"ESTE HOMEM ÉS TU!"
Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)
Fílon lê todas as coisas nas Escrituras como se seu tema fosse a alma ou o homem chamado das trevas dos sentidos para a luz de Deus. Não se trata, em definitiva, de compreender o que é Deus, mas que ele é, e que é a causa de tudo. Curiosamente, essa teologia, negativa em sua finalidade, que rejeita toda gnose — toda salvação por meio do conhecimento —, segue constantemente um fio condutor de tipo intelectualista. Já indicamos como a história dessa alma tomava como reveladores sucessivos Abraão, Isaac, Jacó e até Moisés; bem, Abraão designa aquele que aprende; Jacó, aquele que reforça seu conhecimento pelo exercício, enquanto Isaac, o patriarca central, simboliza a inteligência espontânea, naturalmente infundida, dada pela graça e marcada pela alegria, já que seu nome significa riso. Encontrar-se-ão também detalhadamente em Filo muitos outros elementos locais que obscurecem um pouco este modelo; mas, assim como os inimigos da alma se mostram muitas vezes sob as feições dos sofistas (ou seja, dos filósofos-oradores que brincam com as palavras e com as ideias), também os seus amigos se situam ao lado daqueles que seguem o raciocínio justo.
Virtude ou raciocínio justo? Moral ou ciência da verdade? É algo como uma viagem ao país do Conhecimento que Fílon propõe ao leitor da Bíblia. Não é Adão o espírito do homem, ao lado de Eva, a sensibilidade irracional? Não irá Abraão da escrava Hagar, símbolo da ciência preliminar, até Sara, símbolo, por sua vez, da sabedoria-verdade, da verdadeira filosofia? Todo esse vocabulário parece nos orientar para o intelectualismo. Bem, sem negá-lo completamente e reconhecendo que Fílon, falando continuamente das ciências, não nos informa absolutamente nada, a não ser por meio de alusões decepcionantes, pode-se dizer que o intelectualismo continua sendo uma imensa parábola de si mesmo. Todo mundo sabe o que é começar a aprender, o que é se esforçar para dominar o que já foi adquirido; todo mundo adivinha também o que é acertar em um determinado momento, receber — em vez de encontrar o que se está procurando, seja no esforço de escrever, seja de conhecer um dado científico, seja de criar alguma coisa, por mais humilde que seja a obra; essas referências nos parecem suficientes para a leitura de Filo, em questão de intelectualismo. Em breve veremos, pelo exemplo de Abraão, como essa tentativa de disfarçar academicamente as verdades esconde, por sua vez, uma verdade humana suficientemente direta para que ainda hoje possa nos atingir.
Foi possível relacionar Fílon com o mistério e com a mística, no sentido quase esotérico dessas palavras. Essa interpretação só tem consistência no seguinte: Fílon propõe uma parábola relativamente intelectual e, portanto, aristocrática em seu princípio, para traduzir o caminho ideal do homem, de todo homem, seja ele um sábio, seja ele — à imagem de seus queridos terapeutas (uma comunidade de “monges” judeus) — a própria simplicidade. O itinerário místico não se distingue da jornada proposta a cada um, a não ser por encerrar maiores perigos.
