ORIGENS DA ALEGORIA FILONIANA
Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)
É muito provável que Fílon seja um criador independente, dado que os procedimentos que utiliza estão fundidos e harmonizados num movimento pessoal. Mas Fílon conheceu, viu praticar e respirou em Alexandria esses procedimentos, como a etimologia ou a observação de certos detalhes gramaticais que dissimulam uma verdade moral; todos eles provêm da alegorização helenística de Homero e Hesíodo, sem qualquer dúvida. E provêm diretamente, na medida em que, durante sua formação clássica, Fílon não pôde ignorar a grande corrente de justificação das anomalias homéricas que se baseava na interpretação distorcida e alegórica de todos aqueles detalhes absurdos ou escandalosos que esmaltam a Ilíada ou a Odisseia. Mas também procedem indiretamente, através dos judeus de Alexandria, que antes dele haviam tentado uma explicação da Bíblia aplicando-lhe a intenção e os procedimentos da alegorização. Traduziam, para si mesmos ou para os estrangeiros que os ouviam com surpresa, aquelas histórias de uma costela transformada em mulher, de um homem que gerava aos 99 anos, etc., e, acima de tudo, tornavam aceitáveis um grande número de leis, ritos, proibições e regras práticas, como as que impregnavam a existência dos judeus piedosos e corriam o risco de transformá-los em estrangeiros nos países da diáspora, como a proibição de comer carne de porco, na qual Calígula viu a oportunidade de brincar com pouca originalidade.
Mas, antes de apontar alguns marcos neste mundo dos alegoristas, digamos que é preciso distinguir com toda a clareza três registros quando se fala de alegoria.
