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João Batista

Elaine H. Pagels. The Johannine Gospel in gnostic exegesis: Heracleon’s commentary on John. Nashville: Abingdon Press, 1973.

  • A INTERPRETAÇÃO DE HERACLEON SOBRE JOÃO BATISTA COMO SÍMBOLO DO DEMIURGO E OS TRÊS NÍVEIS DE PERCEPÇÃO
    • A interpretação de Heracleon sobre João Batista tem servido a seus comentadores, de Orígenes a Sagnard, como evidência para sua “teoria das naturezas”, tornando esta seção um lugar crucial para começar a investigação da soteriologia de Heracleon.
    • Orígenes indica que Heracleon interpretou João 1:7-8 (a afirmação de que João veio para “testemunhar a luz” e que ele mesmo “não era a luz”) como uma referência ao demiurgo, que é desprovido de “luz”, isto é, da “vida” pneumática que o salvador compartilha com os pneumáticos.
    • Heracleon afirma que o batista representa o demiurgo e infere que o demiurgo, que carece da “vida” pneumática, poderia apenas testemunhar de forma limitada a Cristo, reconhecendo que o salvador está “antes” de si mesmo (1.16) e que a lei dada “através de Moisés” (isto é, através do próprio demiurgo) foi superada pela “graça e verdade” que vieram “através de Cristo”.
    • Heracleon aplica hermeneuticamente o princípio metafísico dos três níveis ontológicos do ser, discernindo no evangelho três níveis distintos de exegese: eventos históricos visíveis percebidos através dos sentidos ocorrem no nível hílico; a interpretação ética desses eventos é percebida como o nível psíquico; e a verdadeira intuição (gnōsis) deles é percebida apenas no nível pneumático.
  • A INTERPRETAÇÃO SIMBÓLICA DA TOPOGRAFIA JOANINA E OS “LUGARES” (TOPOI) ESPIRITUAIS
    • Heracleon considera João Batista não primariamente como uma pessoa histórica, mas como um símbolo — neste caso, como um símbolo do demiurgo (CJ 3.69), e afirma que todos os “lugares” (topoi) mencionados representam diferentes “lugares” onde os homens se posicionam em relação à revelação em Cristo.
    • Cafarnaum, uma região baixa “perto do mar” (CJ 13.60), significa “aquelas extremidades do cosmos, as regiões hílicas” (CJ 10.11), enquanto Betânia, onde o batista trabalha, significa uma região mais alta, porém ainda intermediária, e Jerusalém, mais alta ainda, representa o “topos psíquico” (CJ 10.33).
    • O “santo dos santos” do templo, inacessível ao batista, representa o “topos pneumático”, onde apenas os eleitos podem entrar, e a ascensão de Cristo a Jerusalém e sua entrada no templo simbolizam o acesso do salvador a todos os três “lugares” e sua capacidade de conduzir outros para dentro deles.
  • A PARADOXAL IDENTIDADE DE JOÃO BATISTA COMO “NÃO PROFETa” E “MAIS QUE PROFETa”
    • Heracleon explica que quando os judeus perguntam a João “És tu Elias?” e “És tu o profeta?” (João 1:21), João responde “Não”, mas quando perguntam “Quem és tu?”, ele responde “Eu sou a voz do que clama no deserto” (João 1:23), revelando uma paradoxal identidade dupla.
    • O que parece uma contradição é, na verdade, um paradoxo destinado a diferenciar entre dois níveis de percepção de João e sua atividade: de acordo com o nível externo inferior, João é um profeta e pertence à ordem profética da percepção sensorial sozinha; no entanto, João “ele mesmo”, que anteriormente pertencia a essa ordem profética, recebeu agora do pleroma de Cristo uma graça adicional além da dos profetas (João 1:16).
    • Esta graça o capacita a perceber que a lei foi agora superada na revelação de Cristo, e este nível superior de intuição o constitui em seu eu interior: “ele mesmo” já não pertence mais apenas à velha ordem, e portanto ele nega que “ele mesmo” seja um profeta, sendo interiormente “maior do que Elias e todos os profetas”.
  • A METÁFORA DOS TRÊS NÍVEIS: SOM (ECHOS), VOZ (PHONE) E LOGOS
    • Heracleon estabelece a relação dos três níveis ou “pontos de vista” da percepção na seguinte metáfora: “o logos é o salvador; a voz (phone), o que João interpretou no deserto; o som (echos), toda a ordem profética” (CJ 6.19).
    • A voz, sendo mais aparentada ao logos, torna-se logos, assim como a mulher é mudada em homem; o som pode ser mudado em voz; a voz que é transformada em logos recebe a posição de discípulo, enquanto o som transformado em voz recebe a de servo.
    • João, que anteriormente pertencia à “ordem profética” do som (isto é, elocução puramente sensível), é aquele “som que foi transformado em voz”, tendo agora alcançado a posição de “servo”, mas ainda permanecendo limitado, admitindo sua incapacidade de entender os “mistérios” da manifestação de Cristo (CJ 6.39).
  • A TRANSFORMAÇÃO DA MULHER EM HOMEM COMO PASSAGEM DO PSÍQUICO AO PNEUMÁTICO
    • A segunda parte da metáfora refere-se a um estágio superior de transformação inacessível ao demiurgo: a transformação do nível intermediário e psíquico de intuição para sua realização pneumática mais elevada, onde a “mulher é mudada em homem”, o servo torna-se discípulo, a voz torna-se logos.
    • Ao contrário da interpretação de Sagnard de que “voz” é equivalente à “natureza pneumática” simbolizada por João Batista e “som” é a “natureza psíquica” simbolizada pelos profetas, Heracleon nunca aplica os atributos das “naturezas” nem ao batista nem aos termos som/voz/logos.
    • A metáfora som/voz/logos é uma metáfora de transformação, que não pode se aplicar às naturezas (sendo estas “inalteráveis” e não podendo ser transformadas umas nas outras), e representa estágios em um processo de transformação na gnosis, onde João Batista exemplifica a transição de som para voz (da ignorância do Deus altíssimo para um estágio mediano de gnosis), mas não pode progredir através do segundo nível de transformação para o nível da mais alta gnosis.
  • O NÍVEL PSÍQUICO DE GNOSIS ACESSÍVEL A JOÃO BATISTA
    • Como os termos das afirmações são estágios de transformação na gnosis, o batista exemplifica a pessoa que está no estágio psíquico (topos), tendo “ascendido” do topos hílico para o psíquico e expressando aquele nível mediano de gnosis acessível no nível psíquico.
    • O topos onde João batiza se estende da região hílica inferior de Cafarnaum (simbolizando a condição espiritual de ignorância total) até a cidade de Jerusalém (simbolizando o nível mediano ou psíquico de intuição), mostrando assim nesta metáfora geográfica a gama de intuição (gnosis) acessível dentro desta “região”.
    • O topos espiritual superior, representado como o “santo dos santos”, permanece além do topos psíquico, inacessível a João Batista, pois a transformação superior de voz em logos, de servo em discípulo, de mulher em homem é a transformação do topos psíquico para o topos pneumático.
  • A CRÍTICA DE HERACLEON AO BATISMO NÃO-VALENTINIANO E OS TRÊS NÍVEIS DO BATISMO
    • Heracleon não pretende apenas construir uma antropologia teórica, mas usar a exegese como um meio de criticar concepções e práticas específicas de certos cristãos, urgindo aqueles que são capazes a buscar um nível superior de intuição (gnosis).
    • Heracleon explica que apenas os representantes da ordem profética mais baixa têm “o dever de batizar” (CJ 6.23), e neste nível, que é limitado pela percepção sensorial, o batismo consiste de um mero ato físico — a lavagem corporal “com água”.
    • João, em seu papel “externo” e histórico, batiza, mas interiormente, “ele mesmo” não batiza, oferecendo como “voz” não o ato físico, mas seu significado interior e ético, que é “arrependimento” e “perdão dos pecados”.
    • O primeiro nível de percepção do batismo é “somático”, vendo o ato apenas como uma lavagem externa com água; o segundo é “psíquico”, percebendo o “arrependimento e perdão” interiores transmitidos através do ato físico; e João proclama a vinda daquele “maior do que” si mesmo, que oferecerá o batismo do “espírito santo” (João 1:33) — o terceiro nível superior.
  • O SALVADOR ENCOMPASSANDO OS TRÊS NÍVEIS DE BATISMO
    • João, como “profeta”, aponta a presença física do salvador quando anuncia o “cordeiro de Deus”, que, como Heracleon explica, significa “o corpo” de Jesus; como “mais que profeta”, João fala no nível psíquico, proclamando “aquele no corpo”, o Cristo psíquico que “tira os pecados do mundo” (CJ 6.60).
    • Em um sentido espiritual superior, no entanto, o salvador já está “presente no cosmos e nos homens” (CJ 6.38) como sua “vida” espiritual, mas esta presença espiritual não é manifesta a todos, nem mesmo a João, cujas elocuções permanecem apenas nos níveis somático e psíquico.
    • O salvador oferece batismo em todos os três níveis: em seu aspecto corporal externo, ele batiza “com água”; como filho psíquico do demiurgo, ele oferece o batismo “de arrependimento”; e finalmente, como salvador que recebe o pneuma Christou, ele oferece o terceiro batismo, a “redenção” (apolytrōsis), que é pneumática, transmite o espírito, é administrada “para a perfeição” e é acessível apenas aos eleitos.
  • A CRÍTICA TEOLÓGICA DO BATISMO PRATICADO POR CRISTÃOS “PSÍQUICOS”
    • Aqueles que recebem o batismo de João (isto é, do demiurgo) são, em análise valentiniana, “cristãos psíquicos” que adoram o demiurgo como seu Deus, e quando se arrependem, recebem o batismo de João, que não transmite o “espírito” que apenas os “espirituais” recebem, mas consiste de um aspecto somático (lavagem do corpo) e um aspecto psíquico (libertação do psíquico da perspectiva da morte, transmitindo “perdão dos pecados”).
    • Irineu reconhece que esta distinção valentiniana entre batismo psíquico e redenção espiritual (“apolytrōsis”) desvaloriza o significado e efeito do sacramento da igreja, que, segundo ele, transmite não apenas o perdão dos pecados, mas também dons espirituais como “iluminação” e “regeneração”.
    • O batismo espiritual dos eleitos, a apolytrōsis, liberta o recipiente dos componentes psíquicos de sua existência cósmica, redimindo-o completamente da jurisdição do demiurgo e restaurando-o à unidade com seu pleroma, isto é, com a “Mãe” e o “Pai” além.
  • AS FÓRMULAS DA APOLYTROSIS E A IDENTIFICAÇÃO COM A MÃE E O PAI PRÉ-EXISTENTE
    • As fórmulas da apolytrōsis citadas por Irineu (AH 1.13.6; 1.21.3) consistem de um apelo à Mãe (a companheira de Deus, a Mystic Sige que está antes do eon, através de quem os anjos contemplam a presença do Pai), para que ela defenda os iniciados (como sua própria prole) do “juiz” (o demiurgo) e manifeste sua identidade com ela, isentando-os assim de seu julgamento.
    • Em outra fórmula, o iniciado identifica-se como “filho do Pai pré-existente que tem um filho pré-existente”, reivindicando ter gnosis de “todas as coisas” e especialmente de Acamote (o poder criativo acima do demiurgo), e conclui: “derivo ser daquele que é pré-existente, e retorno ao meu próprio de onde vim”.
    • Epifânio atribui estas últimas fórmulas não aos marcosianos, mas especificamente aos “seguidores de Heracleon” (Pan 36.2-6), e a descoberta do Primeiro Apocalipse de Tiago (Nag Hammadi, códice 5) confirma a existência de uma tradição litúrgica comum a vários grupos gnósticos, onde as fórmulas reaparecem quase textualmente.
  • HERACLEON E A DOUTRINA DA TRANSFORMAÇÃO DINÂMICA DA INTUIÇÃO HUMANA
    • Em vez de uma “teoria das naturezas” estática e determinista, Heracleon está estabelecendo uma teoria da transformação dinâmica da intuição humana, oferecendo uma análise de três “níveis” distintos de tal intuição: o “hílico” (percepção meramente sensorial desprovida de conteúdo espiritual), o “psíquico” mediano, e o “pneumático” de compreensão simbólica.
    • Aqueles que estão no primeiro nível consideram Cristo meramente em termos de sua aparência e circunstâncias externas, como o homem real Jesus que é o messias esperado de Israel; aqueles no segundo nível o percebem como a revelação de Deus, mas apenas como ele é revelado no espaço e no tempo; aqueles no terceiro nível compreendem que os eventos descritos de Cristo são na verdade símbolos da verdade espiritual.
    • Analogamente, perceber o batismo como um ato físico é permanecer no nível hílico da mera percepção sensorial; interpretar esse ato eticamente como um sinal de “perdão dos pecados” é experimentar a transformação de “som” em “voz”, do ponto de vista hílico para o psíquico, que caracteriza a grande maioria dos cristãos, que permanecem no nível psíquico, adorando o Cristo psíquico como o filho do demiurgo.
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