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Evangelho de Judas

BRAKKE, David. The Gospel of Judas: a new translation with introduction and commentary. New Haven (Conn.) London: Yale University Press, 2022.

Noções gnósticas

  1. O autor do Evangelho de Judas permanece desconhecido, mas a maioria dos estudiosos o associa ao sетianismo ou gnosticismo setiano, embora suas divergências em relação a traços importantes dessa tradição tenham gerado debate sobre se o texto representa um estágio inicial ou tardio — e até sobre se a própria categoria deve ser repensada.
  2. A categoria moderna de setianismo foi criada em 1974 por Hans-Martin Schenke, que reuniu escritos de Nag Hammadi e testemunhos heresiólogos em torno de motivos mitológicos compartilhados — como o Espírito Invisível, a Barbēlō, o autogerado e os quatro luminares —, argumentando que esse conjunto de textos dava acesso à história de uma comunidade religiosa real.
    • O mito setiano desdobra-se em quatro atos: emanação do reino divino, criação do cosmos por um demiurgo inferior arrogante, formação dos seres humanos que recebem poder divino de cima, e vinda de um salvador que os liberta da ignorância imposta pelos governantes inferiores.
    • Schenke reconhecia que nenhuma obra setiana precisaria conter todos os motivos listados, assim como nenhum escrito de um teólogo presbiteriano precisaria expor toda a doutrina presbiteriana.
  3. Há discussão substancial sobre se o grupo de textos reflete uma comunidade religiosa efetiva do século II ou apenas uma tradição literária de autores afins que dialogavam entre si, embora a maioria dos historiadores admita que a linguagem sectária e as referências a um ritual batismal de cinco selos indicam alguma forma de comunidade.
  4. A narrativa padrão sobre as origens setianismo sustenta que ele emergiu entre judeus helenizados do final do século I ou início do século II, incorporou elementos cristãos secundariamente, e no final do século III voltou-se para o neoplatonismo místico pagão — hipótese que investe a unidade do corpus em traços mitológicos não cristãos e permite ordenar cronologicamente os textos.
  5. Essa narrativa padrão foi persuasivamente criticada por vários estudiosos, que apontam que todos os autores antigos que descrevem a mitologia setiana identificam seus praticantes como cristãos, que nenhuma evidência externa confirma uma comunidade setiana não cristã, e que a identificação do deus do Gênesis como ser maligno é mais plausível como radicalização de motivos paulinos e joaninos do que como especulação judaica independente.
  6. O Evangelho de Judas é inegavelmente cristão em toda a sua extensão — ao contrário do Livro Secreto segundo João, cujos elementos cristãos se concentram no quadro narrativo —, e sua afinidade com a tradição gnóstica manifesta-se nas correspondências estruturais com esse mesmo Livro Secreto: a tríade divina, o autogerado e seus quatro assistentes, os arquétipos de Adão e da raça de Sete, e os governantes inferiores liderados por Ialdabaōth.
  7. Os estudiosos divergem sobre o lugar de Judas na história setiana: Meyer argumenta que representa o setianismo em estágio inicial ou até pré-setiano; Turner e Schenke Robinson, ao contrário, sustentam que é um produto tardio e secundariamente setianizado do século III, o que os obriga a postular que Ireneu conhecia uma versão anterior diferente do texto copta disponível.
  8. O vocabulário mítico do Evangelho de Judas apresenta duas características distintivas em comparação com o Livro Secreto: utiliza terminologia de astronomia apocalíptica e judaica — éon, nuvem, anjo, estrela — em vez de abstrações filosóficas, e pressupõe maior continuidade ontológica entre o reino divino e o cosmos corruptível, sem a separação dualística rígida entre os dois.
    • Termos como éon, anjo e reino atravessam a fronteira entre o reino superior e o inferior, ao passo que estrela e governante ficam restritos ao âmbito inferior — diferença que reflete uma cosmologia de devolução gradual, não de ruptura abrupta.
    • A origem do demiurgo inferior em Judas não decorre do erro do éon sabedoria, como no Livro Secreto, mas de uma rebelião angélica deliberada: Nebrō é um apóstata, e essa versão alternativa da cosmogonia encontra paralelos em Satorninos de Antioquia e no Livro Santo do Grande Espírito Invisível, sugerindo que duas explicações concorrentes da origem do cosmos corrompido coexistiam já no século II.
  9. As estrelas em Judas exercem influência perturbadora sobre os seres humanos e os eventos do cosmos, mas não determinam rigidamente o destino de cada indivíduo — sua ação assemelha-se à dos governantes do Livro Secreto, que impõem constrangimentos e induzem ao erro sem suprimir inteiramente a liberdade humana.
  10. Caracterizar o setianismo de Judas como truncado, abreviado ou tecnicamente mal aplicado pressupõe a existência de um corpus canônico e padronizado do qual o autor teria se desviado, quando o mais adequado é imaginar uma tradição em construção contínua, na qual o Evangelho de Judas representa uma variante contemporânea do Livro Secreto, datável do meio do século II e pertencente ao estágio inicial — não tardio — do desenvolvimento gnóstico.
  11. O termo genea aparece pelo menos quarenta e oito vezes no Evangelho de Judas — densidade notável para obra tão breve —, e muitos intérpretes concluíram daí que o texto ensina um determinismo soteriológico severo, segundo o qual o destino de cada ser humano estaria fixado pela raça a que pertence desde o nascimento.
  12. Essa conclusão determinista deve ser recebida com cautela, pois no século II a oposição rígida entre determinismo e livre-arbítrio praticamente inexistia: mesmo os estoicos, comprometidos com uma forte noção de providência divina, sustentavam a responsabilidade moral e a possibilidade de progresso na virtude, e o conceito de raça na Antiguidade incluía costumes, instituições e práticas religiosas compartilhadas, tornando-o aberto a oscilações estratégicas entre fixidez e fluidez.
    • Michael Williams demonstrou que expressões como raça imóvel e semente de Sete nos textos gnósticos não implicam determinismo soteriológico: no Livro Secreto segundo João, a inclusão na raça imóvel representa a conquista da humanidade perfeita, possível a todos os seres humanos, ainda que alguns necessitem de reencarnações.
    • Denise Buell desenvolveu o conceito de raciocínio étnico para descrever como cristãos antigos mobilizavam vocabulário de povo e raça tanto para afirmar a universalidade de sua forma de cristianismo quanto para demarcar fronteiras em relação a outros grupos, com retórica que podia atribuir simultaneamente fixidez e fluidez à identidade racial.
  13. A tradução de genea por geração — preferida por alguns por refletir o uso nos Evangelhos sinóticos — é inadequada, pois sugere em inglês contemporâneo uma coorte temporal, ao passo que o termo em Judas designa uma classe de seres humanos unidos por parentesco e prática religiosa e persistente através da história; raça, apesar de seu peso no debate contemporâneo, é a tradução mais produtiva por expor o caráter construído da categoria tanto na Antiguidade quanto na modernidade.
  14. O raciocínio étnico do Evangelho de Judas opõe a raça única e santa — grande, santa, incorruptível, poderosa, não dominada — às múltiplas raças dos seres humanos vinculadas a estrelas e anjos falsos, em eco da retórica bíblica que contrasta o único povo de Deus com as nações, definindo a identidade racial pela prática religiosa e pela adoração ao único deus verdadeiro, não pela descendência biológica.
  15. As referências à descendência de Adão sugerem uma ambiguidade constitutiva: todos os seres humanos pertencem à raça de Adão e estão sujeitos à mortalidade imposta por Saclas, mas Deus tornou o conhecimento disponível a Adão e seus descendentes como meio de libertação, de modo que a raça de Adão contém em potencial tanto a condenação quanto a salvação — distinção que se efetiva pela resposta de cada um à gnose, não por predestinação racial.
    • A raça do Adão terreno e mortal será destruída no fim dos tempos, ao passo que a raça do grande Adão, em solidariedade com o Adamas imortal do reino superior, será exaltada — duas possibilidades abertas ao mesmo ser criado da terra mas dotado da promessa de participação no humano perfeito.
    • A raça de Sete existe apenas no reino superior como arquétipo da comunidade ideal; o texto não narra descendências genealógicas a partir de Sete nem opõe seus descendentes aos de Caim ou Abel, o que distingue Judas da Revelação de Adão, que elabora genealogias detalhadas para judeus, gentios e gnósticos.
  16. A retórica de fixidez racial aparece nos momentos de julgamento mais severo — quando Jesus declara ter sido enviado apenas à raça poderosa e incorruptível e afirma que a salvação das demais raças é impossível —, mas serve a um propósito polêmico específico: excluir do âmbito da salvação os discípulos, os líderes eclesiais que representam e seus seguidores mais fervorosos, sem que isso implique determinismo universal.
  17. Em sua função mais abrangente, genea distingue a raça santa que adora o deus verdadeiro das múltiplas raças que sacrificam ao falso deus Saclas, com ênfase na prática religiosa como critério definidor, e o texto deixa aberta aos leitores a possibilidade de mudança — cessando os sacrificos e deixando de adorar os governantes inferiores — o que é incompatível com um determinismo soteriológico estrito.
  18. O Evangelho de Judas critica ferozmente os discípulos de Jesus, mas os verdadeiros alvos dessa crítica são os líderes de outros grupos cristãos do século II, identificáveis pelos anacronismos que situam as cenas — a eucaristia, o sacerdócio, o templo — no contexto das práticas comunitárias da época, não no ministério histórico de Jesus.
  19. Os elementos da crítica aos discípulos giram em torno de seu ritual e de seu deus: eles abençoam um deus falso na refeição eucarística, não possuem o conhecimento correto de Jesus, e em sonho aparecem como sacerdotes que presidem sacrifícios num edifício que leva o nome de Jesus, conduzindo seus seguidores à morte em vez de à vida.
  20. Alguns comentadores propõem que o alvo principal da obra é o entusiasmo pelo martírio como sacrifício ao deus criador, citando Inácio de Antioquia e as respostas de Ireneu e Tertuliano a cristãos céticos diante do martírio, mas diversas objeções enfraquecem essa hipótese: os líderes no sonho não são sacrificados, mas presidem os sacrifícios; crianças mártires eram raras ou inexistentes no século II; e o governo romano está completamente ausente da narrativa.
    • A cena do sonho exagera o número de vítimas e a ferocidade dos líderes à maneira típica de obras apocalípticas, o que indica que o autor via seus rivais como a igreja majoritária, não que o martírio fosse seu foco central.
  21. A maioria dos estudiosos concorda que o alvo primário é a eucaristia, especificamente compreendida como sacrifício oferecido ao deus de Israel por líderes que se apresentam como sacerdotes e sucessores dos apóstolos — embora permaneça em debate se o texto se opõe à ideologia sacrificial em si, à direção do culto ao deus errado, à autoridade exclusiva do clero, ou a alguma combinação desses elementos.
  22. O sonho dos discípulos aponta simultaneamente para trás, em direção à refeição eucarística já narrada, e para frente, em direção ao sacrifício escatológico de Jesus: a mesma estrutura de ação sacrificial preside tanto o culto comunitário contemporâneo quanto os eventos do fim dos tempos, incluindo a entrega do portador humano de Jesus pelas mãos de Judas.
  23. O consenso historiográfico sustenta que a combinação explícita de eucaristia, sacrifício, sacerdócio e morte de Jesus como elementos de uma única teologia eucarística só aparece claramente em Cipriano de Cartago no século III, mas o Evangelho de Judas demonstra que os ingredientes para essa síntese já circulavam no século II em obras como a Didaquê, 1 Clemente, Inácio de Antioquia, Justino Mártir e Ireneu de Lyon.
    • A Didaquê identifica a eucaristia com o sacrifício puro de Malaquias, exige integridade dos líderes que o presidem e estabelece a continuidade com o culto sacrificial do templo de Jerusalém.
    • Pseudo-Clemente de Roma chama bispos e diáconos de sacerdotes que fazem as oferendas, invoca a estrutura sacerdotal do Antigo Testamento para legitimar a hierarquia eclesiástica e pressupõe altar, espaço sagrado e santidade pessoal dos ministros.
    • Inácio de Antioquia associa martírio, eucaristia e sacrifício, e exige que os fiéis permaneçam dentro do altar — entendido como espaço ritual comunitário — como condição de acesso ao pão de Deus.
    • Justino Mártir afirma explicitamente que os cristãos oferecem à eucaristia sacrifícios de pão e vinho em memória do sofrimento de Jesus, constituindo assim a verdadeira raça sacerdotal de Deus.
    • Ireneu de Lyon, ao citar Malaquias para defender a eucaristia como sacrifício puro que substitui os do templo judaico, chama os discípulos originais de sacerdotes que servem a Deus e ao altar — formulação que ressoa diretamente com a acusação de Judas contra os discípulos.
  24. Nenhuma obra cristã anterior ao século III reúne explicitamente todos os elementos — eucaristia como sacrifício, líderes como sacerdotes e sucessores apostólicos, altar, morte de Jesus e analogia com o templo de Jerusalém —, mas todos esses elementos já existiam dispersos na literatura do século II, especialmente em textos com conexão com Roma, o que torna plausível que o Evangelho de Judas os combata conjuntamente e sugere a necessidade de reconsiderar o consenso acadêmico sobre sacrifício, sacerdócio e eucaristia no período.
  25. O Evangelho de Judas estrutura-se em torno da ligação entre dois atos de Judas — receber revelações de Jesus e entregar Jesus às autoridades —, de modo que os diálogos explicam o ato final: por que era necessário, por que Judas era a pessoa indicada e quais seriam suas consequências.
  26. O autor pressupõe que os leitores conhecem a narrativa canônica de Judas — Marcos sem motivo explícito, Mateus com ganância e suicídio, Lucas-Atos com Satanás entrando em Judas e sua morte horrível, João com Jesus orquestrando os próprios eventos da prisão —, e constrói sua polêmica sobre esse pano de fundo negativo já familiar ao público.
  27. Assim como nos evangelhos canônicos, os líderes judaicos — escribas e sumos sacerdotes — conduzem a ação no epílogo narrativo, enquanto Judas apenas responde ao que desejam; o que o motiva não está nessa cena final, mas nas revelações recebidas nos diálogos precedentes.
  28. Judas entrega Jesus porque conhece a verdadeira identidade e origem de Jesus — ao contrário dos demais discípulos, que o confundem com o filho do deus criador Saclas —, e é por isso, não por virtude ou vício superiores, que Jesus o separa dos outros e lhe revela os mistérios do reino e o erro das estrelas.
  29. O sacrifício do portador humano de Jesus não é um ato virtuoso: representa a culminação das obras pecaminosas realizadas em nome de Jesus e é oferecido a Saclas, mas é um passo necessário para a derrota dos governantes inferiores, o enfraquecimento do sistema de dominação e sacrifício que controlam, e a exaltação da grande raça de Adão.
  30. Judas não é salvo nem condenado: separado tanto da raça santa quanto dos discípulos que adoram Saclas, maldito por todas as raças, ele não perecerá com os discípulos no fim dos tempos, mas ascenderá ao décimo terceiro éon — acima dos doze — para governar o cosmos reorganizado em substituição a Nebrō, Saclas e seus anjos destruídos.
  31. A designação de Judas como décimo terceiro daimon por Jesus — proferida com ironia e até com escárnio — é a palavra mais debatida do evangelho: daimon indica um ser intermediário entre o reino superior e os humanos que permanecem no cosmos, e sua aplicação a Judas reflete tanto o uso neutro do termo na filosofia greco-romana quanto a conotação negativa inevitável no contexto cristão primitivo, possivelmente aludindo ao fato de que os doze discípulos também governam éons e podem ser os outros doze demônios.
  32. O Evangelho de Judas desafia pressupostos estabelecidos sobre a soteriologia gnóstica — segundo os quais nenhum ser humano poderia participar do plano de salvação divino —, e revela que os cristãos gnósticos possuíam uma mitologia mais diversa e uma compreensão mais matizada de Deus, da humanidade e do mundo do que a historiografia tradicional havia reconhecido.
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