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ASCENSÃO DE ISAÍAS
Simone Pétrement. A Separate God: The Christian Origins of Gnosticism. San Francisco: Harper, 1984.
Sobre a “Ascensão de Isaías”
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A obra chamada Ascensão de Isaías, aproximadamente contemporânea de Menandro, pode lançar luz sobre o que foi a doutrina deste e sobre a identidade dos hereges combatidos por Inácio de Antioquia.
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A Ascensão de Isaías é formada de duas partes principais: a primeira (capítulos I-V) relata o martírio de Isaías e pode ser uma obra judaica com interpolações cristãs; a segunda (capítulos VI-XI) é quase inteiramente cristã e relata como Isaías, tomado por uma visão, deixou seu corpo e, conduzido por um anjo ao sétimo céu, recebeu uma revelação da descida futura do Filho de Deus à terra.
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A interpolação mais longa da primeira parte (III, 13 — V, 1) contém uma predição da vinda de Cristo, sua morte e ressurreição, o declínio da Igreja, a vinda do Anticristo e o retorno glorioso de Cristo com a ressurreição geral e o Juízo Final.
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A passagem XI, 2-22 sobre a vida terrena de Cristo é frequentemente considerada uma interpolação de autor diferente do de VI, 1 — XI, 1 e XI, 23-40, mas possivelmente o mesmo da interpolação longa da primeira parte.
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R. H. Charles — estudioso que situa a parte III, 13 — V, 1 entre os anos 88 e 100, e a parte VI, 1 — XI, 40 no fim do primeiro século (The Ascension of Isaiah, Londres, 1900).
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J. Daniélou — estudioso que data toda a Ascensão de Isaías entre cerca de 80 e 90 (Theology of Jewish Christianity, p. 13).
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J. Flemming e H. Duensing — estudiosos que situam a “Visão de Isaías” possivelmente no segundo século (in Hennecke-Schneemelcher, New Testament Apocrypha, vol. 2, Londres, 1965, p. 643).
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Os editores da Epístola Apócrifa de Tiago (Epistula Jacobi apocrypha, Zurique, 1968, p. 40) datam a Ascensão de Isaías entre 80 e 100.
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Uma via intermediária permite situar as partes cristãs entre cerca de 90 e 110.
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As partes cristãs da Ascensão de Isaías não são propriamente gnósticas, embora a obra tenha sido usada por certas seitas gnósticas, e o único modo pelo qual ela se afasta claramente do cristianismo ordinário é uma forte tendência ao docetismo.
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Traços de gnosticização encontrados na obra: o termo “estrangeiro” aplicado ao mundo (VI, 9), ao corpo (VIII, 14) e aos habitantes da terra (IX, 1); atitude anticósmica forte (IV, 18; VIII, 23-24; X, 12); a ideia de um Poder maligno que governa o firmamento (VII, 9); oposição entre anjos do mundo e anjos do sétimo céu (VI, 13); a ideia de que Cristo permaneceu 545 dias na terra após a ressurreição — ideia encontrada nos valentinianos (Ireneu, I, 3, 2) e nos “Ofitas” (Ireneu, I, 30, 14).
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Os anjos do mundo já falam, ou quase, as palavras que o Demiurgo gnóstico pronunciará: “Nós sozinhos, e além de nós ninguém” (X, 13); e o Príncipe desta era, tornando-se Anticristo, dirá: “Sou eu o Senhor, e antes de mim não havia ninguém” (IV, 6).
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A afirmação de que o nome do Deus do sétimo céu “não foi enviado ao mundo” (I, 7) pode relacionar-se mais com a ideia gnóstica do “Deus desconhecido” do que com a ideia banal da incognoscibilidade divina ou com a proibição judaica de pronunciar o nome de Yahweh.
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A distinção entre Deus e o Demiurgo não é realmente encontrada nesses textos; o verdadeiro Deus que reina no sétimo céu é aparentemente ainda o Deus dos sete dias, o da Criação.
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O autor da “Visão de Isaías” parece claramente docetista ao dizer do Salvador em IX, 13: “dir-se-ia que é carne e sangue”; e em XI, 17 diz-se sobre a infância de Cristo em Nazaré: “Vi que ele mamava como uma criança, como era costume, para que não fosse reconhecido” — o que pode significar que ele não era verdadeiramente uma criança.
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A tradução latina e a eslava de XI, 1 podem interpretar a profecia de Daniel em sentido docetista: Et vidi similem filii hominis et cum hominibus habitare — “Vi alguém semelhante ao filho do homem e habitando com os homens.”
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A transformação de Cristo em homem parece concebida como análoga às suas transformações em anjos durante a descida pelos céus; a humanidade de Cristo parece ser apenas uma aparência destinada a ocultá-lo.
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A Ascensão de Isaías pode iluminar os indícios que se encontram em Inácio de Antioquia sobre uma heresia que era talvez um proto-gnosticismo, e a obra permite responder se os adversários de Inácio eram de um ou dois tipos distintos, pois nela se encontram tanto a tendência docetista quanto a fábula judaica.
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A ideia de que a humanidade de Jesus era simplesmente um véu para ocultá-lo é talvez equivalente a pensar que ele apenas pareceu sofrer; ou foi o próprio Inácio quem atribuiu essa afirmação a seus adversários por ser uma consequência de sua tendência ao docetismo.
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A Ascensão de Isaías poderia ter derivado de um meio predominantemente paulino, desenvolvendo a ideia paulina de que a crucificação de Cristo resultou na salvação dos que têm fé nele, e que não teria ocorrido se os Poderes o tivessem reconhecido como Senhor da glória.
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Dillman — estudioso citado por Tisserant (p. 48 de sua tradução) que aponta as fontes paulinas do autor da “Visão de Isaías”: 1 Pedro 1,10-12; 1 Coríntios 15,47; Efésios 1,21; Colossenses 2,15.
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Primeira Carta aos Coríntios 2,6-8 — “uma sabedoria secreta e oculta de Deus… que nenhum dos príncipes desta era compreendeu, pois se tivessem compreendido não teriam crucificado o Senhor da glória” — passagem considerada a mais fundamental para o tema central da Ascensão.
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A doutrina de salvação na obra é paulina: salva-se pela fé e pela fé na cruz (III, 18; IX, 26), sem nenhuma relação com o judeo-cristianismo.
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Há também indícios de influência joanina: a expressão “o príncipe do mundo” pode vir de João; a expressão “o Filho Único” (VII, 37; versão eslava VIII, 7 e 25; versão latina VII, 25) parece derivar de João 1,14 — “o Monogenes”; e a frase “eles não sabiam de onde ele vinha” (XI, 14) pode ser inspirada por um dos temas fundamentais do Quarto Evangelho.
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O tema central da Ascensão de Isaías — a descida oculta de Cristo — guarda uma semelhança marcante com o mito atribuído a Simão Mago sobre a descida do Salvador, o que sugere que esse tema pode ser de origem simoniana e não judeo-cristã.
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Ireneu, Adversus Haereses I, 23, 3; Tertuliano, De Anima 34; Epifânio, Panarion XXI, 2 e 6 — fontes que atribuem a Simão Mago o tema da descida disfarçada do Salvador.
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Belkira — figura diabólica descrita como nascida na Samaria na primeira parte da Ascensão; mas essa parte é considerada pela maioria dos críticos uma obra puramente judaica, distinta das partes cristãs em autoria e tempo.
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Não é impossível que um samaritano, ou membro de uma escola de origem samaritana, tenha aceito uma lenda em que um compatriota seu, supostamente vivido no tempo de Ezequias ou Manassés, fosse retratado como ímpio — pois ao adotar o cristianismo, Simão e sua escola se separaram da religião samaritana.
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Se a Ascensão de Isaías é de origem simoniana, isso confirmaria que nem Simão nem Menandro eram gnósticos propriamente ditos, que somente no tempo de Menandro se encontram tendências de gnosticização e docetismo, e que Ireneu está provavelmente enganado ao retratar os anjos simonianos e menandrinos como criadores do mundo.
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Na Ascensão de Isaías há ao menos um profeta honrado — Isaías —, o que contradiz a ideia de que Simão teria rejeitado totalmente o Antigo Testamento.
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As influências paulinas e possivelmente joaninas, além do conhecimento dos Evangelhos Sinóticos e da teologia trinitária, mostram que as partes cristãs da Ascensão não podem remontar ao próprio Simão; se seus autores são simonianos, devem ser da época de Menandro.
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As ideias encontradas na Ascensão de Isaías não constituem um gnosticismo judeo-cristão; o contexto é uma lenda judaica, mas as ideias são paulinas, e o objetivo dos autores é divinizar Cristo o máximo possível — daí a tendência ao docetismo — e colocar a maior distância possível entre Deus e o mundo.
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Os autores da Ascensão são paulinistas que misturam seu paulinismo com tradições dos Evangelhos Sinóticos, especialmente Mateus, e são talvez também influenciados pelo Quarto Evangelho — o que os aproxima muito de Inácio, mesmo que fossem precisamente os adversários por ele combatidos.
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A Ascensão de Isaías fala de um julgamento e de uma ressurreição futuros (IV, 18) e de uma futura bem-aventurança celeste (XI, 40), mas para seus autores o corpo não ressuscitará, pois os santos “deixarão sua carne neste mundo” e receberão outra “vestimenta” (IV, 16-17; XI, 40) — o que evoca a desvalorização do corpo apontada em Menandro.
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A ideia atribuída a Menandro — a de que os batizados já ressuscitaram e não morrerão — não se encontra na Ascensão; tampouco se encontra o tema do “Pensamento” de Deus, a Ennoia, que Menandro parece ter compartilhado com Simão.
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A paixão com que Inácio combate o docetismo pode parecer desproporcional diante de um docetismo tão pouco marcado como o da Ascensão de Isaías, mas Inácio tinha provavelmente mais de uma razão para ser hostil a seus adversários, pois sua preocupação central é a unidade da Igreja organizada em torno dos bispos.
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A Ascensão de Isaías contém críticas severas a “presbíteros iníquos” e “ministros que oprimem seu rebanho,” acusados de amar o ouro e a glória do mundo, de serem difamadores e invejosos (III, 21-31) — o que sugere que a obra provém de um grupo em oposição à organização eclesiástica, possivelmente a comunidade simoniana, que desde a rejeição da proposta de Simão permaneceu separada da comunhão das igrejas.
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As igrejas são às vezes tão severas com o cisma quanto com a heresia, e quando havia cisma, suspeitas de heresia frequentemente se seguiam.
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