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Coração

Pierre Deghaye — A Doutrina Esotérica de Zinzendorf (1700-1760). Paris: Klincksieck.

XIII. — A LINGUAGEM DO CORAÇÃO

1. Duplo sentido da palavra coração

  • Zinzendorf escolhe, entre os mistérios, noções que pertencem ao plano da simples criatura e as integra em sua pregação pública, tratando-as com a pedagogia própria a esse nível, ou seja, falando a linguagem do coração sem recorrer à razão.
    • A linguagem do coração corresponde a uma opção pedagógica deliberada, distinta do discurso racional.
  • Na doutrina de Zinzendorf, assim como nas tradições místicas, a palavra coração possui duplo sentido — uma acepção superior, análoga ao espírito identificado pelos místicos como parte elevada da alma, e uma acepção comum, ligada à alma sensível.
    • A distinção entre alma sensível e parte espiritual da alma é estrutural na mística.
  • Poiret, editor da teologia mística, esclarece essa ambivalência no prefácio à segunda parte da Teologia do coração, mostrando que coração e alma são uma mesma coisa na teologia mística, e que, assim como na alma se distingue a parte sensível — os bons desígnios, as afeições piedosas, os sentimentos de amor, de alegria e de tristeza pelas coisas divinas — da parte espiritual — o repouso, a paragem final, o aquiescer secreto e quase imperceptível em que a alma se coloca acima de tudo o que sente —, é necessário distinguir igualmente essas duas partes no coração, sob pena de confusão que seria fonte de mil males.
    • Pierre Poiret é o editor identificado como autor do prefácio citado.
    • A obra referida é a Teologia do coração, segunda edição, Colônia, 1697.
    • Trecho traduzido: “O coração e a alma na Teologia mística são uma mesma coisa. E assim, como na alma se distingue a parte sensível, que são os bons desígnios, as afeições piedosas, os sentimentos de amor, de alegria, de tristeza pelas coisas divinas ou pela sua privação, da parte espiritual, que é o repouso, a paragem final, o aquiescer secreto e quase imperceptível em que a alma se coloca acima e muitas vezes ao encontro de tudo o que sente — é necessário igualmente distinguir no coração essas duas partes, cuja confusão nos tornaria fonte de mil males se tomássemos uma pela outra.”
  • Para distinguir as duas partes, convencionou-se chamar a primeira simplesmente de alma — ou parte inferior, e até mesmo coração num sentido particular —, ao passo que a segunda, em sentido mais elevado, recebe quase sempre o nome de espírito, como o faz são Paulo ao desejar aos Tessalonicenses que Deus os conserve em pureza de espírito, alma e corpo, e ao dizer aos Hebreus que a palavra e a virtude viva de Deus, penetrando e agindo interiormente, separa a alma do espírito.
    • Referência bíblica: 2 Tessalonicenses 5, 23 e Hebreus 4, 12.
    • Os escolásticos e Lutero, que zombava de Orígenes por essa distinção lhe ser familiar, não a compreenderam; os místicos iluminados fazem dela o fundamento principal da vida espiritual.
    • Orígenes é mencionado como referência da tradição tripartite alma-espírito-corpo.
  • Zinzendorf segue os místicos nesse ponto, pois a tripartição é fundamental em sua doutrina, podendo ser tomada de empréstimo tanto a Orígenes quanto a toda a tradição mística, distinguindo entre o coração de pedra e o coração de carne, que, segundo Ezequiel, é sinônimo de espírito novo.
    • Referência bíblica: Ezequiel 36, 26.
    • Marguerite Harl é mencionada como autora de estudo sobre Orígenes e a função reveladora do Verbo encarnado, Patristica Sorboniensia II, Paris, Seuil, 1958, pp. 116-117.

2. Herzbegriff e Herzwahrheit — Os graus da fé

  • Zinzendorf estabelece uma distinção sutil entre Herzbegriff e Herzwahrheit, em que não apenas o termo Begriff, tomado no sentido comum, se opõe a Wahrheit — a verdade no sentido mais elevado —, mas também a palavra coração não é entendida da mesma maneira nos dois compostos.
    • Herzbegriff designa a ideia segundo o coração, a concepção cordial no nível elementar.
    • Herzwahrheit designa a verdade do coração no sentido mais elevado, espiritual.
  • Ao tratar de inculcar a ideia de maternidade divina nos não regenerados, Zinzendorf recomenda afastar toda especulação, deixar de lado as ideias abstratas e os símbolos, e buscar transmitir dessa matéria uma ideia segundo o coração — Herzbegriff —, o que ele chama, nesse nível, de conhecimento vivo, pois o que importa é o efeito produzido sobre o coração.
    • O plano em questão é o da pedagogia prática, voltado ao nível elementar da pregação.
  • O Herzbegriff é definido por Zinzendorf como conhecimento obscuro, intuição no sentido vulgar do termo — não um conhecimento explícito nem uma noção clara, mas um simples sentimento suficiente para fazer estremecer e correr ao encontro de Deus que se aproxima, correspondendo no máximo ao conhecimento dos profetas, os quais, porém, não possuíam a gnose, sendo meros instrumentos.
    • Balaão é citado como prova de que se pode proferir oráculos divinos sem ser regenerado — ele era o vidente dos Números que não soube resistir às ofertas do rei de Moabe para amaldiçoar os israelitas, e Deus colocou um anjo com espada em seu caminho; a jumenta do profeta recusou avançar e, afligida pelos golpes, repreendeu-o por tê-la golpeado.
    • Nesse nível, o coração pode ser o órgão do fanatismo.
  • Quando Zinzendorf rejeita esse nível elementar do coração, opõe-lhe, nesse plano preciso, a letra da Escritura, ao passo que para os espirituais essa letra não basta sem o comentário do Espírito.
    • Referência: GR I, Anhang, p. 18 e LP I, p. 101.
    • Trecho traduzido: “Ainda que esteja na Bíblia e possa ser lido todos os dias, nenhum sentido humano pode acolhê-lo sem o Espírito Santo.”
  • O conhecimento claro não é exigido de todos — Zinzendorf fala de uma fé implícita, suficiente ao comum dos mortais para assegurar sua salvação, nos mesmos termos com que definia Herzbegriff: é a fé do coração expressa pelo sentimento tomado no sentido vulgar, nascida do simples clamor de angústia da criatura, que está na base das religiões e na fé amorosa dos que foram despertados, pois Deus não exige de todos senão a fé nascida da angústia humana — uma fé elementar.
    • Referência: NLR, pp. 62-63 e 74.
  • Existe também uma outra fé, que traz o conhecimento claro — a fé explícita —, e Zinzendorf reconhece que a fé elementar basta para ganhar a felicidade eterna, mas sublinha que há graus no bem-aventurança que a prefigura, sendo muito maior a felicidade dos eleitos que, desde o simples despertar, se elevaram grau a grau da noção de Criador à da Divindade eterna de Jesus, comunicando sua fé com certeza e evidência, em proposições apodíticas — trata-se de uma fé sábia.
    • As bem-aventuranças de Mateus 5, 3-11 são vistas por Zinzendorf como outros tantos graus que balizam a vida interior.
  • Nesse grau elevado da fé, os Irmãos devem comunicar-se entre si sem ensinar um ao outro no sentido de instruí-lo numa verdade que ainda não possuiria, pois cada um é instruído diretamente pelo Espírito Santo, e em seus intercâmbios os Irmãos fazem frutificar um conhecimento já presente no coração do mais humilde entre eles — nesse nível, a palavra coração assume naturalmente seu sentido mais elevado, designando todo o homem interior, órgão supremo da apreensão mística que engloba todos os sentidos espirituais, pois o regenerado possui sentidos que duplicam sua simples sensibilidade física.
    • Referência: AS, p. 452.
  • Nessa acepção elevada, Zinzendorf não fala mais em Herzbegriff, mas em Herzwahrheit, e quando lamenta a vulgarização das verdades supremas — isto é, dos mistérios —, exprime-se assim: “Katolisierung tieferer und vom Heiligen Geiste sich vorbehaltener Herzwahrheiten” — “Catolização de verdades mais profundas do coração, reservadas pelo Espírito Santo.”
    • Referência: 32 H, 19 de dezembro de 1745, p. 11.
  • Seguindo os graus da fé, distinguem-se três teologias: a teologia do mundo inspira-se na situação de angústia da criatura e corresponde à fé infeliz — Noth-Glaube; a teologia dos discípulos situa-se no plano do despertar, tendo como alimento o leite dado às crianças e correspondendo à fé amorosa — verliebter Glaube; e a teologia dos verdadeiros doutores situa-se no plano da fé explícita.

3. Valor do sentimento

  • A doutrina de Zinzendorf não se reduz nem à teologia do mundo nem à das crianças, pois seu anti-intelectualismo, como o de toda a mística, não é tão simples quanto se poderia pensar — a teologia sentimental representa para ele apenas um grau inferior da fé, sendo o sentimento o motor de sua pregação somente no nível elementar da evangelização.
    • Bettermann é mencionado como quem afirma que Zinzendorf introduziu o sentimento na teologia como princípio de conhecimento — mas apenas nesse plano elementar.
    • Trecho traduzido de Bettermann: “Se vejo bem, Zinzendorf foi o primeiro a introduzir o sentimento como princípio de conhecimento na teologia.”
    • Nessa perspectiva, Zinzendorf é filho de seu século, e sua sentimentalidade fará fortuna — mas se assim aparece, não é pelo fundo de sua doutrina, e sim por uma espécie de alienação.
  • No plano mais elevado, Zinzendorf fala de sentidos espirituais, o que não deve ser atribuído ao Aufklärung como doutrina dos sentidos espirituais, pois ela é tão antiga quanto a própria mística.
    • Max Wieser é mencionado como autor que tendeu a explicar a mística pelo Aufklärung, quando seu propósito inicial era sem dúvida mostrar o que este devia àquela.
  • A palavra Gefühl, assim como a palavra Herz, possui duplo sentido — ora designa um modo de apreensão inferior, ora o sentido espiritual, sendo no grau inferior que o sentimento se relaciona à sensação ou ao sentimental.
  • Zinzendorf não era um sentimental — atribuía a si mesmo uma forma de pensamento muito abstrato, descrevendo-se como passando tão rapidamente de uma ideia a outra que não resta mais lugar para as imagens; não rejeita o sentimento e admite ser capaz de a ele ceder, mas afirma que em si a sensibilidade nunca domina e que em nenhum momento se compraz nela.
  • Se Zinzendorf não rejeita o sentimento, é porque nele vê um meio — a pregação sentimental é uma maneira, um “tropo”, de que a Providência divina se serve como meio pedagógico em seu trato com o coração tomado em sua acepção inferior especificada, designada no autorretrato que traça de si mesmo pela palavra Gemüth.
    • Referência: NR, p. 4 e Mos III, p. 1350.
    • Trecho traduzido de Mos III: “O Gemüth é a parte mais exterior da alma, onde se alojam as coisas que ocorrem no dia a dia.”
  • É quando a palavra Empfindung se entende em sua acepção propriamente espiritual que Zinzendorf a reivindica para si, por mais modesta que seja.
    • Referência: NR, p. 4.
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