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Kuntzmann & Dubois

KUNTZMANN, Raymond; DUBOIS, Jean-Daniel. Nag Hammadi, Evangelio según Thomás: textos gnosticos de los orígines del cristianismo. 2a. ed ed. Estella, Navarra: Editorial Verbo Divino, 1998.

Este tratado chegou ao nosso conhecimento depois de quatro recensões, duas mais longas (Códice II,1 e IV,1) e duas mais curtas (III,1 e BG,2). Aparentemente, trata-se de revelação fictícia de Cristo ressuscitado a João, filho de Zebedeu. Mas, em profundidade, é descrição das origens do mundo, da queda e da salvação do homem, respondendo a duas questões típicas dos gnósticos: 1) Qual é a origem do mal no mundo? 2) Como é que o homem pode escapar desse mal e voltar à pátria celeste?

Para responder a essas interrogações, o autor relê os primeiros capítulos de Gênesis em perspectiva gnóstica e antijudaica. A estrutura da divindade tem em seu ponto culminante o Ser sem misturas, apresentado segundo fraseologia característica (p. 2,33-3,17):

Como ele é o Espírito invisível, não convém pensá-lo como deus ou de qualquer outro modo, pois ele está além de deus, já que ninguém está acima dele e que ele não é dominado por ninguém, não havendo nele nada de inferior porque o melhor está nele, sendo ele o único absolutamente perfeito porque ele não tem necessidade de nada, já que todo ele é perfeição, não carecendo de nada que pudesse torná-lo mais perfeito. Ele é invariável e absolutamente perfeito na luz: incircunscritível, porque ninguém o precede para circunscrevê-lo; indistinto, porque ninguém o precede para impor-lhe uma distinção; incomensurável, pelo fato de que ninguém o precede para medi-lo; invisível, porque ninguém o vê; eterno, porque sempre existente; inexprimível, porque ninguém pode captá-lo para o expressar; inominável, porque ninguém o precede para nomeá-lo.

É desse ser que derivam as entidades luminosas, que são qualidades personificadas, entre as quais Cristo e Sofia, a Sabedoria. Pode-se constatar que se trata de sistema emanacionista complicado, com base na etimologia dos nomes divinos. No estado atual das pesquisas, grande parte desse simbolismo ainda nos escapa, mas o sistema visa basicamente a ilustrar a derivação divina do homem e sua capacidade de voltar ao mundo transcendente após o seu périplo terrestre.

A origem do mal no mundo é debitada à inconsciência de Sofia, que põe no mundo o monstruoso deus Ialdabaôth (de yâlad, gerar, e sabaoth, forças) sem o consentimento de seu esposo, o Grande Espírito (p. 9,25-10,19):

A Sabedoria, que é Eão, reflete por seu próprio pensamento e pela reflexão do Espírito invisível e da presciência. Ela desejava tornar manifesto aquilo que se parecia com o que ela pensava, sem esperar pela vontade do Espírito — que não estava de acordo — nem por sua concordância e aprovação. Devido ao desacordo da pessoa de seu parceiro, ela não encontra sua anuência (e, enquanto solicitava consentimento), fora da vontade do Espírito e do reconhecimento de seu cônjuge, então operou-se a saída.

Presa da força irresistível que existe nela, seu pensamento não permaneceu improdutivo e (foi então que) apareceu, vindo dela, um produto incompleto e discordante, porque ela o havia criado sem seu cônjuge. Ele não se parecia em nada com o aspecto de sua mãe, sendo de forma diferente.

Quando ela (= Sofia) se deu conta de que o objeto de seu desejo havia tomado a forma disparatada de serpente com boca de leão, com os olhos crepitantes e flamejantes de relâmpagos, então afastou-o para longe dela e dos lugares para que nenhum dos imortais pudesse vê-lo, pois ela o havia criado por ignorância. Ela o cerca então de nuvem luminosa e coloca um trono no meio dessa nuvem, de modo a que ninguém o visse, exceto o Espírito Santo, que chamamos Mãe dos Vivos e que lhe dá o nome de Ialdabaôth.

Ialdabaôth torna-se então o verdadeiro demiurgo criador. E põe-se freneticamente em ação, criando as 365 Forças celestes e, finalmente, também o homem, produzido segundo a imagem do Pai perfeito refletido na água. Mais de nove páginas são consagradas à produção dos Arcontes. O homem nasceu de um acidente: a pedido das Forças, Ialdabaôth sopra um pneuma no corpo psíquico que elas fabricaram (p. 19,15-20,9):

Então, ele soprou sobre o rosto (de Adão) o seu sopro, que é a força de sua mãe, o que ele próprio (= Ialdabaôth) não sabia, pois estava na ignorância. E a força da mãe saiu de Ialdabaôth (e) penetrou no corpo psíquico que eles haviam construído segundo a imagem de (Homem) primordial. E o corpo se moveu, cheio de energia e luz.

No mesmo instante, isso provocou o ciúme do resto das forças, pelo fato de que o homem, que, com efeito, havia saído de todas elas e ao qual elas haviam dado sua força, tinha inteligência bem mais penetrante do que a de seus criadores e bem maior do que a do primeiro arconte. Compreendendo que ele era luminoso, tinha mais ideias que elas e se havia despojado do vício, elas então o raptaram e o jogaram nas partes inferiores da imensa matéria.

Mesmo no mundo da matéria mais afastada do mundo espiritual, o homem, radioso da luz do alto, continuará sendo objeto da luta das Forças da luz, desejosas de salvá-lo, e das Forças das trevas, que juraram fazê-lo perder-se. Mas o ciúme destas últimas choca-se com a misericórdia do Pai perfeito. É preciso ler a interpretação gnóstica de Gênesis 2-3 para constatar como o texto bíblico pode ser objeto de um comentário pormenorizado (p. 20,9-22,9):

A bem-aventurada Mãe-Pai, benfeitora e misericordiosa, tomou-se de piedade pela força da mãe, (força) que foi expulsa do primeiro arconte para que pudesse dominar o corpo psíquico e sensível. Então, por meio de seu sopro benfeitor e sua grande misericórdia, enviou uma ajuda a Adão: uma inteligência-luz vinda dele (= o sopro), chamada Vida.

Ei-la que vem em ajuda de toda criatura! Ela tomou para si o seu tormento e a resgatou em sua plenitude, instruindo-a sobre a queda de (sua) deficiência, bem como sobre o caminho da volta, (que é) o caminho por onde ela desceu. E a inteligência-luz estava oculta em Adão (não apenas) para passar despercebida dos arcontes, mas também para (permitir) à inteligência o resgate da deficiência da mãe.

E o homem resplandeceu por causa da partícula de luz que estava nele e seu pensamento era bem mais sublime do que o de todos os seus criadores. A partir do momento em que se inclinaram (para ele), eles perceberam que seu pensamento era sublime. Então, puseram-se de acordo com todo o bando dos arcontes e dos anjos. E pegaram fogo, terra e água, misturaram-nos uns aos outros com os quatro ventos do fogo, amassaram-nos juntos e operaram uma grande fusão.

E eles transformaram Adão em sombra da morte, para proceder a uma remodelagem a partir da terra, da água, do fogo e do sopro, isto é, a partir da matéria, da ignorância da treva, do desejo e de seu espírito disfarçado.

(Eis o laço! Eis) o túmulo da remodelagem do corpo! Eis o que esses bandidos fizeram o homem carregar: o laço do esquecimento! E (é assim que) ele tornou-se homem mortal.

Eis a catábase primordial! Mas eis que a inteligência-luz que estava nele irá despertar seu pensamento!

E os arcontes levaram Adão e o colocaram no paraíso e disseram-lhe: “Come!” (Lentamente). Pois seu alimento é amargo e sua beleza é perversão, sua delícia é engano e suas árvores são iniquidade, seu fruto é veneno incurável e sua promessa é morte. Quanto à árvore da vida, eles a colocaram no meio do paraíso! Eu vou explicar-vos qual é o segredo de sua vida: é o desígnio que eles fomentaram juntos, é a imagem de seu espírito! Sua raiz é amarga e seus ramos são morte; sua sombra é ódio e em sua folhagem está o engano; seu suco é o unguento da perversidade, seu fruto é mortal e sua seiva é a cobiça; ela germina nas trevas. Para aqueles que a provam, o Hades é seu local de estada e a treva é seu local de repouso. Mas aquilo que foi chamado por eles “a árvore do conhecimento do bem e do mal” é a inteligência-luz. (Por meio dela), eles impediram Adão de ver sua plenitude e conhecer a nudez de sua vergonha. Mas eu os incitei a comer!

Assim, as forças lançam Adão no esquecimento de suas origens celestes. E, para garantir maior disseminação e, portanto, enfraquecimento das partículas de luz, elas criam então a mulher, que compromete Adão e o envolve no ciclo das gestações. Essa depreciação da mulher é comum nesses textos, acrescida ainda de desvalorização do Antigo Testamento (p. 23,35-24,29).

Logo que se deu conta de que eles se afastavam de si, Ildabaôth amaldiçoou (sua terra), (acrescentando ainda, a propósito d) a mulher, que seu macho a dominaria, visto que ele (= Aldabaôth) não conhecia o mistério ocorrido por meio do santo decreto. Mas eles (Adão e Eva) temeram censurá-lo e manifestar a seus anjos a ignorância que estava nele. E ele os expulsa do paraíso e os cerca de espessas trevas. E o primeiro ar-conte viu que a virgem se mantinha perto de Adão e que a Inteligência-Luz se havia manifestado nela como vida. E Ial-dabaôth ficou enlouquecido. Mas logo que a pré-noção percebeu (prov.: o que se passava), ela enviou (mensageiros) e eles arrebataram a vida a Eva. O primeiro arconte a enlameou, nela gerando dois filhos, respectivamente Elohim e Iahweh. Elo-him tem face de urso, Iahweh face de gato; um é justo, o outro injusto. Ele estabeleceu Iahweh sobre o fogo e o vento e Elohim sobre a água e a terra. A esses, ele deu o nome de Caim e Abel (como testemunhas) de sua velhacaria. Até hoje, as relações sexuais persistem por causa do primeiro arconte. Ele semeou o desejo genésico naquela que pertence a Adão: através das relações sexuais, suscitou a reprodução da imagem corporal, gerando-os (= os corpos) por seu espírito disfarçado.

O ciclo infernal que constringe a humanidade iria ser rompido pela descida de Cristo, que salva os ascetas que possuem a gnose. Quanto aos outros, conhecerão a reencarnação até o momento em que também possam ser dignos de salvação.

Esse longo texto desenvolve portanto uma teologia da salvação (uma soteriologia): sob a avalanche dos pormenores um pouco folclóricos, como os nomes das entidades emanadas do Pai perfeito, o processo fundamental é o de uma queda irresponsável (não é Adão, mas Sofia que comete o erro) e fatal, pois as forças das trevas passam a tentar afundar o homem em sua ignorância. Mas o texto também promete a salvação por meio de salvador celeste. O homem colabora um pouco com essa salvação adquirindo a gnose e dedicando-se a ascetismo essencialmente sexual e carnal, o que explica a depreciação da mulher.

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