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Alma

Gnosticismo

JONAS, Hans. Philosophical Essays. Chicago: University of Chicago Press, 1980.

17. A Alma no Gnosticismo e em Plotino

  • Primeiro em Paulo e depois nos escritos gnósticos encontra-se a tripartição hílico — ou sárkico — psíquico — pneumático, que pode referir-se ao indivíduo, denotando componentes de seu ser, ou à humanidade, denotando uma tipologia; em ambos os casos, a psyche ocupa uma posição intermediária entre um estado superior e um inferior.
    • A palavra psyche e seu derivado psychikos assumem certo sentido depreciativo em contraposição ao princípio superior — o pneuma, cujo equivalente nas versões mais helênicas da doutrina é o noûs — mente
    • Nos sistemas especulativos da gnose do século II, especialmente do tipo valentiniano, a “Alma” com maiúscula representa uma condição caída do “Espírito” original na descida universal do Ser; a origem da psyche é frequentemente conectada com a figura problemática de Sophia e identificada com o nível ontológico do Demiurgo
    • Uma genealogia e um estatuto similares da “alma” são encontrados nos ensinamentos astrológicos, herméticos e em Orígenes — em todos eles a alma é derivativa e não original em sua natureza, e derivativa num sentido pejorativo; está plenamente justificado falar de uma reavaliação gnóstica, isto é, um rebaixamento, da “alma”
    • O texto foi originalmente apresentado no Colóquio Internacional sobre Neoplatonismo realizado em Royaumont em junho de 1969, e publicado em Le Néoplatonisme (Paris: Editions du Centre National de la Recherche Scientifique, 1971)

I

  • No contexto plotiniano o foco recai principalmente sobre a teoria da “Alma” como hipóstase universal — como estágio na evolução transcendental do ser —, o que exige uma caracterização do padrão geral de especulação no qual essa doutrina se insere e cuja força intelectual compulsória naqueles tempos alcançava além das fronteiras de filosofias e credos particulares.
    • É esse padrão que Plotino partilhava com os mesmos Gnósticos que combatia; a própria proximidade na concepção básica explica a força de sentimento que sua polêmica exibe — é o protesto contra uma caricatura de sua própria causa
    • Os pensadores desse grupo — homens tão diversos como Valentinus e Ptolomeu, os autores anônimos do Poimandres e do Apócrifo de João, Orígenes, Plotino e Mani — definitivamente quiseram oferecer sistemas especulativos: um todo dedutivo onde tudo se encadeia e uma corrente de raciocínio ou imaginação conduz dos primeiros princípios às últimas consequências
    • A própria ideia de tal sistema estava enraizada numa convicção axiomática da época: há uma cadeia do ser que a cadeia do raciocínio não faz senão reproduzir; pode haver um sistema de pensamento porque o próprio ser forma um sistema; e tal como a ordem do ser, assim é a ordem da demonstração — o “primeiro” na teoria é também o primeiro na realidade, o começo efetivo das coisas
    • A “grande cadeia do ser” é vertical e suspensa do ponto mais alto; o primeiro é o mais alto, o último é o mais baixo — nada mais em conflito com nosso modo de pensar, que traça a ordem das causas de baixo para cima
    • A hierarquia não é estática: a ordem vertical das coisas significa necessariamente a descida de todas as coisas, nessa ordem, a partir de uma fonte mais alta — toda criação é descendente; o movimento completo do ser foi concebido como duplo e se desdobrando num ritmo de dois tempos: primeiro o movimento descendente até a distância e alteridade extremas — depois uma inversão de direção, um movimento ascendente com o objetivo de retorno e reunião
    • A tendência universal nesse clima metafísico é identificar a perfeição com a unidade e a pluralidade com a deficiência — donde se seguia que a natureza geral da queda era perda de unidade e movimento em direção à diversidade, e a ascensão correlativa deve significar unificação
    • Nenhuma dessas construções explicativas tinha interesse no mapa “horizontal” da realidade — no múltiplo coordenado das coisas, sua extensão e inter-relação num mesmo plano do ser; o que fascinava esses pensadores era apenas a ordem “vertical”: a hierarquia invisível, não a extensão visível das coisas; o eixo vertical do ser, a despeito de suas conotações espaciais, é primariamente um eixo temporal cujo progresso deposita a estratificação espacial do universo como subproduto ao longo de seu curso
  • O problema com que todo pensador comprometido com esse esquema geral tinha de lidar era a polarização extrema entre as duas extremidades da escala do ser: como algo tão baixo, tão questionável e misto como o mundo pôde brotar de uma fonte tão pura, tão perfeita, tão livre de toda mistura e ambiguidade?
    • Era premissa no próprio colocar da questão que o estado puro do começo, completo e satisfeito em si mesmo, não tinha motivo para comprometer sua perfeição acrescentando a si mesmo um mundo; essa premissa firmemente sustentada excluía tanto a simples resposta bíblica de um livre fiat divino quanto a resposta platônica de um demiurgo não invejoso que, sendo bom, comunica bondade ao receptáculo tanto quanto possível
    • Sob qualquer forma, o princípio demiúrgico deve ser visto sob uma luz problemática e sua atividade como uma queda da perfeição

II

  • Dentro desse esquema geralmente partilhado, a especulação determinou a origem e a natureza da Alma; entre os Gnósticos, são os Valentinianos os mais articulados: “A redenção perfeita consiste no próprio conhecimento da inefável Grandeza. Pois, como foi da Ignorância que a Deficiência e a Paixão vieram a ser, é através do Conhecimento que todo o sistema originado da Ignorância se dissolve novamente. Portanto, o conhecimento é a redenção do homem interior; e não é corporal, pois o corpo é corruptível; nem é psíquico, pois mesmo a alma é um produto da Deficiência e como uma hospedaria para o espírito. Espiritual deve portanto ser também a natureza da redenção…” (Ireneu I, 21, 4).
    • A Alma origina-se da história pré-cósmica de Sophia — a mais jovem dos Éons no Pleroma divino —, que cai em ignorância e paixão por alguma forma de ultrapassar seus limites; os estágios sucessivos de sua queda e reabilitação parcial geram hipóstases substantivas que refletem a condição mental de cada estágio; mesmo a matéria é assim derivada das emoções de Sophia
    • A Alma origina-se do arrependimento de Sophia e de seu “retorno” — epistrophe — em direção à fonte de vida: “de onde toda a Alma do mundo e do Demiurgo tomou sua origem”; o Demiurgo é o filho da Sophia caída, moldado da substância psíquica que havia emanado dela, tornando-se “pai e rei de todas as coisas psíquicas e materiais”
    • A relação ontológica de Sophia e Demiurgo é mais bem expressa na afirmação de que “a Sophia é chamada pneuma, o Demiurgo, alma” (Hippol. VI, 34, 1); a psyche é, pois, além de seu aspecto antropológico, um princípio cosmogônico e cosmológico — qua modus deficiens do Ser absoluto; o cosmos como tal é o produto primo e eminente do estágio metafísico de defecção no qual o Ser original tornou-se “psíquico”

III

  • Outro exemplo de especulação gnóstica sobre a alma é encontrado no Peri Archon de Orígenes — que, como opositor dos Gnósticos, não foi por isso impedido de partilhar concepções principais com eles; o lugar do Pleroma gnóstico é ocupado pelo mundo dos espíritos pré-existentes — nous-noes — que rodeiam a Divindade como sua criação eterna, sem diferença entre si e unidos a Deus em contemplação e amor.
    • O “movimento” entrou nesse reino tranquilo por meio de sua liberdade de vontade — e o movimento só poderia ser afastamento de Deus; é nessa queda que os “espíritos” se transformam em “almas” — psyche-psychai
    • Orígenes gosta de jogar com a conexão etimológica entre psyche e psychros — frio — para apoiar sua concepção da alma humana como uma condição deteriorada, diminuída, “esfriada” do espírito ou mente original: “A psyche foi assim chamada por ter esfriado do fervor dos justos e de sua participação no fogo divino, e contudo não perdeu o poder de restaurar-se a essa condição de fervor em que estava no começo” (trad. Butterworth, p. 125)
    • A alma signifca um estado e não uma substância: Orígenes fala do espírito em seu curso descendente “tornando-se alma em maior ou menor grau” (Bu. p. 127); a implicação soteriológica é que “a alma quando salva não permanece mais uma alma” (Bu. p. 122)
    • Em seu sistema também é a queda dos espíritos que leva à gênese do mundo; como cristão ortodoxo, Orígenes era obrigado a considerar Deus mesmo como criador do mundo — não o podia fazer obra não autorizada de alguns dos poderes caídos; mas tampouco o fez escolha inteiramente livre de Deus: a diversidade originou-se na queda das mentes; a criação de um mundo é a resposta da justiça divina ao que os espíritos já fizeram consigo mesmos — “Com base em sua falta”, Deus atribui a cada um seu posto e lugar numa ordem física “comensurável com os movimentos melhores ou piores de cada um” (Bu. pp. 53–54)
    • “Agora, sendo o mundo tão multiforme e comportando tão grande diversidade de seres racionais, que outra coisa podemos designar como causa de sua existência senão a diversidade na queda dos que declinam da unidade de modos dissimilares?” (Bu. pp. 76–77); Orígenes combina engenhosamente o axioma gnóstico de que o mundo é o produto de uma queda com o requisito bíblico de que Deus mesmo é o criador do mundo

IV

  • A abertura famosa de Enéadas V, 1 de Plotino apresenta o problema da queda das almas individuais: “O que foi que fez as almas esquecerem seu Pai Deus e, embora partes de Lá e completamente daquele mundo, tornou-as ignorantes de si mesmas e Dele? A origem do mal para elas foi a audácia — tolma — e o entrar no devir — genesis — e a primeira alteridade e a vontade de pertencer a si mesmas. Regozijando-se em sua autodeterminação — autexousion —, uma vez que haviam vindo à frente, fizeram amplo uso do mover-se por conta própria, tomando a estrada contrária [ou seja, afastando-se de Deus] e caindo a tais extremos de distância que perderam o conhecimento de sua origem de Lá.”
    • O verdadeiro ensinamento de Plotino é que a “Alma” como tal resultou de uma “queda” primordial ocorrida na evolução interna do Ser em grande escala; para isso se volta ao capítulo 11 de Enn. III, 7, que trata da origem do tempo
    • Na exposição plotiniana do tempo: havia uma natureza que era empreendedora — polypragmon — e queria ser dona e governar a si mesma; assim começou a mover-se, e com ela se moveu o tempo, e o movimento era em direção ao sempre ainda por vir; havia na Alma um poder inquieto que sempre queria transferir o que contemplava Lá — no mundo inteligível — para outro medium; assim como a partir da semente quieta a forma substancial — logos — se desdobra e passa por um suposto muitos, assim também a Alma: ao fazer o mundo sensível em imitação do inteligível, ela primeiro se temporalizou — chronoo —, gerando o tempo como substituto da eternidade; então fez também o cosmos gerado sujeito ao tempo
    • O “tempo é a vida da Alma consistindo num movimento que passa de estado de vida a estado de vida”
    • Isso é uma mistura de ontologia e drama, isto é, mito; a ontologia articula o que é o tempo em contraponto à eternidade; o mito relata como o tempo secedeu da eternidade: narra ousadia e inquietação, força intranquila, incapacidade de permanecer na totalidade concentrada, desejo de ser autosubsistente e separado
    • Assim como em Orígenes, o “movimento” é o começo de uma deterioração, e o desvio da unidade marca o começo do movimento; em ambos os casos a força motriz é a vontade própria
  • Nesse ponto crítico — quando a questão é por que deve haver este mundo inferior fora do Inteligível —, Plotino não pode prescindir da mesma linguagem de apostasia e queda que ele mesmo usa severamente contra os Gnósticos; o princípio inequívoco do poder da plenitude e sua necessária ação exterior, pelo qual o sistema normalmente explica, nível após nível, o surgimento do múltiplo a partir do Um, não mais lhe basta quando se trata da Alma.
    • A expressão que a Alma, em seu afastamento voluntário do puro ser, “primeiro se temporalizou” — chronoo — é única em Plotino e provavelmente por ele cunhada para exprimir um pensamento novo; a cunhagem e seu uso reflexivo ressaltam a diferença em relação ao modelo platônico do Timeu: lá, o tempo é criado; aqui, ele é sofrido por aquilo que vai criar, como uma autoalteração de seu próprio ser
    • Em Platão o traço conspícuo do movimento temporal é a repetição do eternamente mesmo; em Plotino — o progresso para o sempre outro
    • Segundo Plotinus, cada hipóstase existe e é o que é em virtude de relacionar-se com a próxima superior da qual provém — o voltar-se para trás ou para cima — epistrophe — pertence tanto ao subsistir da hipóstase quanto seu egressus descendente — proodos; é peculiar à hipóstase “Alma” — peculiaridade não derivável do princípio geral da metafísica — que, além disso, ela também está dirigida para aquilo que é “inferior” a si mesma
    • A teoria da Alma, como a única magnitude verdadeiramente problemática no sistema, traz à luz sua contradição irreconciliada; ao descrever o egressus da Alma a partir do Nous, Plotino se sente constrangido a afastar-se de seu estilo dialético e recorrer a termos psicológicos — e mesmo emocionais — como tolma para fornecer a “motivação” para esse passo particular; a linguagem passa de filosófica a mitológica e, com todo seu desgosto pela “tragicização” gnóstica, aproxima-se perigosamente da mitologização gnóstica
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