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CRISTIANISMO E ATIVIDADE HUMANA III

O materialismo filosófico e histórico pode afirmar a atividade do homem? De fato, seus partidários a sustentam. Mas, ao fazê-lo, permanecem fiéis aos seus princípios? Estão em condições de se justificarem logicamente? O marxismo goza de grande atualidade e seus adeptos apelam à atividade. Mas pode seu ensino referente ao homem legitimar essa atividade? Certamente não. A doutrina que pretende que a economia condiciona toda a vida humana, que toda a história é determinada pelo desenvolvimento das forças materiais produtivas, que toda ideologia não passa de reflexo da realidade econômica, é em si mesma passiva e não reserva nenhum lugar à iniciativa criadora do homem. Tudo o que o homem pensa, tudo o que faz, não é mais que o reflexo da realidade material; o homem é impulsionado por forças impessoais, materialmente sociais, situadas fora dele.

A crise que atravessa a filosofia soviética contemporânea advém da dificuldade que encontra em justificar, de um ponto de vista marxista, a atividade do homem e, em particular, a prodigiosa atividade dos comunistas russos. Os jovens tratam, então, de aplicar retificações ao marxismo, de limitar seu determinismo social, de contrariar o materialismo mecanicista e de reconhecer a possibilidade de um autodinamismo no mundo que não esteja determinado pelo meio exterior. Mas tudo isso não se verifica sem que a lógica sofra grandes sacrifícios e a terminologia filosófica, sérias deformações. Em efeito, transfere-se a liberdade do espírito para a matéria, a qual recebe em sorte a vida, a atividade, a lógica, a liberdade e a possibilidade do movimento espontâneo. Todavia, a matéria e o processo material, se for empregada corretamente a terminologia filosófica, não podem de maneira alguma ser ativos; o livre autodinamismo não lhes é próprio, e não se lhes pode atribuir dialética alguma. Somente o espírito é ativo; a atividade implica um princípio espiritual. Se o homem não é mais que uma ínfima fração da matéria universal, se não é outra coisa senão o produto da natureza material e do meio social, se não é senão um momento transitório e um instrumento dos processos materiais, naturais e sociais, então não se coloca sequer o problema de sua atividade. Um conceito semelhante exclui de antemão a noção de atividade no mundo, visto que todas as coisas são determinadas de fora, não sendo mais que o reflexo de algo diferente, senão o resultado da necessidade. Se o materialismo dialético dos marxistas-leninistas afirma a atividade inusitada do homem — do homem social, entenda-se — suscetível de transformar a seu gosto o mundo inteiro e até de revogar as leis da natureza, isso resulta do fato de transferir as propriedades do espírito ao seio da matéria, cometendo por esse mesmo fato, como já se indicou, uma violação ilícita da terminologia estabelecida. O materialismo é frequentemente um símbolo verbal e convencional, quando, em realidade, deixou de existir.

Aqui se toca o argumento de fundo de toda a propaganda antirreligiosa, o ataque aparentemente mais forte contra o cristianismo e, ao mesmo tempo, a refutação principal desse argumento. A defesa da atividade humana revela-se completamente fictícia. Porque aqueles que censuram ao cristianismo o fato de rejeitar a atividade humana, ignoram não somente essa atividade, mas, em realidade, ignoram o próprio homem.

Em efeito, a concepção de mundo marxista-leninista afirma não a atividade do homem, mas a da coletividade social, que esmaga o ser humano e o transforma em um instrumento. Reconhecer a atividade humana é reconhecer no homem uma iniciativa criadora, uma liberdade de ação. O homem é ativo se for um ser espiritual livre que goza de um valor absoluto; se não se vê reduzido ao estado de simples instrumento para servir aos fins de um processo social. O homem é ativo se cria esse processo, e não é livre quando esse processo o cria. Por conseguinte, o ativismo soviético, no qual o homem não é mais que o dócil executor de um mandato social, não possui nenhuma relação com o ativismo humano. O comunismo materialista, que toma como realidade única e original a coletividade social, considerando-a efetivamente como prodigiosamente ativa e todo-poderosa, nega o próprio homem. De modo que se poderia dizer, retornando à terminologia cristã, que toda a atividade se deve exclusivamente à caris da coletividade, do partido comunista, e não à liberdade humana. A sociedade comunista coloca-se no lugar de Deus. Acusa-se o cristianismo de atribuir a atividade a Deus e a passividade ao homem. Interpreta-se o cristianismo como um fatalismo que faz Deus operar no mundo independentemente do homem e, de certo modo, acima dele, conquanto este último não seja um sujeito independente, mas unicamente o objeto da ação divina. Censura-se que se reserva a potência ativa exclusivamente à caris, omitindo a liberdade humana. Mas sabe-se que a Igreja Católica condenou o ocasionalismo, teoria segundo a qual apenas a causa eficiente, isto é, Deus, produz um efeito no mundo, enquanto as causas secundárias, a natureza e o homem, limitam-se a lhe proporcionar a ocasião para agir.

A consciência cristã sublevou-se sempre contra a noção fatalista da ação de Deus no mundo. Ela sempre sustentou que Deus opera não acima do homem e independentemente dele, mas por meio dele, através de sua liberdade e de sua atividade. Essa ideia também é encontrada no sábio adágio popular que diz: A Deus rogando e com o maço dando. Em uma palavra, se o homem não é mais que o reflexo dos processos materiais e sociais, ou seja, o instrumento passivo desses processos cujas ordens executa docilmente, tem-se todo o direito de afirmar que apenas a natureza e a sociedade são ativas.

Os marxistas-leninistas objetarão que a natureza e a sociedade se manifestam através da luta ativa de classes. Eles protestarão certamente contra uma interpretação fatalista de sua doutrina. A filosofia soviética mais recente nega-se também a ver no marxismo um determinismo e chega até a aceitar o indeterminismo, ou dito de outro modo, a liberdade da própria matéria. O mecanicismo, que exclui a atividade dos homens, vê-se claramente condenado. Mas com que direito se permite então interpretar o cristianismo no espírito de um certo mecanicismo? Porque, concebendo a ação de Deus sobre o homem sob a forma de impulsão exercida de fora, acaba-se por lhe conferir exatamente a mesma interpretação que a do mecanicismo no que se refere ao movimento da matéria. Ora, existem infinitamente mais razões para conceber a ação da caris divina exercendo-se através da atividade humana e, nessa atividade, manifestando-se do interior sobre a própria liberdade do homem, a qual fortalece e transfigura, do que vê-la como exercendo-se de fora, isto é, independentemente do homem. Seja como for, está-se mais autorizado a admitir relações semelhantes entre Deus e o homem — porque são espirituais e, por conseguinte, livres — do que entre a natureza ou a sociedade, tomadas pelo lado do materialismo, e o homem. As relações materiais expressam sempre uma coação exterior, enquanto Deus, como ser espiritual, não pode agir senão do interior, da profundidade da consciência humana; Deus não pode agir senão sobre a liberdade do homem e através dessa liberdade. E a fé em Deus é uma fé nessa força interior que ilumina a liberdade humana.

A ação da natureza e da sociedade, a do comitê central do partido comunista, não pressupõe de modo algum a liberdade e a atividade interiores do espírito humano. A natureza e a sociedade podem agir de fora sobre o homem, podem obrigá-lo a esta ou àquela ação e, em realidade, o homem sente-se continuamente sob seu império; sua atividade não é, quase sempre, outra coisa senão uma adaptação às exigências de suas necessidades, uma adaptação de caráter defensivo. Reduz-se, em suma, a uma reação de autoconservação. A atividade criadora só se manifesta quando o homem se eleva espiritualmente acima das exigências do meio natural e social que o cerca, quando o transforma em vez de ser transformado por ele. Não pode qualificar-se de atividade senão o que procede do interior ao exterior. Se o sujeito se encontra preso da manhã à noite a ocupações servis por ordem das classes dominantes, por ordem do Estado, da sociedade ou do comitê central do partido, é passivo e não ativo. Porque o trabalho pode ser passivo. E assim ocorre com todo labor servil, não somente na sociedade em que subsiste a escravidão, mas também nas sociedades capitalistas e comunistas. Sem dúvida, pode-se adestrar o homem até o ponto de ele sentir satisfação em executar os mandatos da sociedade, de sentir-se plenamente livre em sua servidão, ativo em sua passividade; pode-se fazer dele um animal social disciplinado. Mas, então, sua imagem se altera, sua dignidade desaparece; a sociedade humana assemelha-se a um formigueiro. E, cedo ou tarde, o homem se sublevará, como o herói de Notas do Subterrâneo, de Dostoiévski. Pelo contrário, a ação de Deus sobre o homem pressupõe necessariamente a liberdade do espírito. Não é possível imaginar essa ação como exterior e mecânica. Se foi possível imaginá-la assim, é porque era concebida por analogia com a ação das forças da natureza ou dos poderes sociais, porque se transferiam a Deus as relações sociais de domínio e de submissão. Apenas a ação interior do espírito sobre o espírito implica a liberdade e a atividade, tanto as do sujeito quanto as do objeto da ação; apenas ela exclui a violência e la passividade. Todavia, Deus é espírito e opera no homem como ser espiritual. O espírito é liberdade e atividade por definição.

A escravidão do homem, tão frequente na vida religiosa pagã e até na cristã, foi sempre o índice de uma concepção religiosa desprovida de espiritualidade, reflexo de um estado social de servidão. A revelação religiosa estava deformada constantemente por esse estado de coisas e era aceita servilmente. A ação de Deus no homem, então, concebia-se como ação da força natural e social, e não como ação de um pneuma sobre outro pneuma. Precisamente é a sociedade, cuja organização mecânica atinge a perfeição, que pode agir sobre o homem de fora e exigir uma atividade que lhe seja proveitosa, deixando-o de todos os modos interiormente passivo e reduzido à escravidão. A violência e a tirania em que abunda a história do cristianismo, a da Igreja, não foram nunca violência e tirania de Deus, do Espírito, mas da sociedade humana amparando-se atrás de símbolos, de fórmulas e de signos cristãos. Personificava-se Deus como um autocrata absoluto; via-se na Igreja um Estado monárquico; transferiam-se à vida religiosa as relações e os laços sociais. Sem dúvida, muitas coisas podem ser interpretadas aqui em sentido marxista, de acordo com o materialismo histórico. Mas que significa isso senão que se prova, uma vez mais, que tudo o que havia de servil no próprio cristianismo possuía uma origem social e não religiosa? Os que dirigem a propaganda antirreligiosa negam o espírito, isto é, a única fonte de atividade e de liberdade, da dignidade suprema do homem, admitindo como única realidade a natureza e a sociedade, que em todo tempo foram a origem da passividade e da escravidão do homem. Estes são da mesma família dos pseudocristãos que deformaram no passado a revelação de Cristo.

O homem não funda sua atividade senão no domínio da natureza e da sociedade e em sua submissão pelo espírito. Só então é que sua atitude com respeito a elas é independente, livremente ativa. Portanto, não somente o argumento principal da propaganda antirreligiosa desmorona, como se volta contra aqueles que o empregaram. Os que lutam pela atividade do homem devem lutar ao mesmo tempo pelo espírito, opondo-se à opressão ilimitada e implacável da sociedade sobre o homem.

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