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cr:perola-evangelica:prefacio

Invocação

Humilde invocação do Espírito Santo, para adquirir seus dons, e obter a virtude de superar todos os vícios, a qual deve-se praticar ou exercitar com um espírito tranquilo e humilde.

Vinde Espírito Santo, e lance do céu vossos raios sagrados. Ó Espírito Santo! Deus que é a caridade do Pai e do Filho, bondade e misericórdia infinita, que é essencialmente santo e vossas obras todas santas, que fazeis e tornais o homem puro, humilde, pobre de espírito, obediente, amável, jovial, pacífico, fervoroso para Deus, e verdadeiro para todos os homens. Ó mui-clemente Espírito Santo, Deus muito santo, não sou digno de receber de vossa divindade uma tão grande plenitude de graças, como aquela que os mui-eleitos Apóstolos de Jesus Cristo, e vários outros santos personagens de um e de outro sexo mereceram receber no dia de Pentecostes. Eu vos oro portanto por vossa infinita bondade, que ouse dirigir-se e portar em direção de minha alma, pelo menos um raio de vossa divina luz, iluminação sobrepassando todo entendimento angélico, toda ilustração mundana, toda ciência e sapiência. Vinde dos pobres o Pai, e dos santos dons doador: Vinde dos corações a luz. Vinde em mim,ó Espírito Santo, confesso que meu coração está mal preparado, e não está ornado de qualquer virtude, ao invés está maculado da gordura de diversas paixões, vícios e deficiências. Mas todavia vinde em mim, ó Espírito Santo, que é o pai dos pobres, que conhecem sua pobreza e indigência.

Prefácio

Nosso Senhor Jesus Cristo, em toda sua vida, mas principalmente em sua tão sagrada Paixão, nos mostrou a todos o verdadeiro caminho e trilha da perfeição evangélica, trilha de perfeição da qual, quão enormemente todo o gênero humano está hoje em dia desviado, os piedosos e devotos não poderiam tanto o deplorar, mesmo que fosse com lágrimas de sangue e não sem causa, tendo em vista que daí eles coligem facilmente decorrer um desprezo horroroso e injúria inestimável a nosso Deus tão bom e soberano. E além disto um perigo certamente grande de tantas almas que negligenciam sua salvação, e que em grande parte conduzidas por seu amor próprio e privado, seguem as comodidades da carne, amam a vã vaidade do mundo, têm uma certa afecção sensual a respeito de algumas pessoas, vagueiam à toa, e passam a melhor ocasião e parte do tempo, ou na dissolução, ou em solicitudes, ou no estudo das riquezas, ou no apetite de desejo de vanglória e de honra. Outros que por um amargor de coração e distração para com as coisas exteriores que estão fora de nós, se ocupam e se impedem vãmente; alguns pela mortificação de suas paixões, alguns por seu próprio sentido e prudência, alguns por um estudo desordenado, como são aqueles que, de uma afeção totalmente jovem, e fria caridade, se dão mui curiosamente ao estudo das letras, até mesmo sagradas, e exercem seu entendimento em certas artes e coisas vãs, além do mais muito pouco cuidadosos de bem viver. Além de todos aqueles, digo eu, há outros que, envelopados de alguns defeitos, ou dados a vãs ocupações, de mil maneiras se enganam e iludem eles mesmos, se construindo como um muro muito espesso e paredes, entre a graça de Deus e eles, e são diversos anos sem nada beneficiar no espírito. Somente basta a eles seguir um certo costume de viver, e não têm sempre uma mesma trilha, segundo a opinião que conceberam deles mesmos, e principalmente segundo a sensualidade lhes dita. Porque não é maravilha que não venham jamais a saborear quão verdadeiramente Deus é doce e suave àqueles que o amam. Não é (digo eu) maravilha, se a Teologia mística, ou divina Sapiência (assim como ela é aqui proposta) lhes parece porventura uma loucura, contanto que não se encontre neles quase nenhum favor e desejo de agradar e servir a Deus?


Mas se com cuidado e vigilância eles atentassem interiormente aos instintos divinos, se renunciassem de bom coração, se revissem Deus sempre presente, e guardassem com todo cuidado e solicitude seu coração, aconteceria que não deixariam passar neles, não nem mesmo as menores deficiências sem as ver e conhecer. Eles não se deixariam tão facilmente deslizar aos prazeres sensuais, não aspirariam com tão grande desejo a pequenas consolações, não teriam tão grande cuidado e cura das coisas criadas. Finalmente tudo que fariam, seria por uma verdadeira devoção, ao invés de um árido e tépido costume. E depois tomariam da mão de Deus, tanto as coisas prósperas quanto as adversas, e não seriam tão subitamente atraídos a tantas diferentes afecções e perturbações em razão da diversidade de eventos das coisas, e não se tornariam tão instáveis, cúpidos, vãos, negligentes, amargos, adormecidos, levianos, dissolutos, pretensiosos, desconfiados e petulantes. Mas enfim, quão grande é a multidão das calamidades que lhes são reservadas no dia do juízo. Miseráveis que são, quão grandemente serão atormentados, sobrecarregados e confundidos, depois que nosso Senhor tiver iluminado a obscuridade das trevas e tiver manifestado os conselhos dos coração que preferencialmente foram atentos a eles mesmos, que a Deus seu Criador? Se tais espécies de pessoas conhecessem tão seja um pouco quão finalmente será grande o horror, quão grande e inestimável a dor que os apreenderá na hora da morte, — é maravilha se a moela mesma de seus ossos não viesse em seguida a se dessecar neles, é maravilha se dia e noite eles não se deplorassem eles mesmos.

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