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A DIGNIDADE DO CRISTIANISMO — A INDIGNIDADE DOS CRISTÃOS I

Boccaccio narra a história de um israelita a quem um amigo cristão desejava converter ao cristianismo. O israelita estava prestes a abraçar a nova religião, mas, antes de comprometer-se definitivamente, quis viajar a Roma para observar a conduta do Papa e dos cardeais, bem como a vida dos homens que encabeçavam a Igreja. O cristão que buscava convertê-lo amedrontou-se e julgou que todos os seus esforços haviam sido inúteis, pois, ao presenciar os escândalos de Roma, seu amigo certamente não se decidiria pelo batismo. O israelita chegou a Roma e descobriu a hipocrisia, a depravação, a corrupção e a avareza que reinavam naquela época na corte papal entre o clero romano. Retornou de Roma e seu amigo cristão perguntou-lhe, inquieto, a impressão que lhe produzira a viagem. A resposta, de um fundo profundíssimo, foi das mais inesperadas: se a fé cristã pudera permanecer incólume com todos os escândalos e as abominações vistos em Roma, e se, apesar de tudo, se fortalecera, aquela deveria ser a verdadeira fé. O israelita tornou-se definitivamente cristão.

Seja qual for a intenção de Boccaccio, este relato demonstra a única maneira de defender o cristianismo. A maior censura dirigida ao cristianismo refere-se aos seus próprios adeptos. Os cristãos constituem um escândalo para os homens que desejam retornar à fé cristã. Abusou-se, sobretudo em nossa época, desse argumento. No curso dos séculos precedentes, julgava-se a fé cristã primordialmente por sua verdade eterna, por sua doutrina e por seus mandamentos. Na atualidade, porém, a grande preocupação recai sobre o homem e o humano. Em nosso século de pouca fé, de incredulidade amplamente difundida, julga-se o cristianismo pelos cristãos. Suas más ações, as deformações que introduzem em sua fé e seus excessos cativam mais do que o próprio cristianismo, sendo mais visíveis do que a grande verdade cristã. O cristianismo é a religião do amor, mas julga-se-o pela animosidade e pelo ódio dos cristãos. O cristianismo é a religião da liberdade, mas julga-se-o pelas violências que os cristãos cometeram na história. Os cristãos comprometem sua fé e tornam-se um laço para os débeis.

Assevera-se frequentemente que os representantes das outras religiões, como budistas, maometanos e israelitas, são melhores que os cristãos e cumprem com maior zelo as leis de sua religião. Apontam-se também descrentes, ateus e materialistas que parecem ser superiores a eles, revelando-se mais idealistas na vida e com maior espírito de sacrifício. No entanto, toda a indignidade de muitos cristãos reside justamente no fato de não cumprirem as leis de sua religião, as quais transformam e deformam. Pela elevação do cristianismo julga-se a indignidade dos cristãos e a incapacidade que demonstram em elevar-se à sua altura. Todavia, como se pode imputar ao cristianismo a indignidade dos cristãos se precisamente se lhes censura o desacordo com a dignidade de sua fé? Tais acusações são evidentemente contraditórias. Se os adeptos das outras religiões são frequentemente mais fiéis à sua fé do que os cristãos, se cumprem melhor seus preceitos, é justamente porque estes estão mais ao seu alcance, em razão da elevação excepcional do cristianismo. É mais fácil ser maometano do que ser cristão. Realizar na vida a religião do amor é o que há de mais difícil; nem por isso, contudo, a religião do amor é menos elevada ou menos verdadeira. Cristo não é responsável por sua verdade não ser cumprida ou não se realizar na vida. Cristo não é responsável por seus mandamentos serem pisoteados.

Os israelitas crentes afirmam de bom grado que suas leis possuem o imenso privilégio de poderem ser postas em prática, que sua religião se adapta melhor à natureza humana, que corresponde mais adequadamente aos fins da vida terrestre e exige menos renúncia. Consideram o cristianismo como uma religião de sonho, inútil para a vida e, por isso mesmo, prejudicial. Frequentemente mede-se o valor moral dos homens por sua fé e por seu ideal. Se o materialista, conforme suas ideias, mostra-se bom, consagrado ao seu credo e capaz de realizar por ele certos sacrifícios, já se maravilha com sua grandeza de alma e toma-se-o como exemplo. Porém, para o cristão, é infinitamente mais difícil estar à altura de sua fé e de seu ideal, pois deve amar seus inimigos, carregar animosamente sua cruz e resistir heroicamente às tentações do mundo — obrigações que não se impõem ao crente israelita, nem ao maometano, nem ao materialista. A religião cristã é a mais difícil, a mais irrealizável e a mais oposta à natureza humana; ela conduz pela via da maior resistência. A vida do cristão é uma crucificação de si mesmo.

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