza) é ao mesmo tempo distinguido da Terra Luminosa e confundido com a totalidade dessa terra, o Príncipe das Trevas oscila entre uma posição transcendente e uma posição interior ao mundo que comanda.

PRÍNCIPE DAS TREVAS E A MATÉRIA: PRODUTO OU PERSONIFICAÇÃO?

  • Uma segunda ambiguidade fundamental envolve a relação do Príncipe das Trevas com a Matéria, pois ele é ora considerado seu produto (o filho gerado pela Obscuridade), ora é identificado com ela própria como a personificação do Princípio absoluto do Mal.
    • Ora o Príncipe das Trevas é tido como produto da Matéria ou da Obscuridade, sendo engendrado por “a Noite, mãe dos Arcontes”, que o impele a engajar a guerra contra os éons da Grandeza.
    • Em outras versões, ele aparece como equivalente à própria Matéria, substituindo-a sob o nome de Diabo como Princípio absoluto oposto a Deus, sendo o “Dragão com face de leão” cuja mãe é a Matéria.
    • Alguns testemunhos afirmam o caráter incriado e eterno do Demônio, enquanto outros negam expressamente que Satanás tenha existido em si desde sempre, atribuindo a eternidade apenas aos elementos dos quais ele saiu.
    • Essa contradição se deve à coexistência de dois planos de expressão: no plano conceitual, o Príncipe das Trevas é a própria Matéria; no plano mítico, a Matéria torna-se uma grande Demona (o Desejo ou a Concupiscência encarnados) cuja personalidade tende a se distinguir da do Príncipe, seu filho e também seu amante.

AS ADAPTAÇÕES DO PRÍNCIPE DAS TREVAS A DIFERENTES CULTURAS

  • O Príncipe das Trevas foi identificado com diferentes entidades malignas nos diversos países onde o maniqueísmo se difundiu, sendo assimilado ao Diabo no Ocidente cristão, a Satanás ou ao Demônio Primordial no mundo muçulmano, a Ahriman no Oriente mazdeísta, e a t’an-mo (“demônio da convoitice”) na China.
    • No Ocidente cristão e nas exposições mais populares do sistema, ele foi identificado ao Diabo, como sugere Santo Agostinho.
    • No mundo muçulmano, as fontes árabes o identificam a Satanás ou ao Demônio Primordial (Iblis al Qadîm).
    • No Oriente mazdeísta, ele foi identificado a Ahriman, mas os documentos iranianos e velho-turcos também personificam a Matéria em Az (a Conqupiscência), dividindo frequentemente o personagem em dois demônios: o Desejo (masculino) e a Concupiscência (feminino).
    • Todas essas correspondências são confusas e inadequadas devido à heterogeneidade dos vocabulários e sistemas religiosos, sendo a indescção fundamental sobre a figura do Príncipe que dificulta ainda mais essas adaptações.

A PROMOÇÃO E A INFERIORIDADE DO PRÍNCIPE DAS TREVAS

  • O Príncipe das Trevas atinge um grau extremo de promoção no dualismo maniqueísta por ser um princípio incriado, o que o torna em teoria equivalente a Deus, mas ele permanece qualitativamente inferior por sua natureza intrinsecamente má, estúpida e ligada ao desejo irracional.
    • O maniqueísmo é um dualismo radical que recusa fazer o Mal derivar de uma substância boa ou de um lugar transcendente, ao contrário de outras gnoses onde o Demônio é uma hipóstase degradada ou o fruto de uma entidade decaída.
    • Apesar de possuir a propriedade essencial de ser incriado e uma onipotência teoricamente equivalente à do Bem, o Príncipe não é “divinizado”, e os maniqueístas recusam-lhe o título de Deus, reservando-o exclusivamente ao que é bom e benfazejo.
    • A diferença entre os dois princípios é tão grande como a diferença entre um rei e um porco: o Bem vive num palácio real, enquanto o Mal, como um porco, revolve-se na lama e deleita-se com a podridão, ou como uma serpente, está enroscado no seu covil.
    • O Reino do Mal é um local de guerra intestina e permanente, onde todos os membros estão levantados uns contra os outros: súditos contra súditos, Arcontes contra Arcontes, vassalos contra o monarca, em um movimento de autodestruição contínua.

O DESEJO, A CONCUPISCÊNCIA E A ORIGEM DA HUMANIDADE

  • O desejo e a concupiscência são as manifestações essenciais do Mal no maniqueísmo, e a origem da espécie humana é atribuída a uma série de atos de canibalismo e sexualidade entre os demônios, que refletem a estupidez do próprio desejo.
    • Entre fornicar (todo ato sexual) e comer carne animal, a imaginação e a ética maniqueístas sempre suspeitaram de estreitas afinidades, vendo em ambas manifestações de bestialidade abomináveis e voltadas para a satisfação carnal.
    • O mito narra que os “Avortons” (progênie diabólica) caíram à terra, uniram-se entre si e deram origem ao reino animal; depois, dois demônios maiores (um macho e uma fêmea) devoraram os filhos dos Avortons para assimilar toda a sua substância, acasalaram-se e geraram a primeira dupla de humanos, Adão e Eva.
    • Os humanos descendem de Adão e Eva e, por meio deles, dos Demônios, carregando dois estigmas indeléveis do Mal: a forma exterior do corpo (ou de sua parte inferior) e a concupiscência inerente à carne, ao “eu obscuro”.
    • A perpetuação da raça humana é um processo diabólico sem meta nem termo, pelo qual o pecado nasce do pecado e a humanidade prolonga o seu cativeiro, “transvasando” as partículas de Luz de um corpo a outro e forjando novos grilhões e uma nova prisão.

A ESTUPIDEZ ESSENCIAL E A LIMITAÇÃO DO PRÍNCIPE

  • A característica mais fundamental e curiosa do Príncipe das Trevas é a sua estupidez, pois sua capacidade de conhecimento limita-se ao presente imediato, sendo incapaz de apreender o princípio e o fim das coisas e de captar a continuidade do pensamento.
    • Ele não conhece e não percebe nada além do que está presente diante de seus olhos, não vendo o que está longe, mas somente o que está diante de sua face, ouvindo e sabendo apenas isso.
    • O Príncipe conhece os propósitos e a linguagem dos seus cinco mundos e os signos que eles trocam, mas não compreende o que está longe dele e não percebe o segredo do coração de seus súditos, ignorando o princípio e o fim das suas ruminações.
    • Sua inteligência é tão estreita quanto o campo de sua visão: ela não possui dom de penetração, apreendendo apenas a superfície material das coisas e dos seres, sendo sensível apenas às aparências e aos signos exteriores.
    • Incapaz de seguir e explicar o encadeamento orgânico de eventos sucessivos ou o desenrolar contínuo de um pensamento, ele acede e reage apenas ao instantâneo, sendo ocupado e absorvido inteiramente por um puro presente.

CONCLUSÃO: O PRÍNCIPE COMO TRADUÇÃO MÍTICA DO DESEJO E DA MATÉRIA

  • O Príncipe das Trevas é a tradução mítica da Matéria e do Desejo, representando uma realidade física e psicológica caracterizada por um movimento desordenado e furioso, infinito, irracional e sem causa ou propósito, que encarna a condição carnal do homem abandonada a si mesma.
    • Matéria e Desejo são o fundo da realidade do Mal, sendo ambos experimentados como um movimento desordenado e furioso, infinito e irracional, sem começo, achamento, causa, finalidade ou razão alguma.
    • O Mal é “estúpido” porque é pura contingência, a essência de tudo o que, como o caos ou o instinto bruto, aparece, desaparece e reaparece no instante, de maneira absurda e perpétua.
    • O Satanás maniqueísta encarna a condição carnal do homem reduzida a si mesma, a existência no tempo em seu aspecto mais despojado, a “vida” insensata, ilusória e contraditória que, sem o recurso à paz do Espírito, é apenas perda, destruição, pecado, inferno, morte e uma noite desesperada.
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