Görres
Joseph von Görres (1776-1848)
Como certa vez Herder, os românticos são tomados pelo sentimento de que nadavam numa incrível correnteza do tempo, que vem de longe e leva ao desconhecido. As coisas oscilam, não se pode encontrar nenhum ponto de observação tranquilo do lado de fora; somos história, movimentados por ela. Mas nos poucos anos que sucedem a revolução e as decepções que ela preparou àqueles que dela estavam convictos — Görres também fora jacobino antes de se tornar um admirador do Oriente — a atenção mudara de polo: ouve-se o ruído do passado e não se presta tanta atenção às promessas do futuro. Para a nova consciência da história romântica, o começo abriga a verdade, e uma magia sutil emana daí. Joseph Görres, que com essa postura se torna a figura central do romantismo de Heidelberg por volta de 1807, escreve no posfácio da sua História dos mitos do mundo asiático, utilizada mais tarde assiduamente por Richard Wagner e Friedrich Nietzsche: “Tão rico tenha sido aquele mundo passado, ele submergiu, as ondas passaram por cima dele, aqui e ali ainda apontam as ruínas, e quando o escuro do fundo do tempo clareia, vemos seus tesouros deitados na profundeza. Nós enxergamos de grande distância no precipício fantástico, onde todos os segredos do mundo e da vida descansam […] Eles puxam o olhar para o fundo, os segredos da distância seduzem, mas a correnteza empurra para frente e joga os mergulhadores no presente.”
Quando Görres escreve essas frases embebidas do passado, se passaram apenas dez anos desde que Schelling, Hölderlin e Hegel desenvolveram seu programa revolucionário de uma mitologia da razão. Para eles, a verdade estava no futuro; para Görres, os segredos do mundo estavam guardados na profundeza do passado. Görres buscava um mito da origem. Mas o universalismo humanista nele é tão forte que ele elabora a hipótese a respeito do passado mítico: a história de todos os povos começaria “com a história do mundo, não com a história especial de uma terra”. Na tentativa de esclarecer a origem da história e com isso da cultura humana, Görres compara, seguindo os rastros de Herder, as mitologias do Japão, da China e do norte europeu, cria elos com as tradições gregas, egípcias e indianas e chega à conclusão de que “as primeiras folhas no grande Livro da história do mundo” foram escritas em letras diferentes, mas que contam em toda parte a mesma história; e Görres a conta por sua vez em analogia com o nascimento individual do corpo da mãe. O mito da origem lembraria o despertar gradativo e também doloroso de uma humanidade sonâmbula de uma prisão à natureza ainda cheia de sonhos. O espírito partiu os círculos das forças naturais, saiu da caverna que o protegia, mas em oposição ao período que antecede o nascimento, o próprio círculo ainda não foi concluído. O coração do homem já batia naquele tempo no próprio peito, mas seu “verdadeiro coração” ainda é aquele que bate no universo. O homem primitivo ainda está sob a força da terra, mas quando vai para o espaço aberto e acorda para a consciência, torna-se um ser que cria a caverna artificial da cultura: uma caverna cheia de rastros da memória sobre a sua unidade com o céu e a terra. E só na passagem do mito para a cultura que o universal se rompe e surgem a multiplicidade e a predestinação. Apenas a partir desse momento existe a história de uma terra e seus mitos locais especiais, que porém já estão distantes da verdadeira origem. [Rüdiger Safranski, Romantismo]
