CRIAR
Paul Nothomb — TÚNICAS DE CEGO
VIDE: CRIAR ANIMAIS; CRIAR HOMEM; CRIAR PARA FAZER
Para distinguir notadamente o “criar” Divino, Nothomb sempre que utiliza este Verbo o faz com a primeira letra maiúscula, denotando uma obra exclusiva do Criador, e assim seguindo de perto o sentido do verbo hebreu 'BR do qual só Deus pode ser o sujeito. Mas que quer dizer “Criar”, como já se menciona no RELATO DOS SEIS DIAS na abertura da “Criação”?
Interessante verificar que nas traduções o verbo “criar” neste RELATO é pouco frequente. Diz-se “Deus disse”, “Deus fez” (poiein), “Deus fez crescer”, “Deus criou” é quase uma exceção. Só no primeiro verso, e no vigésimo-primeiro, a tradução fala “criar” enquanto nos demais versículos relatando o desdobramento dos quatro primeiros dos seis “dias” da Criação, não se fala em “criar”, nem a luz, nem o firmamento, nem os astros, nem as plantas, mas que Deus os “fez” (poiein) ou os “fez fazer”, ou, no caso da luz, que sua palavra foi suficiente a suscitá-la (“Deus disse”).
No entanto neste texto capital de toda tradição judaico-cristã, onde nenhuma palavra nem seu lugar no texto são escolhidos ao acaso, o verbo traduzido por “criar” (como se tratasse de “criar um modelo”) não é sinônimo de “fazer” nem de “fazer fazer” nem exprime a realização, a passagem ao ato do programa que Deus se fixou para cada um destes “dias” simbólicos, anunciando cada vez suas intenções.
Precisemos que o hebreu, longe de temer como os ocidentais o efeito da repetição, não hesita jamais em empregar nas sequências sucessivas o mesmo termo, se é este que convém. A raridade das ocorrências no relato dito da Criação do verbo hebreu traduzido por “criar” (onde, a parte o título e a conclusão, não aparece senão no princípio do quinto dia e no final do sexto) mostra que não convém para designar não importa que obra do Deus Criador, mesmo a luz. A nossa noção “artística” de “criar”, mesmo com Deus por sujeito, a nossa concepção de inventar do novo, mesmo retirado do nada (o ex nihilo dos teólogos) “Criar” adiciona manifestamente algo de particular, que a parcimônia de seus empregos nos permite a princípio de cernir, até de definir sem muita dificuldade, por pouco que prestemos atenção.
O Criar da sequência inicial concerne o conjunto do processo que vai descrever o RELATO e não sua primeira etapa, assim como “os céus e a terra” designa o mundo ainda em projeto — trate-se a princípio de um título ou como sugere tsort nsort}}
