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Rico e Lázaro
Antonio Orbe — Parábolas Evangélicas em São Irineu
Capítulo 19: O Epulão e Lázaro (Lc 16,19-31)
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O relato lucano é analisado em três partes: hereges, eclesiásticos anteriores a Irineu e o próprio Irineu.
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A divisão inicial do estudo concentra-se nas interpretações heterodoxas, subdivididas entre Marcião, Basílides e outras fontes.
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Marcião
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O herege Marcião incluía a perícopa em seu evangelho como uma história verdadeira, não uma parábola, para contrastar a escatologia do demiurgo com a do Deus bom.
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Segundo Marcião, a escatologia do demiurgo (Yahweh) ocorre “apud inferos” (sob a terra), com dupla recompensa de tormento ou descanso no seio de Abraão conforme a obediência à Lei e aos Profetas.
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O herege determinava que o prêmio do demiurgo se cumpre apud inferos, tanto o lugar de tormento quanto o de refrigerio.
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A escatologia dos cristãos, por outro lado, é governada por Cristo e pelo Deus bom, oferecendo apenas o “seio e porta do céu” como recompensa.
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Marcião situava o “sinus Abrahae” sob a terra, pois os justos do Antigo Testamento ali permaneciam, enquanto os pecadores do Antigo Testamento (como Caim) foram libertados por Cristo ao descer aos infernos.
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Tertuliano, em “Adversus Marcionem”, rebate o herege, afirmando que o seio de Abraão não está nos infernos, mas é uma região mais elevada, um receptáculo temporário para as almas dos justos.
O herege retinha a perícopa para contrapor a ordem de Abraão (“Têm Moisés e os profetas, ouçam-nos”) à voz do Pai no Tabor (“Este é meu Filho amado, ouvi-O”), desqualificando o regime antigo.-
Para o herege, a dispensa de Yahweh era subsidiária e sua escatologia subterrânea contrastava com a celeste do Deus bom.
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Homilias Pseudo-Clementinas
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As homilias pseudo-clementinas apresentam uma exegese que concebe a alma como eflúvio da substância divina, que retorna ao seio de Deus após a morte.
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O seno de Abraão é identificado com o seio de Deus, e as almas que desejam Deus são levadas para ele após a morte.
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A distinção marcionita entre o reino celeste de Deus e o seio subterrâneo de Abraão está ausente nesta perspectiva.
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As almas dos justos imperfeitos são guardadas em regiões agradáveis até a ressurreição, enquanto os ímpios sofrem no Hades.
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A parábola de Lázaro e o rico é usada para demonstrar a justiça de Deus, que premia e pune as almas após a morte com base em suas ações terrenas.
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Basílides
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Basílides, em seu comentário ao Evangelho, via na parábola uma alegoria dogmática sobre a origem da natureza sem raiz e sem lugar que sobrevém aos seres.
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O herege interpretava a parábola à luz de uma cosmogonia dualista, onde a luz (o rico) e as trevas (Lázaro) lutam antes da criação do mundo sensível.
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Basílides indicava que a parábola revela a origem da natureza sem princípio e sem termo, com seu duplo princípio de luz e trevas.
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A concupiscência das trevas pela luz corresponde ao desejo do mendigo pelas migalhas do rico, simbolizando a invasão das trevas no reino da luz.
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A parábola explicava a criação do mundo sensível a partir da união das trevas com um simples reflexo da luz.
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Atos de Tomé
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Os Atos de Tomé utilizam a trama de Lázaro e o epulão para ilustrar a eficácia da esmola, que constrói um palácio celestial.
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A alma de Gad, após a morte, é levada por anjos diretamente ao céu, não ao seio de Abraão, e lá contempla o prêmio pela caridade do rei.
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A narrativa de Gad evoca a súplica do epulão para voltar à terra, mas com o objetivo de comprar méritos para um palácio eterno.
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Os anjos que levam a alma ao céu mostram a superioridade do descanso celestial sobre o subterrâneo.
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A parábola é reinterpretada para promover a caridade como meio de alcançar uma morada eterna no céu, não apenas o refrigerio no seio de Abraão.
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Evangelho dos Nazareus
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Um fragmento atribuído ao Evangelho dos Nazareus adapta o diálogo do jovem rico, relacionando a miséria dos filhos de Abraão (como Lázaro) à riqueza acumulada.
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O texto critica o rico que guarda seus bens enquanto seus irmãos (filhos de Abraão) passam fome, ecoando a situação de Lázaro à porta do epulão.
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A autoridade de Moisés e dos profetas é invocada para condenar a falta de caridade com os necessitados.
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A passagem enfatiza que a mera observância da lei não é suficiente sem a partilha dos bens com os pobres, que são irmãos na fé.
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Eclesiásticos Anteriores a Tertuliano
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A alusão mais clara ao relato de Lázaro e o epulão entre os primeiros escritos eclesiásticos aparece na Epístola dos Apóstolos.
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A Epístola dos Apóstolos trata o relato como histórico e situa Lázaro entre os justos e profetas do Antigo Testamento no descanso inferior.
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O Salvador desceu ao lugar inferior onde Lázaro estava para pregar e libertar os justos, conduzindo-os ao descanso celeste.
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A libertação de Lázaro dos infernos demonstra que o relato de Lucas era aplicado à escatologia do estado intermediário das almas.
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A anapausis inferior é diferenciada da anapausis superior, que é o descanso celeste após a ressurreição.
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Tertuliano
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A exegese de Tertuliano sobre Lc 16,19-31 evoluiu significativamente, passando de uma visão parábola para uma história, influenciada pelo montanismo.
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Em seus escritos iniciais (Apologético), o paraíso era celeste e a gehena subterrânea, enquanto o seio de Abraão não era mencionado.
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O africano demonstrava distinguir a escatologia final (após a ressurreição) da intermediária, onde o seno de Abraão não se situava nos infernos.
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No “De testimonio animae”, surge o contraste tormento-refrigerio nos infernos, possivelmente pensando no relato lucano.
Em “Adversus Marcionem”, Tertuliano argumenta contra Marcião que o seio de Abraão não está nos infernos, mas em uma região superior e temporária.-
O seio de Abraão é descrito como um receptáculo provisório para as almas dos fiéis, aguardando a ressurreição e o julgamento final.
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Tertuliano afirma que o céu (“locus aeternus”) é a morada definitiva para os justos em corpo e alma, enquanto o seio de Abraão é um descanso transitório.
No montanista “De anima”, Tertuliano muda de posição, situando o seio de Abraão nos infernos e defendendo a corporeidade e passibilidade da alma separada.-
A história de Lázaro e o rico é usada para provar que a alma tem corpo e pode sofrer tormento (como o rico) ou gozar de refrigerio (como Lázaro) antes do juízo final.
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A passagem demonstra que as almas perseveram, guardam a figura do corpo e têm memória, aguardando nos infernos o dia do Senhor.
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O africano, influenciado pela Nova Profecia, reservava o paraíso celeste exclusivamente aos mártires, relegando os demais justos ao seio de Abraão nos infernos.
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Síntese da Evolução de Tertuliano
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A análise cronológica dos escritos de Tertuliano revela uma clara evolução na exegese de Lc 16,19-31, influenciada pela polêmica antimarcionita e pelo montanismo.
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Inicialmente, o africano tratava a perícopa como parábola aplicável ao juízo final, com o seio de Abraão extra inferos e o alma incorpórea.
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Posteriormente, já montanista, passou a vê-la como história aplicável ao estado intermediário, com o seio de Abraão nos infernos e a alma corpórea.
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O passo ao montanismo explicaria a mudança para a exegese literal, influenciado por visões como a de Perpétua.
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A necessidade de explicar o tormento sensível do rico teria levado Tertuliano a adotar a corporeidade da alma.
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São Cipriano, Lactâncio e Hipólito
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São Cipriano conhece a página de Lucas, mas aplica o refrigerio ao céu, não aos infernos, situando as almas dos santos diretamente no convívio nupcial.
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Lactâncio, sem citar diretamente a perícopa, reflete sobre a possibilidade da alma sofrer sem o corpo, recorrendo aos estoicos e à onipotência divina.
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Para Lactâncio, as almas impias são passíveis devido às máculas contraídas com o corpo, e Deus tem o poder de castigar até os incorpóreos.
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O autor dos Excerpta ex Theodoto usa a passagem de Lázaro e o rico para provar a corporeidade da alma através dos membros corporais mencionados.
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Nesses fragmentos, o seio de Abraão é situado em uma região celeste, e não subterrânea.
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Clemente de Alexandria
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Clemente interpreta a parábola de Lázaro e o rico como uma alegoria sobre o destino daqueles que servem a mamom versus os que servem a Deus.
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O rico é comparado à erva que serve de combustível para o fogo, enquanto Lázaro é o capim que floresce no seio do Pai após ser cortado.
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A parábola demonstra que o rico que vive na injustiça e insolência não viverá na outra vida, enquanto o pobre que busca a Deus florescerá.
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Clemente considera a perícopa uma parábola e não uma história, usando-a para ensinar sobre a justiça divina e a verdadeira riqueza.
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Orígenes
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Orígenes distingue duas exegeses para a perícopa: a dos “simples”, que a aplica às postrimerias após a ressurreição, e a dos “diligentes”, que a aplica ao estado da alma separada.
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Os “diligentes” viam na passagem uma história que demonstra que a alma, mesmo sendo incorpórea por natureza, assume um corpo sutil para ser visível e passível no Hades.
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A alma de Lázaro e a do rico, antes da parusia do Salvador, ensinam que a alma após a libertação do corpo faz uso de um corpo.
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Orígenes situa os justos após Cristo no céu ou paraíso, não nos infernos, e defende que o seio de Abraão é um lugar de instrução.
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O alejandrino ensina que a alma, por sua natureza, é incorpórea e invisível, mas assume corpos conforme a região onde habita.
São Irineu
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A exegese de Irineu sobre Lc 16,19-31 é abundante e serve a múltiplos propósitos, incluindo a demonstração da perseverança das almas e a unidade dos Testamentos.
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A perícopa é tratada como uma história (“relação”) e não como uma fábula ou parábola, com valor doutrinal contra hereges.
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Irineu vê na passagem a prova de que as almas perseveram após a morte, não transmigram, guardam o carácter do corpo e têm memória.
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O seio de Abraão é um lugar de refrigerio para os justos e o lugar de tormento para os ímpios, e ambos existem antes do juízo.
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Contra Hereges: Perseverança e Corporeidade da Alma (Adv. haer. II 34,1)
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Irineu usa o relato do rico e Lázaro para demonstrar que as almas não se dissolvem com o corpo nem transmigram, mas perseveram em sua própria substância.
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A passagem mostra que as almas retêm a figura do corpo em que viveram e a memória de suas ações, o que permite que sejam reconhecidas.
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O argumento é dirigido contra gnósticos (como Valentinianos) e pagãos que negavam a perseverança ou defendiam a metempsicose.
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O santo afirma que tanto a alma do justo Lázaro quanto a do ímpio rico perseveram, refutando a ideia de que apenas almas boas seriam imortais.
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A “figura do corpo” que a alma retém é usada para explicar como Lázaro e o rico se reconhecem e como o rico sofre tormento sensível.
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Unidade dos Testamentos e Cristologia (Adv. haer. IV 2,3-4)
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Irineu interpreta a resposta de Abraão ao rico (Lc 16,29-31) para demonstrar a unidade entre o Antigo e o Novo Testamento.
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Obedecer a Moisés e aos profetas é o mesmo que crer em Cristo, pois eles prenunciaram sua vinda, morte e ressurreição.
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O santo rejeita a exegese de hereges (como Marcião e Valentinianos) que opunham o regime de Abraão ao de Cristo.
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A frase “se não ouvem a Moisés e aos profetas, tampouco acreditarão se alguém ressuscitar dentre os mortos” é aplicada a Cristo ressuscitado.
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A ressurreição de Cristo dos mortos é necessária para ratificar a fé em Moisés e nos profetas, e para dar vida aos crentes na ressurreição final.
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Facilidade da Conversão dos Judeus (Adv. haer. IV 24,1)
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Irineu argumenta que os judeus que criam em Moisés e nos profetas tinham um caminho mais fácil para a fé em Cristo do que os gentios.
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As Escrituras do Antigo Testamento, que anunciavam o Filho de Deus, serviam como uma preparação que facilitava a aceitação do Evangelho.
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O Apóstolo Paulo, apóstolo dos gentios, trabalhou mais do que os apóstolos da circuncisão porque não tinha a base das Escrituras para fundamentar sua pregação.
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Os judeus já estavam instruídos sobre a moral e os vaticínios do Messias, bastando-lhes reconhecer seu cumprimento em Jesus.
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A pregação entre os gentios exigia um trabalho mais intenso, incluindo o ensino dos rudimentos éticos e das próprias Escrituras.
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Conclusão da Análise
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A história da exegese de Lc 16 mostra que o dilema entre imortalidade da alma e ressurreição dos mortos não era o ponto central para os pré-nicenos.
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O debate principal entre os eclesiásticos dizia respeito à passibilidade ou impassibilidade corpórea da alma separada, e não à sua existência.
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Irineu, em particular, aplicou o relato à escatologia das almas, mas centrou a soteriologia na deificação da carne, cuja beatitude plena ocorre após a ressurreição.
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O santo situava o descanso das almas justas em um paraíso celeste, aguardando a ressurreição e o milênio antes da visão do Pai.
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A exegese de Irineu teve o mérito de aprofundar o oráculo de Abraão através do recurso ao Evangelho de João, ligando a teologia da ressurreição carnal do Salvador aos vaticínios do Antigo Testamento.
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