e:mcginn:anticristo:inimigos-de-deus
Inimigos de Deus
MCGINN, Bernard. Antichrist: two thousand years of the human fascination with evil. 1. paperback ed ed. San Francisco: Harper, 1996.
Perversão, blasfêmia e abominação: visões judaicas dos inimigos de Deus e dos últimos dias (200 AC — 50 BC)
- As origens da lenda do Anticristo vinculam-se de forma direta à história das especulações judaicas acerca do fim dos tempos e de sua proximidade.
- Criação de uma nova visão religiosa sobre o significado da história pelos escribas e videntes judeus nos últimos três séculos antes de Jesus.
- Existência dessa visão em pleno desenvolvimento durante o tempo de vida de Jesus.
- Caráter anacrônico em falar de um Anticristo antes que alguns judeus identificassem Jesus de Nazaré como o messias ou Cristo em meados do século primeiro da era corrente.
- Visões judaicas anteriores sobre adversários apocalípticos constituindo parte necessária do pano de fundo da lenda do Anticristo.
- Os judeus dos últimos séculos antes da era corrente divergiam quanto à crença em um único oponente humano para o messias vindouro.
- Compartilhamento da convicção de que a maldade humana atingiria um ponto culminante nos últimos dias, de forma paralela à existência de um poder angélico malévolo que liderava as forças do mal na história.
- Perseguições e blasfêmias de Antíoco IV, imperador selêucida de 175 a 164 antes da era corrente, atuando como os catalisadores históricos mais evidentes dessa visão.
- Atuação de provações e problemas posteriores no desenvolvimento desse panorama.
- O contraste apocalíptico entre o bem e o mal incorporou camadas de pensamento oposicional cujas origens remontam à luta mítica entre Baal e o Dragão.
- Padrões históricos fundamentados na memória dos grandes reis de Israel e nas esperanças por um governante messiânico.
- Dimensão negativa baseada na memória de perseguidores passados e no temor de opressores piores no futuro.
- Atribuição de novos significados a esses padrões na era que deu origem à escatologia apocalíptica.
- A escatologia apocalíptica constituiu a matriz do cristianismo primitivo, transformando as tradições sobre adversários messiânicos na base para a lenda do Anticristo à medida que o messias das esperanças judaicas se tornava o Cristo da fé cristã.
- Condição da escatologia apocalíptica como um dos fenômenos mais importantes e controversos na história das tradições religiosas ocidentais.
- Permanência de disputas acadêmicas apesar do trabalho extensivo da última geração de estudiosos sobre as origens do apocalipsismo.
- Necessidade do breve relato sobre o apocalipsismo para contextualizar a investigação de como surgiu a figura do resumo humano final do mal.
- A conquista de Jerusalém e a destruição do templo de Salomão pelos babilônios em 587 antes da era corrente poderiam ter significado o fim do povo judeu, especialmente devido às deportações em massa para a Babilônia.
- Devoção dos judeus a seu Deus e à cidade santa que propiciou o retorno dos exiles sob os persas e a construção do segundo templo entre 536 e 515 antes da era corrente.
- Duração do período do Judaísmo do Segundo Templo até a conquista romana e a destruição de Jerusalém no ano 70 da era corrente.
- Condição do período como uma era de criatividade religiosa apesar das circunstâncias estreitas dos judeus em meio a impérios em conflito.
- Estímulo criativo acentuado após Alexandre o Grande conquistar o Império Persa e a maior parte do antigo Oriente Próximo.
- A trajetória de Alexandre inaugurou uma nova ordem política bem como uma nova situação cultural e religiosa.
- Desafio aos judeus dos últimos três séculos antes da era corrente trazido pelo mundo do helenismo e pela mistura de tradições.
- Surgimento de grandes mudanças nas visões religiosas judias, incluindo o nascimento da escatologia apocalíptica, em decorrência desse desafio.
- As rupturas da antiga ordem política e religiosa motivaram a criação de novas formas de literatura religiosa produzidas por novos líderes com mensagens inéditas sobre Deus, o mundo e a história.
- Estímulo para essa criatividade localizado na reação judaica à helenização.
- Processo de helenização caracterizado pelo esforço de Alexandre e de seus sucessores em espalhar a língua e a cultura gregas aos povos súditos.
- As apocalipses surgiram entre as mais importantes novas formas de literatura religiosa produzidas pelos judeus após 250 antes da era corrente.
- Significado literal do termo definido como revelações ou desvelamentos.
- Nova compreensão da história denominada escatologia apocalíptica atuando como parte central da mensagem dessas obras.
- As apocalipses definem-se como um gênero de literatura revelatória em que uma mensagem do mundo divino é transmitida a uma comunidade de crentes.
- Florescimento de vários tipos de revelações ao longo do mundo helenístico.
- Inserção das apocalipses judaicas em um amplo fenômeno religioso dotado de marcas distintivas próprias.
- O gênero apocalíptico caracteriza-se por possuir uma estrutura narrativa em que a revelação é mediada por um ser de outro mundo a um destinatário humano.
- Divulgação de uma realidade transcendental que se apresenta como temporal, no tocante à salvação escatológica, e como espacial, por envolver um mundo sobrenatural.
- O grupo das apocalipses introduziu novas constelações de significado religioso no antigo judaísmo.
- Início da investigação focado nos modos distintivos pelos quais o gênero buscava transmitir a sua mensagem.
- A natureza narrativa e o caráter mediado do conteúdo constituem duas características cruciais das apocalipses.
- Estruturação das apocalipses como histórias que narram o modo como a mensagem foi recebida e incluem um relato como parte de seu conteúdo.
- Caráter mediado caracterizado pelo alcance de sábios históricos por meio de mensageiros divinos ou celestiais.
- O relato sobre a recepção da mensagem costuma fornecer informações sobre o sábio que supostamente a recebeu e sobre a situação em que o revelador celestial apareceu.
- Os relatos contidos nas apocalipses mostram-se variados e tendem a se dividir em duas grandes categorias estruturais.
- O primeiro grupo de apocalipses concentra-se na revelação de segredos sobre os mistérios do universo, especialmente do reino celestial.
- Inclusão frequente de uma jornada por outro mundo em que o destinatário humano é levado a um passeio pelos reinos celestiais e pelo inferno.
- O segundo grupo de apocalipses abdica da jornada celestial e concentra-se na revelação de um segredo temporal sobre o curso da história.
- Presença habitual de um esboço das eras do mundo que conduz à revelação dos eventos iminentes do fim da história e ao início do novo aeon divino.
- A narrativa apocalíptica sempre implica e frequentemente fornece um esboço dos últimos eventos e dos papéis atribuídos aos vários atores.
- Assunção posterior de um dos maiores e mais interessantes papéis nesse grande cenário pelo Anticristo.
- As cerca de quinze apocalipses judaicas sobreviventes do período entre 250 antes da era corrente e 150 da era corrente constituem revelações mediadas em que a mensagem é comunicada ao vidente por uma figura celestial.
- Atuação ordinária de um anjo como o mediador celestial da mensagem.
- As apocalipses judaicas compartilham outra forma de mediação ao se estruturarem de modo pseudônimo.
- Atribuição das obras a antigos homens sábios e heróis bíblicos do passado, como Enoque, Esdras, Abraão e Daniel.
- A dupla mediação expõe duas das dimensões mais importantes da mentalidade apocalíptica.
- A primeira dimensão manifesta-se no estresse sobre a transcendência divina, apresentando um Deus que se mostra paradoxalmente mais distante e ao mesmo tempo mais próximo do que o Deus dos profetas.
- Maior distanciamento decorrente da impossibilidade de alcance direto, exigindo espíritos intermediários, e do fato de o controle divino não ser evidente em meio às provações presentes quando as forças do mal parecem triunfantes.
- Maior proximidade devida ao alcance de um feito inédito para os líderes religiosos judeus, consistente na ascensão ao próprio céu pelos videntes.
- O vidente recebe a mensagem por meio de um anjo, enquanto o crente a recebe através do livro escrito em nome do vidente por um escriba que adotou a sua persona.
- Inserção das apocalipses em um movimento importante no Judaísmo do Segundo Templo direcionado à fixação da revelação na palavra escrita.
- Os textos sobreviventes constituíram claramente produtos de círculos escribais eruditos em que as experiências visionárias eram cultivadas, embora os contextos sociológicos precisos permaneçam ocultos.
- Alcance das experiências visionárias por meio da identificação com os antigos videntes bíblicos devido à crescente ênfase no livro sagrado.
- Comunicação das visões em forma escrita utilizando os nomes desses heróis como sinais de validade dos livros.
- Os círculos escribais que combinavam experiências visionárias e habilidades eruditas implicavam uma forma de liderança religiosa distinta daquela exercida por sacerdotes e reis sagrados.
- A escatologia apocalíptica constitui o termo geralmente utilizado para denotar a dimensão horizontal ou temporal das revelações encontradas nas apocalipses.
- As revelações que se concentram no curso do tempo desde o presente até o fim podem ser denominadas apocalipses históricas.
- Inclusão do Livro de Daniel, da Apocalipse dos Animais em 1 Enoque 85—90, e da Apocalipse das Semanas em 1 Enoque 93 e 91, todos de meados do século segundo antes da era corrente, nessa categoria histórica.
- O modo de compreender a história e o seu fim fez o seu caminho para outros tipos de literatura do Judaísmo do Segundo Templo logo após surgir nas apocalipses.
- A comunidade de ascetas judeus de Qumran colecionou apocalipses e manteve fortes crenças apocalípticas refletidas em seus escritos, embora aparentemente não tenha composto apocalipses próprias.
- Existência da comunidade de Qumran perto do Mar Morto de cerca de 150 antes da era corrente até o ano 70 da era corrente.
- A definição de termos mostra-se necessária para compreender o componente horizontal ou temporal das apocalipses.
- O apocalipsismo qualifica-se como um tipo específico de escatologia, sendo a escatologia apocalíptica tratada como um subcomponente, embora os termos sejam frequentemente usados de modo intercambiável.
- A escatologia define-se como qualquer forma de crença sobre a natureza da história que interpreta o processo histórico à luz dos eventos finais.
- Caráter escatológico de todas as visões cristãs da história nesse sentido, independentemente de enfatizarem ou não a aproximação do fim e a sequência de eventos que a ele conduz.
- A escatologia apocalíptica avança um passo além ao enfatizar uma visão determinista da história.
- Visualização das últimas coisas em um padrão triplo de crise—julgamento—recompensa.
- Discernimento da iminência dos eventos finais nas ocorrências do presente por meio da mensagem revelada encontrada no livro sagrado.
- A revelação concedida ao vidente apocalíptico envolve um senso da totalidade da história universal, manifestado frequentemente em uma enumeração de eras.
- A Apocalipse das Semanas figura como a mais antiga dessas revelações, integrando atualmente a compilação de textos conhecida como 1 Enoque.
- Apresentação de um plano para a totalidade da história de acordo com um modelo de dez semanas de anos.
- Função das enumerações direcionada a demonstrar o controle total de Deus sobre a história e sobre os eventos finais que conferem significado ao todo.
- O tempo presente é visualizado na Apocalipse das Semanas como a sétima semana, período em que se levantará uma geração apóstata cujas ações seriam numerosas e criminosas.
- O senso do mal presente como um sinal da crise da história aparece com maior detalhamento em outras apocalipses.
- O Livro de Daniel 7—12 destaca-se como a mais conhecida dessas apocalipses, constituindo a única a ser incluída no cânone posterior da Bíblia Hebraica.
- Manifestação clara do paradigma triplo de crise—julgamento—recompensa, sem a presença de um relato da história universal.
- Presença de uma profecia de quatro impérios mundiais recentes apresentados sob a imagem de quatro feras em Daniel 7.
- A profecia de Daniel ilustra o uso de história disfarçada de profecia, um dos recursos mais comuns da visão apocalíptica da história e de seu fim.
- O texto atribui a Daniel, escrevendo supostamente no século sexto antes da era corrente, a descrição dos impérios futuros da Babilônia, Média, Pérsia e o de Alexandre e seus sucessores.
- Caracterização de cada império como mau, sendo o último apontado como o pior por devorar, pisotear e esmagar toda a terra.
- A descrição detalhada do décimo primeiro chifre da feras em passagens de Daniel não deixa dúvidas de que o escritor retrata Antíoco IV Epifânio.
- Condição de Antíoco IV como o governante helenístico da Síria que iniciou uma violenta perseguição contra os judeus em 167 antes da era corrente para compeli-los a adotar costumes gregos.
- Expectativa de que o leitor creia que o vidente revelara o segredo celestial de que um governante mau iniciaria uma crise final de perseguição que se fizera presente, mas que seria seguida pela derrota do tirano.
- A história disfarçada de profecia passa em algum ponto para a profecia real dentro das apocalipses, auxiliando os estudiosos na datação de obras pseudônimas.
- Composição de Daniel localizada entre 167 e 164 antes da era corrente por um escriba que avançou para a predição apocalíptica ao prometer um julgamento divino iminente sobre as forças do mal.
- Ocorrência histórica da morte de Antíoco IV por causas naturais, resultando no não cumprimento da predição do julgamento iminente nos moldes descritos.
- A perseguição infligida pelo pequeno chifre da quarta fera deveria ser breve de acordo com a profecia não cumprida, calculada em três tempos e meio, ou em 1260 ou 1150 dias.
- Realização de um tribunal em que o poder do tirano seria retirado, consumido e totalmente destruído após o período estipulado.
- O julgamento divino definitivo sobre os ímpios constitui um elemento constante na visão apocalíptica da história.
- Extensão frequente do julgamento tanto aos seres humanos perversos quanto às potências espirituais malignas que os inspiram.
- A defesa do controle divino subjacente à visão de mundo apocalíptica inclui a vindicação final ou recompensa para os justos, além da punição dos oponentes de Deus.
- Foco da recompensa prioritariamente naqueles que sofreram por causa da justiça durante o tempo de crise e perseguição.
- A recompensa apresenta-se concebida de várias formas nas apocalipses, possuindo como elemento comum a esperança em algum modo de transcender a morte.
- Presença frequente de um aspecto terreno e de um celestial para a recompensa nas apocalipses históricas.
- Inclusão da expectativa de um reino ideal vindouro sob um governante justo ungido por Deus, denominado messias.
- Conexão estreita entre a expectativa de um salvador terreno definitivo e o apocalipsismo na história judaica a partir do final do período do Segundo Templo, embora os conceitos não sejam idênticos.
- A esperança em uma recompensa final também conduziu à crença na ressurreição dos mortos.
- Surgimento scriptural mais antigo da crença na ressurreição localizado no Livro de Daniel, afirmando que muitos dos que dormem no pó da terra acordarão, uns para a vida eterna e outros para a vergonha e a desonra eterna.
- A escatologia apocalíptica distingue-se de outras formas de expectativa sobre o fim da história pelo senso de iminência ou de presença real dos eventos finais, além do padrão triplo empregado.
- A proximidade do fim qualifica-se como uma marca registrada da mentalidade apocalíptica, mostrando-se importante distinguir entre iminência cronológica e psicológica.
- Alguns textos apocalípticos fornecem tabelas temporárias crípticas para o cálculo do tempo do fim.
- O Livro de Daniel atua como um bom exemplo desse cálculo por meio de suas variações sobre o padrão dos três tempos e meio e dos setenta semanas de anos herdados de Jeremias.
- Atração irresistível desses cálculos para aficionados apocalípticos ao longo dos séculos, que buscaram amarrá-los aos eventos de seus próprios tempos.
- Outras apocalipses fornecem apenas um senso geral de que o fim está próximo, enfatizando que nenhum cálculo humano pode revelar o tempo oculto na determinação de Deus.
- A escatologia apocalíptica envolve sempre um senso de iminência psicológica baseado na crença de que o presente testemunha o início dos eventos que conduzirão ao fim.
- Presença psicológica do fim como o motivo principal para os esforços do crente, independentemente de sua distância no sentido cronológico.
- O panorama apocalíptico baseia-se na convicção do autor sobre a legibilidade da história.
- Revelação de ao menos uma parte do plano divino por meio de um vidente que capacita o crente a enxergar os eventos correntes como sinais preditos que convocam à ação, embora Deus possa reter o segredo do tempo exato.
- As apocalipses consistiram em textos desenhados para gerar efeitos claros e poderosos em seus leitores.
- Importância da função das apocalipses históricas, denominada piedade ou espiritualidade apocalíptica, para a compreensão do fenômeno.
- As apocalipses históricas têm sido vistas majoritariamente como uma literatura de consolação direcionada a crentes perseguidos em tempos de severo estresse.
- Relevância dessa dimensão decorrente do surgimento das apocalipses em uma era em que os judeus estavam sujeitos a potências estrangeiras e perseguições religiosas.
- As apocalipses implicam um forte elemento de teodiceia, definida como a defesa da bondade básica de Deus e de seu controle sobre a história apesar do mal evidente no mundo.
- A flexibilidade da escatologia apocalíptica permitiu que ela servisse também para fortalecer o apoio ao establishment político e espiritual, especialmente na história cristã posterior.
- Os traços essenciais da piedade apocalíptica permanecem semelhantes quando exercidos por minorias perseguidas ou por maiorias combatentes.
- A convocação à decisão apresenta-se como o traço mais óbvio da piedade apocalíptica.
- Experiência da necessidade de uma decisão final pelos crentes apocalípticos diante da convicção de que a luta definitiva entre as forças do bem e do mal já começou.
- A visão de mundo apocalíptica exclui a ambiguidade moral ou as zonas cinzentas.
- Visualização dos oponentes como partidários do mal absoluto, permitindo uma oposição total, sede de derrota completa e vingança severa sobre os ímpios.
- Condição do absolutismo moral como o aspecto mais perturbador e historicamente mais destrutivo do apocalipsismo.
- O enfrentamento da luta final exige decisão, paciência, resistência e por vezes a coragem para agir.
- Propagandistas apocalípticos posteriores que conclamavam seus adeptos a suportar provações e sofrimentos até a intervenção da justiça divina que destruiria as forças do mal e concederia a recompensa aos justos.
- Os apocalipcistas por vezes convocaram seus seguidores a pegar em armas para lutar ao lado de Deus e de suas hostes angélicas contra as forças do mal.
- Atuação revolucionária do apocalipsismo por meio da derrubada do poder de governantes satânicos.
- Atuação confirmatória ou de suporte mediante a defesa do reino e do governante de Deus contra o ataque final do mal.
- A piedade apocalíptica é marcada tanto pela esperança fervente na recompensa vindoura quanto pela convicção absoluta a respeito da justiça da própria causa.
- O apocalipsismo atua como uma forma de lidar com o denominado terror da história de Mircea Eliade, definido como o medo humano de criar a história de modo consciente e voluntário.
- O fenômeno fornece aos crentes uma estrutura de significado predeterminada para lidar com as crises, o mal e a ausência de sentido encontrados no mundo circundante.
- A escatologia apocalíptica qualifica-se como profundamente determinista no plano da história universal, visto que o plano de Deus para as eras e para o fim não pode ser alterado.
- Ênfase na liberdade individual por meio do modo como os crentes são chamados a afirmar o plano divino por sua adesão ao bem e pela disposição em suportar o sofrimento.
- A vindicação divina em que se baseiam as esperanças apocalípticas constitui uma recompensa completa e última expressa na transcendência da morte de forma individual e coletiva.
- As apocalipses do Judaísmo do Segundo Templo e suas sucessoras cristãs apresentam sua mensagem por meio de uma narrativa simbólica que combina mito, lenda e história.
- Estudo considerável dos elementos mitológicos no apocalipsismo desde que o estudioso bíblico Hermann Gunkel discutiu a dimensão em 1895.
- O uso de mito e de feições mitológicas no apocalipsismo compreende tanto as fontes utilizadas quanto a apresentação do entendimento da história.
- O consenso acadêmico aponta que os autores apocalípticos utilizaram tradições mitológicas, especialmente as relativas ao mito do combate do antigo Oriente Próximo.
- Mito do combate caracterizado pela narrativa da luta entre um deus elevado e o monstro do caos no momento da criação ou formação do mundo.
- Adaptação, expansão e transformação dos mitos pelos apocalipcistas de variadas maneiras, recusando a mera repetição.
- As investigações de Gunkel conectaram as apocalipses a materiais babilônicos, enquanto trabalhos recentes apontaram paralelos mais próximos em versões cananeias e ugaríticas do mito do combate.
- Os mitos funcionam como narrativas arquetípicas que exercem poder sobre a imaginação humana, conforme demonstrado por C. G. Jung, Mircea Eliade e Paul Ricoeur.
- As análises de Adela Yarbro Collins destacaram o modo como apocalipses, como a de João, utilizam interações sutis entre a antiga história do combate cósmico primordial e a nova história do relato de provação e oposição.
- Uso frequente de história disfarçada de profecia para criar o efeito da narrativa.
- Caracterização da nova história apresentada nas apocalipses como uma forma de narrativa simbólica descrita como lenda em vez de história no sentido moderno.
- A consideração da relação entre mito, história e lenda nas apocalipses históricas mostra-se essencial para compreender a criação e o desenvolvimento do Anticristo.
- O termo mito apresenta ampla variedade de usos acadêmicos desde que se popularizou em meados do século dezenove.
- Uso do termo no presente contexto como uma história sagrada ou narrativa destinada a explicar um fato ou valor básico sobre o mundo ao relacioná-lo ao tempo do início.
- Explicação mítica realizada por meio da apresentação de um relato de origens ou estruturas essenciais que medeia significado ao presente, prescindindo de argumentos intelectuais.
- Os mitos buscam resolver conflitos e aliviar a ansiedade social, atuando em uma variedade de funções.
- Estabelecimento do mundo de significado dentro do qual as sociedades antigas viviam e buscavam fazer sentido da realidade por meio dos mitos de criação.
- Argumentação de que o uso do mito em sentido amplo constitui um requisito de toda cultura humana, incluindo a sociedade moderna com análogos seculares como o mito do estilo de vida americano.
- A complexidade da relação entre mito e história impede generalizações fáceis.
- Ocorrência dos mitos no sentido clássico localizada em um tempo sagrado especial anterior à história, conforme demonstrado por Mircea Eliade.
- O fator crucial na constituição do mito reside na concepção de uma cultura sobre o vínculo entre o seu próprio tempo histórico e o tempo sagrado anterior, segundo Paul Ricoeur.
- Problematização da visão popular de que o mito representa um estágio primitivo sucedido pela soberania da história.
- Impossibilidade de a visão popular explicar o desenvolvimento histórico de culturas antigas ou a prevalência de mitos veiculados pela mídia na cultura de massa contemporânea.
- As sociedades conceberam a relação entre mito e história de muitas maneiras, mostrando-se o tema complexo e controverso no antigo Israel.
- Afirmação de Ricoeur indicando que o traço mais distintivo de Israel consiste na incorporação de fragmentos míticos de culturas vizinhas em grandes conjuntos narrativos sob a forma de mitos historicizados em Gênesis 1—11.
- Especificidade da reinterpretação do mito com base na história localizada na esfera literária do antigo Israel.
- O pensamento hebraico rejeitou o mito e também o reinventou na forma de um mito quebrado e historicizado, de acordo com Ricoeur.
- As investigações de Michael Fishbane enfatizam que o uso criativo do mito ao longo da tradição judaica inclui trajetórias que não podem ser capturadas sob um único título como mito quebrado.
- Compreensão da escatologia apocalíptica localizada dentro da perspectiva complexa da mistura de mito e história no Judaísmo do Segundo Templo.
- Necessidade de introduzir um terceiro tipo de narrativa, a lenda, para apreender a transformação do mito no discurso apocalíptico.
- A distinção entre mito, lenda e conto popular remonta ao trabalho dos irmãos Grimm na primeira metade do século dezenove, sendo desenvolvida por folcloristas, etnógrafos e historiadores da religião.
- Aplicação das distinções ao estudo da Bíblia Hebraica por Hermann Gunkel e Hugo Gressmann na primeira metade do século vinte.
- Separação de uma variedade de lendas bíblicas em relação aos mitos de origens realizada por Gunkel e Gressmann.
- Uso frequente do termo lenda de modo quase intercambiável com mito por muitos estudiosos.
- A manutenção de uma distinção entre mito e lenda mostra-se importante em relação à literatura apocalíptica.
- Diferenciação da lenda em relação ao mito baseada na alegação de ocorrência na história, frequentemente no passado distante.
- Caráter não necessariamente fictício das alegações, visto que eventos históricos reais moldam a narrativa do Anticristo.
- As figuras humanas constituem os atores primários nas lendas, apresentando frequentemente um caráter heroico superior ao comum.
- Função arquetípica da lenda voltada a revelar algo de importância fundamental sobre o mundo e a sociedade humana, distanciando-se do conto popular.
- Caracterização da lenda como história que aspira ao nível do mito por meio da recontagem de eventos históricos significativos de modo arquetípico com o uso de linguagem e símbolos míticos.
- A Bíblia Hebraica abunda em relatos lendários, que também são encontrados no Novo Testamento nas narrativas da infância nos Evangelhos.
- As lendas apocalípticas constituem uma variedade especial dentro do gênero, destacando-se o Anticristo como a principal delas.
- Traço distintivo das lendas nas apocalipses históricas localizado na sua condição de projeções narrativas futuras que combinam materiais míticos e históricos.
- A origem dessa forma de narrativa repousa na memória histórica do que foi vivenciado recentemente por uma comunidade.
- Experiência dos judeus sob o domínio babilônico, medo, persa e helenístico constituindo o núcleo histórico da visão das quatro feras em Daniel 7.
- Mitologização da história na narrativa apocalíptica acompanhada da alteração de seu referente temporal técnica de história como profecia para criar a lenda apocalíptica futura.
- A mitologização da base histórica em Daniel evidencia-se na apresentação simbólica dos quatro reinos como quatro feras.
- Configuração do reino helenístico corrente como um monstro aterrorizante que evoca o dragão do caos.
- Uso de estruturas míticas direcionado a elevar o significado dos eventos históricos descritos.
- A oposição entre a comunidade de Israel e os seus perseguidores torna-se parte da luta primordial entre o bem e o mal quando vista à luz de símbolos e padrões míticos.
- Presença de padrões míticos ao longo da Bíblia Hebraica, inclusive em estratos lendários como as lendas de heróis dedicadas a Davi.
- Localização no futuro e não no passado como o traço distintivo das lendas apocalípticas em comparação com outras formas de lenda.
- A história remitologizada torna-se uma nova forma de lenda sobre um evento histórico vindouro de significado arquetípico devido ao modo como os eventos interpretam o passado como futuro e ao propósito de preparar para o porvir.
- Os eventos históricos formam o elo de mediação necessário entre o início mítico e o fim lendário no apocalipsismo.
- Pessoas e eventos históricos recentes, como Antíoco IV, assumindo um papel formativo na criação da lenda do oponente humano final de todo o bem quando vistos pelo prisma mítico.
- Caracterização da figura em Daniel como um Tirano Final ou Antimessias em vez de um Anticristo no sentido próprio.
- Necessidade de refletir sobre o caráter simbólico da narrativa apocalíptica em geral antes de examinar os estágios da oposição que conduziram do Tirano Final ao Anticristo.
- A leitura das apocalipses judaicas e cristãs introduz o leitor em um mundo de cores brilhantes, animais estranhos, enumerações bizarras e imagens marcantes do céu e da terra.
- Questionamento da distinção moderna simplificada entre alegoria ruim e simbolismo bom pelas imagens nos textos apocalípticos, apesar de críticas que os reduziram a alegorias pueris.
- Insistência da literatura recente na necessidade de prestar atenção cuidadosa a essa mentalidade simbólica.
- O simbolismo da escatologia apocalíptica apresenta-se repleto de dualismo moral ou ético.
- Exclusão de qualquer forma de dualismo ontológico ou cosmológico, visto que nenhum texto apocalíptico considera o mal como um princípio separado independente da vontade de Deus.
- Destaque contínuo para a oposição entre líderes e comunidades do bem e do mal, abrangendo figuras humanas e angélicas.
- Um amplo dualismo locacional manifesta-se ao lado do dualismo ético, abundando oposições de padrões e figuras temporais e espaciais na escatologia apocalíptica.
- Símbolos ricos que replicam o contraste entre o bem e o mal que os mitos antigos retratavam através da luta entre o Dragão do caos e o Guerreiro Divino.
- O conflito apresenta-se frequentemente em termos do contraste entre este aeon, sob o controle do mal, e o aeon vindouro que iniciará o reino divino após o estilhaçamento da história.
- Investigadores que visualizaram o contraste entre as eras presente e futura como a marca distintiva da escatologia apocalíptica.
- A mentalidade oposicional subjacente manifesta-se em alguns dos símbolos numéricos utilizados para apresentar o cenário de crise—julgamento—recompensa do fim.
- Contraste entre o sete e os seus múltiplos, representando a plenitude e a perfeição, e o meio-sete ou três e meio, atuando como marcador de falha e imperfeição.
- Os símbolos espaciais também exibem a lei da oposição por meio do contraste entre a terra e o céu, sem que isso exclua correspondências importantes entre os dois reinos.
- Visualização das eras presente e futura como um reino do mal e um reino divino, ou concretamente como Babilônia e Jerusalém.
- Concepção de locais ideais e específicos em que as potências do mal e do bem travarão a sua guerra final.
- A localização do bem e do mal absolutos em lugares específicos apresenta-se estranha à religião moderna de modo semelhante à ideia medieval de relíquias contendo poder divino.
- Condição de Jerusalém para os apocalipcistas como símbolo da vitória final de Deus e como o lugar concreto onde essa vitória seria alcançada.
- A necessidade primordial de opor símbolos evidencia-se nas imagens de seres vivos que permeiam as narrativas apocalípticas.
- Compensação da falta de desenvolvimento psicológico dos personagens por meio de seu poder simbólico no cenário apocalíptico.
- Figuras implaudíveis que exibem aspectos do impulso apocalíptico característico direcionado a finaliza a luta entre o bem e o mal.
- O desenvolvimento e a disseminação do mito de Satanás como o oponente angélico de Deus qualificam-se como uma das contribuições mais importantes da escatologia apocalíptica.
- Presença de potências espirituais malignas em quase todas as tradições religiosas, estando o mito do combate enraizado nas religiões do antigo Oriente Próximo.
- As origens históricas do mito de Satanás como líder da oposição espiritual no cosmos predatam o surgimento da escatologia apocalíptica nas tradições judaicas do Segundo Templo.
- A explicação plenamente satisfatória sobre como a figura de Satanás emergiu na tradição judaica permanece em desenvolvimento.
- Divisão entre forças benignas e malignas que não criava problemas de teodiceia em um mundo de muitos deuses, visto que alguns seres eram bons e outros hostis.
- Evolução gradual da concepção de um único Deus todo-poderoso que tornou a questão da origem do mal central para os judeus.
- A indagação sobre a origem do mal tornou-se premente diante da concepção de Deus como um criador bom.
- Em estratos antigos da Bíblia Hebraica, Deus apresenta-se como o responsável pelas ocorrências boas e más que afetam os seres humanos.
- O hino de Moisés em Deuteronômio 32 apresenta Javé proclamando que não há outro deus além dele e que ele distribui a morte e a vida, a chaga e a cura.
- O profeta conhecido como Segundo Isaías afirma diretamente que Javé forma a luz, cria as trevas, produz o bem-estar e cria o mal.
- A ideia de que tudo provém de Deus gerou tropeços para um judaísmo que desejava defender a bondade divina, embora a noção fosse capaz de reviver.
- A solução satânica para o problema do mal formou-se a partir da interação de ao menos quatro elementos na tradição judaica.
- O primeiro elemento consiste na invocação do antigo mito do combate do Criador contra o monstro do caos.
- O segundo elemento reside no papel de um mensageiro angélico que desce ao mundo para realizar o trabalho sujo de Deus.
- O terceiro elemento compreende a história dos anjos que desceram do céu para se casar com mulheres humanas em Gênesis 6:1—6.
- O quarto elemento abrange os ataques dos profetas aos reis que se rebelaram contra Javé ao perseguir o seu povo.
- O mito do combate figura como o primeiro em termos de antiguidade.
- Narrativa em sua forma acádia no Enuma elish, provavelmente do final do segundo milênio antes da era corrente, versando sobre a luta entre Marduque e Tiamate, o dragão fêmea das águas do caos.
- O mar e as suas tempestades simbolizando o mal para os povos do antigo Oriente Próximo.
- Explicação da origem do universo no Enuma elish por meio da criação do cosmos e da humanidade a partir do cadáver de Tiamate e do sangue de seu consorte Quingu.
- Nem todas as versões do mito do combate apresentam-se igualmente voltadas para a construção do mundo presente.
- Versão sobrevivente do mito cananeu do combate entre o deus Baal e Iame, ou o mar, proveniente de Ugarit no século quatorze antes da era corrente, focada no estabelecimento do reinado correto.
- Cosmogonia e estabelecimento do governo correto atuando como os dois polos entre os quais se movem os mitos do combate.
- A pesquisa dispensa um levantamento das diferentes versões dos mitos antigos do combate e dos canais conjecturais de transmissão aos hebreus.
- Importância de reconhecer como os judeus adaptaram as estruturas míticas para servir aos seus próprios propósitos religiosos desde um período inicial.
- O Cântico do Mar em Êxodo 15 apresenta motivos e linguagem do mito do combate para enfatizar a importância do evento fundacional da travessia do Mar Vermelho e da libertação do Faraó.
- Intensificação do uso da linguagem mítica nos Salmos, nomeando o monstro como Leviatã ou Raabe.
- O Livro de Jó referindo-se a Raabe e Leviatã como oponentes de Deus.
- O uso mais poderoso do paradigma mítico ocorre em Isaías 51:9—10, situando a iminente libertação do exílio na Babilônia na perspectiva da luta cosmogônica.
- Clamor para que o braço de Javé desperte como nos tempos antigos e nas gerações do passado.
- Indagação sobre o ato divino de despedaçar Raabe, perfurar o Dragão e secar o mar e as águas do grande Abismo para fazer do fundo do mar um caminho para os remidos atravessarem.
- Pequena distância existente entre esse texto e o uso do padrão do combate mítico voltado ao futuro nas apocalipses.
- A origem do nome Satanás enraíza-se no papel do mensageiro angélico que realiza o trabalho sujo de Deus na terra.
- Derivação do termo a partir do verbo satan, cujo significado aponta para opor, utilizado na Bíblia Hebraica tanto para opositores humanos quanto angélicos.
- A ocorrência mais notável de um opositor angélico localiza-se em Jó, onde Satanás funciona como um dos filhos de Deus integrantes da corte celestial de Javé.
- O contraste entre dois relatos bíblicos do mesmo incidente revela a crescente independência de Satanás como uma força malevolente.
- O texto de 2 Samuel 24, do século sétimo antes da era corrente, afirma que a decisão de Davi de realizar um censo foi instigada por Deus, sendo depois arrependida pelo rei como pecado.
- A reescrita do incidente em 1 Crônicas 21:1—17, de cerca de 400 antes da era corrente, alivia Deus da responsabilidade ao colocar a culpa em Satanás, afirmando que este se levantou contra Israel e incitou Davi a fazer o censo.
- Condição da passagem de Crônicas como o texto mais antigo na Bíblia Hebraica que confere ao acusador angélico um reino independente de operação como fonte do mal.
- O terceiro corpo de tradições herdadas que atuou na evolução do mito de Satanás aparece na Bíblia em Gênesis 6:1—4.
- Relato sobre os filhos de Deus que viram que as filhas dos homens eram atraentes e se casaram com as que escolheram quando os homens começaram a se multiplicar.
- Geração dos nephilim, descritos como os gigantes do passado a partir dessa união.
- A tradição antiga dos gigantes teve um rico desenvolvimento mítico na literatura apocalíptica.
- O Livro dos Vigilantes em 1 Enoque 1—36 figurando como a testemunha primária e sendo reconhecido como a apocalipse sobrevivente mais antiga.
- O Livro dos Vigilantes tece um relato detalhado sobre o mal originando-se no mundo através do descenso de duzentos anjos maus que se casam com mulheres em um ato de rebeldia.
- Ensinamento de artes mágicas às mulheres pelos anjos e geração de uma raça de gigantes destruidores.
- Os anjos rebeldes possuem um líder denominado Semihaza ou Asael de acordo com as diferentes tradições mescladas no texto.
- O componente final na evolução de Satanás envolve a mistura de oponentes humanos e celestiais de Deus de modo próximo aos estágios formativos da lenda do Anticristo.
- O texto de Isaías 14:12—13 satiriza um rei terreno da Babilônia que ousou tentar ascender ao céu.
- Sátira expressa na indagação sobre como o astro brilhante, filho da alvorada, caíra dos céus e fora lançado por terra após pensar em subir aos céus e erguer o seu trono acima das estrelas de Deus.
- O relato envolve coloração mítica na imagem da rebelião contra as potências celestes, sendo notável pela inserção da nova história do ataque de um rei babilônio ao templo na antiga história do conflito entre deuses.
- Ataques semelhantes contra reis poderosos que reivindicavam status divino para si são encontrados nos oráculos contra o rei de Tiro em Ezequiel 28 e contra o Faraó em Ezequiel 29.
- Fusão de oposição humana e angélica que influenciou a figura em desenvolvimento de Satanás e a evolução da ideia de um Tirano Final no apocalipsismo judeu.
- Uma passagem do profeta exilado Ezequiel descrevendo um oponente humano de Javé exerceu profundo efeito no desenvolvimento posterior do Anticristo.
- Os capítulos 38 e 39 de Ezequiel contêm um longo oráculo contra Gogue, príncipe de Meseque e Tubal.
- Relato da invasão de um inimigo do norte e de sua derrota nas montanhas de Israel situando a incursão no fim dos anos, distanciando-se de profetas anteriores.
- A imagem marcante e o senso de progressão histórica tornaram o texto de Ezequiel maduro para a incorporação nas tradições apocalípticas, embora não fosse originalmente técnico.
- Gogue surgindo como um inimigo do povo escolhido no fim dos tempos, permitindo a vinculação de sua carreira à do Anticristo na tradição cristã.
- A mistura de oposição angélica e humana a Deus evidencia-se na primeira aparição explícita de um Tirano Final na literatura apocalíptica através do pequeno chifre na seção apocalíptica de Daniel.
- Culminação do relato de Daniel na carreira de Antíoco IV Epifânio, retratado como o pequeno chifre.
- Antíoco celebrizou-se como infame na história judaica após ser instigado pelo sumo sacerdote Jasão a seguir uma política de helenização forçada em Jerusalém.
- Disputas pelo poder que resultaram na captura de Jerusalém por Antíoco e no saque do templo no ano 169 antes da era corrente.
- O governante baniu as práticas religiosas judaicas por completo no ano 167 antes da era corrente.
- Profanação do templo mediante a ereção de um altar a Zeus, instalando a abominação da desolação acima do altar em dezembro de 167 antes da era corrente.
- Perseguição selvagem contra os judeus fiéis à Torá que motivou a eclosão da revolta dos Macabeus.
- Judas Macabeu e os seus seguidores purificaram o templo desecrado em dezembro de 164 antes da era corrente, tendo o perseguidor morrido poucas semanas antes.
- O autor de Daniel buscou fazer sentido da traumática experiência nacional dentro da estrutura da escatologia apocalíptica.
- Uso de padrões míticos antigos de revolta contra Deus para realçar a apresentação do perseguidor humano como o tirano do fim dos tempos e o adversário definitivo do povo divino.
- O retrato de Antíoco IV como oponente do fim dos tempos supera tudo o que fora encontrado na literatura judaica anterior.
- A oposição entre o Tirano Final e um messias humano apresenta-se ausente no texto de Daniel do ponto de vista do desenvolvimento pleno do Anticristo.
- O real oponente de Antíoco identifica-se como o próprio Deus.
- A figura de aspecto humano descrita como um filho do homem em Daniel 7:13—14 não se mostra explicitamente messiânica, aparentando representar o patrono angélico dos judeus.
- O retrato de Antíoco em Daniel permaneceu como um texto central para as tentativas posteriores de localizar justificativas scripturais para o Anticristo no Antigo Testamento.
- Antíoco IV permanece como um rei humano no chifre de Daniel, malgrado batalhar contra potências angélicas e contra o próprio Deus.
- Inexistência de outro produto do apocalipsismo judeu antigo que pinte um retrato tão desenvolvido de um oponente humano de Deus nos últimos dias.
- A visão de mundo apocalíptica dos últimos séculos antes da era corrente enfatizou a oposição entre Deus e os seus inimigos humanos e angélicos.
- Especulação sobre vários adversários humanos concebidos como tirano final e por vezes como falso profeta acompanhando a crença em um messias do novo aeon.
- O monoteísmo judaico nunca sucumbiu a formas de dualismo metafísico com dois princípios ultimate, manifestando porém um crescente dualismo ético nos séculos finais antes da era corrente.
- O mal passou a ser visto como o efeito de personalidades malévolas angélicas e humanas.
- Imprecisão frequente na distinção entre governantes humanos poderosos que reivindicavam status divino e potências angélicas sobre-humanas que possuíam formas corporais.
- O anjo mau Belial surge como a mais importante das figuras que corporificam a oposição apocalíptica, aparecendo em escritos do final do Judaísmo do Segundo Templo.
- O Livro dos Jubileus constitui uma recontagem de Gênesis e partes de Êxodo escrita no século segundo antes da era corrente, por volta de 160.
- Reflexo de uma visão do judaísmo semelhante à da comunidade de Qumran.
- Importância do Livro dos Jubileus para o tema devido ao quadro desenvolvido da oposição angélica sob a liderança de Mastema, nome relacionado a Satanás.
- O Livro dos Jubileus também utiliza o nome Beliar para o Príncipe mau na prece de Moisés para que o espírito de Beliar não governe o povo para acusá-lo diante de Deus.
- Condição do trecho como o uso personalizado mais antigo do nome, derivado de uma raiz que significa vil ou sem valor.
- O nome de Beliar ou Belial para o Príncipe dos Demônios ocorre com maior frequência nos Testamentos dos Doze Patriarcas, atribuídos aos filhos de Jacó.
- Presença de materiais judeus do século segundo antes da era corrente nos Testamentos, mostrando-se o seu uso problemático e desnecessário por falta de consenso sobre a data de formação ou autoria cristã.
- O nome Beliar apresenta-se frequentemente utilizado nos escritos de Qumran para se referir ao líder da oposição a Deus.
- Comunidade de Qumran constituída por essênios que romperam com o sacerdócio do templo de Jerusalém no século segundo antes da era corrente e se retiraram para o deserto da Judeia.
- Destruição do centro de Qumran pelos romanos invasores por volta do ano 68 da era corrente.
- Descoberta dos pergaminhos escondidos em onze cavernas vizinhas entre 1947 e 1956 considerada uma das maiores conquistas arqueológicas do século.
- A compreensão da relevância da postura apocalíptica de Qumran e de sua contribuição para os adversários finais requer notar aspectos essenciais de sua ideologia.
- Separação em relação ao templo de Jerusalém motivada pela convicção de corrupção no sacerdócio na época do assassinato do sumo sacerdote Onias III e do início da helenização.
- Seguidor de um líder sacerdotal denominado Mestre da Justiça, que foi oposto pelo Mestre da Mentira e por um Sacerdote Mau.
- Caráter histórico atribuído aos personagens em meio a disputas acadêmicas sobre as suas identidades.
- O contraste entre líderes do bem e do mal refletia o estrito dualismo ético e o senso de predestinação apocalíptica pelos quais Deus governa o mundo até o fim do aeon através do Espírito da Verdade e do Espírito da Perversidade.
- Literatura de Qumran realçando os aspectos internos da estrutura oposicional básica do pensamento apocalíptico.
- A história visualizada como uma guerra perpétua entre as forças do bem e os representantes angélicos e humanos do mal sob o comando de Belial.
- Alguns textos indicam que a comunidade aguardava a chegada iminente de dois messias: o messias de Arão, figura sacerdotal, e o messias de Israel, descendente real de Davi.
- Atuação dos dois messias na guerra apocalíptica final em que as forças do bem seriam três vezes vitoriosas e três vezes derrotadas por Belial, até a intervenção direta de Deus na sétima batalha.
- O Manuscrito de Melquisedeque, de meados do século primeiro antes da era corrente, apresenta o rei-sacerdote de Gênesis 14 como um redentor apocalíptico celestial que julgará os filhos de Belial.
- Documentos de Qumran como exemplos da tendência da escatologia apocalíptica em fundir o celestial e o terreno no polo vertical ou espacial do pensamento.
- Mescla do presente e do futuro no polo horizontal ou temporal, permitindo que os conflitos correntes sejam interpretados como parte do embate definitivo entre o bem e o mal.
- Belial surge como o Príncipe do Mal e o equivalente de Satanás nos principais textos de Qumran datados da segunda metade do século segundo antes da era corrente.
- Papel pronunciado de Belial no célebre Manuscrito da Guerra, que descreve a batalha apocalíptica entre os exércitos da luz sob o comando de Miguel e os da escuridão sob Belial.
- Os Hinos de Ação de Graças falando de uma crise apocalíptica vindoura em que as torrentes de Belial destruirão o universo físico.
- Belial tornou-se o autor do mal em Qumran, mas preservou a sua condição de figura angélica de modo semelhante ao seu homólogo Melquiresa, comandante das forças angélicas do bem.
- Crença dos sectários de que o exército de Belial incluía anjos e homens, fazendo com que alguns filhos de Belial assumissem características de um adversário humano e de um antimessias.
- Vários textos antigos das coleções de Qumran contêm descrições de oponentes humanos maus para os messias vindouros.
- Um texto fragmentário do último terço do século primeiro antes da era corrente descreve um governante humano blasfemo de um reino destruidor na era da luta apocalíptica futura.
- Avanço do governante em relação a Antíoco IV ao exigir adoração para si mesmo como filho de Deus.
- Texto atuando como um possível elo perdido entre o Antíoco de Daniel e as tradições judaicas refletidas em documentos cristãos como 2 Tessalonicenses e a Pequena Apocalipse dos Evangelhos sinóticos.
- Dois outros escritos do final do Judaísmo do Segundo Templo testemunham como Belial podia ser associado a figuras humanas ou assumir feições humanas.
- A Ascensão de Isaías qualifica-se como o primeiro desses textos, constituindo uma compilação cristã em sua forma presente.
- Estudos modernos demonstrando que a Ascensão consiste em um texto judeu original com interpolações cristãs denominado Martírio de Isaías e em uma Ascensão de Isaías cristã posterior.
- Beliar apresenta-se parcialmente fundido com dois agentes humanos — um rei mau e um falso profeta — no Martírio de Isaías.
- Fusão direcionada a formar um contraponto preciso ao conceito do duplo messias como rei e profeta.
- Portrato de Beliar agindo em agentes humanos no cenário apocalíptico constituindo o testemunho judeu antigo mais importante após Daniel para os adversários humanos, independentemente de uma origem em Qumran.
- Outro texto do final do Judaísmo do Segundo Templo merece menção por evidenciar a tendência apocalíptica judaica em enxergar perseguidores humanos correntes como agentes do mal definitivo.
- Testemunhas cristãs primitivas mencionando uma Assunção e um Testamento de Moisés.
- Uma obra fragmentária sobrevivente em um manuscrito latino defeituoso apresentando-se como uma versão do Testamento de Moisés.
- O conteúdo do texto configura-se como pura escatologia apocalíptica envolvendo uma revisão da história de Israel como profecia e uma versão incomum dos últimos eventos, malgrado o gênero de testamento.
- Identificação do rei impudente que governa por trinta e quatro anos com Herodes o Grande, e do rei poderoso do Ocidente que destrói parte do templo com o cônsul romano Varo.
- A descrição dos agentes apocalípticos é seguida por um relato obscuro sobre sacerdotes corruptos e pelo ataque de um rei dos reis da terra que crucificará os que confessam a circuncisão.
- Relato do ataque assemelhando-se a mais uma reflexão apocalíptica sobre Antíoco Epifânio.
- Datação do Testamento de Moisés localizada provavelmente nas primeiras décadas do século primeiro da era corrente.
- Demonstração de que os judeus de mentalidade apocalíptica incorporavam os seus oponentes humanos na estrutura do cenário do fim desde o tempo de Antíoco ao de Herodes.
- A investigação final indaga que tipo de mal humano essas figuras gestantes semelhantes ao Anticristo comunicam no final do Judaísmo do Segundo Templo.
- Evidência de dois aspectos de violência externa no relato paradigmático de Daniel: a blasfêmia contra Deus e a perseguição dos fiéis divinos.
- Clareza no papel do perseguidor mau quanto à profanação do templo e à perversão da Torá.
- A visão qumranica da oposição humana adiciona o elemento da falsa liderança religiosa por meio da hipocrisia do pseudoprofeta.
- Vinculação do elemento à ênfase no conflito interno entre o bem e o mal e ao dualismo psicológico da luta dos espíritos dentro do coração humano.
- Contribuição mútua de todos os elementos para a imagem do Anticristo ao longo de mutações nos séculos.
- A compreensão do mal humano final na escatologia apocalíptica apresenta-se mais preocupada com a ação do que com a motivação.
- Citação evangélica determinando que pelos seus frutos os conhecereis.
- O governante mau define-se como mau por blasfemar contra Deus e atacar o remanescente fiel.
- O sacerdote ou profeta ímpio caracteriza-se como ruim por perverter a Lei por meio do engano.
- O caráter determinista da malícia dos adversários finais surge como o traço mais marcante do ponto de vista moderno nas origens judaicas do fenômeno.
- Os oponentes são maus porque praticam o mal.
- Convicção dos sectários de Qumran de que os seus oponentes haviam sido totalmente possuídos pelo Espírito da Perversidade, facilitando a divisão estrita apesar dos discursos sobre os dois espíritos no coração.
- A grande tentação da escatologia apocalíptica reside sempre na externalização do bem e do mal em termos dos conflitos históricos presentes.
e/mcginn/anticristo/inimigos-de-deus.txt · Last modified: by 127.0.0.1
