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SOPHIA
Jacob Boehme, Mysterium Magnum. Tr. N. Berdiaeff. Paris: Aubier, 1945.
Estudos sobre Jacob Boehme (2) por Nicolas Berdiaeff
B. — A doutrina da Sophia e do Andrógino. Jacob Boehme e as correntes sofiológicas russas
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A doutrina de Boehme sobre a Sophia é considerada a mais notável e a primeira na história do pensamento cristão, sendo uma intuição perfeitamente original.
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A Sophia é descrita como pura, virgem, casta e integral, sendo a imagem e semelhança de Deus no homem.
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A doutrina da Sophia está inseparavelmente ligada à do Andrógino, que representa a integridade inicial do homem.
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A queda do homem é a perda da Virgem-Sophia, que sobe aos céus, enquanto Eva, a feminilidade, aparece na terra.
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A teoria andrógina de Boehme conecta-se ao Banquete de Platão e à Cabala, mas distingue-se por ser uma doutrina da Virgem e da virgindade.
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Em citação direta de Boehme, Adão, primitivamente andrógino, perdeu sua Virgem pelo pecado original e obteve a mulher.
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A alma era virgem e o homem foi criado com uma alma virgem e íntegra, possuindo um elemento celeste e divino, a Sophia-Virgem.
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A aparição do homem-andrógino e do homem terreno sexuado são fases diferentes do processo antropogônico, havendo uma catástrofe entre elas.
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A virgindade do homem significa a união das naturezas masculina e feminina, não seu isolamento, sendo a imagem de Deus a “virgem masculina”, nem mulher nem homem.
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A ciência moderna confirma a bissexualidade da natureza humana, e a personalidade é construída pela conjunção dos princípios masculino (antropológico e criador) e feminino (cósmico e gerador).
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O sentido místico do amor é a busca da imagem andrógina e da integridade, que é inacessível nos limites da organização psicofísica atual.
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As teologias que negam a doutrina do andrógino também negam o Homem Celeste (Adão-Cadmon), apegando-se a uma antropologia veterotestamentária.
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Boehme afirmava a androginia de Cristo, ensinando que Deus se tornou plenamente pessoal na Segunda hipóstase, sendo Cristo a imagem da personalidade perfeita, virgem-adolescente.
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Cristo é visto como um andrógino porque nele a natureza humana atingiu novamente a perfeição da imagem de Deus, unindo o masculino e o feminino.
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A doutrina da Sofia e da imagem andrógina é fundamental para Boehme, representando a intuição da luz, assim como a Ungrund representa a intuição das trevas.
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I
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Boehme sentia profundamente que a essência do cristianismo depende do nascimento de Cristo da Virgem e do Espírito Santo, distinguindo-se do protestantismo recente.
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Ao ouvir a palavra “Idea”, Boehme exclamou ver a pura Virgem Celeste, o que era a intuição da Sophia.
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Em citação direta, Boehme afirma que Deus se fez homem na virgindade e que a Virgem pura precisava aparecer na linhagem de Adão e Eva para Deus entrar no mundo.
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A mariologia concretiza a sofologia de Boehme: após a queda, a Virgem-Sophia afasta-se para o Céu, e a Virgem-Sophia retorna à terra na Mãe de Deus, Maria.
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A mariologia de Boehme contém fortes elementos católicos, aproximando-se do dogma da Imaculada Conceição, com a descida da Sophia sobre Maria sendo uma ação do Espírito Santo.
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Em Boehme, o culto à Virgem é o culto da Sophia, da Sabedoria Divina, que é a Virgem Celeste eterna, não se tratando de um culto ao “eterno feminino” de Eva.
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A sofologia de Boehme não está ligada ao sexo gerador, pois apenas o nascimento da Virgem e do Espírito Santo é santo e salvador.
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Boehme é um dos raros pensadores a compreender a profundidade metafísica do sexo, ligando sua doutrina da queda e salvação à perda e ao retorno da Virgem Sophia.
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A doutrina da Sophia distingue-se pela pureza celestial, sublimando o sexo sem cair na assexualidade negativa, visando à integridade virginal positiva, ou seja, o sexo divinizado.
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II
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As ideias de Boehme sobre o homem aproximam-se da tradição cabalística (Adão-Cadmon), mas a doutrina da Sophia-Virgem é estranha à Cabala, sendo fruto de suas meditações cristãs.
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Os antigos gnósticos também falaram da Sophia, mas há pouca semelhança entre a Helena de Simão, o Mago, e a Sophia-Virgem de Boehme.
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A gnose mística de Boehme tem um caráter supraconfessional, misturando princípios católicos e ortodoxos orientais, mas mantendo contato imediato com a revelação bíblica.
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A Inglaterra foi a primeira a sofrer sua influência, especialmente em George Fox (quakerismo) e no místico Portedge, que escreveu um livro chamado Sophia.
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Para Portedge, a Sophia é a força renovadora, a energia divina que age como fogo, sendo a Mãe da alma e estando incluída na trinitaridade divina.
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Em citação direta de Portedge, a Sabedoria virgem afirma ser a divindade pura, una com a Santíssima Trindade, e que nada pode criar sem o Pai, o Filho e o Espírito Santo.
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A sofologia de Portedge tem analogias com a do Padre Serge Boulgakof, especialmente ao ligar a doutrina da Sophia à da Santíssima Trindade.
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A influência de Boehme também se fez sentir na França (Saint-Martin) e na Alemanha (Oetinger e, principalmente, Fr. von Baader), além de inspirar o poeta católico Angelus Silesius.
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III
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Na Rússia, a influência de Boehme aparece levemente em Skovoroda e entre os místicos maçônicos do final do século XVIII e início do XIX, embora o compreendessem mal.
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Vladimir Solovief é o iniciador do movimento sofiológico na filosofia religiosa e teologia russa, mas há uma grande diferença entre sua doutrina e a de Boehme.
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A sofologia de Boehme é pura, assexual e ligada à Virgem Maria, enquanto a de Solovief é cósmica, ligada ao culto do “eterno feminino” e à beleza do cosmos.
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Solovief via na beleza feminina um reflexo do mundo divino, como exemplificado por uma citação de São João Clímaco sobre um homem que glorificou a Deus ao ver uma mulher bela.
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A imagem da Sophia em Solovief se desdobrava em aspectos enganadores, sendo por vezes confundida com a tentação cósmica e uma “Aphrodite terrestre”.
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O encontro trágico de Solovief com Anna Schmidt demonstra a ambiguidade de suas buscas sofiológicas, sendo ele repelido pela figura nada atraente da mulher que se dizia a Sophia.
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O tema da Sophia influenciou a poesia russa do início do século XX (A. Block, A. Bély), mas a “Bela Dama” de Block é diferente da Sophia divina, muitas vezes enganadora.
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O sofianismo teológico russo, representado pelo Padre Serge Boulgakov, busca uma doutrina purificada da Sophia, distanciando-se de Solovief e sendo estranho ao de Boehme.
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A corrente sofiológica russa pode enfraquecer a consciência da liberdade e da vocação criadora do homem, ao passo que a doutrina de Boehme é essencialmente antropológica e personalista, não submetendo o homem às potências cósmicas.
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Apesar das confusões terminológicas, Boehme via claramente as trevas, o mal e a luta, assim como a Sabedoria divina e a pureza virginal.
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A teosofia cristã de Boehme se opõe à neutralização do cosmos, concebendo a vida do mundo como símbolo da divindade, onde o tema da Sophia é o da possibilidade da transfiguração do criado.
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A doutrina da Sophia introduz um princípio mediador entre o Criador e a criatura, comunicando a sofianidade (beleza, pureza, integridade) ao criado, contra o dualismo e o deísmo.
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A filosofia alemã (Fichte, Hegel, Schopenhauer) desenvolveu pouco a doutrina da Sophia, preferindo a intuição da vontade obscura e irracional, sendo a doutrina da Sophia uma teosofia, não uma filosofia.
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Os teólogos escolásticos e os doutores da Igreja também não desenvolveram a sofologia, pois seus problemas cosmológicos e antropológicos estavam subordinados à soteriologia.
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O pensamento religioso russo do final do século XIX e início do XX (Boukharef, Dostoiévski, Solovief, V. Rozanof, N. Fedorof) colocou agudamente os problemas da antropologia e cosmologia religiosa, constituindo a “nova consciência religiosa”.
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Boehme é um dos gênios que pressentiram a problemática do mistério da criação divina, e seu ensino da Sophia contém as premissas para uma nova antropologia cristã.
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Embora Boehme não esteja inteiramente livre do naturalismo de sua época, sua pureza moral e direção espiritual fazem com que a acusação de heresia seja secundária, sendo ele visto como um irmão espiritual.
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