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A DIGNIDADE DO CRISTIANISMO — A INDIGNIDADE DOS CRISTÃOS IV

A plenitude da luz é acessível apenas a uma minoria. A natureza humana a acolhe com dificuldade e daí provêm a intolerância, o fanatismo e a crueldade que os cristãos manifestaram frequentemente na história. O homem assimila uma parte da verdade e contenta-se com isso; possui a capacidade de deformar tudo e transforma até a verdade mais absoluta em instrumento de suas paixões. Os apóstolos, que se encontravam próximos ao Mestre divino, iluminados pela luz que emanava de sua pessoa, deformavam também o cristianismo; compreendiam parcialmente, de modo humano em demasia, a verdade de Cristo, adaptando-a às suas ideias israelitas limitadas.

Quando se ataca o cristianismo da Idade Média, quando se censura à fé cristã as fogueiras da Inquisição, o fanatismo, a intolerância e a crueldade, coloca-se o problema de maneira imperfeita. A ofensiva contra o cristianismo medieval, partindo da comprovação de fatos indiscutíveis, mas por vezes exagerados, não é uma ofensiva contra o cristianismo, mas contra os homens, contra os cristãos. Os homens, em última análise, atacam a si mesmos. O princípio teocrático era consequente ao catolicismo da Idade Média, princípio em virtude do qual a Igreja era considerada excessivamente como um Estado. Concedia-se aos papas um poder sobre o mundo. Não é a Igreja Cristã a responsável pela crueldade e pela intolerância medieval, mas a natureza bárbara do homem. O mundo, nessa época, estava inclinado à anarquia, saturado de instintos cruéis e sanguinários. A Igreja tratava de organizá-lo, esforçava-se por suavizá-lo, por cristianizá-lo. Mas nem sempre o conseguiu porque a resistência da natureza humana não esclarecida era demasiado forte. O mundo da Idade Média considerava-se formalmente cristão, mas era, por essência, semicristão e semipagão. A própria hierarquia eclesiástica, em seu conjunto, era pecadora e introduzia na vida da Igreja suas paixões humanas; era ambiciosa e deformava frequentemente a verdade de Cristo. No entanto, o elemento divino na Igreja permanecia intacto e continuava iluminando os homens. A voz evangélica de Cristo seguia ressoando em sua pureza primitiva. Sem a Igreja, sem o cristianismo, o mundo medieval, cruel e sanguinário, teria se afogado em sangue; a cultura espiritual ter-se-ia perdido definitivamente. Porque a antiga cultura grego-romana, naquilo que havia alcançado de mais elevado, foi conservada pela Igreja, que a transmitiu ao mundo moderno. Os únicos sábios, filósofos e intelectuais da Idade Média eram monges. Se foi possível formar o tipo do cavaleiro, no qual se suavizaram e enobreceram a crueldade e a rudeza, foi graças ao cristianismo.

A Igreja Ortodoxa não conheceu a Inquisição, não conheceu semelhantes violências em questões de fé e de consciência; o fanatismo era-lhe alheio. Seu pecado histórico deveu-se à sua excessiva submissão ao poder do Estado. As deformações e os pecados humanos existiam na Igreja Católica e na Igreja Ortodoxa, mas os erros do cristianismo no mundo foram sempre erros dos cristãos; provinham de sua debilidade humana. Se não se vive segundo a verdade, se ela é deformada, não é a verdade que deve ser vituperada, mas os homens.

Os homens exigem liberdade, não querem que se lhes obrigue ao bem. Mas acusam a Deus pelas consequências da liberdade ilimitada que Ele lhes concede.

Quem é, pois, o responsável por estar a vida humana saturada de mal? É o cristianismo, é Cristo?

Cristo nunca ensinou o que se critica, o que se condena no cristianismo; se os homens tivessem seguido seus preceitos, não haveria razão para sublevação no mundo contra a religião cristã.

Há nas obras de Wells um diálogo entre os homens e Deus: os homens queixam-se a Deus de que a vida está cheia de males e de sofrimentos, de guerras e de excessos; queixam-se de que a vida se torna intolerável, e Deus lhes responde: Se isso não vos agrada, não o façais.

Este diálogo, notável por sua simplicidade, é muito instrutivo. O cristianismo tropeça no mundo com a resistência inaudita das forças do mal; opera em meio a um elemento tenebroso. Não apenas o mal humano, mas o mal sobre-humano lhe resiste. As forças do inferno erguem-se contra Cristo e contra sua Igreja. Essas forças operam não somente fora da Igreja e do cristianismo, mas neles, para corromper uma e desnaturalizar o outro. A abominação que causa a desolação reina no lugar santo, mas este não é menos santo por isso; irradia ainda com mais esplendor. Se os homens tivessem visão espiritual, observariam sem qualquer dúvida que, ao desnaturalizarem o cristianismo e ao amaldiçoarem-no pelo mal de que não é responsável, crucificam Cristo. Cristo derrama eternamente seu sangue pelos pecados do mundo, pelos pecados daqueles que renegam e o crucificam.

Não é possível julgar a Verdade pelos homens e, sobretudo, pelos maus entre eles. É preciso olhá-la de frente e ver a luz que dela emana. Deve-se julgar a fé cristã por seus apóstoles e seus mártires, por seus heróis e seus santos, e não pela massa de semicristãos e semipagãos que se empenham em deformar sua imagem no mundo.

Duas grandes provações foram enviadas à humanidade cristã: a provação da perseguição e a provação do triunfo. Os cristãos resistiram à primeira e foram mártires e heróis. Triunfaram nessa prova no início do cristianismo, sofrendo a perseguição do Império Romano; triunfam dela em nossos dias na Rússia, oprimidos pela perseguição comunista. Mas é mais difícil sustentar a prova do triunfo. Quando o imperador Constantino se inclinou perante a Cruz e o cristianismo tornou-se a religião oficial do império, então começou toda uma longa prova de triunfo. E os cristãos suportaram-na menos bem do que a da perseguição. Por vezes converteram-se eles mesmos de perseguidos em perseguidores, deixaram-se tentar pelos reinos deste mundo, por sua dominação. Foi então que introduziram no cristianismo as deformações que foram manancial de acusações contra ele. Mas a fé cristã não é responsável pelo fato de os homens não compreenderem a alegria de seu triunfo no mundo. Cristo foi crucificado uma vez mais por aqueles que se consideravam seus servidores na terra, mas ignoravam de que espírito estavam animados.

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