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Interpretação do Conhecimento
THOMASSEN, Einar. The coherence of “Gnosticism”. Berlin Boston (Mass.): De Gruyter, 2021.
- A Interpretação do Conhecimento é uma homilia ou carta cujo tema central é encorajar os ouvintes ou leitores a suportar adversidades e comportar-se de modo digno de membros da Igreja, introduzindo o sofrimento e a humilhação do Salvador — incluindo seu rebaixamento na morte — como modelo para os crentes e como morte vicária em benefício dos mortais.
- Interpretação do Conhecimento (Interp. Know., NHC XI,1) — tratado valentiniano de Nag Hammadi identificado como pertencente ao corpus oriental pelo tipo de soteriologia de participação mútua que apresenta
- A passagem 5:30–38 afirma que o Salvador foi crucificado e morreu não por merecimento próprio, mas em favor da Igreja dos mortais; o modelo interpretativo não reduz o evento a símbolo, mas afirma seu efeito redentor direto como morte vicária
- A imagem do Bom Pastor (10:27–34) — o Salvador torna-se “pequeno” pela encarnação para elevar a alma ao seu posto original; a redenção é efetuada por um ato de substituição em que ele assume a pequenez e a humildade da alma humana
- A soteriologia de participação e troca é desenvolvida com referência a Filipenses 2:7–9: o Salvador esvaziou-se de sua majestade, revestiu-se de carne, suportou o desprezo para que os crentes fossem glorificados por meio de sua humilhação, e a remissão dos pecados é recebida precisamente daquele que foi desprezado e redimido.
- Filipenses 2:7–9 — texto paulino sobre o esvaziamento (kenosis) do Cristo; citado e desenvolvido em Interp. Know. 12:13–38 como fundamento da soteriologia de troca
- “Efluência do Nome” (aporroia tou Onomatos) — agente que salva o próprio Salvador da condição a que ele voluntariamente se submeteu; paralelo ao que se encontra em Exc. 22:6–7 e Tractatus Tripartitus 124:25–125:11
- O “Nome” na soteriologia valentiniana — não é figura distinta do Salvador, mas designa seu status transcendente de Filho junto ao Pai; sua recepção no batismo possui dimensão sacramental e metafísica
- A dificuldade central do texto reside na compreensão da “carne que é um éon trazido à existência por Sophia” (12:32–33): essa carne-éon é a semente espiritual e a Igreja de Sophia que o Salvador reveste ao descer ao mundo, mas ela própria é imperfeita e necessita de redenção, ao mesmo tempo em que exerce função salvífica em relação às almas potencialmente espirituais já no cosmos.
- A redenção estrutura-se como processo de dois estágios: “o desprezado” recebe o éon-carne de Sophia, e esse éon-carne por sua vez recebe a Grandeza-Nome que o habilita a ser reintegrado ao Pleroma
- O horizonte governante da passagem é o batismo: os batizados são unidos a seus contrapartes celestial-eclesiásticos, recebem o Nome e, assim reunidos, são habilitados a ser reintegrados ao Pleroma — processo descrito como renascimento na carne e no sangue do Salvador
- O paradoxo fundamental da soteriologia de participação mútua — em que o Salvador age simultaneamente como redentor e como modelo do redimido, carregando um corpo espiritual enquanto se rebaixa num corpo material — exige a introdução de um agente salvífico adicional, o Nome, para resolver a tensão entre o esvaziamento e a preservação da espiritualidade do Salvador.
- O paradoxo consiste em que o Salvador, ao assumir um corpo material para compartilhar a humilhação das almas encarnadas, arrisca eliminar seu próprio corpo espiritual pelo esvaziamento; o Nome revalida o espírito e preserva a capacidade redentora do corpo espiritual do Salvador
- A cadeia de agência salvífica que resulta é: os crentes são salvos por participarem do corpo do Salvador, e o corpo do Salvador é salvo pelo Nome; a Interp. Know. articula assim de forma explícita a estrutura paradoxal que outros textos orientais deixam implícita
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