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LIGAÇÕES POST-MORTEM

Jean-Claude Larchet — A Vida depois da Morte

Primeiro ao terceiro dia após a morte (cont.)

9. A subsistência da ligação da alma e do corpo na permanência da hipóstase

Depois que a alma se separa do corpo, este não retorna pura e simplesmente ao nada, e seus elementos, dispersados, dissolvidos e misturados a outros elementos materiais, não se tornam por conseguinte qualquer “resíduo”. Dionísio o Areopagita o salienta, assim como Gregório de Nissa que escreve: com a morte, “a parte sensível se dissolve, mas não é destruída, pois a destruição é a passagem ao nada, enquanto a dissolução é o retorno desta parte aos elementos do mundo, de onde ela se formou, e sua dispersão. Aquilo que se encontra neste estado não morreu, embora escapando a nossa percepção sensível” (Discurso catequético). Isto leva João Crisóstomo a dizer que “a morte vem destruir aquilo que há de corruptível em nós, mas não destrói (melhor dizendo) o corpo (Homilias sobre a segunda epístola aos Coríntios, X,2).

Seria um erro igualmente “imaginar que a ligação dos corpos com suas próprias almas se rompe para sempre”.

Se a morte põe fim à ligação natural da alma e do corpo em um composto, em revanche ela deixa subsistir sob uma certa forma a ligação natural deles, e de maneira plena sua ligação hipostática. Não se pode considerar que o morto se reduziria doravante a sua alma enquanto seu corpo, destinado à dissolução, perderia toda relação com ele e não seria mais nada. Do mesmo modo que a alma é a alma da pessoa morta, seu corpo, mesmo no estado cadavérico ou de esqueleto, permanece seu corpo. Além da morte, a alma e o corpo guardam, em sua relação à pessoa (ou hipóstase) da qual são a alma e o corpo, uma ligação irremovível e inalienável entre eles e com esta pessoa (ou hipóstase). Máximo o Confessor desenvolveu particularmente estas considerações antropológicas. Depois da morte, escreve ele, a alma não está completamente dissociada do corpo, pois “após a morte do corpo uma alma não é simplesmente Chamada alma, mas alma de um homem, e de tal homem (quer dizer de uma pessoa determinada, pois ela possui mesmo depois (de ter saído) do corpo, como sua forma (eidos) inteira, a entidade humana à qual ela é relativa enquanto parte. Da mesma maneira se passa para o corpo, que é mortal por natureza, mas que, segundo a vinda à existência, não existe separadamente. Depois de sua separação da alma, não é dito simplesmente corpo, mas corpo de um homem, e de tal homem, mesmo se tenha sofrido a corrupção e que seus elementos constitutivos tenham se dissolvido. Com efeito, possui como sua forma (eidos) inteira a entidade humana à qual é relativo enquanto parte. Nos dois casos, a relação — aquela da alma e do corpo — concebida sem falta como relação das partes de um todo que é a forma (eidos) humana, implica também a vinda à existência simultânea das partes deste todo, e indica sua diferença mútua segundo a essência, sem que de alguma maneira sejam alterados os logoi que lhes são próprios por essência. É, portanto, absolutamente impossível, encontrar ou dizer a alma e o corpo desligados de relação (um com o outro). Outro de cada um é introduzido ao mesmo tempo que ele (…). E a relação deles é imutável“ (Ambigua a João, 7).

Gregório de Nissa aborda esta questão sob outro ângulo. Explica que a alma jamais esquece os elementos do corpo quando, em seguida à morte, eles foram dispersos, assim como o pintor misturando tintas para fazer uma nova cor, não esquece as tinta das cores que serviram para fazer a mistura, ou assim como um criador não esquece os animais que lhe pertencem e sabe os encontrar quando estão dispersos entre aos animais de outros criadores no seio de um mesmo rebanho, ou ainda assim como os proprietários de diferentes recipientes em barro que foram reunidos e quebrados saberão reconhecer entre os fragmentos misturados aqueles que constituem sem bem próprio. Mesmo na morte, a alma guarda a memória não apenas do corpo global mas de seus diferentes constituintes e resta de certa maneira presente a cada um deles, qual possa ser seu estado de alteração em relação a seu estado original: “A alma conhece, mesmo depois de sua dissolução, a natureza própria dos elementos reunidos para constituir o corpo com o qual ela nasceu; mesmo se a natureza os leva longe uns dos outros por causa das oposições que guardam, impedindo cada um deles de se misturar com seu contrário, a alma será no entanto perto de cada um, ela que por seu próprio poder de conhecimento (gnosis — episteme) se une àquilo que lhe é próprio e habita perto dele até que se faça de novo a reunião em um mesmo ser dos fragmentos separados, com vistas a reconstituir aquilo que foi dissolvido; e isto, no sentido próprio, é o que se chama a ressurreição” (Sobre a alma e a ressurreição). Inversamente, após a separação da alma do corpo, o corpo permanece de alguma maneira presente à alma, como Gregório de Nissa faz notar: “O passagem do Cristo pelo Inferno ( Lc 16, 19 ) mostra que na alma, mesmo depois de sua separação, permanecem marcas distintas do composto que fomos: enquanto os corpos estão depositados no túmulo , as lamas conservam algum sinal corporal, que permitiu de reconhecer Lázaro e não permitiu ao rico de ficar incógnito” (A criação do mundo). Apesar das diversas alterações que pode sofrer no curso de sua existência terrestre (pelo fato por exemplo da mudança de idade) e pelo fato da morte (que provoca a dispersão e a dissolução dês seus componentes), o corpo possui uma forma (eidos — estrutura, plano, espécie de “Ideia”, arquétipo, mas personalizado, que permanece invariável sob as alterações que afetam suas expressões materiais e sua aparência externa) que reta imutável e cuja alma conserva a marca permanentemente nela, mesmo além da morte. É graças a isso que, quando da ressurreição, os diferentes elementos poderão ser reunidos e reconstituídos para formar o corpo ressuscitado. “As diferenças nas combinações (da matéria) dão à forma (eidos) aspectos diferentes; por outro lado, esta combinação nada mais é que a mistura dos elementos primeiros (assim chamamos os elementos que são os princípios constitutivos do todo e pelos quais também é composto o corpo humano). Em consequência, como a forma (eidos) do corpo resta na alma que é como a marca me relação ao selo, os materiais que serviram para formar a figura sobre o sinete não permanecem ignorados da alma, mas, no instante da ressurreição, ela recebe de novo nela tudo que se harmoniza com a marca deixada nela pela forma (eidos) do corpo. Se harmonizam então inteiramente com ela estes elementos que desde a origem formaram esta forma” (A criação do homem). O corpo ressuscitado será certamente renovado e diferente de sua condição atual, mas conservará no entanto sua identidade pessoal e se situará deste ponto de vista na continuidade do corpo atual, o ressuscitado encontrando seu corpo (e não aquele de um outro ou um outro corpo), mas em uma modalidade de existência diferente. Esta preservação da identidade pessoal e esta continuidade devem portanto igualmente subsistir entre o Momento da Morte e o da ressurreição, mesmo quando os elementos do corpo estejam dispersos e profundamente alterados, ou seja dissolvidos. “Não é impossível, escreve Gregório de Nissa, que os elementos se reúnam de novo uns com os outros e que seja perfeitamente constituído o mesmo homem. (…) Se os caracteres próprios não reaparecem com exatidão, e se são retomados daquilo que tem uma origem semelhante e não daquilo que propriamente caracteriza, seria questão de um segundo ser no lugar do primeiro, e tal coisa não poderia ser a ressurreição, mas a criação de um novo homem. Se é preciso que a mesma pessoa retorne a ela mesma, é conveniente que ela seja absolutamente idêntica a ela mesma, retomando sua natureza original, com todos os elementos que constituem as partes” (Sobre a alma e a ressurreição, 60). Eis porque Gregório de Nissa retorna sobre sua “concepção da alma segundo a qual os elementos onde ela desde a origem nasceu são aqueles em que ela permanece mesmo depois de sua dissolução, como se ela tivesse se constituído guardiã daquilo que é dela;: quando se faz o retorno àquilo que tem a mesma natureza (quer dizer o corpo à terra), ela não abandona seu próprio bem, graças à sutileza e a mobilidade de sua substância espiritual; ela não se perde por conseguinte nas divisões sutis dos elementos; pelo contrário, ela se introduz nas partes que lhe pertencem e que revêm se misturar naquilo que tem a mesma natureza, e não perde nada de seu vigor os acompanhando em sua travessia quando o universo as reabsorve; ela permanece sempre nelas, em algum lugar e de alguma maneira que a natureza as dispõe” (Sobre a alma e a ressurreição, 61).

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