PÁSCOA E CORDEIRO
tradução de Antonio Carneiro
O Prólogo do Evangelho de João finaliza pelo testemunho de João-Batista acerca de um ser (“ho on”) de luz cujo nome não fornece, mas que o qualifica de Filho único (monogènès ) e de Deus.
Logo após é o testemunho de João-Batista acerca dele mesmo, seguido de outro, o dia seguinte:
« No dia seguinte, vê Jesus vindo em direção a ele e diz: Eis o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo » (1, 29).
« No dia seguinte, de novo, João se encaminhava para lá assim como seus discípulos e vendo Jesus que passava, disse: « Eis o Cordeiro de Deus » (1, 35).
Em um contexto semítico essas palavras têm uma ressonância particular:
— O testemunho: a palavra hebraica que o exprime se liga à várias raízes vizinhas entre elas e que se reúnem na ideia de qualidade ou de multiplicidade centrada sobre a unidade . “Galaad” é o montão de pedras do testemunho que distingue (e une) os territórios de Labão e de Jacó. A arca do testemunho (Êxodo 25, 22) é a arca da aliança (Js. 3,6), aliança do Céu e da Terra, e ela é Chamada assim porque contém, o Testemunho: as Tábuas da Lei que são duplas unindo o amor de Deus àquele do próximo.
— « No dia seguinte », hebreu “mimaharat” é o que une um dia ao « outro » (hebreu “aher”) através da noite, o que torna a unidade do dia composta de um entardecer e da manhã que lhe sucede.
O texto bíblico mais significativo é o Lev. 23, 16: « Até (“’ad”) no dia seguinte do 7° Sabath », isto é o dia de Pentecoste que une entre ele duas semanas de semanas e que é o dia da aparição divina.
— Enquanto que João está imóvel, Jesus « vinha », « passava ». Esses termos evocam as passagens de Deus na BÍBLIA: aquela do jardim do Éden, a passagem de Deus na noite do Êxodo (Ex. 12,12 e 11, 14) e visto que a cena tem lugar no Jordão, « a passagem de Deus como fogo voraz » para permitir aos Hebreus entrar em Terra Santa. (Dt. 9, 3).
— Enfim o « cordeiro »:
Todo o relato da morte de Jesus no Evangelho de João é uma alusão ao cordeiro pascal. Ao contrário dos outros Evangelistas ele situa a morte de Jesus no momento quando, no Templo, os cordeiros eram imolados para Páscoa. É o único à falar do hissopo para a esponja molhada estendida à Jesus sobre a cruz, o hissopo sendo especificado no Êxodo (12, 22 ) como o que servia à impregnar do sangue do cordeiro. É também o único à precisar que nenhum dos ossos de Jesus devia ser quebrado e fornece a referência ao Êxodo 12,46.
Se, no momento quando Jesus vai cessar de viver, é identificado ao cordeiro pascal, o mesmo acontece no dia de sua primeira aparição no Evangelho de João. É uma « inclusão », a repetição da mesma imagem no começo e no fim da história. E se é dito que o cordeiro tira o pecado do mundo, é porque, no cristianismo, é a morte de Jesus que libera do pecado.
Do mesmo modo, no testemunho de João-Batista no início do Evangelho, corresponde ao testemunho do outro João, o Evangelista no fim: (João 19, 35 e o último versículo do Evangelho).
Se João o Evangelista é testemunho da Páscoa de Jesus, à sua imolação, João-Batista, segundo os Evangelistas, representa Elias, aquele que deve vir em dia de “Pessa'h” (« Páscoa ») na tradição judaica para introduzir o Messias. É por isso que no Seder , no ritual da Páscoa judaica, um copo de vinho permanece cheio destinado à Elias.
