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APOLLOS

Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.

"Gnósticos" em Corinto

Oponentes de Paulo nas Epístolas aos Coríntios

As epístolas aos Coríntios são consideradas os únicos escritos autênticos de Paulo em que ele se opõe a uma atitude que poderia levar ao gnosticismo, ao passo que as epístolas pastorais, embora combatam doutrinas que tendem ao gnosticismo, não são autênticas e foram revisadas após a morte de Paulo.

  • Paulo normalmente luta contra a observância da lei e contra o judaísmo cristão, ou seja, contra o que se poderia chamar de ala direita e conservadora do cristianismo, mas nas epístolas aos Coríntios ele parece descobrir um novo oponente na sua esquerda e a necessidade de lutar em uma segunda frente.
  • Alguns cristãos coríntios parecem querer exagerar a liberdade que o próprio Paulo lhes havia pregado, chegando a pensar que tudo é permitido, como se lê em 1 Coríntios 6:12 e 10:23.
  • Longe de serem tentados a cumprir todas as prescrições da lei judaica, esses coríntios nem sempre obedeciam à moral, e as perguntas que fazem sobre o casamento revelam tendências ao ascetismo, manifestando assim a dupla tendência gnóstica para o ascetismo e para a libertinagem.
  • A espécie de segurança que Paulo acredita detectar entre eles é semelhante à atitude orgulhosa com que os gnósticos seriam mais tarde reprovados, pois os coríntios pensam ter chegado ao objetivo supremo, julgam-se já sábios e reis, orgulham-se de ter conhecimento e de ter o espírito.
  • Paulo menciona que eles julgam outros cristãos, entregam-se a manifestações carismáticas como falar em línguas, são indulgentes com o modo de vida pagão e com os cultos pagãos, e chegam a dizer que não há ressurreição dos mortos.
  • Na segunda epístola, os elogios que Paulo lhes dirige parecem irônicos e demonstram que ele os julga demasiado seguros de si, advertindo-os novamente contra a frouxidão de costumes e contra a idolatria.
  • Paulo usa frequentemente a palavra conhecimento porque ela estava em voga na igreja coríntia, e ele próprio admite que influências outras que não a sua podem ter sido exercidas em Corinto, uma vez que a igreja era composta de grupos e o de Paulo era apenas um deles.
  • Paulo relata que lhe foi dito que há divisões entre os coríntios, com alguns dizendo Eu sou de Paulo, outros Eu sou de Apollos, outros Eu sou de Cefas e outros Eu sou de Cristo, sendo possível que um desses grupos seja responsável pela atitude gnóstica dos coríntios.

Sobre a parte de Cristo não se sabe nada, nem mesmo se era um partido, e a parte de Pedro dificilmente poderia ter provocado dúvidas sobre a ressurreição, restando Apollos como a figura mais provável para explicar a oposição a Paulo.

  • A afirmação Eu pertenço a Cristo pode significar apenas que alguém não quer tomar partido e se contenta com a fé comum a todas as tendências, enquanto a existência de um partido de Pedro é possível, mas sua influência dificilmente teria se exercido na direção de uma liberdade excessiva.
  • As dúvidas sobre a ressurreição, embora naturais em um país grego, não são necessariamente atribuíveis a um pregador cristão e não parecem muito compatíveis com a confiança que se tinha em Pedro.
  • Apollos está em terreno mais firme porque se sabe que ele permaneceu em Corinto, onde foi muito útil para a comunidade cristã ao polemizar contra os judeus, e porque grande parte da Primeira Epístola aos Coríntios parece ser dirigida especificamente contra ele e seus admiradores.
  • Embora Apollos seja geralmente considerado um discípulo de Paulo, a impressão que se tem é bem diferente, pois as indicações existentes mostram que na realidade havia apenas duas partes que contavam mais para Paulo, a sua e a de Apollos.
  • Paulo menciona somente Paulo e Apollos em 1 Coríntios 3:4 e 4:6, o que sugere que esses dois lados eram os principais ou que a rivalidade de Apollos foi a que mais feriu o apóstolo.
  • Paulo teme que Apollos tenha entrado em um terreno que era seu e o tenha suplantado, e por isso envia Timóteo para lembrar os coríntios dos seus caminhos, como está escrito em 1 Coríntios 4:17.
  • Toda a primeira parte da Primeira Epístola aos Coríntios diz respeito a Apollos e seus partidários, especialmente quando Paulo declara que não é hábil na palavra e que sua linguagem é inspirada pelo espírito, em contraste com a eloquência de Apollos descrita por Lucas.
  • Paulo aplica tudo o que diz a si mesmo e a Apollos para benefício dos coríntios, como ele mesmo afirma em 1 Coríntios 4:6, e a sabedoria que ele critica é especificamente a sabedoria eloquente, ou seja, a ciência de falar.
  • Paulo diz que não veio pregar com palavras elevadas ou sabedoria, que sua mensagem não está em palavras plausíveis de sabedoria, e que o reino de Deus não consiste em palavra, mas em poder, defendendo-se assim daqueles que preferiam alguém mais eloquente do que ele.
  • Apollos era logios, o que significa principalmente eloquente, e por isso Paulo se defende contra os que admiram a sabedoria eloquente ou o discurso persuasivo, ou seja, contra os partidários de Apollos.
  • Paulo fala violentamente sobre aquele que constrói sobre o fundamento que ele lançou, afirmando em 1 Coríntios 3:10-17 que se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá, e que a obra de cada um será testada pelo fogo.
  • A pessoa que constrói sobre o fundamento lançado por Paulo é Apollos, e não os seus admiradores, pois as passagens são a continuação das que dizem Eu plantei, Apollos regou, mas Deus deu o crescimento.
  • No final da epístola, em 1 Coríntios 16:12, Paulo notifica secamente os coríntios que Apollos não queria visitá-los naquele momento, e pelo tom curto e imperioso se percebe que Paulo não se aborrece com a recusa e responde friamente a um pedido que o feriu.
  • Paulo não se esforça para dar uma justificativa precisa ou uma razão importante para a recusa de Apollos, e na Segunda Epístola aos Coríntios ele não nomeia Apollos entre aqueles que declararam o Filho de Deus, manifestando assim pouca simpatia por ele.

Geralmente se sustenta que os oponentes na Segunda Epístola aos Coríntios não são os mesmos da Primeira, tratando-se agora de judeus cristãos, mas esses judeus cristãos não podem ser os do sentido comum porque Paulo não se opõe à observância da lei.

  • Paulo adverte os coríntios contra a idolatria, ou seja, contra aquilo que era mais severamente condenado pelos judeus e pelos judeus cristãos, o que tem gerado esforços renovados entre os exegetas para entender quem seriam esses oponentes.
  • Wendland declara honestamente que não chegou a uma solução satisfatória e percebe que os oponentes não são judeus cristãos como os combatidos na Epístola aos Gálatas, embora tenham traços que os ligam aos gnósticos da primeira epístola.
  • Wendland conclui que se trata de um terceiro tipo de oponente, ou seja, missionários cristãos de origem judaica que davam grande importância aos dons pneumáticos e à arte de falar, sem perceber que esse retrato concorda perfeitamente com o que se pode fazer de Apollos ou de seus admiradores.
  • Apollos é judeu, mas não parece ter sido judaico-cristão no sentido normal, pois não há evidência de que os coríntios fossem tentados a obedecer rigorosamente a toda a lei depois da sua visita.
  • Apollos estava cheio de dons pneumáticos, pois Lucas o descreve como fervoroso de espírito, e os coríntios que o ouviram pregavam tinham grande entusiasmo pelos seus dons, ao passo que Paulo se viu obrigado a afirmar que também tinha o espírito de Deus.
  • Ao contrário do que pensam Wendland e muitos outros comentaristas, os oponentes de Paulo na Segunda Epístola aos Coríntios são os mesmos da Primeira, porque a situação não era fundamentalmente diferente, apenas mais grave.
  • Já na Primeira Epístola fica claro que Paulo foi reprovado pela sua falta de eloquência e pela sua falta de dons pneumáticos, e alguns já questionavam a sua autoridade apostólica, como se vê em 1 Coríntios 9:1.
  • Paulo já sentia que era julgado, como ele escreve em 1 Coríntios 4:4-5, e que sua maneira de falar era desprezada, enquanto sua presença corporal era fraca, conforme ele diz em 2 Coríntios 10:10.
  • Paulo afirma que não foi pesado para os coríntios e que perdoou a ofensa feita por alguém, como se lê em 2 Coríntios 12:13-18 e 2 Coríntios 2:5-11, e que não pediu nada à comunidade durante a sua estadia em Corinto.
  • O caráter que Paulo atribui aos seus oponentes não é diferente daquele que Lucas dá a Apollos, pois Paulo pensa neles como pessoas que põem ares e são quase tolos, dizendo em 2 Coríntios 11:19-20 que os coríntios suportam bem os tolos.
  • Esses oponentes eram hebreus, israelitas, da raça de Abraão, e Paulo também se declara hebreu, o que mostra que um judeu nascido na diáspora podia ser chamado de hebreu, caso da família de Paulo e possivelmente de Apollos.
  • Apollos, sendo um judeu alexandrino, podia reunir em si os traços do helenismo e do judaísmo que parecem tão difíceis de conciliar nos oponentes de Paulo na Segunda Epístola aos Coríntios.
  • Embora Paulo fale de seus oponentes no plural, ele também usa o singular, como em 2 Coríntios 11:4 e 11:20, e é provável que Apollos não viajasse sozinho, tendo um ou mais companheiros.
  • Paulo pode ser violento, como se vê em Filipenses 3:2, e se ele fala de cristãos como falsos apóstolos e enganadores que se disfarçam de apóstolos de Cristo, não há razão para excluir Apollos desse tratamento, concluindo-se apenas que a situação em Corinto se tornou muito mais grave aos seus olhos.

Sobre a composição da segunda epístola aos Coríntios

Frequentemente se supõe que a Segunda Epístola aos Coríntios é feita de textos extraídos de várias cartas separadas, sendo a passagem 6:14–7:1 atribuída à carta precanônica mencionada em 1 Coríntios 5:9-13.

  • A passagem 6:14–7:1 poderia ser deslocada porque 7:2 se liga bem a 6:13, mas Paulo, como todos, às vezes retoma uma ideia anterior depois de ter divagado um momento, e não há nada de excepcional nisso.
  • O que Paulo diz em 6:14–7:1 não corresponde exatamente ao que ele disse na carta precanônica, pois ali ele aconselhava os cristãos a se separarem dos corruptos que diziam ser cristãos, enquanto aqui ele os aconselha a evitar pagãos e incrédulos.
  • O vocabulário especial dessa passagem, que lembra o de Qumran, poderia ter sido usado por Paulo tanto na Segunda Epístola quanto na carta precanônica, não sendo absolutamente necessário pôr 6:14–7:1 de lado.
  • Quanto aos capítulos 10 a 13, a ideia de que são extraídos de outra carta anterior parece muito mais bem fundamentada, devido ao início abrupto do capítulo 10, ao tom diferente dos capítulos 1 a 9 e à violenta irritação de toda essa seção.
  • Os capítulos sobre a coleta, 8 e 9, estariam melhor colocados no final da carta do que no meio, o que justifica quem vê em 10 a 13 outra carta escrita em circunstâncias diferentes.
  • O tom desses capítulos, a violência de Paulo, a ameaça de falar asperamente se ele for novamente a Corinto e a agitação de espírito em que ele se encontra correspondem bem ao que ele diz sobre a carta severa que deve ter entristecido os coríntios.
  • Certas passagens dos capítulos 1 a 9 aludem quase certamente aos capítulos 10 a 13 como uma carta anterior, pois em 3:1 e 5:12-13 Paulo recorda que se elogiou e que agiu como tolo.
  • Nos capítulos 11 e 12 há uma longa passagem em que Paulo expõe seus méritos e se desculpa por fazê-lo, dizendo que fala como tolo, como se lê em 2 Coríntios 11:1 e 11:16-21, e que foi forçado pelos coríntios a agir assim.
  • É quase certo que 2 Coríntios 3:1 e 5:12-13 são posteriores aos capítulos 10 a 13, pois a alusão ao autoelogio e à loucura juntos só pode ser uma alusão aos capítulos 11 e 12, onde as duas coisas também aparecem juntas.
  • A hipótese de que os quatro capítulos são a carta de lágrimas é a mais simples e a mais provável, pois não implica uma reposição da digressão de 2:14 a 7:4, sendo sempre melhor deixar o texto onde ele está quando isso é possível sem absurdo.
  • Embora o vínculo da digressão com o que a precede seja fraco, o vínculo do final da digressão com o que a segue é forte, pois no início de 7:5 há um kai gar que seria difícil de explicar se a digressão fosse omitida.
  • É mais natural supor que a tempestade que irrompe nos capítulos 10 a 13 precedeu a carta de reconciliação contida nos primeiros nove capítulos, evitando-se assim supor eventos dos quais não há prova definitiva.

Sobre algumas interpretações recentes

É difícil convencer alguém de que Paulo teria tratado Apollos, um cristão cujos méritos Lucas reconhece, como falso apóstolo e servo de Satanás, mas é preciso reconhecer que houve desacordos sérios na igreja primitiva.

  • Lucas parece querer silenciar ou amenizar tudo o que pudesse dar a impressão de desacordos sérios na igreja, mas as epístolas de Paulo mostram que havia tendências diversas e confrontos entre homens que representavam essas tendências.
  • Paulo se levanta com paixão contra homens a quem ele chama ironicamente de apóstolos superlativos e que pregam outro Jesus, outro espírito e outro evangelho, acusando-os depois de serem falsos apóstolos e ministros de Satanás.
  • A interpretação de Käsemann e Barrett, que distingue entre apóstolos superlativos e falsos apóstolos, sendo os primeiros os chefes da comunidade cristã de Jerusalém e os segundos os seus enviados, é muito difícil de sustentar.
  • Paulo explica a expressão apóstolos superlativos ao dizer em 2 Coríntios 11:6: mesmo que seja inábil no falar, não o é no conhecimento, mostrando que eles se destacavam pela arte de falar e não por serem autoridades reconhecidas.
  • A objeção de Käsemann de que Paulo não poderia dizer que não é inferior àqueles que ele descreve como servos de Satanás não é insuperável, pois Paulo pode pensar que não é inferior em certos aspectos e que é muito diferente em outros.
  • As obras de Georgi e Friedrich são indispensáveis para o estudo do problema, mas seus autores pararam no limiar da verdadeira solução, pois não refletem suficientemente que pode se tratar de um único cristão do judaísmo alexandrino que foi a Corinto.
  • Georgi e Friedrich acreditam que Paulo ataca um mito gnóstico do salvador em 1 Coríntios, mas esse mito não aparece nem em 1 Coríntios nem em 2 Coríntios, sendo antes Paulo quem sugere em 1 Coríntios 2:8 uma interpretação próxima do mito gnóstico.
  • Eles também pensam que os oponentes em 1 Coríntios eram docetistas, baseando-se na interpretação de Schmithals sobre 1 Coríntios 12:3, mas não se trata de gnósticos nem de docetistas no texto paulino em questão.
  • Paulo dá aos coríntios regras práticas sobre o assunto das graças e ensina um método para discernir por qual espírito são animados aqueles que se julgam inspirados, tomando um exemplo extremo para mostrar que é preciso levar em conta o conteúdo das palavras.
  • As ideias imprecisas sobre a Primeira Epístola aos Coríntios levam Georgi e Friedrich a supor que novos oponentes chegaram a Corinto entre a primeira e a segunda epístolas, mas essa ideia é inútil porque a situação apenas se tornou mais grave durante a visita intermediária de Paulo.
  • Não há traços suficientemente numerosos que obriguem a pensar em outra pessoa, pois as diferenças entre as duas epístolas estão mais na intensidade das reações de Paulo do que no quadro que se pode pintar dos seus inimigos.
  • Friedrich tem razão ao criticar a ideia de Georgi de que os oponentes reivindicavam ser homens divinos, embora os coríntios estivessem próximos de considerar o pregador principal como tal.
  • Friedrich também pode ter razão ao notar certos vínculos entre os oponentes de Paulo e os helenistas de Atos, pois os helenistas eram mais opostos ao culto do templo do que à lei, enquanto Paulo era mais oposto à lei do que ao culto do templo.
  • Kummel vê claramente que os oponentes provavelmente não têm nada a ver com os judaizantes da Epístola aos Gálatas, mas quer que eles sejam palestinos que se gabavam do seu conhecimento de Jesus terreno, interpretando a palavra hebreu de maneira muito restrita.
  • Barrett também supõe uma combinação de diferentes tendências e retorna à hipótese judaísta, não levando em conta todas as dificuldades que essa hipótese levanta, especialmente quanto às cartas de recomendação.
  • Apollos, que conhecia o cristianismo por meios outros que não os discípulos de Paulo, pode ter falado aos coríntios sobre o cristianismo de Pedro como um cristianismo um pouco diferente do de Paulo, sem que isso signifique que ele próprio fosse seguidor de Pedro.
  • Pesquisas recentes mostram que os traços gnósticos em 1 Coríntios não implicam as ideias básicas do gnosticismo propriamente dito, e que o conhecimento dos coríntios pode ter sido simplesmente um cristianismo influenciado pela teologia judaico-helenística de Fílon e do Livro da Sabedoria.
  • Horsley mostra que uma influência alexandrina estava em ação em Corinto, mas não a liga ao fato de que um cristão de origem judaica vindo de Alexandria pregou em Corinto, assim como Georgi e Friedrich não ligam os oponentes de 2 Coríntios a Apollos.
  • O obstáculo que impede essa hipótese é que Apollos é tradicionalmente considerado um discípulo de Paulo, embora nada nas cartas paulinas indique que Paulo o tenha considerado como tal, havendo antes sinais de que Paulo o considerava de maneira bem diferente.
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