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MORTE DESAFIO SEPARAÇÃO

Jean-Claude Larchet — A Vida depois da Morte

Primeiro ao terceiro dia após a morte (cont.)

6. O desafio da separação da alma e do corpo

A separação da alma e do corpo é para os santos não apenas fácil mas fonte de alegria, como informam inúmeros registros dos Padres. Assim Teognosto escreve: «Inefável e inexprimível é o prazer da alma que, em um sentimento de certeza espiritual (plerophoria), se separa do corpo e se despoja dele como de uma vestimenta. Com efeito, quando ela já obteve dele o que ela espera, ela se desprende do corpo sem tristeza».

No entanto, para o homem ordinário que a temia à aproximação da morte, esta separação é agora experimentada com um certo sofrimento e constitui uma nova adversidade. Os serviços litúrgicos dos funerais evocam « a penível separação da carne» e se lamentam assim: «Que angústias suporta a alma quando é separada de seu corpo!». Macário de Alexandria evoca esta provação nestes termos: « A alma sofre da separação do corpo, seu companheiro; isto lhe é coisa penível e ela chora por causa da dissolução de sua comunhão com ele, dado que ela está privada de sua sociedade». E João Crisóstomo, comentando palavra de Paulo Apóstolo: «Gememos, porque queremos ser despojados» (2Co 5,4), nota: «Parece penível para maior parte deixar seu corpo (…) e com efeito a alma experimenta muita pena a se separa do corpo».

A dificuldade de se separar do corpo e a pena que se experimenta não são obrigatoriamente sinal de apego patológico ao corpo, desta paixão de philautia (amor apaixonado de si) que Máximo o Confessor define como «carinho pelo corpo» em um sentido negativo e na qual vê a fonte de um sofrimento natural que provoca a ruptura dos dois elementos constituindo juntos e indissociavelmente a natureza humana e que a pessoa portava nela de maneira unificada. Esta separação é portanto um processo contra natureza; ela é de certo modo uma violência feita à natureza e à harmonia do composto humano, como o indica ((João Damasceno no Cânon que escreveu para o ofício dos funerais do leigos: «Terrível em verdade é o mistério da morte, como a alma é violentamente separada do corpo, de sua harmonia, e como sua ligação muito natural de parentesco é rompida pela vontade divina».

Como indicado este processo de separação se cumpre pela vontade divina, a ação de Deus sendo aqui providencial posto que se trata com efeito de dissolver o composto humano em seu estado caído (quer dizer submetido à corrupção) para o reconstituir ulteriormente em um estado melhor, incorruptível.

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