Valentino
Werner Foerster, W. Gnosis. A Selection of Gnostic Texts. R.M.L. WILSON. London: Clarendon Press, 1972.
A escola valentiniana é uma das mais bem documentadas do gnosticismo, com múltiplas fontes patrísticas e textos coptas atribuídos a Valentino ou seus discípulos.
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Os Padres da Igreja fornecem relatos e citações literais sobre Valentino e sua escola.
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Um texto copta de Valentino ou de discípulos próximos, além de outros escritos coptas da escola, também está disponível.
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Valentino nasceu no Egito e familiarizou-se com a cultura grega em Alexandria.
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Jerônimo destaca sua eloquência e dotes naturais como necessários para criar uma heresia.
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Ao ser preterido por um mártir, separou-se da igreja por volta de 143 d.C., sob o papado de Pio.
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Teodas foi seu professor, e sua atuação deu-se sob o pontificado de Aniceto (154-165 d.C.).
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Ptolemeu, Heracleon, Secundo, Marco, Teótimo e Axionico estão entre seus pupilos; Ardesiano é mencionado por outra fonte.
CARACTERÍSTICAS GERAIS DO VALENTINIANISMO
O sistema valentiniano é marcado por uma tríade de níveis, pela existência de trinta éons no Pleroma e por uma classe intermediária de psíquicos.
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O Pleroma contém trinta éons, incluindo Silêncio, Verdade, Homem e Igreja.
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Duas Tétrades são enfatizadas, formando uma Ogdóade.
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A Queda e, em última análise, a criação do mundo procedem de Sofia, o último éon.
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Uma classe intermediária, a dos psíquicos, é estabelecida entre os pneumáticos e os escolares.
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Os psíquicos recebem uma salvação graduada fora do Pleroma, e o Demiurgo tem uma atitude amigável para com os pneumáticos.
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Uma nota triádica percorre todo o sistema, evidente na carta de Ptolemeu a Flora e no relato de Irineu.
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O mundo deve sua existência continuada ao erro ou à ignorância, cuja remoção implicaria a destruição de tudo.
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O fogo da ignorância está na raiz de tudo no mundo e, um dia, o reduzirá à nada, sendo então extinto.
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A matéria é um produto necessário da realidade intelectual da ignorância, não o portador do mal verdadeiro.
RELAÇÃO COM SISTEMAS ANTERIORES
Supõe-se que Valentino tenha criado seu sistema a partir de outro, possivelmente o dos ofitas, com modificações significativas.
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O sistema valentiniano teria sido criado em dependência de outro sistema, possivelmente o dos ofitas.
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Em relação aos ofitas, o valentinianismo introduz um Pleroma maior, com trinta éons.
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Sofia cai, mas é restaurada; apenas seu “aborto” ou “pensamento” permanece fora do Pleroma.
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O “aborto” é então formado pelo Salvador, dando origem ao mundo e ao seu criador.
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A história do paraíso fica em segundo plano, e uma disposição mais suave, com um lugar especial para os psíquicos, está presente.
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O diabo como arquivilão também recua, sugerindo um desenvolvimento gradual dessas ideias.
ESTRUTURA TRIPARTIDA E A OGDOADE
O sistema se desenrola em três níveis não materiais, começando com a Causa Primeira (Bythos) e o Silêncio (Sige), dos quais emanam pares sucessivos de éons.
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Tudo ocorre em três níveis não materiais, de acordo com o tema triádico.
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O relato de Irineu começa com Bythos (Causa Primeira) e Sige (Silêncio).
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Bythos produz, através de Sige, o par Noûs (Inteligência) e Verdade, que formam uma única substância masculino-feminina.
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Noûs, sozinho, compreende Bythos e é a faculdade central do gnóstico, não o intelecto filosófico.
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Noûs produz Logos (Palavra) e Zoé (Vida), que por sua vez produzem Homem e Igreja.
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Essas duas Tétrades formam a Ogdóade, com nomes que avançam de causa para efeito, ecoando o Prólogo de João.
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Logos e Vida produzem dez éons, e Homem e Igreja produzem doze éons, cujos nomes femininos sugerem união ou virtudes cristãs.
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A “formação segundo a substância” é dada aos éons, mas a “formação segundo o conhecimento” não, conforme a vontade do Pai.
A QUEDA DE SOFIA E A ORIGEM DO MUNDO
Sofia, o último éon, deseja conhecer o Pai, uma empreitada impossível que desencadeia o processo de criação do mundo a partir da ignorância.
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O desejo de Sofia de conhecer o Pai é uma tarefa impossível que condena o anseio de conhecer Deus presente na filosofia grega.
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Através de Horos (Limite), ela é afastada de seu projeto insensato e convencida de que o Pai é incompreensível.
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Sofia abandona sua ideia e a paixão que a acompanhava, permanecendo dentro do Pleroma.
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O propósito de Sofia, junto com a paixão, é a causa última da origem do mundo, pois a ignorância sobre Deus leva ao desejo de conhecê-Lo.
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Após a libertação de Sofia, Noûs (o Unigênito) produz outro par: Cristo e o Espírito Santo.
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A “formação segundo o conhecimento” é então concedida a todos, e todos se tornam iguais no conhecimento.
ACHAMOTH E A FORMAÇÃO DO DEMIURGO
O “pensamento” ou propósito de Sofia, chamado Achamoth, é expulso do Pleroma e, após interações com Cristo e o Salvador, dá origem ao Demiurgo.
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O propósito de Sofia é separado dela e lançado fora do Pleroma, sendo informe por ter nascido apenas do feminino.
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Cristo e o Espírito Santo se estendem sobre o Pleroma, dando-lhe a “formação segundo a substância”.
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O propósito ou pensamento, agora chamado Achamoth (do hebraico Chokhmah, Sabedoria), torna-se uma substância independente.
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Cristo e o Espírito Santo retraem-se, e Achamoth, consciente disso, cai em sofrimentos (tristeza, medo, angústia) na ignorância.
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O anseio por Cristo a impele em direção ao Pleroma, mas ela não pode entrar devido ao “Limite”.
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O Salvador transforma as paixões separadas em matéria incorpórea, criando, em princípio, tudo.
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A partir da “conversão” de Achamoth, ela forma o Demiurgo, que por sua vez dá forma a tudo o mais, sem saber que age conforme os desejos de Achamoth.
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O Demiurgo cria os reinos da direita (psíquico) e da esquerda (hílico), bem como o homem, e depois faz corpos da matéria incorpórea, colocando no homem a “túnica de pele” (carne tangível).
AS TRÊS CLASSES DE HUMANIDADE E O DESTINO DO ESPIRITUAL
Existem três classes de homens (hílico, psíquico e pneumático), com naturezas e destinos distintos, sendo o espiritual salvo por natureza.
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Achamoth insere algo espiritual em alguns homens, invisivelmente, sem o conhecimento do Demiurgo.
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As três classes são: hílica (matéria e carne, perecem por natureza), psíquica (possuem alma e livre-arbítrio) e pneumática (espiritual, não pode perecer e está destinada ao Pleroma).
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O psíquico tem livre-arbítrio e pode voltar-se para a paixão (perece) ou para o “melhor” (junta-se ao Demiurgo).
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O espiritual é “jungido” ao psíquico na terra para ser treinado em conduta, adquirindo assim a “formação segundo o conhecimento”.
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A luta com as paixões que o psíquico, em conjunto com o espiritual, empreende, visa à conversão ao Redentor.
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O espiritual entra no Pleroma em qualquer caso, pois é espiritual por natureza.
A COMPOSIÇÃO DO SALVADOR
O Salvador é composto por quatro ingredientes: espiritual, psíquico, um corpo preparado artisticamente e o próprio Salvador.
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O Salvador é composto por quatro partes: ele mesmo como “Salvador”, a parte espiritual vinda da mãe Achamoth, o Cristo psíquico vindo do Demiurgo, e um corpo visível, tangível e capaz de sofrer.
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A parte passível (o corpo) morreu na cruz e será ressuscitada por um raio do poder de Jesus, após ele ter destruído a morte.
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Há várias visões especulativas sobre a “salvação” do espiritual: Jesus salvaria o que assumiu; o espiritual é como medula nos ossos do psíquico; o espiritual precisa da “formação segundo o conhecimento”.
O DESTINO FINAL DOS PSÍQUICOS E PNEUMÁTICOS
No fim dos tempos, os psíquicos salvos acompanham os pneumáticos até a Ogdóade, onde a mãe Achamoth está, antes da entrada final no Pleroma.
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Os psíquicos salvos acompanham os pneumáticos até a Ogdóade (a Oitava), a esfera acima dos planetas onde está Achamoth.
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Os pneumáticos têm as almas como vestes e, no fim do mundo, as despirão para entrar no Pleroma com Achamoth.
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O mundo visível é consumido pelo fogo da ignorância, que se extingue simultaneamente.
O PAPEL DO DEMIURGO
O Demiurgo ocupa uma posição intermediária como criador do mundo, desconhecendo as realidades superiores e obtendo uma salvação fora do Pleroma.
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O Demiurgo (e seus anjos) é o criador do mundo, posição comum no gnosticismo.
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Sua posição intermediária é notável: ele cria a “Esquerda e a Direita”, embora na verdade seja Achamoth quem age secretamente.
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O Demiurgo nada sabe sobre as verdadeiras causas, o que é consistente para que o mundo seja considerado mau e condenado à destruição.
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Ele e os psíquicos obtêm uma “salvação”, mas fora do Pleroma, na Ogdóade (o “Meio”), embora no final não haja mais um “Meio”.
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A atitude anticósmica dos gnósticos é moderada: o Demiurgo controla tudo no mundo com cuidado para com a comunidade (igreja) dos gnósticos.
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Como mostra a carta de Ptolemeu a Flora, não se representa um libertinismo ou ascetismo fortemente acentuado, visando acomodação ao cristianismo mainstream.
