ABANDONO DE ABRAÃO
Jacques Cazeaux, “Philon d'Alexandrie” (Cerf, 1984)
Ele não abandona um país, definido por redundância como sua terra, o lugar onde mora sua família e sua casa. Ele deixa interiormente algumas realidades internas: seu corpo, para consentir na fabricação original do homem; sua sensação, para prestar mais atenção à segunda parte de seu ser, o pensamento; e até deixa a linguagem, cala-se, para aprender sem dúvida uma língua diferente. Toda essa anedota se coloca por simbolismo — por alegorização — ao lado de uma história da alma singular. Palavra por palavra, todos os detalhes do texto base, o de Gn 12,1, encontram uma tradução moral. De passagem, e para que se possa medir igualmente toda a sutil inteligência deste texto, façamos algumas indicações simples. Em primeiro lugar, das três palavras alegorizadas, a última, a palavra, é a que leva a parte do leão. Trata-se de um princípio da escrita rabínica, ou pelo menos filoniana: nada é deixado na sombra, mas sim arranja-se para destacar o termo desejado. Abraão deixa a terra, ou seja, o corpo; muito bem. Deixa a sua parentela, ou seja, a sensação; muito bem. Ele deixa a linguagem expressa; e então toda uma série de razões “exegéticas” vem explicar longamente o valor desse símbolo. Para que tudo fique bem claro, acrescentemos que Fílon “traduziu” discretamente o valor imperativo da ordem dada a Abraão: “Saia da sua terra…”, e prefere nos dizer nas primeiras linhas: “Deus começa por lhe dar um impulso…)”.
Outra observação: se prestarmos atenção, a cadeia dos três simbolismos (terra-corpo, parentesco-sensação, linguagem expressa-pai) garante uma progressão e não se trata de enumerar algumas equivalências mais ou menos casuais. Neste caso, as três interpretações remetem todas à criação; isso fica claro no que se refere à terra-corpo e à palavra que nos remete ao relato do capítulo 1 do Gênesis, onde Deus cria todos os dias e todas as suas obras pela palavra; mas também é verdade para a parentela-sensação, já que devemos ver no fundo a criação de Eva, mulher de Adão, que simboliza sempre em Fílon a parte sensível do composto humano.
Mais ainda, se o quadro continua centrado nos dois primeiros capítulos do Gênesis, devemos acrescentar também sua progressão. Há uma conveniência entre o corpo mortal e a sensação irracional: trata-se de dois mundos inferiores, ligados entre si e decepcionantes. No entanto, a sensação foi dada por Deus como companheira do espírito (lembremos: Eva e Adão) para formar um todo homogêneo, uma coisa, como diz Fílon. Pois bem, eis que a linguagem, testemunha do espírito por seu domínio e sua autonomia, tem precisamente uma autonomia e nos permite analisar essa curiosa unidade entre o pensamento e a sensação que se celebra na segunda equivalência. A linguagem às vezes se expressa e outras vezes se recolhe silenciosamente no pensamento puro, assim como o dono da casa que possui uma fazenda, estábulos, dependências, mas que se retira para sua própria casa, com seus filhos. Subimos na escala do ser. E eis o termo: aquele que não se projetou apenas nos sons dispersos da palavra expressa adivinha que seu próprio mundo interior imita a grande criação, onde Deus deixou o logos, ao mesmo tempo inexprimível e presente no mundo, para que o dirija, o ordene e faça subsistir todas as coisas.
Mas o que parece estranho à primeira vista é que o perfil do homem que acaba de ser traçado, desde o corpo até a imagem do logos, é nobre, positivo, elevado e exaltante. Então, por que Abraão tem que abandonar tudo isso? Respondamos com Fílon, sem meias palavras: é para reencontrá-lo. Em uma palavra, que aqui deve ser necessariamente rápida: Abraão precisa se afastar porque, embora talvez pratique essa boa filosofia, ainda não sabe que tudo isso lhe foi dado. Em particular — daí a insistência no terceiro termo, a linguagem — ele terá que aparecer diante de nós como o aprendiz da linguagem justa, proporcionada, que não confunde o mundo com seu autor. Ele precisa de um corpo digno, para morrer nele nobremente; precisa de um bom equilíbrio dos sentidos e do espírito, para poder dominá-lo; precisa, finalmente, de uma grande consciência do espírito, para submetê-lo à revelação do espírito e do logos.
Mas vamos mais rápido que o leitor… O leitor talvez vislumbre a utilidade da alegoria, sua coerência, pelo menos, e sua força. Uma física dos elementos com o corpo; uma psicologia, com a composição da sensação e do pensamento; uma metafísica ou teologia, com a habitação de Deus, que é o logos. Além disso, esboça-se ou supõe-se uma economia do saber. Finalmente, a associação de fórmulas filosóficas e citações bíblicas é pensada para demonstrar de imediato essa harmonia pré-estabelecida que existe, para Fílon, entre o bom uso da razão e a verdade revelada.
