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OBRA, SEGUNDO JACQUES CAZEAUX

Excerto da excelente síntese de Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)

Não chegou até nós toda a obra de Fílon. No que nos resta, é possível distinguir entre várias obras de diferente caráter:

  • Os escritos «históricos», que já situamos, a saber o Contra Flaco e a Embaixada. A eles pode-se acrescentar A vida contemplativa.
  • Os escritos filosóficos:
    • A eternidade do mundo.
    • A providência (em tradução armênia).
    • Alexandre: a alma dos animais (em armênio).
    • Todo homem honrado é livre.

Estes últimos livros são talvez dissertações escolares ou coleção de opiniões, mais do que teses propriamente filonianas. Informam-nos sobre os problemas e as soluções que se agitavam por aquela época.

Resta a obra exegética, que podemos classificar em três tipos de obras, segundo sua relação com a letra da Escritura, cada vez em menor dependência dela:

  • Uma série de exposições exegéticas, mais do que filosóficas, nas quais Fílon recolhe as questões que o texto da Bíblia levanta e as respostas que se lhes pode dar. Segue o texto a partir da primeira palavra do Gênesis, e cada problema é objeto de uma breve exposição, introduzida por uma pergunta retórica; por exemplo: «Por que Noé constrói a arca com vigas quadradas?», ou mais frequentemente: «Que sentido têm as palavras: 'Abraão teve um êxtase ao pôr do sol'?». Em seus comentários bem estudados encontra-se a trama dessas respostas, com as variantes e adaptações requeridas. Conhecemos este conjunto principalmente graças a uma tradução armênia; compreende:
    • Questões e respostas sobre o Gênesis* (4 livros).
    • Questões e respostas sobre o Êxodo* (2 livros).

Seria bom demais possuí-lo tudo, mas infelizmente há muitas lacunas que deixam não poucos capítulos sem explicação. Além disso, ao ter que passar através do armênio, encontramos difícil a inteligibilidade de muitas passagens.

  • Um conjunto de obras, impropriamente chamadas tratados, que seguem também o texto da Bíblia — apenas do Gênesis, até o cap. 40, em geral —, mas que fazem uma exegese profunda da matéria que nos oferecem alguns versículos. Eis a lista. Citamos também o texto bíblico correspondente e a indicação da personagem cuja história moral poderíamos dizer que esses livros ou tratados traçam:

Os livros trazem um título que se refere com maior ou menor acerto ao dado do qual se parte, como ocorre no livro intitulado A fabricação do mundo ou no Os querubins, ou então ao tema filosófico-exegético que domina no comentário, como ocorre no título Deus é imutável (trata-se de explicar um episódio dos começos de Noé); a meio caminho entre ambas as coisas, um título como Fugir e descobrir capta a dupla realidade: trata-se da fuga de Agar, a escrava de Sara, e de seu descobrimento no deserto por um anjo; trata-se ao mesmo tempo de expressar o sentido de uma fuga ao deserto e de examinar a verdadeira natureza da descoberta de Deus. O leitor, por outra parte, não tem por que se empenhar em seguir o desenvolvimento de um pensamento ordenado ao estilo de um diálogo de Platão. Platão apodera-se de um tema circunscrito, de uma definição provisória (a «coragem», a «piedade», a «justiça», a «arte oratória»), para dar-lhe um conteúdo crítico, embora chegue às vezes a dar totalmente a volta às premissas. Não é este precisamente o método filoniano, e se o leitor seguisse esse modelo, ver-se-ia conduzido ao desastre e ao tédio. O desenvolvimento de tipo rabínico não situa a lógica apenas no esquema da compreensão-extensão de um conceito. Uma viagem, que resulta estranha à nossa sensibilidade intelectual, leva-nos de etapa em etapa, antes de tudo, a um panorama de lembranças bíblicas, cujo resultado se parece mais com uma prova fotográfica do que com uma prova racional. O leitor contemporâneo, alheio à cultura judaica, cai logo na armadilha das «imagens»: lê ou imagina que lê dezenas das mesmas e se põe a comparar aquilo com as obras de Victor Hugo ou de Lamartine; mas um pouco adiante não pode acreditar no que seus olhos estão vendo: Fílon argumenta a partir de uma vogal, do lugar respectivo de duas palavras, e inclusive explica um termo por seu contrário. Se é lógico, irrita-se então com Fílon; se é poeta, ressente-se da cacofonia, do didaticismo. E se porventura ocorre ao editor, que nem sempre é um filoniano-filoniano, estender-lhe um pouco a mão acrescentando algum subtítulo, extravia-o ainda mais e nosso pobre leitor terá que se limitar a extrair umas quantas páginas que lhe parecem mais belas (ou porque lhe dizem que o são, e porque não chocam demasiado com sua estética e com sua lógica). E não é ele o único que reage deste modo; há outros leitores mais avisados que buscam em Fílon um filósofo completo; não faltam quem o despoje, como se costuma fazer nos arquivos para completar uns dados relativos à história das ideias de sua época. Neste conjunto de obras será precisamente onde rebuscaremos nós para escolher nossos modelos de leitura filoniana, quando tentarmos enfrentar o texto.

* A última categoria de livros filonianos recolhe umas quantas obras, ainda amarradas à Escritura e como tais semelhantes aos comentários, mas onde Fílon age antes de forma sintética expondo um amplo conjunto de capítulos. A influência global de um gênero helenista, o encômio ou panegírico, faz-se notar neste quadro geral: Abraão foi fiel a Deus por um lado e útil aos homens por outro (é o que aparece no tratado Abraão). Ou então agrupam-se em torno de um tema umas considerações convergentes, por exemplo em As virtudes ou em Recompensas e castigos. Há duas obras, O decálogo e As leis específicas, que entram nesta série sintética por sua própria temática, embora também se as pudesse classificar na série anterior, mais analítica, já que o comentário segue igualmente passo a passo um texto bíblico determinado. Eis a lista destas obras:

É preciso evitar considerar estas redações com olhos diferentes. Os procedimentos, os princípios, a sutileza em algumas ocasiões, continuam sendo os mesmos, embora às vezes não se percebam. Tampouco seria o público, sem dúvida alguma, nem o interior nem o exterior ao judaísmo, o que distinguiria estas duas séries. Ao carecer de indicações objetivas ou de dados recolhidos no próprio texto de Fílon, ater-nos-emos à nossa classificação: uns conjuntos sintéticos, onde se dá a prioridade à massa do texto considerado, da qual há que deduzir uma lição adequada, e uns comentários analíticos onde, pelo contrário, é uma parte muito reduzida do texto inspirado a que oferece suas virtualidades, sua expansão, seu valor como raiz de toda a árvore que há de formar o discurso do logos.

Há algumas indicações que nos permitem obter uma cronologia relativa, mas não uma situação absoluta na vida do autor; e mesmo esta cronologia relativa não afeta mais que a uns poucos livros, sem produzir por outra parte mais que uma satisfação muito… alexandrina, já que, por exemplo, a evolução do pensamento de Fílon não pode ser percebida de nenhum modo, nem por esses motivos nem por algum outro testemunho.

Se prescindirmos talvez das Vidas (Abraão, José, Vida de Moisés), não existe nenhum dado que facilite aos modernos um acesso a Fílon. Como logo diremos, Fílon considera a Escritura como um todo, arredondando-a segundo uma regra da qual também falaremos. O comentário que propõe imita essa autonomia um tanto terrível da Escritura. É preciso entrar nele de uma só vez, depressa; apoderar-se quanto antes do código e admitir esse rabinismo [Pertence Fílon a uma escola rabínica concreta?] (uma noção vaga neste lugar, cujo mérito consiste apenas neste prejuízo negativo: há uma lógica, mas uma lógica que não é dedutiva).

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