MÃE
Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
1. “A Mãe” como um Nome do Espírito Santo
A figura da Mãe no gnosticismo representa o Espírito Santo, sendo uma concepção que não era desconhecida no cristianismo primitivo, explicada pelo fato de a palavra “espírito” (ruah) ser feminina em hebraico.
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Segundo Irineu, Simão e Menandro atribuem um papel importante na criação do mundo a uma entidade espiritual eterna chamada “Pensamento” (Ennoia), que é a Mãe de todos os seres e representa o Espírito Santo.
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Pensar no Espírito Santo como um ser feminino pode parecer uma fantasia alheia ao cristianismo, mas encontra-se no antigo evangelho judaico-cristão dos Hebreus, onde Cristo diz: “Minha Mãe, o Espírito Santo”.
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Teófilo de Antioquia e Irineu não chamam a terceira pessoa da Trindade de Espírito, mas de Sabedoria (Sophia), um nome que sugere uma entidade feminina, e Afraates, no século IV, diz que o homem tem Deus como Pai e o Espírito Santo como Mãe.
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Em vez de traduzir ruah por Ennoia, pode-se também, para preservar o caráter feminino do Espírito em hebraico, assimilá-lo à Sabedoria, como fizeram Teófilo de Antioquia e Irineu.
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A Sabedoria, que na especulação judaica tardia se tornou uma espécie de hipóstase, uma entidade que procede de Deus, era considerada a parceira com quem Deus contou quando criou o universo (Provérbios 8,22-30).
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No gnosticismo propriamente dito, onde o ato da criação é desvalorizado, esse ato não pôde mais ser atribuído ao Espírito Santo, razão pela qual a figura da Mãe aparece duplicada em duas figuras.
2. A “Mãe” Cativa dos Anjos
O mito atribuído a Simão, segundo o qual a Ennoia, após dar à luz os anjos que fizeram o mundo, foi por eles mantida cativa e sofreu ultrajes, pode ser compreendido com base em certos pensamentos de Paulo e João.
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Para Simão, a Ennoia era simultaneamente Sabedoria, e no Antigo Testamento esta é a trabalhadora através da qual Deus criou todas as coisas, uma ideia judaica pré-cristã que não é gnóstica nem mitológica.
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Na Epístola aos Romanos (8,19-24), Paulo escreve que toda a criação geme e anseia pela libertação, e que o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis, sugerindo que o Espírito divino sofre no mundo que ele mesmo criou.
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Paulo também entretém a hipótese de que os cristãos podem ser separados do amor de Deus pelos poderes, mencionando os anjos, e embora refute essa hipótese, pensa que de certa forma os cristãos estão separados de Deus, como se algo os mantivesse cativos.
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No Evangelho de João, o Verbo é perseguido pelo mundo que ele criou (“O mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu”), e a Sabedoria do Antigo Testamento é às vezes interpretada pelos cristãos como sendo o Espírito, às vezes como sendo o Verbo.
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Para os gnósticos, como muitas vezes para o cristianismo comum, o Espírito é ao mesmo tempo a Igreja, que pode ser perseguida pelo mundo que ela criou como Espírito, como se vê na mulher do Apocalipse (capítulo 12) que foge para o deserto perseguida pelo dragão.
3. “Helena”
A figura de Helena, que segundo Justino acompanhava Simão Mago e teria sido anteriormente uma prostituta, sendo considerada a “primeira Ennoia” (Pensamento) gerada por Simão, pode ser explicada como uma representação coletiva dos helenistas ou como a mulher siro-fenícia do Evangelho.
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Justino afirma que Simão era “o primeiro Deus” para os simonianos, e sua Ennoia seria de certa forma o Espírito Santo, sendo que Epifânio declara explicitamente que para Simão ela era “o Espírito Santo”.
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Celso diz que os simonianos também eram chamados de helenianos “porque veneram Helena ou um mestre chamado Helenos”, e o nome Heleniano é quase idêntico a Helenista, sendo natural que cristãos na Samaria convertidos pelos helenistas se chamassem helenianos.
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O cardeal Daniélou propôs que o nome Helenianos estaria relacionado aos helenistas de Atos, cristãos que formavam um grupo distinto dos apóstolos em Jerusalém e que se tornaram os primeiros missionários na Samaria.
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O relato evangélico em que Cristo opera um milagre em favor de uma mulher de Tiro, que Marcos diz ser helenis (isto é, pagã), pode ter exercido influência sobre a escola simoniana, tornando-se um símbolo da humanidade pagã iluminada e redimida pelo Salvador.
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A mulher de Tiro, que era inicialmente idólatra (e portanto prostituta, na linguagem do Antigo Testamento), mas que em virtude de sua fé encontrou favor aos olhos do Senhor, poderia ter se tornado um símbolo do pagão salvo pela fé, identificada com a comunidade e também com o Espírito Santo.
4. Sofia (Sophia)
O mito de Sofia, conhecido principalmente através dos heresiólogos como uma doutrina esotérica de Valentino ou dos valentinianos, descreve a queda do último éon por desejar compreender Deus diretamente, dando origem ao Demiurgo.
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Sofia é um dos éons (seres eternos que emanaram de Deus), sendo a mais afastada do centro divino, e, movida por uma força de amor sem medida, desejou compreender Deus diretamente e precipitou-se em sua direção, tornando-se culpada.
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Ela foi detida pelo Limite (Horos), que a impediu de ser dissolvida em Deus, e em algumas versões do mito ela caiu ou foi separada do Pleroma divino (plenitude) por ter se tornado imperfeita.
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Ao desejar compreender diretamente a grandeza de Deus, Sofia deu à luz um ser que é uma imagem imperfeita de Deus: o Demiurgo, o artífice do mundo sensível.
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A Sofia valentiniana não pode ser diretamente derivada da Sabedoria do Antigo Testamento, pois ali sua atividade é absolutamente conforme aos desígnios de Deus, enquanto aqui é por uma falta que ela desencadeia o processo que leva à criação.
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É possível que Sofia represente a sabedoria judaica, sendo natural que para um gnóstico a sabedoria judaica fosse algo insuficiente e tivesse cometido um erro fundamental, tornando-se a Mãe do Demiurgo, já que foi no judaísmo que apareceu o nome e a concepção de Javé.
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Valentino é muito menos antijudaico do que Saturnilo ou Basilides, e como seu discípulo Ptolomeu na Epístola a Flora, provavelmente desejava distinguir as diferentes partes do Antigo Testamento, que não é um livro, mas todo um corpo de literatura.
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No Tratado Tripartite, vê-se que Deus não apenas permitiu, mas desejou o aparecimento do mundo, porque era necessário para um plano (“economia”) que deveria ser realizado.
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Sofia talvez seja a alma humana, ou a sabedoria natural do homem, que por causa de sua distância do centro cometeu uma transgressão e caiu da perfeição, retendo apenas uma memória do que vira no mundo eterno.
5. “Barbelo”
Em algumas seitas gnósticas com vínculos com o valentinianismo, a Mãe suprema é chamada pelo nome misterioso de Barbelo, que provavelmente significa “Filho do Senhor” ou “Filho de seu marido”.
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O nome Barbelo aparece em diferentes formas (Barbelo, Barbélon, Barbélos, Barbéloth, Barbéro) e até agora raramente foi explicado satisfatoriamente.
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As variantes do nome, como Abrbeloth, Barbarioth, Barbar Adonai, Brabel, Abraiaoth, Abraal, Abriel, mostram que o segundo elemento do nome (bel) só pode ser um dos nomes dados a Deus, pois pode ser substituído por Adonai, El ou Iao.
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Embora pareça estranho que um nome masculino tenha sido dado a uma entidade feminina, as doutrinas onde esse nome aparece são muito estranhas, complicadas, intencionalmente misteriosas e paradoxais.
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No Apócrifo de João, declara-se que Barbelo é a primeira Ennoia e que ela se tornou o Primeiro Homem (designação masculina), sendo também caracterizada como “três vezes masculina” e como o éon “masculino-feminino”.
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O valentiniano Ptolomeu também fala de Sofia como masculina, e o texto de Nag Hammadi intitulado O Trovão é inteiramente composto de paradoxos concernentes ao Espírito, incluindo as palavras: “É meu marido quem me gerou”.
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Barbelo, que é o Espírito concebido como feminino segundo uma ideia cristã muito antiga, poderia muito bem ter sido chamada de “Filho de Deus”, “Filho do Senhor” ou “Filho de seu marido”.
Apêndice: Investigações e Observações Adicionais
As hipóteses de Quispel para explicar a doutrina gnóstica da Mãe por meio de ideias judaicas não explicam o que é distintamente gnóstico nesse mito, como a revolta dos anjos contra Sofia e sua opressão.
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Embora haja elementos judaicos na doutrina (a ideia do Espírito Santo, sua representação como entidade feminina, seu vínculo com a criação), o Espírito e a Sabedoria não são cativos do mundo nem dos anjos no judaísmo.
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Os textos gregos aos quais Quispel apela, como a Epinomis de Platão, tampouco podem explicar o mito, pois o vínculo entre a Alma do mundo e os planetas não aparece claramente nesse texto.
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A oitava esfera (Ogdóada) como morada da Mãe quando ela está fora do Pleroma pode ser explicada por várias razões: representa ter transcendido a região e a religião da Hebdomada sem ainda se encontrar no reino do Deus verdadeiro.
As investigações de Wilckens sobre os textos da Sabedoria no judaísmo e nos gnósticos mostram que os textos judaicos, mesmo quando implicam uma concepção mitológica, não implicam uma concepção gnóstica.
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A ideia de Sabedoria em Filon e no Livro da Sabedoria é suficientemente explicada pela concepção do Antigo Testamento juntamente com a influência de Platão, não implicando um gnosticismo pré-cristão que teria penetrado progressivamente no judaísmo.
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Nas epístolas aos Coríntios, não é evidente que os coríntios tenham identificado a Sabedoria com o Salvador, sendo muito mais o caso que Paulo parece identificar a Sabedoria de Deus com o Salvador (1 Coríntios 1,24.30; 2,7-8).
O nome Prounikos dado a alguns gnósticos a Sofia não significa necessariamente lascívia ou libertinagem, como interpretou Epifânio, podendo antes indicar a capacidade de gerar ou de dar à luz.
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Epifânio afirma que prounikos indica a busca de uma vida de prazer, indolência, libertinagem, indecência e corrupção, mas essa interpretação não parece concordar com o que é dito sobre Sofia nos textos gnósticos originais.
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O nome Prounikos é formado por pro (“antes” ou “na frente”) e uma palavra relacionada ao verbo phero (“carregar”), podendo evocar o significado de “carregar na frente”, isto é, promover, trazer, revelar, trazer à luz.
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No Apócrifo de João, o texto pode ser entendido como: “Por causa do prounikon, que estava nela [= em Sofia], seu pensamento não pôde ser improdutivo e sua obra apareceu”, indicando a capacidade de gerar, a fecundidade.
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No Segundo Tratado do Grande Sete (50,25-28), Cristo diz: “Aqueles que estavam no mundo haviam sido preparados pela vontade de nossa irmã Sofia — ela que é uma prostituta”, sendo a palavra “prostituta” a tradução de prounikos, mas o termo aparece de forma abrupta e não é explicado pelo que segue no texto.
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Celso disse que os cristãos (que Orígenes considerava valentinianos) falavam de “uma certa virgem Prounikos”, e o nome “virgem” dificilmente seria adequado para uma prostituta.
